A Hora do Pesadelo

July 28, 2013 in Home Video

A Nightmare on Elm Street. EUA, 1984. Director: Wes Craven. Writer: Wes Craven. Stars: John Saxon, Heather Langenkamp, Johnny Depp.

A Hora do Pesadelo

Freddy Krueger era muito mais divertido.

Clássico de terror dos anos 80, continua envelhecendo bem, e apesar de sua ingenuidade para com o público sedento por realismo de hoje (só que sem muito sangue, por favor), estabelece o seu medo no campo dos sonhos, onde tudo é possível existir. Os efeitos não-digitais ajudam e muito a nos colocar no quarto com Marge (Ronee Blakley), Tina (Amanda Wyss), Rod (Jsu Garcia) e Glen (Johnny Depp). Quando vemos um garoto ser morto e seu sangue transbordar o teto do seu quarto, se esvaindo de baixo para cima, por mais que saibamos que esse efeito foi produzido filmando o set de cabeça pra baixo o efeito psicológico da cena permanece, pois gera a estranheza necessária do mundo dos sonhos (algo muito higienizado nA Origem de Nolan).

Mesmo assim, Freddy Krueger (Robert Englund) já não assusta mais, e é apenas instrumento do medo que brota do fato de sabermos que se ele está presente naquela realidade e ela pode ser manipulada de acordo com seu demoníaco prazer. O fato dele ir até as últimas consequências dos seus atos é a marca do terror daquela época e a fraqueza do terror de hoje em dia, acostumado a gerar tensão através de sustos fáceis e uma morte tão digital que seria melhor se não víssemos. Ainda melhor é notarmos que a maneira usada por Wes Craven para estabelecer a tensão, que dirigiu e escreveu diversos A Hora do Pesadelo e ressucitou o suspense na década passada com Pânico, foi justamente acelerar os eventos e não nos dar muita certeza do que é possível esperar dessa junção entre real e imaginário. (Mais uma vez comparando com o terror/suspense capenga de hoje, que insiste em explicar todas as regras para no final transgredi-las.)

Por fim, um trabalho completo, embora breve demais. Assistindo o original fica óbvio que ele merecia continuações. A ideia é boa demais para ser usada em apenas 90 minutos de filme.

Retratos de uma Obsessão

July 20, 2013 in Home Video

One Hour Photo. EUA, 2002. Director: Mark Romanek. Writer: Mark Romanek. Stars: Robin Williams, Connie Nielsen, Michael Vartan.

Retratos de uma Obsessão

A fotografia como elemento narrativo de um suspense exemplar.

Entre tantas coisas que poderiam ser destacadas da performance de Robin Williams como Seymour Parrish, um funcionário de uma hoje extinta reveladora de fotos, o que permanece ao final de Retratos de uma Obsessão são os inúmeros filtros que parecem cobrir sua vida de uma aura tão poética quanto trágica. Esse sentimentos ecoam principalmente através das cores, presentes nas fotos e nas vidas das pessoa para quem trabalha, mas que a ele são negadas. Quer uso mais metafórico da fotografia no Cinema do que a própria fotografia sendo o tema principal?

Dos fregueses de costume, uma família em específico é a “obsessão” de Parrish por anos, e sua dedicação em manter a imagem dessa família no decorrer dos anos é ao mesmo tempo tocante e doentio. Nesse sentido, as expressões de um Williams bem mais contido consegue de maneira eficaz a tarefa de nos manter presos a cada passo seu tentando se aproximar de completos estranhos. Da mesma forma, conforme a história começa a se misturar com seus desejos ocultos de pertencer à família, os abusos das cores azul e laranja começam a fazer sentido nesse mundo dessaturado.

Já o trabalho do diretor/roteirista Mark Romanek constrói um thriller que oscila bem entre o clássico e a referência. Em determinado momento, um episódio de Os Simpsons mostra uma piada onde é usado o toque de O Cabo do Medo (Scorsese, 1991). Esse toque, além de uma brincadeira inocente, revela os objetivos do filme enquanto metalinguagem.

Ainda assim, com todas as desculpas possíveis, é difícil ignorar que o diretor de fotografia Jeff Cronenweth não tenha exagerado um pouco. Mas só um pouco. Todo o resto é útil para a construção do personagem e das situações. A medida do exagero é quando todas essas cores insistem em nos jogar para fora do filme. Ou talvez o ritmo às vezes descompassado, que gera um efeito episódico sem necessidade.

De qualquer forma, nada nos prepara para o final anti-climático, revelador e elegante em sua sutileza (e gritante em seu diálogo final, justo em um filme que na maior parte do tempo não precisa disso). Há algo de inocente nesse thriller enquanto thriller, mas algo de maravilhoso sendo construído com cores e enquadramentos enquanto exercício de estilo. Uma pena que ambos não consigam coexistir com total harmonia.

O 100o Trabalho

July 9, 2013 in Home Video

The 100th Job. Brasil/EUA, 2009. Director: Micki Mihich. Writer: Micki Mihich. Stars: Micki Mihich, Angelo Angrisani, Greg A. Baron.

O 100o Trabalho

Curta de cineasta brasileiro surpreende pela construção de um clima que merece ser revisitado.

Para quem, assim como eu, está cansado das pseudo-estilizações de seguidores do Tarantino como Guy Ritchie (Snatch – Porcos E Diamantes), exatamente por estas não colaborarem para a atmosfera do filme mais do que o efeito plástico colabora para vídeo-clipes (e Ritchie de fato veio desse mundo), O 100o. Trabalho é uma respirada de ar fresco que bebe, quem diria, da fonte do neo-noir.

Mais empenhado em estabelecer essa atmosfera opressiva que lida com o destino de um matador profissional em torno do seu trabalho de “efetivação”, a partir do qual ele fará parte da gangue, o diretor/roteirista/editor e ator (!) Micki Mihich pode até cometer pecadilhos com os diálogos muitas vezes verborrágicos demais vindo de criminosos “de carreira”, mas consegue através deles (ou apesar deles) despistar o espectador para o desdobramento do que irá ocorrer na metade final do curta, momento no qual valeu a pena entrar por meros vinte minutos naquele mundo do crime cinematográfico.

Uma passada tão breve por aquele mundo que, confesso, gostaria de poder ver mais. Quem sabe não está aí a renovação do neo-noir que filmes como Sin City iniciaram e que mereceria uma revisita desta década?

A Morte do Demônio

May 8, 2013 in Cinema

Evil Dead. EUA, 2013. Director: Fede Alvarez. Writers: Fede Alvarez (screenplay), Rodo Sayagues (screenplay), Sam Raimi. Stars: Jane Levy, Shiloh Fernandez, Lou Taylor Pucci.

A Morte do Demônio

Uma experiência para ser saboreada mais pelos sentidos do que pelo lógica.

Um remake e uma revisita ao clássico trash da década de 80 (antes dirigido por Sam Raimi, o mesmo da trilogia Homem-Aranha), o longa de estreia de Fede Alvarez deixa a razão em segundo plano, mas por um motivo dos mais louváveis: tudo acontece tão rápido que se preocupar demais com isso tornaria a experiência intelectual demais. No fundo, queremos acreditar que tudo não passa de alucinações coletivas que logo irão se revelar uma fraude. Na verdade, rezamos por isso, pois a imersão ao horror da história é feito com tal profundidade que em determinados momentos fica difícil focalizar na tela o que está acontecendo.

A introdução rápida e eficaz mostra uma garota queimada pelo próprio pai (que logo em seguida atira em sua cabeça) em torno de pessoas que parecem pertencer a uma seita satânica. Através das palavras da que seria a feiticeira do grupo, no entanto, ficamos sabendo que o que de fato está ocorrendo é um exorcismo dos mais radicais. Esse pequeno prólogo já revela a que veio o filme, sem pudores de mostrar graficamente tudo o que acontece na tela, miolo por miolo.

Como é de praxe no gênero, algum tempo se passa e vemos o mesmo local revisitado pelo encontro de dois irmãos e seus amigos em uma cabana no meio de uma floresta de pinheiros (que é enfocada sugestivamente logo no início de cabeça pra baixo). A história principal gira em torno de Mia (Jane Levy), que resolve mais uma vez tentar se afastar das drogas que quase a levaram deste mundo. Com o apoio dos amigos — incluindo uma enfermeira — e seu até então ausente irmão (Shiloh Fernandez), o grupo tentará evitar ao máximo a saída do local antes do processo de desintoxicação que Mia precisa enfrentar.

O que não poderia ser previsto é que um livro encontrado no porão desperta o mal que até então parecia adormecido pelo ato visto no início do filme. Revemos o que parece ser a menina queimada, em uma sequência que já dá calafrios ao repassar na mente. E o que acontece em seguida merece existir simplesmente na imaginação visual dos espectadores. Ninguém deveria narrar o filme para seus amigos, pois eles deveria ver (e ouvir) por si mesmos. Irei poupá-los também de maiores descrições.

Uma pequena virtude que torna a narrativa acima da média dos adolescentes descerebrados que não conseguem fugir de uma cabana é a sacada dos jovens tentarem evitar que a amiga não resista à sua abstinência. A partir disso, e entendendo que o que está em jogo também é a longa amizade entre aquelas pessoas, qualquer ato, por mais insano que seja, tenta ser racionalizado. Nós acompanhamos essa tentativa tão desconsolados quanto eles, pois não vemos muito mais do que todos veem. A trilha sonora brinca com o terror em nossa imaginação. Ela participa dessa tentativa de fantasiar, mas sem drama. É leve em muitos momentos tensos. Sem medo de criar algumas cenas escatológicas e outras sobre mutilação e muito sangue, com o risco de impressionar de maneira episódica, sempre somos levados de volta para a questão central: o que fazer nessa situação?

A câmera, sempre esguia e disposta a empregar enquadramentos tortos e movimentos inusitados desde o início (como a floresta invertida já citada), nos força a olhar sempre para os cantos, o que fazemos de maneira inconsciente até mesmo quando sabemos que não veremos nada. Uma técnica batida, sim, mas que funciona extraordinariamente bem aqui, onde o sobrenatural é tateado aos poucos.

Se tornando levemente mais apelativo nos momentos finais, Evil Dead prova sua força ao conduzir-nos em um pós-clímax de maneira incrivelmente eficiente, ainda que para isso force a ação dentro dos lugares mais inusitados possíveis e sob uma forte e inusitada chuva. No entanto, isso é o que torna a experiência fantasiosa mais incrivelmente sedutora. E, caso ainda sobre um sentimento de trapaça, é bom lembrar que se existisse um demônio, seria ingênuo demais pensar que ele seguiria alguma regra.

O filme diverte e é trágico. Diverte pelas sequências absurdas, mas que prendem a atenção. É trágico se pensarmos que essas pessoas estão fazendo o que podem. Não são estúpidas como na maioria dos filmes, e seu pecado menor do grupo talvez seja o ceticismo generalizado, e nem isso é indesculpável (poderia ser explicado pela razão até determinado momento chave onde as coisas fogem completamente do controle).

Talvez seja uma ilusão essa de controle. Ele pode muito bem não existir nunca. Apenas vamos nos tocamos disso aos poucos, dolorosa e lentamente.

Quanto à lógica. Se a única questão em debate seria o livro (que poderia ter sido destruído) ele se resolve sozinho. O resto não merece maiores pensamentos. É uma força oculta e que pode se materializar de diferentes formas.

As interpretações dos atores não é nada demais, mas não prejudica. No entanto, se quiser ter em mente o que assolava tanto o grupo durante todo o tempo, lembre-se da cara de Mia ao retornar da floresta. Essa é a expressão do terror que felizmente ficou do outro lado da tela (espero).

PS: Após os créditos há uma narração em off e uma aparição inusitada, mas apropriada, de um certo personagem.

A Entidade

January 19, 2013 in Home Video

Sinister. EUA, 2012. Director: Scott Derrickson. Writers: Scott Derrickson, C. Robert Cargill. Stars: Ethan Hawke, Juliet Rylance and James Ransone.

Sinister, film

Estamos sabotando nossa própria diversão no terror?

O desenvolvimento de A Entidade diz mais sobre o espectador do que sobre a própria história. Em um mundo cada vez mais cínico e cético, a dificuldade em gerar tensão em um filme de horror — com exceção das inúmeras versões de Atividade Paranormal — permanece na credibilidade dos acontecimentos. Se nossas crenças já não mais estabelecem espíritos e demônios como os seres supremos do mal a imersão nas histórias contemporâneas caminham cada vez mais para os efeitos dessas forças malignas: a morte, simplesmente.

Que é o que ocorre nessa produção dirigida e escrita por Scott Derrickson (O Exorcismo de Emily Rose, O Dia em que a Terra Parou). Acompanhamos a crescente obsessão do escritor de casos não-resolvidos Ellison Oswalt (Ethan Hawke) quando ele e sua família se mudam para uma casa onde ocorreu o enforcamento de uma família inteira, com exceção de uma menina. Ao encontrar uma caixa com fitas gravadas de outros assassinatos com as mesmas características, logo Ellison estabelece um paralelo com serial killers, e a questão do sobrenatural fica meio que por debaixo dos panos, aos poucos tomando o contorno principal.

O problema central da direção de Derrickson é tentar encontrar o ponto médio em que o drama familiar que se configura pela obsessão do pai em voltar à fama que obteve 10 anos atrás e sua determinação em continuar suas investigações mesmo percebendo que sua sanidade — e a de sua família — pode estar sofrendo um risco irreversível. Sem tentar convencer o espectador que tudo o que vemos é real, há uma clara tentativa de fazer-nos acreditar que, devido ao nível de estresse de Ellison e o ambiente sugestionável em que ele próprio se inseriu, tudo aquilo pode ser apenas fruto de sua imaginação.

Infelizmente o nosso próprio nível de estresse não é elevado, e tudo o que sentimos através da ótima atuação de Ethan Hawke — que consegue nos convencer de sua própria degradação — não encontra paralelo na situação que está vivendo, onde muitos dos acontecimentos parecem simplesmente jogados convenientemente para nos dar a falsa impressão de que tudo não passa de uma brincadeira, mesmo mantendo acesa a chama da credulidade. Esse jogo desonesto quebra o nosso pacto de suspensão do real, e nunca é possível de fato acreditar junto com o escritor.

O que nos leva ao impreciso terceiro ato, que está determinado a não deixar pontas soltas, mas que mesmo assim, ou talvez por isso, não nos deixe espaço para nossa própria imaginação. Como um caso de suspense policial, mesmo com seu trágico fim, não há perguntas não respondidas, e o espectador médio sai da sala de cinema satisfeito de ter entendido tudo. Ou seja, o Cinema é rebaixado ao nível de um telejornal para atender ao seu consumidor, e com isso sabota o grande poder do terror em elevar o desconhecido e o seu medo ao grande protagonista desse gênero.

Janela Indiscreta

January 14, 2013 in Home Video

Rear Window. EUA, 1954. Director: Alfred Hitchcock. Writers: John Michael Hayes (screenplay), Cornell Woolrich (short story). Stars: James Stewart, Grace Kelly and Wendell Corey.

Janela Indiscreta

Veja como o mestre do suspense previu nossa sociedade “reality show”.

Um dos trabalhos mais lembrados da carreira do mestre de suspense Alfred Hitchcock, o ponto mais marcante da história de L.B. ‘Jeff’ Jefferies (James Stewart) — um fotógrafo que precisa manter-se em seu apartamento por conta de sua perna engessada — é o seu único ponto de vista de todos os acontecimentos. Acostumando-se a observar a vida dos outros prédios em volta, é ele que testemunha um suposto crime. Note que a incerteza dos acontecimentos aliado às histórias paralelas dos seus vizinhos contribui para nossa desorientação, que chega ao seu ápice quando o próprio protagonista passa também a correr perigo.

A questão do ponto de vista é levada a sério do começo ao fim, de forma que o filme transforma os espectadores em uma espécie de voyeurs, já que a maioria dos detalhes cruciais da história são vistos com a ajuda de binóculos e uma lente panorâmica. O uso correto do zoom nas tomadas que temos da visão de Jefferies sem esses aparatos aguça mais ainda a curiosidade, pois não podemos enxergar as expressões das pessoas que vemos à distância. Da mesma forma, mesmo com o uso de lentes, não sabemos exatamente o que essas pessoas falam, o que por si só é um forte gancho para nossa imaginação.

Porém, mais revelador é perceber que, assim como no início é citada uma passagem de conhecimento comum sobre todos nós estarmos nos tornando aos poucos xeretas da vida alheia, há uma espécie de prenúncio do que acontece com os personagens (e com o próprio protagonista, que no início olha pela janela apenas com a intenção de se distrair de sua situação). Isso também é — por que não — um quase prenúncio do que nos tornaríamos em frente à televisão e seus reality shows e telejornais sensacionalistas exploradores de violência. E quando digo nós, pretendo mesmo falar no coletivo, pois o fato de não assistir esses programas não nos limita à sua grande influência exerecida através dos que o fazem, uma grande massa da sociedade se transformando em inquisidores da vida alheia e espectadores da violência urbana.

Quarentena

November 18, 2012 in Home Video

Quarantine. EUA, 2008. Direção: John Erick Dowdle. Roteiro: John Erick Dowdle (screenplay), Drew Dowdle (screenplay). Elenco: Jennifer Carpenter, Steve Harris and Columbus Short.

Quarentena não consegue ser um filme ruim. Claro, isso depende de como você está olhando para ele.

No início, por exemplo. Angela Vidal (Jennifer Carpenter) é uma repórter cobrindo uma noite na vida dos bombeiros junto de seu camera man Scott Percival (Steve Harris). Nesse momento temos o tom documental, tão comum hoje em dia nos filmes de terror, e que explora tão bem esse pedacinho de realismo em frente à telona. Há momentos engraçados e extrovertidos, como no momento em que a repórter começa a fazer brincadeiras com a masculinidade de seus entrevistados. Até aqui há o ponto positivo de entrarmos na atmosfera da história, embora ainda saibamos muito pouco dos seus personagens para que tenhamos algo a mais para seguir do que simplesmente o making of de uma reportagem.

A partir do momento em que a ameaça se torna visível, o risco de uma doença se alastrando entre os moradores de um prédio e as autoridades literalmente isolando-os até que tenham o controle da situação, há um motivo para ficarmos atentos, mas não há pessoas onde devemos focar nossa atenção em especial: estamos entretidos pelo momento, assim como fazemos ao assistir programas televisivos sensacionalistas.

Quando o clima fica mais pesado, com pessoas morrendo por toda a parte e ataque dos infectados, fica muito difícil aguentar o riso, pois há algo de sobrenatural demais, caricato demais. Talvez saibamos a cultura de zumbis esteja forte demais para que haja repulsa e medo desse seres tão… inertes? A tensão se mantém, mas a comédia se estabelece aí para estragar a festa.

Porém, e aí está uma grande sequência, no momento em que todas as luzes se desligam e somos obrigados a enfrentar o escuro através da filmagem noturna e o silêncio quase que completo, o destino dos personagens — e de nós — importa mais do que tudo. Nos identificamos quase que de imediato. O que é curioso, se pensarmos que até então estávamos apenas acompanhando sua agonia, desespero e gritos histéricos, mas a uma distância segura. Agora, não. Há o envolvimento direto conosco. Estamos presos na mesma sala, e temos que fazer alguma coisa.

Esse momento, infelizmente, não dura muito tempo.

Inferno

October 24, 2012 in Cinema

Hell. Alemanha/Suíca, 2011. Direção: Tim Fehlbaum. Roteiro: Tim Fehlbaum, Thomas Wöbke, Oliver Kahl. Fotografia: Markus Förderer. Elenco: Hannah Herzsprung, Stipe Erceg, Lars Eidinger.

36a. Mostra São Paulo

Inferno cresce bem, como qualquer trabalho de terror/suspense bem executado. O que fortalece o primeiro trabalho do diretor Tim Fehlbaum como trama, porém, é o uso sem ressalvas de um dos seus personagens mais importantes: o sol.

Acompanhamos a peregrinação de duas irmãs e um rapaz dentro de um carro completamente vedado através de um cenário que lembra um deserto, mas que possui estradas, florestas e postos de gasolina. Descobrimos que acontecimentos ainda não entendidos fizeram a temperatura na Terra chegar a níveis que matou boa parte da população por queimaduras e sede. Em um habitat agora seco, árido e sem leis, a busca por água é mandatória.

O uso de uma fotografia que prioriza em absoluto a luz incandecente vinda do sol e que consegue oscilar para um escuro débil de noite é a chave para que sintamos o mesmo que seus personagens. O sentimento de urgência de início é representado por uma câmera inquieta cheia de zooms, que felizmente é interrompida quando o grupo é abordado por um bando de homens que por algum motivo vem capturando os aventureiros por aquelas bandas, que geralmente chegam sedentos e debilitados. O esclarecimento dos mistérios é feito sem pressa e com uma cadência que cria tensão pelas complicações crescentes que prenunciam um terror completo. Os personagens, diferente de suspenses medíocres, não são estúpidos, nem as soluções para os conflitos vem de maneira fácil e mágica. Cada novo passo em direção ao terror possui suas complicações, que se desencadeiam em direção a uma perseguição climática das mais estonteantes, mais uma vez protagonizado pelo sol.

O jogo de cenas é rápido o suficiente para que as pistas-recompensas surjam naturalmente, o que é um ponto forte para a conclusão, que não soa forçada. De uma maneira completamente inusitada, cria uma rima sutil com a animação Padak, do coreano também estreante Lee Dae Hee, que igualmente brinca com a busca pela liberdade de um grupo. Pode ser uma tendência contemporânea ou é a vida pregando na arte a sua ironia.

Um Corpo que Cai

October 2, 2012 in Home Video

Vertigo. EUA, 1958. Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Alec Coppel, Samuel A. Taylor. Elenco: James Stewart, Kim Novak e Barbara Bel Geddes.

Hitchcock (e o Cinema) no seu máximo.

No topo da lista de melhores filmes de todos os tempos, Cidadão Kane, em 2012, deixa a respeitável posição para o suspense Um Corpo que Cai. É uma notícia que não muda em praticamente nada a importância da obra de Orson Welles para o Cinema, mas altera a percepção do espectador médio para com a Sétima Arte. Se antes as pessoas não enxergavam seria possível a um filme preto e branco recheado de diálogos e múltiplos pontos de vista — uma bagunça, enfim — ser considerado a obra máxima audiovisual. Com um Hitchcock, palatável e feito para estúdio, a aceitação fica um pouco mais fácil.

Afinal de contas, a história gira em torno de elementos muito mais simplistas que a grandiosidade do roteiro de Wells. Aqui temos como figura central o policial aposentado John ‘Scottie’ Ferguson (James Stewart), que desenvolve um trauma de lugares altos ao perder seu parceiro no topo de um prédio durante uma perseguição; isso o impede de subir escadas longas e continuar sua carreira. Recebe, porém, uma proposta de um velho amigo para que investigue o paradeiro de sua esposa, a bela Madeleine (Kim Novak). Ela, aparentemente, está tendo alucinações que a faz pensar ser outra pessoa e vagar pela cidade sem rumo definido. Sem muito o que fazer, boa parte do filme se dedica a esse passatempo em que John fica tão fascinado quanto o espectador ao descobrir detalhes da rotina de Madeleine.

Mesmo assim, não conte com um enredo simplista demais. Hitchcock faz questão de enfocar os detalhes visuais da maneira mais óbvia possível para o terceiro ato do longa, que é de arrebatar. A sua câmera sugestiva apresenta pistas falsas e reais que se misturam em um jogo de imersão completa do espectador à prova de algo paupável. O “Vertigo” do título original diz muito mais do que simplesmente o medo de altura, apesar de um inventivo efeito de câmera aplicado por Hitchcock conseguir representar fielmente o sentimento de vertigem de John. Há ângulos extremamente inusitados na história e no visual do filme que nos dizem para procurarmos no mundo dos sonhos. Os enquadramentos quase sempre incluem elementos próximos e distantes da câmera com a mesma importância. As cores, representativas ao máximo, enfocam o estado de espírito de seus personagens e suas identificações com aquele mundo. Uma fotografia belíssima de Robert Burks continua belíssima e vívida em todas as cenas. E a trilha sonora de Bernard Herrmann é um encantamento à parte e com certeza participa ativamente de toda a história, sem nunca soar intrusivo demais (apenas quando precisa). Para quem está ouvindo pela primeira vez, vai notar certamente as mesmas notas em determinada cena de O Artista, que homenageia o filme.

Até os detalhes cafonas hoje em dia, apesar de datados, possuem um significado maior naquele universo diegético. Ótimos filmes criam ótimas histórias utilizando um tema e gênero quaisquer. Filmes inesquecíveis respiram seu tema e se aprofundam nele o tempo todo. É impossível resistir à beleza de uma obra de arte como Vertigo.

Insônia

April 1, 2012 in Home Video

Insomnia. EUA, 2002. Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Hillary Seitz. Elenco: Al Pacino, Robin Williams e Hilary Swank.

Sempre é possível fazer um belo filme em gêneros desgastados pela indústria.

Em um momento em que Hollywood se esqueceu que os bons policiais/suspenses quase sempre vem dotados de uma carga dramática e multidimencional em seus personagens, o segundo trabalho de Christopher Nolan na direção vem lembrar aos cinéfilos que é possível construir uma narrativa inteligente e ainda assim ser envolvente pela sua ação.

Fazendo como David Fincher em Os Homens que Não Amavam as Mulheres e refazendo um longa sueco (na verdade, também norueguês) de 1997, a história gira em torno de uma cidade em que o sol não se põe (no original, na Noruega, aqui, no Alaska) e um crime envolvendo uma jovem brutalmente assassinada. Quando os detetives Will Dormer (Al Pacino) e Hap Eckhart (Martin Donovan) chegam ao local, no entanto, o clima de tensão já estava no ar e apenas piora em terra.

Sem revelar spoilers fica difícil falar sobre a trama, mas podemos dizer que a relação entre Al Pacino e o misterioso assassino consegue produzir as melhores cenas, cheias de significado.

Pontos fortes: direção, roteiro, trilha sonora, atuações, fotografia.
Pontos fracos: praticamente nenhum.