O Morto Vivo

August 2, 2013 in Home Video

The Revenant. EUA, 2009. Director: D. Kerry Prior. Writer: D. Kerry Prior. Stars: David Anders, Chris Wylde, Louise Griffiths.

O Morto Vivo

Drama realista embutido em comédia absurda.

Especialista em efeitos visuais (Força Aérea Um, O Segredo do Abismo), D. Kerry Prior realiza seu segundo longa com uma mescla de realismo com comédia, um pouco de drama e eventualmente um romance, além de comprovar mais uma vez sua proficiência em criar o impossível. Trata alguns desses temas de maneira admirável (o que aconteceria no mundo real se um morto voltasse à vida?) e outros escapam ao seu controle (a comédia absurda que banaliza a morte). Na média, O Morto Vivo é o entretenimento que chama a atenção pela forma original que aborda a questão dessas criaturas que existem em filmes mais fantasiosos, mas que parece nunca conseguir fugir do estereótipo de “filme de zumbi/vampiro/etc”.

A Hora do Pesadelo

July 28, 2013 in Home Video

A Nightmare on Elm Street. EUA, 1984. Director: Wes Craven. Writer: Wes Craven. Stars: John Saxon, Heather Langenkamp, Johnny Depp.

A Hora do Pesadelo

Freddy Krueger era muito mais divertido.

Clássico de terror dos anos 80, continua envelhecendo bem, e apesar de sua ingenuidade para com o público sedento por realismo de hoje (só que sem muito sangue, por favor), estabelece o seu medo no campo dos sonhos, onde tudo é possível existir. Os efeitos não-digitais ajudam e muito a nos colocar no quarto com Marge (Ronee Blakley), Tina (Amanda Wyss), Rod (Jsu Garcia) e Glen (Johnny Depp). Quando vemos um garoto ser morto e seu sangue transbordar o teto do seu quarto, se esvaindo de baixo para cima, por mais que saibamos que esse efeito foi produzido filmando o set de cabeça pra baixo o efeito psicológico da cena permanece, pois gera a estranheza necessária do mundo dos sonhos (algo muito higienizado nA Origem de Nolan).

Mesmo assim, Freddy Krueger (Robert Englund) já não assusta mais, e é apenas instrumento do medo que brota do fato de sabermos que se ele está presente naquela realidade e ela pode ser manipulada de acordo com seu demoníaco prazer. O fato dele ir até as últimas consequências dos seus atos é a marca do terror daquela época e a fraqueza do terror de hoje em dia, acostumado a gerar tensão através de sustos fáceis e uma morte tão digital que seria melhor se não víssemos. Ainda melhor é notarmos que a maneira usada por Wes Craven para estabelecer a tensão, que dirigiu e escreveu diversos A Hora do Pesadelo e ressucitou o suspense na década passada com Pânico, foi justamente acelerar os eventos e não nos dar muita certeza do que é possível esperar dessa junção entre real e imaginário. (Mais uma vez comparando com o terror/suspense capenga de hoje, que insiste em explicar todas as regras para no final transgredi-las.)

Por fim, um trabalho completo, embora breve demais. Assistindo o original fica óbvio que ele merecia continuações. A ideia é boa demais para ser usada em apenas 90 minutos de filme.

A Morte do Demônio

May 8, 2013 in Cinema

Evil Dead. EUA, 2013. Director: Fede Alvarez. Writers: Fede Alvarez (screenplay), Rodo Sayagues (screenplay), Sam Raimi. Stars: Jane Levy, Shiloh Fernandez, Lou Taylor Pucci.

A Morte do Demônio

Uma experiência para ser saboreada mais pelos sentidos do que pelo lógica.

Um remake e uma revisita ao clássico trash da década de 80 (antes dirigido por Sam Raimi, o mesmo da trilogia Homem-Aranha), o longa de estreia de Fede Alvarez deixa a razão em segundo plano, mas por um motivo dos mais louváveis: tudo acontece tão rápido que se preocupar demais com isso tornaria a experiência intelectual demais. No fundo, queremos acreditar que tudo não passa de alucinações coletivas que logo irão se revelar uma fraude. Na verdade, rezamos por isso, pois a imersão ao horror da história é feito com tal profundidade que em determinados momentos fica difícil focalizar na tela o que está acontecendo.

A introdução rápida e eficaz mostra uma garota queimada pelo próprio pai (que logo em seguida atira em sua cabeça) em torno de pessoas que parecem pertencer a uma seita satânica. Através das palavras da que seria a feiticeira do grupo, no entanto, ficamos sabendo que o que de fato está ocorrendo é um exorcismo dos mais radicais. Esse pequeno prólogo já revela a que veio o filme, sem pudores de mostrar graficamente tudo o que acontece na tela, miolo por miolo.

Como é de praxe no gênero, algum tempo se passa e vemos o mesmo local revisitado pelo encontro de dois irmãos e seus amigos em uma cabana no meio de uma floresta de pinheiros (que é enfocada sugestivamente logo no início de cabeça pra baixo). A história principal gira em torno de Mia (Jane Levy), que resolve mais uma vez tentar se afastar das drogas que quase a levaram deste mundo. Com o apoio dos amigos — incluindo uma enfermeira — e seu até então ausente irmão (Shiloh Fernandez), o grupo tentará evitar ao máximo a saída do local antes do processo de desintoxicação que Mia precisa enfrentar.

O que não poderia ser previsto é que um livro encontrado no porão desperta o mal que até então parecia adormecido pelo ato visto no início do filme. Revemos o que parece ser a menina queimada, em uma sequência que já dá calafrios ao repassar na mente. E o que acontece em seguida merece existir simplesmente na imaginação visual dos espectadores. Ninguém deveria narrar o filme para seus amigos, pois eles deveria ver (e ouvir) por si mesmos. Irei poupá-los também de maiores descrições.

Uma pequena virtude que torna a narrativa acima da média dos adolescentes descerebrados que não conseguem fugir de uma cabana é a sacada dos jovens tentarem evitar que a amiga não resista à sua abstinência. A partir disso, e entendendo que o que está em jogo também é a longa amizade entre aquelas pessoas, qualquer ato, por mais insano que seja, tenta ser racionalizado. Nós acompanhamos essa tentativa tão desconsolados quanto eles, pois não vemos muito mais do que todos veem. A trilha sonora brinca com o terror em nossa imaginação. Ela participa dessa tentativa de fantasiar, mas sem drama. É leve em muitos momentos tensos. Sem medo de criar algumas cenas escatológicas e outras sobre mutilação e muito sangue, com o risco de impressionar de maneira episódica, sempre somos levados de volta para a questão central: o que fazer nessa situação?

A câmera, sempre esguia e disposta a empregar enquadramentos tortos e movimentos inusitados desde o início (como a floresta invertida já citada), nos força a olhar sempre para os cantos, o que fazemos de maneira inconsciente até mesmo quando sabemos que não veremos nada. Uma técnica batida, sim, mas que funciona extraordinariamente bem aqui, onde o sobrenatural é tateado aos poucos.

Se tornando levemente mais apelativo nos momentos finais, Evil Dead prova sua força ao conduzir-nos em um pós-clímax de maneira incrivelmente eficiente, ainda que para isso force a ação dentro dos lugares mais inusitados possíveis e sob uma forte e inusitada chuva. No entanto, isso é o que torna a experiência fantasiosa mais incrivelmente sedutora. E, caso ainda sobre um sentimento de trapaça, é bom lembrar que se existisse um demônio, seria ingênuo demais pensar que ele seguiria alguma regra.

O filme diverte e é trágico. Diverte pelas sequências absurdas, mas que prendem a atenção. É trágico se pensarmos que essas pessoas estão fazendo o que podem. Não são estúpidas como na maioria dos filmes, e seu pecado menor do grupo talvez seja o ceticismo generalizado, e nem isso é indesculpável (poderia ser explicado pela razão até determinado momento chave onde as coisas fogem completamente do controle).

Talvez seja uma ilusão essa de controle. Ele pode muito bem não existir nunca. Apenas vamos nos tocamos disso aos poucos, dolorosa e lentamente.

Quanto à lógica. Se a única questão em debate seria o livro (que poderia ter sido destruído) ele se resolve sozinho. O resto não merece maiores pensamentos. É uma força oculta e que pode se materializar de diferentes formas.

As interpretações dos atores não é nada demais, mas não prejudica. No entanto, se quiser ter em mente o que assolava tanto o grupo durante todo o tempo, lembre-se da cara de Mia ao retornar da floresta. Essa é a expressão do terror que felizmente ficou do outro lado da tela (espero).

PS: Após os créditos há uma narração em off e uma aparição inusitada, mas apropriada, de um certo personagem.

The Walking Dead – Primeira Temporada

March 3, 2013 in Séries

Idem. EUA, 2010. Creator: Frank Darabont. Stars: Andrew Lincoln, Steven Yeun, Sarah Wayne Callies.

Direção: Ernest R. Dickerson (7 episodes, 2010-2013), Guy Ferland (5 episodes, 2010-2012), Gwyneth Horder-Payton (2 episodes, 2010-2011), Michelle MacLaren (2 episodes, 2010-2011).

Roteiro: Charlie Adlard (43 episodes, 2010-2013), Frank Darabont (43 episodes, 2010-2013), Robert Kirkman (43 episodes, 2010-2013), Tony Moore (43 episodes, 2010-2013), Glen Mazzara (8 episodes, 2010-2013).

Finalmente, por livre e espontânea pressão, decidi começar minha peregrinação por essa série que parece encantar pela dramatização do que antes era visto como piada: um apocalipse zumbi. Tive boas surpresas, principalmente na parte técnica, como a fotografia, que lembra tons de sépia e caracteriza esse ambiente sem qualquer rastro de esperança (além de conseguir se contrapor às cenas com sangue), e o som, que aposta em um em realismo inebriante ao estilizar os ruídos produzidos pelos “errantes”, humanos que morreram e que ressucitaram como criaturas sedentos por carne viva (humana e animal). Já o uso de Matte Paintings — cenários pintados ao fundo —, se em um primeiro momento exalta a solidão daquele mundo com precisão dramática, usado à exaustão revela mais sua artificialidade do que reforça a situação vivida por aquelas pessoas.

The Walking Dead

A parte dramática também começa bem. Acordamos em um hospital junto de Rick Grimes (Andrew Lincoln), um policial que foi baleado e que encontrava-se desacordado em recuperação. Já delineando os rumos da história a partir do seu melhor amigo/colega e a sua família formada por esposa e filho, acompanhamos sua peregrinação em busca de respostas e que culmina em uma Atlanta devastada e um acampamento com pouquíssimos humanos que sobrevivem de saquear os restos de comida da cidade deserta.

Aliás, quando digo “deserta”, me refiro a almas. Constituindo a maior aglomeração de zumbis já vista, os errantes se misturam à paisagem como se sempre fizessem parte do asfalto cinzento e do vento podre. A maior força de The Walking Dead reside justamente nas novas relações e regras que precisam ser criadas para a sobrevivência daquelas pessoas não apenas como animais, mas como seres humanos dotados de consciência.

The Walking Dead3

E embora a série se esforce em ressaltar o lado humano, seus acontecimentos seguem à risca a cartilha televisiva e soam episódicos demais, iniciando e terminando convenientemente na duração de um capítulo (como os acontecimentos em torno das duas irmãs e de um inusitado asilo). Não que esse formato prejudique a história isolada de cada evento. Sabemos o que essas pessoas têm passado durante todo o tempo, e apenas isso consegue unir suas histórias. É por isso que a câmera se fixa por tanto tempo nas duas irmãs e isso não soa invasivo ou repetitivo demais. Há um outro ritmo a seguir na história humana, e a série pontua e reacerta o relógio biológico da sociedade de forma impecável.

Porém, ainda que assuma o drama, a origem cartunesca pode ter gerado alguns percalços ao definir de qual gênero estamos falando, pois ao mostrar um ataque surpresa de zumbis as câmeras são inundadas de sangue de uma forma cômica em um momento intenso e primordialmente dramático. Esse tipo de enfoque pode prejudicar o desenvolvimento da série como narrativa orgânica ou pode nos preparar para futuros acontecimentos que desafiam nossa percepção de absurdo e bizarro.

girl zombie The Walking Dead AMC tv show image

De qualquer forma, do jeito que está, The Walking Dead ainda não disse realmente a que veio, mas promete muito.

João e Maria: Caçadores de Bruxas

January 27, 2013 in Cinema

Hansel & Gretel: Witch Hunters. Alemanha/EUA, 2013. Director: Tommy Wirkola. Writers: Tommy Wirkola, Dante Harper. Stars: Jeremy Renner, Gemma Arterton and Peter Stormare.

João e Maria - Caçadores de Bruxas

Filme pseudo-trash sobre dupla de crianças psicopatas é diversão moderada.

João e Maria, como pode-se notar pelo título e sub-título, é uma reinterpretação do conto infantil dos dois irmãos que, perdidos na floresta, acabam entrando em contato com uma bruxa que mora em uma casa feita de doces. Esse é o único detalhe de toda a trama que nos faz lembrar da história clássica. A partir do momento em que eles se livram da bruxa e a queimam viva a história muda completamente de tom. Naquelas duas faces jovens e satisfeitas por assistirem ao seu precoce primeiro assassinato podemos constatar impressionados que a história não é mais de duas crianças indefesas, mas de dois psicopatas.

Em uma criação de arte interessante ao conceber um antigo vilarejo com uma mitura de realismo e fábula vemos agora o já crescido casal de irmãos equipados com uma tecnologia tão avançada que se assemelha à mesma mágica usada pelas bruxas que estes se especializaram em eliminar. No fundo, podemos dizer que para aquelas pessoas simples do campo os exterminadores de bruxas possuem os mesmos poderes que estas, mas os usam para o “bem”: eliminar essas criaturas horrendas em troca de recompensas em dinheiro.

A história não deixa claro porque eles se especializaram em matar bruxas ou por que escolheram essa vida. Também não fica muito simples determinar qual a época retratada nem em que mundo vivem, pois uma pequena vila distribui garrafas de leite com desenhos de crianças desaparecidas — como se faz hoje em dia onde as cidades possuem milhões de habitantes — e existe uma espécie de jornal que narra as façanhas do casal eliminando essas pragas que aparentemente existem por toda a parte. (Fora que eles possuem já tratamento para diabetes.)

O que o roteiro escrito pelo também diretor Tommy Wirkola (Zumbis na Neve) e o estreante Dante Harper deixa claro é que não está se levando muito a sério, criando diálogos expositivos demais (“você nunca achou uma bruxa que não quisesse matar?”) que acabam por tornar toda a experiência previsível do começo ao fim. Mesmo as cenas de ação são criadas claramente para explorar apenas a sua versão tridimensional do filme — incluindo as cenas escatológicas — e vão perdendo aos poucos o dinamismo inicial, quando ainda não sabíamos as técnicas usadas pela dupla de irmãos para capturar seres que voam em uma vassoura a velocidades impressionantes.

Mesmo assim, o que Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros falhou em utilizar efeitos digitais à exaustão e um tom mais sério totalmente inapropriado para sua história, João e Maria: Caçadores de Bruxas entende que não se recria uma fábula com pano de fundo trash sem conter em seu subtexto algumas piadas a respeito de si próprio ou do mundo fora do filme. E se o fato de existir um troll chamado Edward não é prova o suficiente, não sei o que é.

A Entidade

January 19, 2013 in Home Video

Sinister. EUA, 2012. Director: Scott Derrickson. Writers: Scott Derrickson, C. Robert Cargill. Stars: Ethan Hawke, Juliet Rylance and James Ransone.

Sinister, film

Estamos sabotando nossa própria diversão no terror?

O desenvolvimento de A Entidade diz mais sobre o espectador do que sobre a própria história. Em um mundo cada vez mais cínico e cético, a dificuldade em gerar tensão em um filme de horror — com exceção das inúmeras versões de Atividade Paranormal — permanece na credibilidade dos acontecimentos. Se nossas crenças já não mais estabelecem espíritos e demônios como os seres supremos do mal a imersão nas histórias contemporâneas caminham cada vez mais para os efeitos dessas forças malignas: a morte, simplesmente.

Que é o que ocorre nessa produção dirigida e escrita por Scott Derrickson (O Exorcismo de Emily Rose, O Dia em que a Terra Parou). Acompanhamos a crescente obsessão do escritor de casos não-resolvidos Ellison Oswalt (Ethan Hawke) quando ele e sua família se mudam para uma casa onde ocorreu o enforcamento de uma família inteira, com exceção de uma menina. Ao encontrar uma caixa com fitas gravadas de outros assassinatos com as mesmas características, logo Ellison estabelece um paralelo com serial killers, e a questão do sobrenatural fica meio que por debaixo dos panos, aos poucos tomando o contorno principal.

O problema central da direção de Derrickson é tentar encontrar o ponto médio em que o drama familiar que se configura pela obsessão do pai em voltar à fama que obteve 10 anos atrás e sua determinação em continuar suas investigações mesmo percebendo que sua sanidade — e a de sua família — pode estar sofrendo um risco irreversível. Sem tentar convencer o espectador que tudo o que vemos é real, há uma clara tentativa de fazer-nos acreditar que, devido ao nível de estresse de Ellison e o ambiente sugestionável em que ele próprio se inseriu, tudo aquilo pode ser apenas fruto de sua imaginação.

Infelizmente o nosso próprio nível de estresse não é elevado, e tudo o que sentimos através da ótima atuação de Ethan Hawke — que consegue nos convencer de sua própria degradação — não encontra paralelo na situação que está vivendo, onde muitos dos acontecimentos parecem simplesmente jogados convenientemente para nos dar a falsa impressão de que tudo não passa de uma brincadeira, mesmo mantendo acesa a chama da credulidade. Esse jogo desonesto quebra o nosso pacto de suspensão do real, e nunca é possível de fato acreditar junto com o escritor.

O que nos leva ao impreciso terceiro ato, que está determinado a não deixar pontas soltas, mas que mesmo assim, ou talvez por isso, não nos deixe espaço para nossa própria imaginação. Como um caso de suspense policial, mesmo com seu trágico fim, não há perguntas não respondidas, e o espectador médio sai da sala de cinema satisfeito de ter entendido tudo. Ou seja, o Cinema é rebaixado ao nível de um telejornal para atender ao seu consumidor, e com isso sabota o grande poder do terror em elevar o desconhecido e o seu medo ao grande protagonista desse gênero.

Quarentena

November 18, 2012 in Home Video

Quarantine. EUA, 2008. Direção: John Erick Dowdle. Roteiro: John Erick Dowdle (screenplay), Drew Dowdle (screenplay). Elenco: Jennifer Carpenter, Steve Harris and Columbus Short.

Quarentena não consegue ser um filme ruim. Claro, isso depende de como você está olhando para ele.

No início, por exemplo. Angela Vidal (Jennifer Carpenter) é uma repórter cobrindo uma noite na vida dos bombeiros junto de seu camera man Scott Percival (Steve Harris). Nesse momento temos o tom documental, tão comum hoje em dia nos filmes de terror, e que explora tão bem esse pedacinho de realismo em frente à telona. Há momentos engraçados e extrovertidos, como no momento em que a repórter começa a fazer brincadeiras com a masculinidade de seus entrevistados. Até aqui há o ponto positivo de entrarmos na atmosfera da história, embora ainda saibamos muito pouco dos seus personagens para que tenhamos algo a mais para seguir do que simplesmente o making of de uma reportagem.

A partir do momento em que a ameaça se torna visível, o risco de uma doença se alastrando entre os moradores de um prédio e as autoridades literalmente isolando-os até que tenham o controle da situação, há um motivo para ficarmos atentos, mas não há pessoas onde devemos focar nossa atenção em especial: estamos entretidos pelo momento, assim como fazemos ao assistir programas televisivos sensacionalistas.

Quando o clima fica mais pesado, com pessoas morrendo por toda a parte e ataque dos infectados, fica muito difícil aguentar o riso, pois há algo de sobrenatural demais, caricato demais. Talvez saibamos a cultura de zumbis esteja forte demais para que haja repulsa e medo desse seres tão… inertes? A tensão se mantém, mas a comédia se estabelece aí para estragar a festa.

Porém, e aí está uma grande sequência, no momento em que todas as luzes se desligam e somos obrigados a enfrentar o escuro através da filmagem noturna e o silêncio quase que completo, o destino dos personagens — e de nós — importa mais do que tudo. Nos identificamos quase que de imediato. O que é curioso, se pensarmos que até então estávamos apenas acompanhando sua agonia, desespero e gritos histéricos, mas a uma distância segura. Agora, não. Há o envolvimento direto conosco. Estamos presos na mesma sala, e temos que fazer alguma coisa.

Esse momento, infelizmente, não dura muito tempo.

Possessão

November 6, 2012 in Cinema

The Possession. EUA/Canadá, 2012. Direção: Ole Bornedal. Roteiro: Juliet Snowden, Stiles White. Elenco: Natasha Calis, Jeffrey Dean Morgan e Kyra Sedgwick.

Uma trilha sonora divertida e um terror que tenta resgatar clássicos.

Houve um tempo em que os filmes de terror da década de 90/2000 quase sempre eram sinônimo de sustos fáceis e trilha sonora capenga e repetitiva. Exceto pelo fenômeno Bruxa de Blair e a “importação” dos terrores asiáticos (Espíritos), nada se fez de muito diferente na América que não lembrasse o clássico supremo de terror: O Exorcista. De fato, uma corrente não tão recente também despeja suas diversas adaptações de histórias — O Exorcismo de Emily Rose, O Último Exorcismo — muitas vezes inspiradas em “fatos”, mas que nunca conseguiram entender a capacidade do terror psicológico do trabalho de William Friedkin.

Já este “Possessão” digirido por Ole Bornedal e escrito pelos roteiristas de Presságio — e, não menos importante, produzido por Sam Raimi (Arraste-me Para o Inferno, Uma Noite Alucinante) — contém tudo em doses homeopáticas. Iniciando sua história através de um episódio tragicômico envolvendo uma caixa que emite sussurros em uma lingua estrangeira e sua antiga dona, a trilha sonora exagerada faz os fatos parecerem incidentalmente divertidos, embora não o sejam: o tom pálido de cores da fotografia denuncia a triste história que presenciaremos, mais uma vez “baseada em fatos reais”.

A nova dona da caixa é Em (Natasha Calls), que é filha de pais divorciados, o desligado e ausente Clyde (Jeffrey Dean Morgan) e a super-protetora Stephanie (Kyra Sedgwick). Ela também possui uma irmã, Hannah (Natasha Calis), que não parece desempenhar nenhum papel mais importante do que servir de contraponto para os sustos que (obviamente) não presenciamos com Em.

Cozinhando em forno brando, a criação de suspense sem o uso dos artifícios já batidos como aumento do volume do som ou o corte repentino merece algum crédito. No entanto, não é difícil perceber que tudo se trata de mais uma tentativa de evocar O Exorcismo em tons mais familiares. A família MacNeil de “O Exorcista” não andava bem, e essa família sem sobrenome está suportando um divórcio. Há inúmeras passagens que incluem uma rua noturna deserta e molhada (clichê em qualquer filme, mas em terror mais clichê ainda).

De qualquer forma, criando uma ou duas cenas marcantes, a conclusão possui ótimas sequências que se tornam mais aterrorizantes pelo artifício da urgência. Dessa forma, vemos seus personagens correndo de um canto a outro tentando de todas as maneiras evitar o mal que os assola. Uma linda metáfora de uma família que luta junto para superar um episódio que gostariam de evitar (o divórcio).

Nosferatu

November 2, 2012 in Cinema

Idem. Alemanha, 1922. Direção: F.W. Murnau. Roteiro: Henrik Galeen e Bram Stoker (romance não credidato). Elenco: Max Schreck, Greta Schröder e Ruth Landshoff.

36a. Mostra de São Paulo

Mesmo 90 anos depois, Nosferatu consegue impressionar em suas pontuais cenas clássicas. O resto, resquícios do expressionismo alemão, mas de onde até hoje se emprestam algumas técnicas (como o jogo de sombras), pode ser engraçado pela bizarrice, mas define muito bem a loucura e a doença em torno do desconhecido, do sobrenatural.

A nova trilha sonora composta em homenagem aos 100 anos do autor de Drácula faz dueto com a versão restaurada pelo instituto Murnau a partir das películas originais, e atualiza o horror para os tempos atuais, incluindo lembranças de outros clássicos, como o coral (A Profecia) e os toques frenéticos e repetitivos (Hitchcock). Para Nosferatu é solene, lhe dá dignidade e ao mesmo tempo mantém a tensão de sua tenebrosa história.

O conde assemelha um humano, mas deixa claro que é uma criatura nefasta. Ele depende das trevas, ou seja, da desgraça humana. Não há símbolo melhor do que o sangue para representar a vida.

Há muito texto na história, pois existem diversos detalhes da obra original que precisam ser abordados. Porém, elementos mais periféricos de fato apresentam uma gordura desnecessária na trama, como os caixões de terra. Já outros elementos apenas citados mereceriam um papel mais presente, como o diretor do hospício. Detalhes, enfim, que não diminuem a importância e o impacto do primeiro Drácula no Cinema, e que seria um tema recorrente nas décadas seguintes, e que com exceção da “saga” Crepúsculo, uma fonte de riqueza em seus símbolos e em suas diferentes maneiras de abordar uma lenda tão enigmática e fascinante.

Inferno

October 24, 2012 in Cinema

Hell. Alemanha/Suíca, 2011. Direção: Tim Fehlbaum. Roteiro: Tim Fehlbaum, Thomas Wöbke, Oliver Kahl. Fotografia: Markus Förderer. Elenco: Hannah Herzsprung, Stipe Erceg, Lars Eidinger.

36a. Mostra São Paulo

Inferno cresce bem, como qualquer trabalho de terror/suspense bem executado. O que fortalece o primeiro trabalho do diretor Tim Fehlbaum como trama, porém, é o uso sem ressalvas de um dos seus personagens mais importantes: o sol.

Acompanhamos a peregrinação de duas irmãs e um rapaz dentro de um carro completamente vedado através de um cenário que lembra um deserto, mas que possui estradas, florestas e postos de gasolina. Descobrimos que acontecimentos ainda não entendidos fizeram a temperatura na Terra chegar a níveis que matou boa parte da população por queimaduras e sede. Em um habitat agora seco, árido e sem leis, a busca por água é mandatória.

O uso de uma fotografia que prioriza em absoluto a luz incandecente vinda do sol e que consegue oscilar para um escuro débil de noite é a chave para que sintamos o mesmo que seus personagens. O sentimento de urgência de início é representado por uma câmera inquieta cheia de zooms, que felizmente é interrompida quando o grupo é abordado por um bando de homens que por algum motivo vem capturando os aventureiros por aquelas bandas, que geralmente chegam sedentos e debilitados. O esclarecimento dos mistérios é feito sem pressa e com uma cadência que cria tensão pelas complicações crescentes que prenunciam um terror completo. Os personagens, diferente de suspenses medíocres, não são estúpidos, nem as soluções para os conflitos vem de maneira fácil e mágica. Cada novo passo em direção ao terror possui suas complicações, que se desencadeiam em direção a uma perseguição climática das mais estonteantes, mais uma vez protagonizado pelo sol.

O jogo de cenas é rápido o suficiente para que as pistas-recompensas surjam naturalmente, o que é um ponto forte para a conclusão, que não soa forçada. De uma maneira completamente inusitada, cria uma rima sutil com a animação Padak, do coreano também estreante Lee Dae Hee, que igualmente brinca com a busca pela liberdade de um grupo. Pode ser uma tendência contemporânea ou é a vida pregando na arte a sua ironia.