Flores Raras

August 24, 2013 in Cinema

Idem. Brasil, 2013. Director: Bruno Barreto. Writers: Matthew Chapman (screenplay), Julie Sayres (screenplay), Carmen L. Oliveira (romance), Carolina Kotscho (primeiro roteiro). Stars: Glória Pires, Miranda Otto, Tracy Middendorf.

Flores Raras

Drama-romance sensível e sutil, tal qual poesia.

O tema “polêmico” de Flores Raras não existe há muito tempo, e apenas as mentes reduzidas de nossa época, que infelizmente não são poucas, irão enxergar qualquer anomalia no fato da história girar em torno de um triângulo amoroso entre três mulheres: Mary (Tracy Middendorf), a arquiteta Lota (Glória Pires) e a poetisa Elizabeth Bishop (Miranda Otto), todas encapsuladas em tramas tridimensionais. Sensível e inteligente, Bruno Barreto demonstra que a principal anomalia desse relacionamento é o ego controlador e descontrolado de Lota, uma arquiteta que através das influências políticas e dinheiro consegue manter em sua isolada casa no campo a ilusão de um mundo tolerante e tranquilo.

Aliás, Glória Pires mais uma vez se firma como uma das grandes atrizes de nossa época ao encarnar uma personagem que oscila entre o amoroso e o cruel. No entanto, a grande surpresa fica por conta de Miranda Otto, que constrói e realiza um arco admirável em sua Elizabeth Bishop, que parte de um início tímido a um final… bem, não tímido. O resultado é tão satisfatória que sua personagem cria um aspecto inesperadamente sombrio à história.

Iniciando nos anos 50, passando pelo golpe militar brasileiro e avançando os anos com uma sutileza admirável, nos provocando a sensação de passagem no tempo mais pelos aspectos externos (figurino e direção de arte) a psique dos personagens parece se manter quase intacta, como se pouca coisa tenha mudado mesmo que as rugas venham surgindo. Os problemas do longa parecem residir apenas na direção muitas vezes intrusiva de Barreto, que apela para o fantasioso sem qualquer motivo senão “sobredramatizar” (para não dizer “novelizar”). É por isso que, se uma chuva repentina causa surpresas, isso é passageiro, mas se o mesmo efeito se repete nas luzes de um parque ou em tantos outros momentos, podemos duvidar de nossa própria capacidade de entender as entrelinhas ou o filme duvida que aqueles acontecimentos não tenham força própria.

Mesmo assim, é admirável constatar que, baseado em fatos, o hábil roteiro derivado de um romance consegue entregar uma história se não verossímil, degustável através da própria visão literária de sua protagonista. Isso por si só o equipara a Swimming Pool, uma ficção que faz rima inversa ao realismo da obra de Barreto.

O Mesmo Amor, a Mesma Chuva

July 12, 2013 in Home Video

El mismo amor, la misma lluvia. Argentina/EUA, 1999. Director: Juan José Campanella. Writers: Juan José Campanella, Fernando Castets. Stars: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Ulises Dumont.

Drama político e romance de Campanella.

Juan José Companella dirige pela primeira vez o casal dO Segredo dos Seus Olhos, Ricardo Darín e Soledad Villamil, em um romance leve, episódico e que brinca com as palavras ao vento que digerimos conforme a passagem do tempo faz as pessoas mudarem sua visão de mundo, assim como uma Argentina dos anos 80 em amplas modificações políticas e sociais.

Ricardo Darín como o jornalista Jorge Pellegrini é apenas o olho do furacão que acompanha o processo de redemocratização do país. A morte de um velho colega mexe com todos em volta, e acaba virando um fantasma da redação. A jovem Laura (Villamil) é o combustível que tenta empurrar Jorge para o caminho do sucesso, mesmo este sem o desejo de desengavetar suas ambições literárias. A ironia de Jorge em um momento particularmente hipócrita com Laura reflete a própria ironia da nação. Histórias pessoas se misturam com a história de um povo tentando resgatar sua integridade, e Companella abraça o tema sem dar atenção devida a nenhum dos lados.

Em Algum Lugar do Passado

July 10, 2013 in Home Video

Somewhere in Time. EUA, 1980. Director: Jeannot Szwarc. Writers: Richard Matheson (screenplay), Richard Matheson (novel). Stars: Christopher Reeve, Jane Seymour, Christopher Plummer.

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Drama-romance e ficção científica, todos ao mesmo tempo, compostos com habilidade e harmonia.

Depois de décadas assistindo a Superman – O Filme, confesso que nas primeiras cenas de Em Algum Lugar do Passado foi difícil desassociar a figura de Christopher Reeve do kriptoniano mais famoso do Cinema. Felizmente, foi possível constatar que o talento de Reeve não se limita ao super-herói que eternizou. Digo mais: sua habilidade cômica ímpar é o que consegue balancear tão bem este drama, assim como foi no filme do homem de aço.

E o motivo do humor ser tão necessário em alguns momentos em um drama é que aqui estamos falando de uma história de peso que se traveste de ficção científica, ainda que, assim como Solaris (de Tarkóvski), seja um mero pano de fundo para uma análise profunda e atemporal dos sentimentos humanos. O plot é denso: o dramaturgo Richard Collier (Reeve) suspeita ter participado de momentos no passado longínquo de Elise McKenna (Jane Seymor), uma atriz que conheceu na noite de estreia de seu trabalho no mesmo hotel onde colheu pistas a seu respeito. Com a ajuda de auto-hipnose, Richard volta ao passado e tenta encontrá-la (ou reencontrá-la) e desvendar os sentimentos que nutre a respeito de um quadro de mais de 60 anos.

A maneira com que o diretor Jeannot Szwarc (Tubarão 2, Santa Claus) desenvolve a trama é digna de outros trabalhos de sci-fi mais ambiciosos, como De Volta para o Futuro, o já citado Solaris e Os 12 Macacos. O uso da trilha sonora temática e imortal de John Barry (saga 007) à exaustão é justificada pelo aspecto de quase-sonho da trama, que recebe apoio de uma fotografia absurdamente bela e surreal de Isidore Mankofsky, que flerta tanto com caráter onírico da experiência quanto com a visão idealista dos anos 10. Descartável dizer, esses elementos só poderiam ganhar força com um enquadramento que priorizasse os personagens em detrimento do cenário onde se encontram, algo que Szwarc faz maravilhosamente bem usando travellings seguros em torno de uma direção de arte primorosa em sua verossimilhança, com destaque para os figurinos caprichados que dão vontade de permanecermos naquela época para sempre (tanto que não nos soa estranho que o próprio Richard pense assim).

Amor à Primeira Vista

January 22, 2013 in Home Video

Falling in Love. EUA, 1984. Director: Ulu Grosbard. Writer: Michael Cristofer. Stars: Robert De Niro, Meryl Streep and Harvey Keitel.

Amor à Primeira Vista

Dromance desafiando puritanismo norte-americano.

Ulu Grosbard, falecido recentemente (2012), não fez muitos filmes. Este é um “drama romântico” “a la anos 80″ com Meryl Streep e Robert de Niro nos papéis principais e que lida com um tema ainda muito tabulizado, como podemos notar em trabalho semelhante (mas menos ousado) que Streep fará com Jack Nicholson, “A Difícil Arte de Amar“. Este “Amor à Primeira Vista” flerta o tempo todo com sua posição a respeito de relacionamentos extra-conjugais, e essa indecisão vista hoje em dia pode tanto significar uma época de transição quanto a transição dos seus próprios personagens, aos poucos aprendendo o valor da liberdade. Como fio narrativo, a indecisão de ambos funciona maravilhosamente bem como gerador de tensão.

Essa tensão pode ser sentida materialmente no valor que o tempo possui para ambos. Pelo menos dois encontros na estação um deles se atrasa e o outro precisa aguardar, lembrando que em ambas as situações o encontro entre eles é crucial para o destino de suas vidas. A rima metafória aqui é clara: o casamento pode ser um atraso em nossa vida (o que não quer dizer que seja em todas), e por isso nossa próxima companhia merece o benefício da espera, e paciência para a transição que gera nossa transformação como seres humanos.

A questão a ser notada é que, mesmo sem a certeza do que está fazendo, o filme de Grosbard alça voos mais altos através do amadurecimento do sentimento entre os dois. Se no começo parecia um capricho ambos terem se encontrado tantas vezes ao acaso, aos poucos notamos uma certa necessidade em seus personagens de evoluírem, no sentido de se livrarem das amarras convencionais do que dita o relacionamento de um casal perante a sociedade.

Embora o figurino muitas vezes seja risível (como a cena em que Streep escolhe seu melhor vestido), não há como negar a força narrativa da trilha sonora de Dave Grusin (A Primeira Noite de Um Homem), que inicia com um tom burlesco do natal (pelo menos visto hoje) e termina no próximo natal com um poder contemplativo admirável (embora flerte perigosamente perto do mesmo tom aplicado por Ennio Morricone em Cinema Paradiso).

Piegas ou não, o romance aqui existe de uma maneira não-convencional, o que para um filme de 84 merece pelo menos uma revisita.

A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2, O Final

November 19, 2012 in Cinema

The Twilight Saga: Breaking Dawn – Part 2. EUA, 2012. Direção: Bill Condon. Roteiro: Melissa Rosenberg (screenplay), Stephenie Meyer (novel). Elenco: Kristen Stewart, Robert Pattinson and Taylor Lautner.

A saga molusco termina muito superior ao conjunto da obra.

Ao analisar um filme, mesmo que já existam preconceitos envolvendo a produção — como terríveis e risíveis produções anteriores — é preciso saber dar o braço a torcer quando o que vemos na tela é resultado de uma interpretação do diretor que não apenas melhora as premissas criadas nos filmes anteriores como consegue ainda corrigir impressões deixadas pelos erros do passado. Foi assim que me senti ao assistir ao último capítulo da novela Crepúsculo.

Colocar “apenas” a vida da recém-nascida Renesmee (Mackenzie Foy) em jogo, fruto de um amor entre um vampiro — Edward Cullen (Robert Pattinson) — e uma humana — Bella Swan (Kristen Stewart) — , tornaria o confronto final entre o clã dos Volturi e a família Cullen e seus amigos vampiros e lobos por demais banal e mais uma vez previsível. Porém, além disso, é revelado o plano macabro de Aro (Michael Sheen), o líder do clã, em tomar para si os vampiros mais poderosos inventando qualquer desculpa razoável para guerrear com as famílias onde eles se encontram. Uma estratégia, diga-se de passagem, que cria uma analogia, ainda que fraca, com a estratégia de guerra norte-americana dos últimos 30 anos (se não mais), e apenas o fato dessa analogia estar em uma obra de romance meloso consegue inexplicavelmente elevar a trama vários pontos acima.

Porém, as melhoras não terminam por aqui. Com uma interpretação mais “livre” e definitivamente mais interessante, a Bella Swan vampira de Kristen Stewart faz jus à sua participação sensual em Na Estrada (que eu insisto em apontar como ponto alto na carreira da atriz), além de conseguir melhorar da água para o vinho sua relação com Edward. Tudo faz mais sentido nesse romance a partir da sua transformação, e é uma pena lembrar que fomos obrigados a acompanhar não esse novo casal, mas o par patético dos filmes anteriores. O mesmo final infelizmente não ocorreu com Jacob, que teve que continuar seu romance pedófilo declarado no filme anterior com a pequena Renesmee, que felizmente cresce em uma proporção bem mais rápida que os humanos “puros”. Ainda assim, podemos dizer que foi uma desculpa mais que apropriada para que Jacob e seu bando participassem do último episódio. E por falar em Renesmee, até nela é satisfatório notar a sua parte vampira prevalecendo sobre a mulher insípida que foi sua mãe na versão humana. O alívio desse último episódio para com toda a “saga” parece nunca parar.

Igualmente aprimorado em seus detalhes técnicos, como o brilho dos vampiros e suas corridas e suas lutas, se o realismo nunca existiu na história de fato, pelo menos estão de acordo com a visão fantasiosa e romantizada das escritoras Stephenie Meyer e Melissa Rosenberg. Há um crédito a mais do diretor Bill Condon, responsável pelo desastre anterior, que dessa vez trouxe para mais próximo da tela seus personagens, que vivem seus momentos mais íntimos; um artifício comum em romances, mas que a partir do momento que é usado em Crepúsculo deixa claro que foi um equívoco todos os enquadramentos anteriores do casal romântico (ou do trio), que priorizavam o cenário onde estavam, se esquecendo completamente de estar ser uma história, até onde eu sei, de amor.

E o amor, por falar nele, possui uma interpretação especial e irônica na maneira com que os Cullen resolvem batalhar pelas suas vidas e da pequena Renesmee. Embora as cenas de luta do final sejam empolgantes, viscerais e de certa forma, até cruéis demais — pelo menos uma crueldade nunca mostrada nos filmes anteriores — a sua simples, mas poderosa, conclusão é que de fato impressiona pelo uso inteligente de um artifício até então esquecido ou ignorado, e arriscaria dizer que é o momento mais empolgante e instigante de toda a série.

Nunca se esquecendo de sua origem, mas aproveitando os últimos momentos para melhorar todas as impressões anteriores, “Amanhecer: Parte Final” deixa uma impressão bem positiva de sua história, o que por si só já é um mérito e tanto se recordarmos cada momento em que nosso desejo era desistir de acompanhar o amor impossível entre um vampiro agressivo e covarde e sua humana sem sal.

A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1

November 16, 2012 in Home Video

The Twilight Saga: Breaking Dawn – Part 1. EUA. 2011. Direção: Bill Condon. Roteiro: Melissa Rosenberg (screenplay), Stephenie Meyer (novel). Elenco: Kristen Stewart, Robert Pattinson and Taylor Lautner.

Finalmente entramos na reta final: que alívio!

Se pudéssemos abstrair o fato de que desde seu início a “saga” Crepúsculo não teve uma única linha narrativa que conseguisse manter de fato uma história com começo, meio e fim, seria possível dizer que “Amanhecer: Parte 1″ — penúltimo filme da série — ganha em ritmo próximo ao seu final e consegue nos fazer esquecer, através do seu design de arte mais aprimorado que seus antecessores, os vampiros brilhantes de Stephenie Meyer, que subiam em árvores como macaquinhos excitados.

Mesmo assim, é necessário adentrar na história. Vemos o casamento entre Bella Swan e Edward Cullen, envolto em uma aura de acontecimentos futuros nefastos, traduzidos por delírios de Bella, e que já cumpre parte desse futuro já na lua-de-mel do casal, quando Bella é covardemente agredida pelo seu recém-marido. E pede mais! O sexo existe e não o vemos, apenas agressão. Chega a ser sintomático: o único tema constante em todos os filmes — a tensão sexual do casal/trio — nunca se desenvolve de fato. Fica morno, e continua morno até mesmo depois do próprio ato! Um feito e tanto, se considerarmos que Kristen Stewart consegue ser sensual, como pôde ser visto na cena de dança de Na Estrada.

De qualquer forma, as cenas com os dois pombinhos aparentemente merece mais tempo de tela do que o “grande conflito” da história: Bella engravida. Em meio às agressões que sofre. (Interessante como nunca há prazer nos filmes desse casal de apaixonados.) Esse filho misto de vampiro brilhante e humana sem sal aparentemente é uma aberração que deve ser exterminada, e é isso o que os lobos sem camiseta tentarão fazer. Dois conflitos, então, surgem: 1) a gravidez perigosa de Bella, que pode matá-la — afinal, tem algo brilhante dentro de seu ventre — e 2) a ignorância dos lobos, que pretendem destruir o que não conhecem pelo bem de alguma tradição/pacto passado que pelo jeito não interessa muito para a história, assim como não interessa o recente conceito de “imprinting”, que surge aos 45 minutos do segundo tempo para criar uma expectativa idiota, descartável — pois o conflito dos lobos é descartável — e pedófila!

Talvez fosse melhor nos focarmos no não-essencial da trama: a possibilidade que um vampiro brilhante e sua amada sem sal suportassem todo esse tédio e acontecimentos previsíveis e estúpidos para finalmente apreciarem o amanhecer de um novo dia, com mais efeitos e menos história. Essa não interessa tanto assim.

Felicidade

October 24, 2012 in Cinema

Glück. Alemanha, 2012. Direção: Doris Dörrie. Roteiro: Doris Dörrie. Fotografia: Hanno Lentz. Elenco: Alba Rohrwacher, Andrea Sawatzki and Vinzenz Kiefer.

36a. Mostra de São Paulo

Há uma introdução vigorosa e poderosa em Felicidade, novo trabalho da diretora Doris Dörrie (Hanami – Cerejeiras em Flor). Sem diálogos e um jogo de sons e imagens extremamente econômicos em sua mensagem, acompanhamos a vida perfeita e feliz de Irina (Alba Rohrwacher) em seu país de origem seguido da tragédia que vem com a guerra, representada por um grupo impiedoso de soldados. O choque de realidades é intenso, mas em poucos momentos aliviado com a visão de um cervo, que representa não apenas a última visão de Irina e sua terra natal, mas a capacidade do filme de amenizar passagens fortes de sua história, uma virtude e ao mesmo tempo a sua maior fraqueza.

Mesmo debilitada emocionalmente, ou talvez por causa disso, Irina começa uma outra vida na cidade grande. A capacidade que ela tem de se manter de pé e continuar a respirar suas emoções só consigo atribuir à sua vida passada, plena e cheia de felicidade. A felicidade aqui tem cheiro e cor, representada por elementos simples como o mel ou um pouco de imaginação. Irina diz se alimentar de mel por ser uma abelha. Lembramos do enxame de sua fazenda fugindo dos tiros de canhão. O texto visual do filme é sempre forte e sutil como esse exemplo.

Irina conhece Kalle (Vinzenz Kiefer) e enxerga nele a mesma leveza que possui. Juntos tentam buscar novamente a felicidade, e mesmo que seja difícil nunca sentimos ser mais difícil do que é para qualquer um de nós, que precisamos quase sempre matar um leão por dia. É nesse ponto que a leveza do filme impede que acontecimentos particularmente trágicos e tensos não possuem espaço para crescer. Ao amenizar as situações, perde-se o potencial dramático por uma tenebrosa comédia, e com ela vai-se o significado maior do filme: a felicidade a qualquer custo sacrifica o poder da tristeza.

A Saga Crepúsculo: Eclipse

October 20, 2012 in Home Video

The Twilight Saga: Eclipse. EUA, 2010. Direção: David Slade. Roteiro: Melissa Rosenberg, Stephenie Meyer (romance). Elenco: Kristen Stewart, Robert Pattinson e Taylor Lautner.

A Saga Molusco mais uma vez.

Eclipse encontra no eterno drama – protagonizado pelo trio Jacob (Lautner), Edward (Pattinson) e Bella (Stewart) – o combustível para prosseguir com a saga das famílias de vampiros e lobisomens mutantes que populam o limitado universo da escritora Stephenie Meyer.

O que distingue esse terceiro capítulo dos dois anteriores, além de efeitos digitais aprimorados e uma fotografia que elegantemente dá nome ao filme, são os velhos diálogos envolvendo a transformação (necessária) de Bella em uma vampira brilhante e o amor sufocante que um sente pelo outro inseridos em um clima de guerra, que pode explodir a qualquer momento, e que mais uma vez possui Bella em seu centro.

E quando digo “um pelo outro” incluo aqui também os sentimentos do lobisomem descamisado Jacob, que deixam de ser completamente platônicos, em relação a Bella. O triângulo finalmente se completa em uma inspirada cena em uma barraca gelada, quando Edward finalmente confessa que seria capaz gostar de Jacob. Os diálogos, como sempre, são bem atrapalhados, mas note o olhar dos dois rapazes e entenderá a mensagem muito melhor. Olhe em seus lábios e… bem, deixo o resto das conclusões para um próximo encontro do casal/trio no alto de uma montanha, quando precisarem armar novamente a barraca e se proteger da intolerância e do preconceito lá fora.

Começo a achar agradável a tragicomédia que aqui se configura.

A Difícil Arte de Amar

June 11, 2012 in Home Video

Heartburn. EUA, 1986. Direção: Mike Nichols. Roteiro: Nora Ephron. Elenco: Meryl Streep, Jack Nicholson e Jeff Daniels.

Romance-drama entre Nicholson e Streep fica datado, mas ainda é bom programa.

Um roteiro e um romance de Nora Ephron (Julie & Julia, Mens@gem pra Você, Sintonia de Amor, A Feiticeira…) e uma direção de Mike Nichols (Closer, A Gaiola das Loucas) conseguem dar o tom mais que adequado para que uma jovem Meryl Streep, mas já ganhadora de um Oscar por “Kramer vs Kramer”, conseguisse dar espírito para Rachel, uma jornalista de meia-idade que após o divórcio teme por um novo casamento, mas que mesmo assim se entrega sem receios aos sentimentos pelo também jornalista Mark (um já velho Jack Nicholson), que possui fama de solteirão e não se ater por muito tempo à mesma mulher.

É preciso notar que o filme envelheceu muito mal, mas mesmo assim as virtudes de direção de Nichols e atuação de Streep prevalecem, embora a hoje batidíssima música-tema e trilha sonora da maioria das cenas caia muito mal, e chegue a estragar diversas sequências que harmonizariam muito mais em seu silêncio completo, uma vez que apesar do pano de fundo ser um romance o que vemos na tela é um drama dos mais realistas e pesados, e nossa identificação com o casal é muito forte graças às situações comuns que presenciamos.

No entanto, as relações entre os casais de hoje em dia não poderiam ser mais diferentes do que nesse filme. Muitas coisas mudaram nesses 26 anos, e hoje uma história dessas dificilmente seria rodada, por falta de público. O que não deixa de ser ironicamente um final feliz para o drama da mulher divorciada.

Lua Nova

June 10, 2012 in Home Video

New Moon. EUA, 2009. Direção: Chris Weitz. Roteiro: Melissa Rosenberg (roteiro), Stephenie Meyer (romance). Elenco: Kristen Stewart, Robert Pattinson e Taylor Lautner.

Romance-paródia se reafirma como filme sério e perde uma estrela.

O filme inicial da “saga Crepúsculo” merecia o benefício da dúvida, pois pelas condições com que a história foi desenvolvida ficava muito difícil encaixar o filme no grupo de filmes sérios ou nas paródias. No entanto, com Lua Nova essa dúvida se dissipa completamente, graças aos torturantes 130 minutos que insistem em colocar a protagonista Bella Swan (Kristen Stewart) em diversas situações que nada alteram seu conflito inicial: devo conseguir obrigar meu namorado vampiro Edward Cullen (Robert Pattinson) a me transformar em um ser imortal ou devo morrer tentando?

No fundo, é o que acaba sendo sugerido diversas vezes, quando Edward é obrigado a se mudar da cidadezinha para não trazer suspeitas sobre seu pai, um médico local e que por ser vampiro nunca envelhece. A separação do casal é comparada a Romeu e Julieta, de Shakespeare (quanta ousadia), pois separados não conseguem encontrar motivos para viver (sendo a parte mais triste saber que o pobre do Edward tem dificuldades para cometer o suicídio). Dessa forma, ele decide que é melhor não levá-la com ele, pois teme que não conseguiria protegê-la; o curioso desse raciocínio é que terminamos o filme anterior sabendo que havia um perigo iminente que poderia voltar à cidade, mas que encontraria apenas uma indefesa e desamparada Bella. Bom, de qualquer forma, talvez ele tenha pensado que seria melhor que não a visse sendo devorada.

Por conta disso, e sem ter o que fazer, Bella resolve se aproximar mais do seu vizinho musculoso Jacob (Taylor Lautner) e descobrir o que existe por trás de suas camisetas (e pelo jeito ele terá prazer em mostrar, pois costuma andar descamisado no frio da noite). Quer dizer, no início parece isso, mas olhando mais de perto claro que ela está apenas o usando para não ter que passar todos os dias olhando para a mesma janela da frente de sua casa. Essa, sim, é uma motivação e tanto, pois a vemos fazendo isso meses a fio.

De qualquer forma, o relacionamento entre Bella e Jacob acaba revelando que talvez o maior perigo da saga seja a própria Bella, pois parece fazer com que cada rapaz que ela se aproxime ficar extremamente confuso, com sentimentos mistos de desejo e repulsa, e ao mesmo tempo um forte instinto de protegê-la. Essa proteção, aliás, inclui ela própria, quando acaba descobrindo que consegue ver seu amado vampiro como um fantasma quando aumenta seu nível de adrenalina e decide realizar diversos atos estúpidos (como pular de um penhasco) para conseguir pelo menos admirar o seu semblante pálido e esbranquiçado.

Porém, essa ideia de Bella suicida também é descartada pelo roteiro, que encontra uma outra forma menos original da garota se encontrar com seu amado. A partir dessa sequência e da lógica dos participantes é possível entender que o que a roteirista Melissa Rosenberg está tentando fazer (além de nos confundir) é ofender nosso intelecto de todas as maneiras com que uma comédia de besteirol costuma fazer, só que não sendo engraçada. Talvez essa seja a definição Shakesperiana da dor, e daí a “homenagem”.