A Marvada Carne

April 24, 2012 in Home Video

Idem. Brasil, 1987. Direção: André Klotzel. Roteiro: André Klotzel e Carlos Alberto Sofredini. Montagem: Alain Fresnot. Elenco: Dionísio Azevedo, Fernanda Torres, Adilson Barros e Chiquinho Brandão.

Comédia sobre a vida simples, mas longe de ser simplista em seu significado.

É muito fácil assistir à Marvada Carne sem compreender o mínimo de subtexto em uma trama que de tão simples parece totalmente despretenciosa. No entanto, se engana quem imagina que existem filmes que estão aí apenas para entreter. Todo filme reflete necessariamente uma opinião, um argumento e um ponto de vista. Partindo desse princípio, podemos afirmar que A Marvada Carne não só contém muito mais do que aparenta ter em sua superfície como tristemente seu conteúdo carece de exemplos na recente filmografia da comédia nacional, que aposta na exploração sexual e nas piadas contemporâneas vazias.

Vejamos, então. Nhô Totó possui apenas um sonho na vida: comer carne de boi. Para conseguir o que quer, resolve se mudar e encontra uma oportunidade de tornar seu sonho realidade se comprometendo com uma garota cujo pai supostamente pretende matar um boi para a festa de casamento. A garota, aliás, é Fernanda Torres, com seus 20 e poucos anos, já demonstrando seus trejeitos e talento para representar personagens caricatos mas verossímeis em seu contexto.

É com essa argumentação simples e com o título sugestivo que o filme consegue não apenas extrair humor das situações na roça e do falatório caipira típico da região como extrair um conteúdo inclusive de cunho político: como é possível que um cidadão que trabalhe tanto e viva em um país especialista em exportar carne (como um programa de TV inclusive consegue ressaltar o fato) não possa saborear, pelo menos uma vez na vida, um produto tão presente na economia local? Existirá termômetro melhor da desigualdade social do que quando os cidadãos de uma nação não podem sequer apreciar o que de melhor produzem?

Consequentemente, por sua desproporcional importância na “saga”, a carne é elevada à própria categoria de protagonista, pois é ela que move as ações de Totó do começo ao fim. Ações essas ritmadas por um competente trabalho de Alain Fresnot na função de montador e orquestradas pela somatória de canções regionais — incluindo aí uma bucólica participação de Tonico e Tinoco em uma espécie de baile da região — que criam o ambiente perfeito, aconchegante, que irá criar o contraponto dramático do terceiro ato, quando Totó experimenta o caos e a desorientação de uma “tal de cidade” e seu progresso desordenado.

As Mulheres do Sexto Andar

February 29, 2012 in Cinema

Les femmes du 6ème étage. França, 2010. Direção: Philippe Le Guay. Roteiro: Philippe Le Guay e Jérôme Tonnerre. Elenco: Fabrice Luchini, Sandrine Kiberlain e Natalia Verbeke.

Histórias Cruzadas francês encanta pela simpatia e diverte pelas piadas do absurdo.

Filme flerta com um evento interessante ocorrido na França dos anos 60 e que curiosamente está ocorrendo nesse momento na esfera da “sofrida” classe média brasileira: o abandono cada vez maior das empregadas domésticas locais e a ascenção de alternativas, como imigrantes de países vizinhos, notadamente em situação econômica mais fragilizada. Pior: flerta, assim como o recente premiado Histórias Cruzadas, com a figura de um empresário que começa a se preocupar com a classe que o serve. Principalmente, é mérito dizer, com a beleza e prestatividade da nova empregada, a espanhola María Gonzalez (Natalia Verbeke).

Com um ritmo agradável e piadas que apelam para o absurdo de situações, o filme se beneficia imensamente pelo carisma e simpatia de seus personagens, notadamente um grupo de mulheres que vivem para satisfazer seus empregadores com tarefas domésticas, mas que, assim como todos, sonham com melhores condições de vida em sua terra natal, a Espanha.

Com um final mais longo do que deveria, As Mulheres do 6o. Andar é um filme agradável e ao mesmo tempo esquecível, apesar de conter em sua história elementos inseridos de forma sutil o suficiente para chamar a atenção para si mesmo.

Dirty Dancing – Ritmo Quente

February 14, 2012 in Home Video

Dirty Dancing. EUA, 1987. Direção: Emile Ardolino. Roteiro: Eleanor Bergstein. Elenco: Patrick Swayze, Jennifer Grey, Jerry Orbach.

Uma revolução social de duas gerações contada através da dança.

Para os filhos da década de 50/60 a era Disco representou uma mudança radical de apreciar música. Essa mudança não ocorreu obviamente apenas na música, mas na maneira de pensar e agir, sobretudo na adolescência, época conturbada tão bem representada nos trabalhos de John Hughes (Curtindo a Vida Adoidado, O Clube dos Cinco).

É nessa atmosfera que surge esse trabalho tão diferente quanto representativo do seu momento. Além de abordar temas polêmicos como o aborto, ainda que perifericamente, consegue mostrar essa revolução de pensamentos e músicas dos anos 80 como um reflexo das mudanças que ocorreram antes, nos anos 60, onde a história se passa.

Todo esse significado não poderia soar mais óbvio através da encantadora ‘Baby’ (Jennifer Grey, de Curtindo a Vida Adoidado), apelido carinho pelo qual seus pais e sua irmã chamam Frances, a filha caçula da família que irá passar suas férias em um veraneio onde famílias se divertem através dos mesmos jogos e danças tradicionais devidamente programados para entretê-las.

Com uma narrativa ambientada quase como uma fábula, onde Baby não mede esforços para ajudar todos que necessitam e ao mesmo tempo agarra as oportunidades de ser feliz, o que nos conquista é não só sua beleza e inocência, mas a forma como a história é conduzida através da dança, que tem papel primordial para estabelecer o status a qual as pessoas pertencem, dependendo, é claro, a que tipo de dança apreciam. Nesse sentido, o título coube perfeitamente aos propósitos narrativos.

E a dança, maneira universal de comunicação física entre pessoas de qualquer cultura, é usada aqui de maneira impecável não só nas performances exuberantes de Patrick Swayze, Cinthia Rhodes e Jennifer Grey como é acompanhada com um ritmo e uma cronologia impressionantes na montagem, dando a exata impressão — errônea, mas que cabe perfeitamente à intenção — que cada música foi composta para cada cena.

Sangue Negro

January 24, 2012 in Home Video

There Will Be Blood. EUA, 2008. Direção: Paul Thomas Anderson. Roteiro: Paul Thomas Anderson e Upton Sinclair (romance). Elenco: Daniel Day-Lewis, Paul Dano e Ciarán Hinds.

Os limites de uma sociedade imediatista.

Com uma longa introdução sem falas que praticamente diz tudo que precisamos saber do protagonista para entender seus atos durante toda a longa, mas empolgante, história de sua ascensão na indústria do petróleo, Sangue Negro não perde o ritmo e o significado em nenhum momento. Sua fotografia é delineada por sombras e contornos nítidos no horizonte, sempre a nos lembrar do óleo negro, implícito em cada cena, mesmo que não esteja lá. E, quando está, não raro impregna a face das pessoas ou até as fere. Até a trilha sonora, baseada em sons ritmados, evocam a todo o momento as bombas puxando o petróleo para a superfície.

Dito isto, é preciso agora voltar os olhos novamente para Daniel Plainview, encarnado até o osso por um Daniel Day-Lewis com um vigor/ganância sem fins. A grandeza de seus obstáculos, como a igreja e as grandes companhias, apenas reforçam a quase insanidade desse homem e servem de exato contraponto para medirmos o grau de maldade que se esconde por trás do seu até certo ponto melancólico personagem. Um outro grande feito do filme é conseguir usar um vilão como O Protagonista, onde encontramos eco em talvez Cidadão Kane (mais pelo benefício da dúvida, embora em Kane sigamos os rastros de testemunhos, e não a própria visão do personagem-título).

Clube dos Cinco

January 22, 2012 in Home Video

The Breakfast Club. EUA, 1985. Direção e Roteiro: John Hughes. Elenco: Emilio Estevez, Judd Nelson e Molly Ringwald.

Uma tarde agradável com os inspiradores da série Community.

Apesar de parecer mais um filme sessão da tarde, Howard Hughes desafia o raciocínio em cima dos estereótipos dos jovens de sua época, mostrando como cada um deles no fundo é uma peça única, e que não podem ser rotulados pelos adultos.

Tecnicamente, o que mais impressiona são os enquadramentos que sempre tentam focar nos seus personagens principais. Porém, a história já soa meio datada, e é necessário um pouco de comprometimento com o contexto histórico em que ele se insere; dado essa ressalva, é um programa de primeira linha, que até hoje faz pensar sobre os estereótipos que os adolescentes sempre tentam se encaixar (ou evitar).