E no consultório da dentista…

Um senhor de 85 anos decide fazer aquele discurso para o ser desconhecido (no caso, eu) sentado na mesma sala de espera que ele. Fala que o grande problema do Brasil são os brasileiros. Odeia brasileiros. “Tem brasileiros demais por aqui”, diz ele, triunfante em sua sutil ironia. “Uns se dizem pobres; talvez até tenha um ou outro, mas a grande maioria são um bando de marginais, vagabundos e corruptos.” Não há salvação; as duas únicas saídas para o Brasil são Cumbica e Galeão, blá-blá-blá (enfim, temas que você já ouviu diversas vezes no bingo do #cmsofre).

Uma singela pergunta: “Mas o Sr. não é brasileiro?” (já dando a entender que, além dele, estava me ofendendo diretamente, seu ouvinte.

“Sou, mas sou metade-brasileiro, metade-italiano; tenho passaporte italiano, porque apresentar passaporte brasileiro nos EUA e na Europa é problema.”

Muito bem. Então a ofensa dirige-se apenas a mim. E à metade brasileira dele.

“Não estou generalizando.” (claro que não). “Existem brasileiros decentes, como você e eu.” (o Sr.  me conhece? assim como os outros 200 milhões que está ofendendo?) “Já fui assaltado 4 vezes.” (agora sim, uma prova empírica que a grande maioria de nós somos marginais, assaltantes, vagabundos e corruptos).

(Ah, sim, ele furou a minha fila para ser atendido com urgência. A metade italiana dele, provavelmente, faz prevalecer alguns privilégios, mesmo entre nós, marginais e corruptos.)