X-Men: Primeira Classe

June 7, 2011 in Cinema

X-Men First Class. EUA, 2011. Direção: Matthew Vaughn. Roteiro: Ashley Miller, Zack Stenz e outros. Elenco: James McAvoy (Charles Xavier), Michael Fassbender (Erik Lehnsherr/Magneto), Kevin Bacon (Sebastian Shaw), Jennifer Lawrence (Raven/Mística).

Quando se fala de X-Men no cinema é sempre bom relembrar que uma ficção científica, assim como qualquer filme, é um documentário da época em que foi filmado. No caso do gênero Sci-Fi, as liberdades são signitivamente maiores, e por isso mesmo permitem alegorias/caracterizações que nos levam a viajar para outro universo e debater temas tão presentes no mundo de hoje quanto o preconceito e a intolerância.

Indo a fundo nessa premissa, a intolerância da sociedade é o que une todos os mutantes do filme, que se consideram iguais por estarem na mesma posição de terem que lidar com esse preconceito. Toda essa angústia é demonstrada no filme tanto do lado dos que sofreram violência por conta disso (Magneto) quanto os que conseguiram se inserir discretamente na sociedade (Xavier). A ponte entre esses dois extremos (Raven/Mística) é o verdadeiro arco dramático que enche de lágrimas qualquer apreciador da sétima arte.

A abordagem inicial da história de Erik é primordial no sentido que apenas sabendo (visualmente) o que ele passou podemos entender o personagem dramático e angustiado que viria a ser Magneto, e sem esse início seria impossível a nossa identificação do seu drama, que por sua vez nos faz entender a fundo a causa que defende, implicando, de uma maneira assustadora, que seus argumentos tenham mais lógica até mesmo que o pacífico, e até certo ponto, ingênuo, Xavier.

É bom lembrar também que é igualmente compensadora é a química que existe na relação entre os dois, vital na evolução tanto de ambos quanto do grupo que se forma em torno de suas influências.

Porém, X-Men – Primeira Classe, além de conter internamente um tema filosófico fascinante, é também um filme movimentado, e o diretor de Kick Ass sabe como empregar o ritmo adequado a cada cena, investindo em composições puramente físicas, mas que denotam ao mesmo tempo o comportamento de seus personagens. Um filme onde até uma simples moeda participa do raccord de abertura e de uma montagem paralela espetacular (vide cenas finais), não existem limites para a criatividade do seu idealizador.

Por conta disso é uma diversão intelectual à parte descobrir como cada um dos poderes dos mutantes será usado para resolver cada situação que se encontram, ao mesmo tempo que dá a correta impressão que os mais experientes conhecem muito bem os dons com que nasceram. Xavier, por exemplo, consegue empregar os meios mais criativos a cada novo desafio, como enganar a mente de um grupo de soldados ou forçar pessoas a concordarem com ele.

Da mesma forma, a física nas cenas de ação oscila moderadamente entre o real e o estético, provando-se extremamente eficiente em seu lado ambíguo de se manifestar em composições de quadro memoráveis, como, por exemplo, quando um certo personagem sai voando sobre a água. Até mesmo a já quase-batida estética de quadrinhos é usada de forma orgânica e funciona em momento oportuno.

Se por um lado a trilha desponta timidamente em uma tentativa de criar um tema musical para o grupo, a Direção de Arte acerta em vários pontos, como ao encarar o tom futurista dos anos 60 sob a ótica da mudança que está ocorrendo, e nesse ponto a existência dos X-Men é organicamente inserida. Igualmente inteligente o fato de estarmos na Guerra Fria e detalhes como o campo de pesquisa paranormal é explicado pela própria realidade da época.

Dessa vez, até o uso dos tradicionais uniformes consegue resgatar uma referência dos quadrinhos sem parecer cafona (pelo contrário, além de existir uma explicação para seu uso ainda serve como uma curiosa referência inversa, quando, no primeiro filme, ouviremos Wolverine citar os agora conhecidos uniformes amarelos).

Ao expandir o universo criado pelos três primeiros filmes, o uso discreto e moderado das referências à obras anteriores é uma recompensa aos apreciadores das obras anteriores, independente do nível de conhecimento que este tenha sobre o universo dos quadrinhos.

E ainda que estejamos revisitando personagens já conhecidos, a maneira muito mais rica de apresentá-los sob um contexto histórico torna-os ainda mais interessantes, pois sob o pano de fundo da ação bem conduzida temos aqui personagens cujas motivações muitas vezes são díspares e multifacetadas, criando sempre uma rica discussão sobre o destino dos mutantes no mundo dos humanos, o que praticamente abre um leque infinito de possibilidades de continuações e uso de novos personagens para representar cada nuance desse mundo.

O exemplo de Fera é icônico nesse sentido. Fruto de uma transformação que usa as mesmas peculiaridades visuais do clássico Dr. Jekyll e Mr. Hyde, ele não chega a ser uma caricatura desses personagens, mas uma das tantas brincadeiras que existe no mundo dos mutantes. Em comparação com noturno, que possuía um lado religioso ao mesmo tempo que tinha a aparência de um ser demoníaco, Fera por sua vez possui uma feição bestial e ao mesmo tempo é o mais inteligente dos X-Men.

Porém, a personagem mais fascinante dos personagens secundários acaba sendo Mística, que, vivendo sempre sob a visão conservadora e pacífica de Xavier, não reluta em assumir suas diferenças perante a sociedade e erguer a bandeira do orgulho mutante (e mutante aqui, é importante notar, pode ser substituído por qualquer minoria em nosso mundo real). Dessa forma, temos uma interessante comparação entre Xavier que, devido aos seus poderes discretos, é aceito por uma sociedade que o abominaria se o conhecesse por dentro, e Mística, que é seu exato oposto, pois sua aparência instantaneamente evoca a origem mutante do seu ser.

Aliás, visual é a forma adotada inteligentemente por Matthew Vaughn para ilustrar diversos conceitos e informações disponíveis ao espectador sem a necessidade de diálogo, o que infere à obra um peso cinematográfico impressionante. Note a discrição de pequenas informações que são passadas, como a capacidade de Xavier e Emma Frost de descobrir mutantes próximos, ou a forma com que Erik descobre que o elo usado por Sebastian Shawn o protege de ter sua mente invadida por Xavier.

Mesmo em um filme com um tema sóbrio como esse, as piadas possuem seu lugar e são bem colocadas, algumas inclusive com a dupla vantagem da referência ao próprio universo, como a tentativa frustada de recrutar um mutante em um bar, ou a vaidade de Xavier com seu cabelo. E até as últimas lembranças de uma agente da CIA após ter passado por uma experiência ao lados dos mutantes é pano de fundo para uma observação bem-humorada de seu superior (aliás, em uma cena que antes vira uma discreta homenagem a Superman II).

Ainda que a comunicação visual seja vital para o filme, os diálogos são funcionais o suficiente para explicarem partes importantes da trama. Dessa forma, podemos compreender que, quando Magneto usa seus poderes de forma descomunal, internamente sabemos que os sentimentos por trás de tamanha façanha são fruto de um conjunto de sentimentos difusos, e portanto, compreendemos o sacrifício que para ele isso representa.


O que nos faz voltar ao mais dramático dos personagens, em uma participação admirável de Michael Fassbender, que consegue, ao mesmo tempo, evocar o Magneto que se tornará obcecado por suas ideias, e enriquecer um personagem que já era fascinante pela construção anterior de Ian McKellen. Se a cena que o coloca, com um toque de genialidade, em xeque pelas suas própria convicções, e o força a encarar um destino tão dramático e irônico que só pode ser comparado às obras de Shakespeare, não é algo digno de aplausos, não sei mais o que seria em um filme com tantas virtudes.