Trabalhar Cansa

October 18, 2011 in Cinema

Idem. Brasil, 2011. Direção e Roteiro: Marco Dutra e Juliana Rojas. Elenco: Helena Albergaria (Helena), Marat Descartes (Otávio), Naloana Lima (Paula), Gilda Nomacce (Gilda), Marina Flores (Vanessa), Lilian Blanc (Inês), Thiago Carreira (Ricardo), Hugo Villavicenzio (Jorge).

O drama-terror concebido e dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra (esse, um dos roteiristas do recente Meu País) busca evitar se posicionar claramente no sobrenatural, mas dá uma gélida impressão durante toda a trama que é exatamente com isso que estamos lidando, ainda que não seja dito ou declarado, o que torna o resultado mais aterrorizante do que se fosse mais explícito.

Fonte: ultimosegundo.ig.com.br

Concebida sua introdução em moldes tradicionais — como pode-se notar nos detalhes triviais de uma casa ou até mesmo do armazém recém-inaugurado —, o filme conta a história de Helena (Albergaria), Otávio (Descartes) e da pequena Vanessa, uma família que passa por apuros financeiros decorrentes da recente demissão do pai, e que tem a partir daí a figura da mãe como predominante, pois esta pretende abrir um armazém de bairro em um local antes abandonado pelos antigos comerciantes.

Fonte: inema.uol.com.br

Desenvolvendo a trama da forma mais natural possível — com trilha sonora inexistente — aos poucos vamos percebendo a dinâmica marido-esposa e a determinação cada vez mais perniciosa de Helena em conseguir com que o armazém vá pra frente, enquanto assistimos o declínio de Otávio, com sérias dificuldades de conseguir um novo emprego, aguçados ainda mais pela sua idade já avançada.

Fonte: lavotanovo.blogspot.com

Esses detalhes que delineiam as relações entre os personagens são os mesmos usados para nos fazer crer que algo oculto impede que Helena tenha sucesso em sua empreitada. Detalhes sutis chegam a evocar o sobrenatural, embora muito mais de uma forma metafórica ou até mesmo cultural, muito presente no uso dos sons, nas sombras e principalmente na câmera, que consegue arrumar um jeito em que até simples pegadas no chão sejam capazes de nos manter presos na poltrona com a respiração suspensa.

Porém, o astucioso roteiro não se entrega ao óbvio, nem que ele esteja tão próximo. Prefere dar esse gostinho ao espectador, que vai mastigando aos poucos, na imaginação, as lacunas que parecem faltar. Para alguns, parecerá simplista demais (ainda que irresistível de acompanhar). Para outros, um exercício estético e interativo tão delicioso quanto o que temos em A Bruxa de Blair, embora este mais refinado, nas entrelinhas.

Fonte: entretenimento.r7.com

A participação inspiradamente apática de Helena comprova nossos pensamentos mais maldosos a respeito do destino do mercado, enquanto o declínio paulatino de Otávio passa quase despercebido, mas equilibra a história sobre dois pontos de vista: o mal crescente e o enfraquecimento do bem. Nós mesmo exercitaremos essa ambiguidade em muitos eventos. Quando o cachorro aparece a latir, por exemplo, se em um primeiro momento enxergamos o acaso do cotidiano, a montagem no ritmo certo nos permite chegar a outra conclusão, mais nefasta, o que vai se tornando mais comum até prevalecer completamente sobre o senso comum (em uma bela rima do que vai acontecendo no próprio filme).