O Passado me Condena

August 10, 2013 in Home Video

Victim. EUA, 2010. Directors: Matt Eskandari, Michael A. Pierce. Writers: Michael Hultquist, Robert Martinez. Stars: Stephen Weigand, Bob Bancroft, Brendan Kelly.

Meu Passado me Condena

Thriller fantástico levanta questões relevantes de maneira quase que inocente.

Adoro filmes que me surpreendem. Melhor ainda quando eles começam não prometendo quase nada. É o caso desse “Meu Passado me Condena” (Victim no original), que inicia como um thriller nada original, caminha por estradas tortuosas do gênero para finalmente se definir no terceiro ato com seu momento glorioso que nos faz voltar desde o começo e entender que nada do que parecia era exatamente como se supunha.

Iniciando com um vídeo caseiro — supostamente do assassino de uma bela garota vinda do Kansas (Jennifer Howie) — que parece ter relação com o sequestro e tortura psicológica de um rapaz bem apessoado que encontramos em um bar e cujo nome não sabemos (Stephen Weigand), acompanhamos seu sofrimento nas mãos do aterrorizante Dr. Rudolph Volk (Bob Bancroft), que tem uma voz inquietante, frases desconexas com a realidade e fala pausadamente para sua vítima, causando um mal estar pior do que já está. Tendo a ajuda de seu capanga igualmente enigmático e ainda dotado de músculos que é chamado pelo Doutor como simplesmente Sr. George (Brendan Kelly), entendemos a fuga ser algo no mínimo bem complicado, ainda mais ao acompanharmos os períodos em que o deixam debilitado através da falta de comida e por queimarem todos seus dedos de uma vez (o que mais uma vez reforça a nossa falta de identificação com o rapaz).

O fato de nunca conhecermos de fato quem são essas pessoas nem suas motivações é o que torna tudo mais aterrorizante. O estilo dos diretores Matt Eskandari e Michael A. Pierce de tornar a experiência mais “thrileresca” do que deveria diminui o filme, mas não o sabota. Se torna talvez apenas mais um traço que incomoda e ao mesmo tempo despista para o aburdo desenrolar e a arrebatadora conclusão que o coloca na mesma intensidade que seu filme gêmeo, que não devo citar aqui para evitar uma dupla surpresa para quem já o tiver visto. No entanto, quem o viu/verá com certeza sabe do que estou falando.

Dotado de uma conclusão que é capaz de nos fazer passar mal tanto pelos acontecimentos quanto pelo que eles significam metaforicamente, Victim é capaz de nos deixar pensando por horas após ter terminado, tentando colar as peças umas nas outras inultilmente. Um exercício de destreza narrativa que raramente gera aquela sensação de que gostaríamos ainda mais do resultado se pudéssemos conhecer mais sobre seus personagens. No entanto, talvez seja assim que as coisas devam permanecer. É melhor não fazer muitas perguntas e estragar todas as surpresas e mistérios que o curtíssimo longa já nos oferece.

Retratos de uma Obsessão

July 20, 2013 in Home Video

One Hour Photo. EUA, 2002. Director: Mark Romanek. Writer: Mark Romanek. Stars: Robin Williams, Connie Nielsen, Michael Vartan.

Retratos de uma Obsessão

A fotografia como elemento narrativo de um suspense exemplar.

Entre tantas coisas que poderiam ser destacadas da performance de Robin Williams como Seymour Parrish, um funcionário de uma hoje extinta reveladora de fotos, o que permanece ao final de Retratos de uma Obsessão são os inúmeros filtros que parecem cobrir sua vida de uma aura tão poética quanto trágica. Esse sentimentos ecoam principalmente através das cores, presentes nas fotos e nas vidas das pessoa para quem trabalha, mas que a ele são negadas. Quer uso mais metafórico da fotografia no Cinema do que a própria fotografia sendo o tema principal?

Dos fregueses de costume, uma família em específico é a “obsessão” de Parrish por anos, e sua dedicação em manter a imagem dessa família no decorrer dos anos é ao mesmo tempo tocante e doentio. Nesse sentido, as expressões de um Williams bem mais contido consegue de maneira eficaz a tarefa de nos manter presos a cada passo seu tentando se aproximar de completos estranhos. Da mesma forma, conforme a história começa a se misturar com seus desejos ocultos de pertencer à família, os abusos das cores azul e laranja começam a fazer sentido nesse mundo dessaturado.

Já o trabalho do diretor/roteirista Mark Romanek constrói um thriller que oscila bem entre o clássico e a referência. Em determinado momento, um episódio de Os Simpsons mostra uma piada onde é usado o toque de O Cabo do Medo (Scorsese, 1991). Esse toque, além de uma brincadeira inocente, revela os objetivos do filme enquanto metalinguagem.

Ainda assim, com todas as desculpas possíveis, é difícil ignorar que o diretor de fotografia Jeff Cronenweth não tenha exagerado um pouco. Mas só um pouco. Todo o resto é útil para a construção do personagem e das situações. A medida do exagero é quando todas essas cores insistem em nos jogar para fora do filme. Ou talvez o ritmo às vezes descompassado, que gera um efeito episódico sem necessidade.

De qualquer forma, nada nos prepara para o final anti-climático, revelador e elegante em sua sutileza (e gritante em seu diálogo final, justo em um filme que na maior parte do tempo não precisa disso). Há algo de inocente nesse thriller enquanto thriller, mas algo de maravilhoso sendo construído com cores e enquadramentos enquanto exercício de estilo. Uma pena que ambos não consigam coexistir com total harmonia.

Old Boy

July 22, 2012 in Home Video

Oldeuboi. Coreia do Sul, 2003. Direção: Chan-wook Park. Roteiro: Jo-yun Hwang, Chun-hyeong Lim, Joon-hyung Lim e Chan-wook Park. Montagem: Sang-beom Kim. Fotografia: Chung-hoon Chung. Elenco: Min-sik Choi, Ji-tae Yu e Hye-jeong Kang.

Chan-wook nos apresenta a psique da vingança em tons de vermelho e verde.

Quando o filme inicia, temos um breve momento com o futuro Dae-su Oh (Min-sik Choi) durante um curioso diálogo com um homem que parece depender do protagonista para manter-se vivo. A conversa aparece cortada no meio, e boa parte da história parece seguir a mesma lógica. Quando voltamos um indeterminado período de tempo, somos apresentados a um irreconhecível, mulherengo e causador de problemas Dae-su. Se descontrolando diversas vezes enquanto aguarda em uma delegacia com seu amigo, mal conseguimos relacionar o pedaço de homem que vemos com sua versão mais velha, cansada e, o mais importante de tudo, determinada.

O homem do passado possuía uma mulher e uma filha, para quem daria um presente de aniversário naquela noite. Isso se não tivesse desaparecido misteriosamente, deixando para trás um passado que não lhe pertence mais. Acompanhamos a partir daí o prisioneiro Dae-su, que não sabe sequer por que está preso. Ele pretende fugir e se vingar, mas ainda não sabemos de quem. Ouvimos seus pensamentos solitários, e vamos entendendo seu drama conforme os anos passam.

Segunda parte da trilogia temática (vingança) do diretor Chan-wook Park, Old Boy cria rimas semânticas e visuais que poderiam impressionar e entreter por si só, como um belíssimo plano-sequência de uma luta em um corredor estreito. Porém, além do efeito estético é possível acompanhar a história de um homem que já perdeu tudo e se move apenas pelo instinto de vingança. Não há qualquer outro motivo que o faz se tornar tão determinado, nem a jovem garota que encontra em um sushi-bar e que começa a se interessar.

Curioso constatar ainda que, mesmo fora de sua prisão, Dae-su mantém-se constantemente vigiado e parece fazer parte de um plano maior. Se por um lado há uma lógica macabra por trás disso, isso também nos dá uma informação vital a respeito do espírito do protagonista, que se mantém ainda preso, apesar de poder se banhar dos raios do sol e atravessar a rua. A vingança, esse instinto primário que tomou conta de Dae-su, se torna sua prisão da alma. Dessa forma, tudo que ele faz parece ser doloroso, mas Dae-su parece anestesiado. Todos seus gestos são feitos com um ar cansado. Seu cabelo em torno de sua face limitam sua visão, assim como a pequena porta por onde passava o alimento em seu cárcere o limitava.

Como havia dito, há rimas por todas as partes. O final, impactante por si só, se torna visceral por conta dessas rimas. A vida se transforma em uma brincadeira trágica, onde não há sentido em continuar vivendo se não for pela possibilidade de se vingar de algo. Chan-wook vai até as últimas consequências, e é isso que torna Old Boy tão especial não apenas esteticamente, mas tematicamente.

O Corvo

May 24, 2012 in Cinema

The Raven. EUA/Hungria/Espanha, 2012. Direção: James McTeigue. Roteiro: Ben Livingston, Hannah Shakespeare. Elenco: John Cusack, Alice Eve e Luke Evans.

Thriller sobre as obras de Edgar Allan Poe não fazem jus à obra do escritor.

Edgar Allan Poe é considerado um dos precursores da literatura norte-americana, e com Júlio Verne, dos gêneros de ficção-científica e fantástica. Suas histórias geralmente giram em torno de crimes e mortes bizarras, o que revela não apenas a genialidade na arte de escrever como também sua criatividade mórbida, fruto do mais novo filme sobre ele, O Corvo, estrelando John Cusack na pele do escritor de contos.

A ideia da trama gira em torno de seus contos e a morte misteriosa de Poe, encontrado em estado catatônico em um parque. Tudo se inicia quando um assassinato começa a recriar as cenas de crimes contidas nos contos do esctitor. Determinado a encontrar o lunático, o detetive Fields (Luke Evans) encontra em Poe um forte aliado por ter todos os passos do próximo assassinato em sua mente, na memória de suas obras.

Contrariando as expectativas de ter um mestre e gênio da literatura encarnado, a introdução apresentada pelo filme desaponta pelos inúmeros diálogos expositivos sobre a figura de Allan Poe, como se estivéssemos falando já de uma figura ilustre da literatura, chegando a incluir desnecessariamente a anedota sobre o preço que sua obra-prima, o poema O Corvo, foi vendido para custear seu vício com bebidas.

A escolha de John Cusack torna-se logo de início obviamente errada, pois apesar de sua introspecção e ausência de expressão (ou exagero), a figura de Poe parece nunca atingir as expectativas que são geradas por uma das figuras mais emblemáticas e geniais da literatura mundial. Sua ironia não é vista, apesar da história sugerir sutilmente em seu desfecho, único momento em que vemos as influências dos textos de Poe inseridos na narrativa. Até quando o ilustre escritor visita pela primeira vez uma cena de um dos seus crimes fictícios para ele é como se apenas constatasse mecanicamente os detalhes de seus parágrafos visto em cores sombrias de uma Baltimore cinzenta e enevoada.

Porém, os erros não se limitam ao desempenho de Cusack, mas pioram na criação de um suposto interesse romântico do autor e ao mesmo tempo sua inspiração, o que soa artificial todo o tempo, ainda mais se considerarmos uma atuação nada significativa de Alice Eve como Emily Hamilton, o que chega a comprometer seriamente a história em momentos-chave da trama.

Os aspectos técnicos, no entanto, conseguem transmitir com precisão o ambiente sufocante de uma Baltimore do século IXX, em uma fotografia sem muitas cores saltando da tela, com um Egdar Allan Poe devidamente vestido de preto e com capa e, é claro, uma névoa que cobre boa parte do cenário nas cenas externas e que muito lembra Do Inferno, onde víamos em vez de um copycat do escritor o famigerado Jack o Estripador representado pelos becos escuros e sujos de Londres.

De uma forma talvez irônica, o fato das mortes terem como essência as mesmas cenas idealizadas nas obras do escritor gera a interessante questão que talvez a vontade de ver mais assassinatos clássicos é o que move a trama e não a resolução dos crimes e descobrimento do culpado, que nunca chega a ocupar o tema central. Nesse sentido a história parece ficar sempre estacionada em uma investigação infértil e que vai aos poucos criando episódios separados, recortados e juntos apenas pela trilha que lembra erroneamente mais uma aventura de games do que um filme de mistério, esse que seria talvez o maior equívoco do longa.

Ainda assim, seu desfecho desperta uma atenção que até então estava adormecida, e seu feitor é igualmente interessante, motivo pelo qual o terceiro ato parece tão mais curto e tão menos desenvolvido que todo o resto. Porém, terminando desastrosamente mal, com o uso de um clichê que mais envergonha do que homenageia a figura de Poe, os créditos acabam expondo o que desconfiávamos desde o princípio: não havia sombra de um objetivo definido ao contar a história.

Um Misterioso Assassinato em Manhatan

May 12, 2012 in Home Video

Manhattan Murder Mystery. EUA, 1993. Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton eJerry Adler.

Woody Allen e Diane Keaton formavam um ótimo casal.

Nova Iorque, chuva, assassinato e um filme de Woody Allen. Uma combinação que costuma ser fértil para o Cinema, seja pela inteligência e ironia das falas dos personagens, ou até mesmo pela situação que eles vivem. Aqui, temos o casal de meia-idade Larry e Carol Lipton (Allen e Keaton) que, após conhecerem um idoso e simpático casal, no dia seguinte presenciam a morte súbita da esposa, consequência de um ataque cardíaco.

A questão, porém, é que o marido não parece tão abalado assim. Carol observa isso e uma ideia nasce em sua cabeça e vai crescendo: não seria ele um assassino daqueles de livros de mistério? Quais pistas eles presenciaram que poderia significar algo mais do que uma morte por doença? As questões vão aumentando conforme acompanhamos não só o espírito de aventura de Carol (ou de busca por algo incomum na enfadonha vida do casal) se contrapondo com a neurose controlada de Larry, com a interpretação de Allen no automático, mas ainda assim divertido.

Como roteirista, Allen é esperto não entrega as coisas de mão beijada. Ele convida o espectador em seu roteiro a perceber aos poucos experimentar a sensação de algo errado junto com Carol, que vai encontrando pista atrás de pista, que podem muito bem não significar nada, o que gera como sempre deliciosos e sarcásticos diálogos. Porém, a trama é forte o suficiente para chamar a atenção até mesmo no meio da comédia.

Para tornar a coisa mais realista, uma direção esforçada por ressaltar as diferentes nuâncias da investigação faz balançar a câmera em torno de Carol quando esta está bêbada pós uma degustação de vinhos, e troca o foco rapidamente enquanto em uma conversa entre Carol e Larry decidimos quem está com a razão. Da mesma forma, os personagens secundários não estão totalmente à toa na trama, e cada um participa com suas personalidades, e obviamente Allen mais uma vez retorna o tema traição e crise de meia-idade dos casais.

Assassinato em Manhatan é passado e batido, mas consegue divertir sem ofender ou entendiar. Como se diz por aí, Allen até quando é medíocre, consegue ser acima da média.

Insônia

April 1, 2012 in Home Video

Insomnia. EUA, 2002. Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Hillary Seitz. Elenco: Al Pacino, Robin Williams e Hilary Swank.

Sempre é possível fazer um belo filme em gêneros desgastados pela indústria.

Em um momento em que Hollywood se esqueceu que os bons policiais/suspenses quase sempre vem dotados de uma carga dramática e multidimencional em seus personagens, o segundo trabalho de Christopher Nolan na direção vem lembrar aos cinéfilos que é possível construir uma narrativa inteligente e ainda assim ser envolvente pela sua ação.

Fazendo como David Fincher em Os Homens que Não Amavam as Mulheres e refazendo um longa sueco (na verdade, também norueguês) de 1997, a história gira em torno de uma cidade em que o sol não se põe (no original, na Noruega, aqui, no Alaska) e um crime envolvendo uma jovem brutalmente assassinada. Quando os detetives Will Dormer (Al Pacino) e Hap Eckhart (Martin Donovan) chegam ao local, no entanto, o clima de tensão já estava no ar e apenas piora em terra.

Sem revelar spoilers fica difícil falar sobre a trama, mas podemos dizer que a relação entre Al Pacino e o misterioso assassino consegue produzir as melhores cenas, cheias de significado.

Pontos fortes: direção, roteiro, trilha sonora, atuações, fotografia.
Pontos fracos: praticamente nenhum.

Psicopata Americano

February 25, 2012 in Home Video

American Psycho. EUA, 2000. Direção e Roteiro: Mary Harron. Elenco: Christian Bale, Justin Theroux, Josh Lucas.

Christian Bale matou um monte de gente. E isso é ótimo!

Existem vários exemplos de serial killers organizados na literatura e no cinema/tv, como Kevin Costner em Mr. Brooks (Instinto Secreto) e o mais famoso Michael C. Hall como Dexter Morgan. Porém, pouco se vê dos assassinos que são facilmente pegos exatamente porque não possuem disciplina e ordem: matam as pessoas de qualquer forma. Não possuem método: possuem impulso.

Christian Bale é esse exemplo nesse Psicopata Americano, que deixa muitas questões, mas não deixa dúvidas de que não existe nenhum tipo de lógica na cabeça do indivíduo, ou pelo menos essa lógica não se mantém intacta por muito tempo. Tendo impulsos assassinos constantes, a convivência com as pessoas torna-se um desafio. Tendo cada vez mais seus impulsos narcisistas desafiados (como o filme demonstra muito bem em uma cena envolvendo cartões de visita), o momento da explosão é sublime, surreal, magnífico.

Penumbra

February 11, 2012 in Cinema

Idem. Argentina, 2011. Direção e Roteiro: Adrían García Bogliano, Ramiro García Bogliano. Elenco: Cristina Brondo, Camila Bordonaba, Berta Muñiz.

Um ótimo exemplo de roteiro para sabotar seus espectadores.

O roteiro é uma bobagem, que brinca com o julgamento da protagonista de uma forma, mas faz questão de nos avisar muito antes o que está acontecendo. Não contente com isso, seu final comprova não apenas o delírio de complexidade (quando na verdade temos um desfecho simplista).

Fora isso, a direção faz o que acha certo abusando de câmeras que oscilam de um lado a outro, criando sensações involuntárias de enjoo. Mesmo assim, não se compara à desastrosa escolha de colocar efeitos sonoros de suspense ao menor movimento dos personagens, transformando um thriller ruim pela falta de tensão em uma comédia não-declarada.

De fato, Tarantino não está sendo boa influência para seus fãs cineastas.

Tudo Pelo Poder

December 28, 2011 in Cinema

The Ides of March. EUA, 2011. Direção: George Clooney. Roteiro: George Clooney, Grant Heslov e Beau Willimon. Elenco: Ryan Gosling (Stephen Meyers), George Clooney (Governor Mike Morris), Philip Seymour Hoffman (Paul Zara), Paul Giamatti (Tom Duffy), Evan Rachel Wood (Molly Stearns), Marisa Tomei (Ida Horowicz), Jeffrey Wright (Senator Thompson), Max Minghella (Ben Harpen).

A política como sempre a vimos: assustadora.

Geralmente filmes que tentam revelar os bastidores da política soam pretenciosos e bobinhos em suas conjecturas infantis e roteiros confusos e incompletos. Esse não é o caso de Tudo Pelo Poder, que consegue, de maneira didática e assustadora, revelar muito mais sobre o pano de fundo de influências do que gostaríamos de saber ou de admitir.

Nesse sentido, e apesar de textos muitas vezes necessariamente longos, a direção concisa de George Clooney revela de maneira brilhante as inúmeras subtramas no contexto do poder e como ele vira mercadoria negociável, independente das aspirações ou princípios dos candidatos à presidência. Aliás, o próprio caráter das pessoas envolvidas, mesmo que aparente, vira moeda de influência que possibilita, por exemplo, que figuras competentes da propaganda como Stephen Meyers (Ryan Gosling) confiem e arquitetem de maneira impecável cada próximo movimento de seu candidado, no caso o governador Mike Morris (George Clooney), justamente pela esperança que seus discursos representam para uma nação que depois da crise terrorista e posteriormente econômica anseia quase que desesperadamente.

Na verdade, o que move Meyers é justamente o que faz com que o espectador tome o partido quase que incondicional por Morris, pois seus diálogos sempre revelam uma pessoa imparcial e de bom senso que emerge em meio a opiniões acaloradas sobre temas polêmicos. É quase impossível não se deixar levar pelo magnetismo de seu discurso eloquente e sua inabalável auto-confiança.

É por isso mesmo que, quando o terceiro ato se encarrega de desabar essas convicções como um castelo de cartas levemente mal arranjado, sentimos um mal estar. Não tanto por estarmos presenciando mais uma veia corruptível, mas talvez por essa veia existir em cada um de nós, em menor ou maior grau. Fica parecendo que é praticamente impossível de desvencilhar dos caminhos que Morris e seu pupilo são obrigados a seguir, e o que é mais trágico, seguem esse caminho pelo amor à política.

Quando o jogo começa a virar é que a direção segura de Clooney arrebata o espectador em cenas de tirar o fôlego como quando um certo personagem atende ao celular, ou em suas sutis, mas belíssimas, rimas visuais, como quando outra pessoa desafia a gravidade das atenções fugindo seu olhar de onde todos estão hipnotizados, confirmando naquele momento a radical mudança a qual foi obrigado a passar em poucas horas. Tudo isso impregnado em uma fotografia obscura, sisuda e até um certo ponto sinistra. Nunca há um raio de luz para nos abençoar no filme de Clooney. Se há, é fruto do mesmo cinismo que construiu o candidato perfeito e nos desafia a olhar para dentro dele e enxergar o mecanismo macabro da política, reflexo de nós mesmos.

Demônio

October 29, 2011 in Home Video

Devil. EUA, 2010. Direção: John Erick Dowdle. Roteiro: Brian Nelson e M. Night Shyamalan (história). Elenco: Chris Messina (Detective Bowden), Logan Marshall-Green (Mechanic), Jenny O’Hara (Old Woman), Bojana Novakovic (Young Woman), Bokeem Woodbine (Guard), Geoffrey Arend (Salesman), Jacob Vargas (Ramirez), Matt Craven (Lustig), Joshua Peace (Detective Markowitz (as Josh Peace)), Caroline Dhavernas (Elsa Nahai), Joe Cobden (Dwight), Zoie Palmer (Cheryl), Vincent Laresca (Henry).

O filme começa com uma narração em off (que nunca é revelada) a respeito de uma história contada pela avó do sujeito que dizia que o demônio, às vezes, “sobe à superfície” para pegar algumas almas desprevenidas. De acordo com a mesma avó, o demônio segue algumas regras, que se iniciam com um suicídio (nunca explicado no filme), que permite que ele entre e apronte mais uma das suas.

Fonte: www.cinemaemcena.com.br

Com esse argumento superficial (M. Night Shyamalan?), para não dizer bobo, o diretor Brian Nelson coloca personagens que, inicialmente interessantes pela forma com que são apresentados, são aos poucos esmagados pela assustadora falta de criatividade em conduzir uma história que possui tanto elementos sobrenaturais quanto uma suposta análise da psique humana.

Fonte: www.cinemaemcena.com.br

A ideia central da trama é que os personagens, uma vez presos no elevador, vão ficando cada vez mais tensos conforme acontecimentos nunca revelados acabam por ir matando um a um. O interessante é que essas mortes vão ocorrendo estrategicamente quando a luz se apaga por alguns segundos, revelando uma das muletas do projeto não há nada de muito impactante em aguardar quem será a próxima vítima, uma vez que o próprio título já revela estarmos mexendo com forças sobrenaturais, em nada adiantaria descobrir a suposta pessoa que incorporou o ente do mal (o que fazer, se nenhum deles consegue sair do lugar onde estão presos, mesmo?).

Fonte: www.cinemaemcena.com.br

A única coisa que resta, então, é seguirmos os passos da direção, que pelo menos mantém ângulos sempre interessantes, tanto dentro do elevador quanto ao descrever a ação que ocorre fora dele para manter o prédio sob controle e para resgatá-los. É interessante porque, ainda que os personagens nunca representem pessoas de carne e osso, mas sim estereótipos prontos para serem abatidos pela força-sobrenatural-título, a tensão acaba funcionando, pois, de uma forma ou de outra, não é uma situação que qualquer pessoa gostaria de estar, sendo até natural o filme nos deixar compenetrados.

Fonte: www.cinemaemcena.com.br

Com uma conclusão boba, que sequer era esperada pelo espectador, Demônio acaba representando apenas um bom exercício de linguagem cinematográfica, exercício esse desempenhado muitas vezes melhor em obras inspiradas pelas mesmas “limitações técnicas”, como O Cubo e Enterrado Vivo.