O Homem de Aço

July 11, 2013 in Cinema

Man of Steel. EUA/Canadá/Reino Unido, 2013. Director: Zack Snyder. Writers: David S. Goyer, Christopher Nolan, Jerry Siegel, Joe Shuster. Stars: Henry Cavill, Amy Adams, Michael Shannon, Russell Crowe, Diane Lane, Antje Traue, Harry Lennix, Kevin Costner, Laurence Fishburne. Música: Hans Zimmer. Direção de Arte: Chris Farmer, Kim Sinclair.

O Homem de Aço

Reboot empolga pelos efeitos, decepciona em sua força dramática.

“Nós vamos lutar até um de nós morrer.” E obviamente é o que eles fazem. A falta de complexidade aliada à ação desenfreada chega a cansar, e o fato de tanto Zod (Michael Shannon) quanto Superman (Henry Cavill) partirem para a violência gratuita revela mais sobre o último do que sobre o primeiro, programado desde a concepção para guerrear pelo seu povo. Chega a ser um quase insulto que o filho do cientista Jor-El se limite a imitá-lo. Justo ele, que foi um bebê “concebido naturalmente”, o que inteligentemente levanta algumas questões sobre livre-arbítrio que nunca são desenvolvidas. Não é sensato que o filme queira que odiemos Zod por ser uma pessoa que quer reconstruir seu povo — e nesse sentido ele falha como vilão temeroso que Zack Snyder parece acreditar que ele seja — mas podemos sim nos sentir frustrados pela aparente indecisão do Homem de Aço em confrontá-lo.

O Homem de Aço caminha melhor pela sua direção de arte. As naves de Kripton imitam insetos, o que exalta sua evolução tecnológica (algo semelhante a Matrix 3 e suas máquinas). O pai de Kal-El voa em um animal, o que simboliza a falta de crença em uma civilização que renega seu fim próximo. Os efeitos digitais, eficazes no geral, falham onde todos falham: a impossibilidade de reproduzir a dureza do mundo real. Mesmo assim, essa é uma abordagem realista e pretende ser uma (re)introdução de um herói, ou por que não, do proto-herói (o herói primitivo de todos os que se seguiram), que vamos aprendendo a reconhecer por breves flashbacks. (Isso seria o suficiente para entendermos suas reais convicções?) O figurino, ponto polêmico durante todo o projeto, consegue ser fiel à origem de seus personagens (e note como Zod e seus aliados conseguem se diferenciar por um escuro que remete diretamente a Superman 2, e o “design” de Faora-Ul (Antje Traue) é o que mais denuncia essa feliz inspiração). A trilha sonora, outro ponto polêmico, concebida por Hans Zimmer para substituir o insubstituível trabalho de John Williams, possui felizes acordes que prenunciam um tema, mas que busca um significado que não encontra reflexo em sua história. Ele é bonita e atribui peso à narrativa, mas ela reforça o quê? A grandiosidade do quê exatamente está sendo reverenciada? Da destruição? Da batalha?

Por falar em referências, Zack Snider homenageia momentos icônicos dos dois primeiros filmes da série original, dirigidos respectivamente por Richard Donner e Richard Lestes em produção complicada, mas usa para isso uma nova roupagem, visual e metafórica, o que empolga justamente por trazer um pouco de emoção em um filme conduzido quase sempre de forma burocrática (apenas mais uma introdução para próximos capítulos?). Os momentos cômicos quase conseguem resgatar o mesmo contraponto criado por Donner no longa original, mas de forma tão breve que podemos especular se o filme evita o humor para aumentar o drama ou evita distrair o espectador (em certo momento, Superman derruba um contador de acidentes em uma obra, zerando-o, mas mal podemos notar, ou há um erro óbvio de timing entre o momento em que Lois é citada na TV e seu celular toca com o nome de Perry White).

Da mesma forma, personagens são jogados na trama de forma quase aleatória e ficam por lá, como é o caso da própria Lois Lane (Amy Adams), o que me faz especular se ela é a primeira mulher que Clark salva ou a primeira mulher bonita. Mas nem sua beleza parece fazer mover os músculos da face do homem de aço, que é impassível tanto diante do amor quanto da morte. Isso nos faz acreditar que esse mundo de fato não pertence a ele.

E não há de fato como esperar o mesmo charme de Christopher Reeve no papel que imortalizou a figura desse herói. Porém, tudo o que necessitavam seria uma figura menos robótica e mais humana que os efeitos digitais do desastroso Superman Returns. No entanto, mesmo colocando um ator de carne-e-osso essa conexão com seu passado cinematográfico não ocorre (apenas em reproduções de cenas clássicas). Com exceção de Jonathan (Kevin Costner), Martha Kent (Diane Lane) e Lois Lane (essa en partes), o elenco permanece neutro onde as atuações são ponto ativo de uma trama, um drama obviamente Shakesperiano sobre a existência (e talvez a caveira representando o Codex, fonte de toda a “humanidade” de Kripton, não tenha sido colocada ali à toa).

No entanto, é com esse tom quase sempre insípido que Zack Snyder transforma a batalha entre o bem e o mal em algo mais alienígena que os kriptonianos que nela lutam. E a ideia de aos poucos explicar detalhes menores da trama (Lois não pode respirar na atmosfera da nave alienígena…) acaba se tornando um pecado justamente por não prestar a mesma atenção a detalhes muito mais relevantes (se Lois é levada à nave, qual o motivo, e por que diabos ela é colocada naquele compartimento em específico?). Kal-El aparentemente escolhe os humanos quase como um mártir, mas o seu sacrifício esperado nunca vem. A única coisa que parece ser uma constante na história é um roteiro certinho de David S. Goyer e Christopher Nolan que consegue justificar para essa geração boa parte das dúvidas sobre como um herói desse quilate existiria em nosso mundo cético por respostas (como a insistência em explicar sua força descomunal). Se Superman sacrificou algo, foi em prol desse mundo científico em que vivemos, e foi a fantasia dos filmes originais; a possibilidade de voarmos tão alto quanto seu protagonista. Aqui acompanhamos seu voo ao longe, de forma controlada, cientificamente correta. O nosso Superman sacrificou os nossos sonhos de ter um herói onde tudo é possível quando se tem boa vontade.

Em Algum Lugar do Passado

July 10, 2013 in Home Video

Somewhere in Time. EUA, 1980. Director: Jeannot Szwarc. Writers: Richard Matheson (screenplay), Richard Matheson (novel). Stars: Christopher Reeve, Jane Seymour, Christopher Plummer.

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Drama-romance e ficção científica, todos ao mesmo tempo, compostos com habilidade e harmonia.

Depois de décadas assistindo a Superman – O Filme, confesso que nas primeiras cenas de Em Algum Lugar do Passado foi difícil desassociar a figura de Christopher Reeve do kriptoniano mais famoso do Cinema. Felizmente, foi possível constatar que o talento de Reeve não se limita ao super-herói que eternizou. Digo mais: sua habilidade cômica ímpar é o que consegue balancear tão bem este drama, assim como foi no filme do homem de aço.

E o motivo do humor ser tão necessário em alguns momentos em um drama é que aqui estamos falando de uma história de peso que se traveste de ficção científica, ainda que, assim como Solaris (de Tarkóvski), seja um mero pano de fundo para uma análise profunda e atemporal dos sentimentos humanos. O plot é denso: o dramaturgo Richard Collier (Reeve) suspeita ter participado de momentos no passado longínquo de Elise McKenna (Jane Seymor), uma atriz que conheceu na noite de estreia de seu trabalho no mesmo hotel onde colheu pistas a seu respeito. Com a ajuda de auto-hipnose, Richard volta ao passado e tenta encontrá-la (ou reencontrá-la) e desvendar os sentimentos que nutre a respeito de um quadro de mais de 60 anos.

A maneira com que o diretor Jeannot Szwarc (Tubarão 2, Santa Claus) desenvolve a trama é digna de outros trabalhos de sci-fi mais ambiciosos, como De Volta para o Futuro, o já citado Solaris e Os 12 Macacos. O uso da trilha sonora temática e imortal de John Barry (saga 007) à exaustão é justificada pelo aspecto de quase-sonho da trama, que recebe apoio de uma fotografia absurdamente bela e surreal de Isidore Mankofsky, que flerta tanto com caráter onírico da experiência quanto com a visão idealista dos anos 10. Descartável dizer, esses elementos só poderiam ganhar força com um enquadramento que priorizasse os personagens em detrimento do cenário onde se encontram, algo que Szwarc faz maravilhosamente bem usando travellings seguros em torno de uma direção de arte primorosa em sua verossimilhança, com destaque para os figurinos caprichados que dão vontade de permanecermos naquela época para sempre (tanto que não nos soa estranho que o próprio Richard pense assim).

Django Livre

February 4, 2013 in Cinema

Django Unchained. EUA, 2012. Director: Quentin Tarantino. Writer: Quentin Tarantino. Stars: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio.

Django: watch the trailer - video

Western mistura culturas e empolga pelo seu estilo.

Django Livre é divertido moderadamente e possui um conteúdo pseudo-histórico de impacto que faz jus aos bons faroestes. Quentin Tarantino poderia ter futuramente — caso conseguisse controlar seu gigantesco ego — a mesma habilidade e maestria na direção que tornou Sergio Leone conhecido para sempre na história do Cinema.

Poderia, mas não é dessa vez.

Em plena época escravocrata do Sul dos EUA, a história gira em torno de Django (Jamie Foxx), um escravo que foi liberto por Dr. King Schultz (Christoph Waltz), um alemão caçador de recompensas. Agora ele precisa resgatar sua esposa de uma das maiores fazendas de algodão da época, controlada por Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), um escravagista absoluto que utiliza os escravos não apenas para o trabalho duro mas também para sua diversão pessoal e cruel, fazendo-os lutar até a morte tais como gladiadores romanos.

Só que para chegar nesse ponto o filme possui um longuíssimo prefácio que estabelece a relação de amizade entre Django e Schultz, além de criar e recriar ótimas cenas de ação que não apenas homenageiam o gênero, mas os principais diretores responsáveis por elevá-lo à sétima arte. A filmagem, feita com a técnica de CinemaScope que estabelece uma proporção de tela em torno de 2.35 por 1, torna tudo mais grandioso, assim como fez Sergio Leone em sua trilogia dos dólares. Mesmo assim, uma das cenas mais emocionantes tem sua finalização em uma tela quadrada, limitadas pelas portas de um celeiro e que juntam os dois protagonistas de maneira definitiva, o que comprova o conhecimento e a experiência do diretor em não ignorar o uso inteligente do espaço na tela.

Porém, estamos em um filme Tarantinesco feito por Tarantino, e é lógico que os seus absurdos estão espalhados por toda a narrativa, como os dois fatos indissociáveis de Django atirar bem desde o primeiro momento em que pega em uma arma e os seus alvos explodirem em jorradas de sangue esteticamente impecáveis. Esse não é um problema, mas um detalhe de seu cinema autoral e que aqui se mescla com as técnicas emprestadas do próprio Leone e que também eram utilizadas como combustível para nossa imaginação, o que faz com que qualquer cena mais ou menos exagerada seja assimilada como um jogo de estilo. Já as cenas cruéis e violentas fazem parte do repertório do diretor, que consegue criar a tensão justamente escondendo os detalhes sórdidos dos atos iniciados por Calvin Candie, onde um homem devorado por cachorros é muito mais traumático de se ver na expressão estarrecida das pessoas em volta do que diretamente.

Voltando aos detalhes culturais, a visão de Calvin Candie sobre o mundo é similar aos romanos instruídos, que se sentindo deuses perante seus servos, se deixa fascinar pelo que seus “macacos de circo” conseguem fazer. Aconselhado, no entanto, por um Samuel L. Jackson irreconhecível, revela-nos a informação vital de quem está verdadeiramente no comando de suas ações. Com uma trilha sonora elegantemente escolhida e uma faixa de músicas que tenta sempre trazer o conflito para os tempos atuais, a mesclagem de carruagens passando ao som de um rap diz muito sobre a mistura cultural que no filme se configura e que tanto nos fascina pela possibilidade de mesclagem. Tarantino prova aqui, ainda que talvez inconsciente e de forma metafórica, que o que nos torna mais fortes como seres humanos é justamente essa mistura de épocas, de culturas e conhecimento. Além disso, utiliza de maneira brilhante a costumeira surpresa dos cidadãos que veem um forasteiro por suas bandas pela mesma estranheza a respeito de um negro em cima de um cavalo, provando por contrastre que a ignorância nunca é algo saudável.

Onde chegamos ao terceiro e decepcionante ato, onde talvez as participações inspiradas de Christopher Waltz e Leonardo DiCaprio tenham suas “parcelas de culpa”, pois em ambas as ausências tornam o personagem de Jammie Foxx obviamente obliterado. Porém, o que fica óbvio é que Tarantino mais uma vez sabota sua própria obra, colocando o seu ego à frente dos eventos e criando uma reviravolta extremamente incoerente com um dos seus personagens no momento mais crucial da sua história, parecendo que com o único objetivo de fazer-nos ver mais tiroteio e chuvas de sangue estilizadas. O efeito para os fãs do diretor pode até funcionar, mas para os fãs do Cinema é um verdadeiro soco para fora do filme, que fica ainda maior quando nos deparamos com o próprio Tarantino atuando.

Dizer que os últimos 20 minutos de filme estragaram toda a experiência é ser um tanto desonesto, mas não se pode negar que a maestria de Tarantino é tamanha que é incômodo constatar que esta foi boicotada por ninguém nada menos que… Quentin Tarantino.

O Homem da Máfia

December 11, 2012 in Cinema

Killing Them Softly. EUA, 2012. Director: Andrew Dominik. Writers: Andrew Dominik (screenplay), George V. Higgins (novel). Stars: Brad Pitt, Ray Liotta, Richard Jenkins, Ben Mendelsohn, Scoot McNairy, James Gandolfini, Trevor Long, Max Casella, Sam Shepard.

Quando um filme de gângsters não é só um filme de gângsters.

Esse é um ótimo filme sobre as ações e decisões de um grupo de mafiosos a respeito do destino do seu negócio de jogatina. Basicamente o que se coloca em jogo é a confiança dos donos dessas casas depois que um deles, Markie Trattman (Ray Liotta), rouba seu próprio negócio. O que o torna um filme excepcional é que essa manutenção da confiança no sistema ilegal de jogos de azar traça um paralelo direto com a crise econômica nos Estados Unidos iniciada em 2007 e que até hoje ecoa pelas casas vazias e massas de desempregados cheios de dívidas. A confiança no sistema financeiro também foi abalada naquele momento e algo teve que ser feito.

O que o governo fez e faz para resolver o rombo em suas estruturas é o tema-recheio que se expande através dos olhos aguçados do roteirista Andrew Dominik, baseado no romance de George V. Higgins. No entanto, o que é mais impressionante é que o romance de Higgins, Cogan’s Trade, foi publicado em 1974, e o que resta hoje são os vários diálogos que fazem parte de capítulos inteiros do livro, que preferem ruminar sobre a psicologia dos seus criminososos do que a ação em si.

Nesse sentido, o plot do livro cai como uma luva. Utilizando o som de rádios e televisões que sintonizam a voz do na época senador Barack Obama e o presidente George W. Bush, as decisões políticas entrecortam os diálogos dos criminosos no filme. As cenas de ação são poucas, mas possuem uma intensidade incrível, além de um prazer estético que flertam com o Tarantinesco, só que com muito mais profundidade. Destaco dois: o plano-sequência de entrada e saída da casa de jogos, cuja tensão final é hipnotizante; o assasinato dentro do carro, cujas balas acompanham o movimento da música.

No entanto, mesmo que as cenas de ação mereçam um destaque são os diálogos que prende a atenção pelas atuações sempre interessantes de todo o elenco, sempre parecendo ter algo mais a dizer. Brad Pitt como o frio e calculista Jackie mata a pau no início e no fim, mas o diálogo que ele tem com Frankie no bar a respeito dele ter opções é um momento icônico para a trama justamente pela expressão na cara de Scoot McNairy. E mesmo o insuportável Mickey (James Gandolfini) é uma caricatura construída exatamente para se tornar insuportável aos nossos olhos, para que nós mesmo percebamos que ele não é o cara certo para o serviço. E se Ray Liotta faz aqui uma participação mega-especial com o dono de jogatina Markie Trattman — e cujo caráter do personagem faz eco com seu personagem em Os Bons Companheiros — a cereja do bolo é mesmo Ben Mendelsohn, que faz um Russell estúpido e crível, e cujas cenas onde está chapado servem tanto como exercício estilístico — como a bela transição entre a fumaça e as lanternas do carro — quanto como mais uma caracterização metafórica que deixa em aberto quais são os papéis dessas pessoas na jogatina profissional e os senhores que a controlam: respectivamente a bolsa de valores e o sistema financeiro/político americano.

007 – Operação Skyfall

November 7, 2012 in Cinema

Skyfall. Reino Unido/EUA, 2012. Direção: Sam Mendes. Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade, John Logan e Ian Fleming (personagens). Elenco: Daniel Craig, Judi Dench, Javier Bardem, Ralph Fiennes, Naomie Harris, Bérénice Marlohe, Ben Whishaw. Trilha Sonora: Thomas Newman. Fotografia: Roger Deakins.

James Bond volta aos velhos tempos nos tempos atuais.

Skyfall volta a abraçar a mitologia 007 criada em sua era clássica e ao mesmo tempo discute o futuro de um personagem retrô — mas com estilo — que mesmo 50 anos depois ainda consegue viver aventuras que apesar de conter ação descerebrada possui um fio condutor na história que mesmo não sendo original ou tendo momentos brilhantes ganha corpo pelo seu conjunto da obra.

Ambientado nos tempos atuais — sempre referenciando a época de ouro do agente secreto — o roteiro escrito a seis mãos narra a crise que se estabelece o MI6 depois que um disco contendo dados sigilosos da própria corporação cai nas mãos de terroristas. Sempre agindo além da lei e contando com o anonimato para fazer cumprir seu dever, o futuro da corporação é colocado em xeque, ou pelo menos a maneira com que ela é conduzida por sua dirigente M (Judy Dench), que sofre a ameaça de ser substituída em breve.

Curiosamente essa conversa a respeito do futuro dos personagens começa com uma sequência de ação de fazer o espectador se prender na cadeira e que culmina na sua “morte” de James Bond, dando a entender que a “queda” do agente secreto e a crise na MI6 estão intimamente ligados. As circunstâncias em que isso ocorre levam M e a ministra da Inglaterra a debater o que de fato representa o serviço secreto nos tempos atuais. Em uma democracia de direito haveria lugar para que o governo agisse por trás dos panos de toda uma nação mesmo que com isso visasse a proteção de todos? Ouço ecos da revolução causada pela Wikileaks e com ela toda a transformação encadeada por uma era onde os computadores/software/informação parecem prevalecer sobre a inteligência humana.

Paradoxalmente M e sua corporação sofrem uma ameaça não apenas moral, mas física. A urgência dos eventos nos coloca dentro de um carrão no estilo 007 clássico e cuja cena tem todo o direito de reviver a trilha que marcou gerações. Porém, não é só a música clássica que aqui tem espaço pra crescer. Começando com uma introdução arrebatadora e sua envolvente canção-tema protagonizada por Adele, a trilha composta por Thomas Newman (Beleza Americana, Wall-E) estará sempre comentando cada cena com um leve exagero que faz parte das missões do agente especial desde sempre. Nada mais natural. Afinal, se esse é o filme que discute a série, que ele respire o mito através de cada poro. Mesmo assim, a direção de Sam Mendes (Beleza Americana) continua a elaborar cenas de ação que definam James Bond mais como um agente de carne e osso do que o mito que representa, o que significa que ele continua podendo se machucar, embora nunca desarrume o seu terno. Para isso a figura do vilão Silva, um lunático levemente afetado encarnado por Javier Bardem cai como uma luva de gênio do mal. Ele está hilário e ao mesmo tempo letal e vulnerável pela sua própria megalomania. Representa não apenas o antagonista do momento, mas a discussão sobre agentes old style. É realmente necessário tudo isso quando consegue-se controlar o mundo — no universo do filme — pelo computador? A questão é colocada tão bem que gera dúvidas sobre a real eficácia de uma MI6 frente a um lunático como esses, que de qualquer lugar do mundo conseguiria causar desastres.

O que nos leva ao ato final que se ilumina pela glória das gerações passadas de agentes. Não há nada de especial na história, mas o local e as circunstâncias em que ela é montada a torna especial. O próprio desfecho final e as suas perdas não mereceriam menos do que toda essa reverência a um dos maiores ícones do Cinema

BondGirl – Bérénice Marlohe é Sévérine

BondGirl – Naomie Harris é Eve

Era uma Vez no Oeste

October 30, 2012 in Cinema

C’era una volta il West. Itália/EUA, 1968. Direção: Sergio Leone. Roteiro: Sergio Leone, Sergio Donati. Elenco: Henry Fonda, Charles Bronson, Jason Robards, Gabriele Ferzetti e Claudia Cardinale. Fotografia: Tonino Delli Colli. Montagem: Nino Baragli. Trilha Sonora: Ennio Morricone. Direção de Arte: Carlo Simi.

36a. Mostra de São Paulo.

Era Uma Vez no Oeste parece ser a tentativa de Sergio Leone de fazer o “Grande Cinema”, tornando todas as cenas costumeiras de seu faroeste mais solenes, lentas e cerimoniosas. Isso explica a trilha-comentário do músico Ennio Morricone, que oscila elegantemente entre toda essa solenidade e o pitoresco, com direito a pausa em uma música que lembra o cavalgar e que serve de tom cômico.

Essa ambição de Leone talvez fosse apenas um ledo engano, pois precisou filmar este épico para chegar em sua continuação temática em Era Uma Vez na América, que poderia muito bem ser exibido em uma sessão dupla.

Com exceção do cenário vislumbroso, as melhores partes do filme lembram muito as técnicas de enquadramento da trilogia dos dólares, em especial o último, Três Homens em Conflito. A montagem ritmada, que cria transições tão eloquentes quanto um tiro e um trem a vapor, exagera ainda mais o tom cartunesco já visto nos outros filmes. E pensar que tudo é feito sem efeitos de divisão de tela (como em Hulk) ou a fotografia alterada (como em Sin City). Não, aqui as pinturas que se criam com o aspecto panorâmico conseguem tanto evocar a beleza do quadro quanto seu tom exagerado.

Mas sou obrigado a voltar para a música. Morricone aqui cria um eco surreal vindo de uma gaita de boca tocada por ninguém nada menos que Charles Bronson, que faz o papel de homem misterioso junto com outros dois que logo se revelam: Jason Robards e Henry Fonda, este que depois de uma carreira como mocinho clássico faz aqui o seu primeiro papel de vilão, sendo por isso devidamente apresentado em uma cena particularmente cruel. Tanto essa mudança de expectativa com Fonda quanto o uso da harmônica com Bronson criam um clima estranho, quase onírico. E note como o som da gaita mescla com a música e tema e todos os outros sons do ambiente.

Aliás o uso do som “natural” no filme é digno de um maestro, pois este colabora com a tensão de uma maneira harmoniosa e ritmada, como pode-se ouvir logo na primeira cena, que utiliza o som de um velho moinho, o bater de gotas em um chapéu e uma mosca teimosa.

No entanto o mestre Leone quer deixar sua marca, e para isso tenta transformar seu bangue-bangue em uma alegoria do progresso – representado pelo trem. No fundo, a visão de Leone é um tanto ácida e talvez pessimista, pois em ambos “Era uma Vez…” os heróis e heroínas nunca representam a visão idealizada do bem, possuem falhas de caráter e conseguimos enxergar bondade em seus atos meramente pela situação onde se encontram.

Se bem que, de certa forma, a trilogia dos dólares dança no mesmo ritmo: fico feliz pelo músico ser o mestre Morricone.

Sobre Meninos e Lobos

October 7, 2012 in Home Video

Mystic River. EUA/Austrália, 2003. Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Brian Helgeland, Dennis Lehane (romance). Elenco: Sean Penn, Tim Robbins e Kevin Bacon. Trilha Sonora: Clint Eastwood. Fotografia: Tom Stern.

Eastwood de Menina de Ouro e A Troca se formando.

Dono de uma cinegrafia invejável como diretor, Clint Eastwood aqui começa a demonstrar uma mudança dramática na maneira de contar uma história. Sem pressa para desenvolver a trama e ao mesmo tempo mostrando apenas o necessário para que se mantenha o suspense, o roteiro de Brian Helgeland caminha por igual na vida de cada personagem para que entendamos o peso de cada encontro e de cada diálogo. Além disso, as cenas possuem uma fluidez admirável ainda mais se considerarmos a quebra de ritmo que poderia surgir ao abordar tantos pontos de vista diferentes para um mesmo fato.

O elenco está afinadíssimo, mas Sean Penn e Tim Robbins possuem seus momentos particulares que roubam a cena e quase todo o filme. A trilha sonora consegue manter o clima de tensão e mistério quase sem se fazer notar, diferente da fotografia, triste, bela e azul, que surpreende a cada novo enquadramento de Eastwood, que utiliza o trabalho do fotógrafo Tom Stern para buscar organicidade de tanta beleza, como quando enfoca o personagem de Tim Robbins no escuro de um quarto, ou as diferentes cenas aéreas que parecem querer juntar todos os pedaços de uma só vez.

Ted

October 3, 2012 in Cinema

Idem. EUA, 2012. Direção: Seth MacFarlane. Roteiro: Seth MacFarlane, Alec Sulkin, Wellesley Wild. Elenco: Mark Wahlberg, Mila Kunis e Seth MacFarlane.

Comédia politicamente incorreta com urso de pelúcia prova estar acima de besteiróis do gênero.

Quando assistimos à introdução que marca o início da amizade entre John, um garoto de 8 anos (Bretton Manley), e Ted, um ursinho de pelúcia que começa a falar a partir de um desejo que o garoto faz para uma estrela cadente, entendemos ser essa amizade o núcleo da história dirigida e escrita por Seth MacFarlane, do desenho politicamente incorreto Family Guy, e que aqui além de dirigir dubla o ursinho com sua voz. Apenas o fato do filme acreditar nessa relação entre os dois é o suficiente para fazer com que o espectador faça o mesmo, e desista de assistir mais um besteirol com piadas envolvendo ursinhos de pelúcia falantes. Ted é tão ou mais real do que John, e depois que ele e John “crescem” (Mark Wahlberg) nunca deixam de honrar a promessa que fizeram quando crianças: que seriam companheiros inseparáveis.

O problema é que, apesar de John e Ted agora terem vozes mais grossas e John estar até namorando por quatro anos com a estonteante Lori (Mila Kunis) não faz com que ambos deixem suas manias de quando crianças, como fazer trocadilhos estúpidos, usar referências aos anos 80 e fazer piadas sobre peidos. No entanto, a proporção com que isso ocorre reflete a fase adulta, e agora a dupla de amigos, bebe, cheira e faz piadas envolvendo inúmeros palavrões (suavizadas por uma legenda mutiladora, o que provavelmente deve se repetir na versão dublada). Esse descomprometimento de John com a vida adulta faz com que Lori se canse deles, e a relação entra em um impasse: ou ela ou o urso.

A produção abraça os anos 80 e toda a nostalgia da época através de uma fotografia com cores mais pálidas e uma trilha sonora muito à vontade com o tema, buscando inspiração em obras como E.T. e Esqueceram de Mim. Sua direção de arte busca retratar o período sem exageros, mas aplica cuidados necessários para que percebamos se tratar de uma singela homenagem. Afinal de contas, o mundo de John reflete essa realidade, onde o centro é seu ursinho Ted. O saudosismo faz parte da experiência de convivermos com o ser de pelúcia falante, e o diretor Seth MacFarlane consegue perceber isso e não estragar tudo engarrafando a história no formato medíocre das comédias românticas que seguem uma fórmula.

Nesse sentido, a comédia politicamente incorreta é inteligente o suficiente para não cair na batidíssima gafe da auto-paródia, se mantendo na superfície com uma história tão sensível quanto cômica, e ainda conseguindo manter uma saudável dose de humor negro (e, sim, isso é possível). Seus personagens são cativantes, por parecerem reais, e a sensação final é de que deveríamos passar mais tempo com esses caras. Não importa que um deles seja um urso de 30 centímetros se ainda consegue ser divertido.

Um Corpo que Cai

October 2, 2012 in Home Video

Vertigo. EUA, 1958. Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Alec Coppel, Samuel A. Taylor. Elenco: James Stewart, Kim Novak e Barbara Bel Geddes.

Hitchcock (e o Cinema) no seu máximo.

No topo da lista de melhores filmes de todos os tempos, Cidadão Kane, em 2012, deixa a respeitável posição para o suspense Um Corpo que Cai. É uma notícia que não muda em praticamente nada a importância da obra de Orson Welles para o Cinema, mas altera a percepção do espectador médio para com a Sétima Arte. Se antes as pessoas não enxergavam seria possível a um filme preto e branco recheado de diálogos e múltiplos pontos de vista — uma bagunça, enfim — ser considerado a obra máxima audiovisual. Com um Hitchcock, palatável e feito para estúdio, a aceitação fica um pouco mais fácil.

Afinal de contas, a história gira em torno de elementos muito mais simplistas que a grandiosidade do roteiro de Wells. Aqui temos como figura central o policial aposentado John ‘Scottie’ Ferguson (James Stewart), que desenvolve um trauma de lugares altos ao perder seu parceiro no topo de um prédio durante uma perseguição; isso o impede de subir escadas longas e continuar sua carreira. Recebe, porém, uma proposta de um velho amigo para que investigue o paradeiro de sua esposa, a bela Madeleine (Kim Novak). Ela, aparentemente, está tendo alucinações que a faz pensar ser outra pessoa e vagar pela cidade sem rumo definido. Sem muito o que fazer, boa parte do filme se dedica a esse passatempo em que John fica tão fascinado quanto o espectador ao descobrir detalhes da rotina de Madeleine.

Mesmo assim, não conte com um enredo simplista demais. Hitchcock faz questão de enfocar os detalhes visuais da maneira mais óbvia possível para o terceiro ato do longa, que é de arrebatar. A sua câmera sugestiva apresenta pistas falsas e reais que se misturam em um jogo de imersão completa do espectador à prova de algo paupável. O “Vertigo” do título original diz muito mais do que simplesmente o medo de altura, apesar de um inventivo efeito de câmera aplicado por Hitchcock conseguir representar fielmente o sentimento de vertigem de John. Há ângulos extremamente inusitados na história e no visual do filme que nos dizem para procurarmos no mundo dos sonhos. Os enquadramentos quase sempre incluem elementos próximos e distantes da câmera com a mesma importância. As cores, representativas ao máximo, enfocam o estado de espírito de seus personagens e suas identificações com aquele mundo. Uma fotografia belíssima de Robert Burks continua belíssima e vívida em todas as cenas. E a trilha sonora de Bernard Herrmann é um encantamento à parte e com certeza participa ativamente de toda a história, sem nunca soar intrusivo demais (apenas quando precisa). Para quem está ouvindo pela primeira vez, vai notar certamente as mesmas notas em determinada cena de O Artista, que homenageia o filme.

Até os detalhes cafonas hoje em dia, apesar de datados, possuem um significado maior naquele universo diegético. Ótimos filmes criam ótimas histórias utilizando um tema e gênero quaisquer. Filmes inesquecíveis respiram seu tema e se aprofundam nele o tempo todo. É impossível resistir à beleza de uma obra de arte como Vertigo.

Herói

August 25, 2012 in Home Video

Ying xiong. China/Hong Kong, 2002. Direção: Yimou Zhang. Roteiro: Feng Li, Bin Wang e Yimou Zhang. Elenco: Jet Li, Tony Leung Chiu Wai, Maggie Cheung, Daoming Chen, Donnie Yen e Ziyi Zhang. Fotografia: Christopher Doyle. Trilha Sonora: Tan Dun. Montagem: Angie Lam e Ru Zhai.

Como as lendas do antigo Oriente merecem ser contadas.

O que torna uma figura histórica, em períodos de guerra, um herói para seu povo? Quais sacrifícios são necessários para que as lembranças desse tempo sejam tão marcantes que acabam por serem inscritas nos extensos pergaminhos e cujas histórias sejam contadas de geração em geração ininterruptamente? É com esses questionamentos, vindos desde o título, e com uma premissa simples de um homem que ajudou o rei a manter sua integridade física, e que por isso, será agraciado pelo seu reino, que Yimou Zhang marca os compassos de sua narrativa impecável que narra através do episódio da unificação da China a história de seres extraordinários e suas ações e sentimentos mais nobres.

Para conseguir o resultado almejado, a estilização é naturalmente forte, e tanto os cenários grandiosos inspiram os sentimentos mais nobres dos personagens quanto as cores de cada ambiente sintetizam a essência dos acontecimentos. Não é preciso dizer muito da história. Os olhares de um elenco afiadíssimo, formado por quatro mestres na luta de espadas, são suficiente para entendermos muito mais das suas personalidades.

As cenas de luta, um diálogo mais aberto e de tirar o fôlego, não pecam pelo excesso, e se transformam na pulsação do filme. Cada momento que dois mestres esgrimam entre si possui o tempo exato que precisamos para entender o que está em jogo. Ao mesmo tempo, não deixa de ser uma experiência visual de encher os olhos, não apenas pelas coreografias, inspiradas diretamente de O Tigre e o Dragão e seus efeitos voadores, mas aumentada em um grau que torna tudo mais épico e mais solene. Os cenários fazem parte de cada luta, e com ela interagem (como a chuva e o velho que toca na casa de jogo, as areias do deserto, as folhas caindo das árvores e as cortinas verdes do palácio do rei e, por que não, a chuva de flechas que lembra um enxame mortal de gafanhotos).

Partindo de um econômico, mas profundo e inspiradoro roteiro escrito por Feng Li, Bin Wang e o próprio Yimou Zhang, o diretor entende que precisa prender a atenção mais pelo visual do que pelos detalhes sutis de sua história, que, seguindo as lendas orientais, é simples e possui poucos contratempos, embora contá-los aqui estragaria boa parte dos seus imprevistos impactos: o exímio esgrimista Sem Nome (Jet Li) é recebido pelo Imperador Qin (Daoming Chen) para contar como conseguiu matar dois dos mais perigosos assassinos e inimigos do reino, Broken Sword (Tony Leung Chiu Wai) e Flying Snow (Maggie Cheung). Em meio a essa conversa temos a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre o desconhecido herói, assim como indiretamente sobre o próprio imperador, uma pessoa extremamente sensata e ponderada. Apesar de simples, o potencial dramático surge espontâneo em cada situação nova que se desdobra, e que consegue enriquecer ainda mais as lutas, que não tornam-se apenas um espetáculo visual de um roteiro vazio. Pelo contrário: história e visual andam de mãos dadas, e ficam mais fortes.