O Homem de Aço

July 11, 2013 in Cinema

Man of Steel. EUA/Canadá/Reino Unido, 2013. Director: Zack Snyder. Writers: David S. Goyer, Christopher Nolan, Jerry Siegel, Joe Shuster. Stars: Henry Cavill, Amy Adams, Michael Shannon, Russell Crowe, Diane Lane, Antje Traue, Harry Lennix, Kevin Costner, Laurence Fishburne. Música: Hans Zimmer. Direção de Arte: Chris Farmer, Kim Sinclair.

O Homem de Aço

Reboot empolga pelos efeitos, decepciona em sua força dramática.

“Nós vamos lutar até um de nós morrer.” E obviamente é o que eles fazem. A falta de complexidade aliada à ação desenfreada chega a cansar, e o fato de tanto Zod (Michael Shannon) quanto Superman (Henry Cavill) partirem para a violência gratuita revela mais sobre o último do que sobre o primeiro, programado desde a concepção para guerrear pelo seu povo. Chega a ser um quase insulto que o filho do cientista Jor-El se limite a imitá-lo. Justo ele, que foi um bebê “concebido naturalmente”, o que inteligentemente levanta algumas questões sobre livre-arbítrio que nunca são desenvolvidas. Não é sensato que o filme queira que odiemos Zod por ser uma pessoa que quer reconstruir seu povo — e nesse sentido ele falha como vilão temeroso que Zack Snyder parece acreditar que ele seja — mas podemos sim nos sentir frustrados pela aparente indecisão do Homem de Aço em confrontá-lo.

O Homem de Aço caminha melhor pela sua direção de arte. As naves de Kripton imitam insetos, o que exalta sua evolução tecnológica (algo semelhante a Matrix 3 e suas máquinas). O pai de Kal-El voa em um animal, o que simboliza a falta de crença em uma civilização que renega seu fim próximo. Os efeitos digitais, eficazes no geral, falham onde todos falham: a impossibilidade de reproduzir a dureza do mundo real. Mesmo assim, essa é uma abordagem realista e pretende ser uma (re)introdução de um herói, ou por que não, do proto-herói (o herói primitivo de todos os que se seguiram), que vamos aprendendo a reconhecer por breves flashbacks. (Isso seria o suficiente para entendermos suas reais convicções?) O figurino, ponto polêmico durante todo o projeto, consegue ser fiel à origem de seus personagens (e note como Zod e seus aliados conseguem se diferenciar por um escuro que remete diretamente a Superman 2, e o “design” de Faora-Ul (Antje Traue) é o que mais denuncia essa feliz inspiração). A trilha sonora, outro ponto polêmico, concebida por Hans Zimmer para substituir o insubstituível trabalho de John Williams, possui felizes acordes que prenunciam um tema, mas que busca um significado que não encontra reflexo em sua história. Ele é bonita e atribui peso à narrativa, mas ela reforça o quê? A grandiosidade do quê exatamente está sendo reverenciada? Da destruição? Da batalha?

Por falar em referências, Zack Snider homenageia momentos icônicos dos dois primeiros filmes da série original, dirigidos respectivamente por Richard Donner e Richard Lestes em produção complicada, mas usa para isso uma nova roupagem, visual e metafórica, o que empolga justamente por trazer um pouco de emoção em um filme conduzido quase sempre de forma burocrática (apenas mais uma introdução para próximos capítulos?). Os momentos cômicos quase conseguem resgatar o mesmo contraponto criado por Donner no longa original, mas de forma tão breve que podemos especular se o filme evita o humor para aumentar o drama ou evita distrair o espectador (em certo momento, Superman derruba um contador de acidentes em uma obra, zerando-o, mas mal podemos notar, ou há um erro óbvio de timing entre o momento em que Lois é citada na TV e seu celular toca com o nome de Perry White).

Da mesma forma, personagens são jogados na trama de forma quase aleatória e ficam por lá, como é o caso da própria Lois Lane (Amy Adams), o que me faz especular se ela é a primeira mulher que Clark salva ou a primeira mulher bonita. Mas nem sua beleza parece fazer mover os músculos da face do homem de aço, que é impassível tanto diante do amor quanto da morte. Isso nos faz acreditar que esse mundo de fato não pertence a ele.

E não há de fato como esperar o mesmo charme de Christopher Reeve no papel que imortalizou a figura desse herói. Porém, tudo o que necessitavam seria uma figura menos robótica e mais humana que os efeitos digitais do desastroso Superman Returns. No entanto, mesmo colocando um ator de carne-e-osso essa conexão com seu passado cinematográfico não ocorre (apenas em reproduções de cenas clássicas). Com exceção de Jonathan (Kevin Costner), Martha Kent (Diane Lane) e Lois Lane (essa en partes), o elenco permanece neutro onde as atuações são ponto ativo de uma trama, um drama obviamente Shakesperiano sobre a existência (e talvez a caveira representando o Codex, fonte de toda a “humanidade” de Kripton, não tenha sido colocada ali à toa).

No entanto, é com esse tom quase sempre insípido que Zack Snyder transforma a batalha entre o bem e o mal em algo mais alienígena que os kriptonianos que nela lutam. E a ideia de aos poucos explicar detalhes menores da trama (Lois não pode respirar na atmosfera da nave alienígena…) acaba se tornando um pecado justamente por não prestar a mesma atenção a detalhes muito mais relevantes (se Lois é levada à nave, qual o motivo, e por que diabos ela é colocada naquele compartimento em específico?). Kal-El aparentemente escolhe os humanos quase como um mártir, mas o seu sacrifício esperado nunca vem. A única coisa que parece ser uma constante na história é um roteiro certinho de David S. Goyer e Christopher Nolan que consegue justificar para essa geração boa parte das dúvidas sobre como um herói desse quilate existiria em nosso mundo cético por respostas (como a insistência em explicar sua força descomunal). Se Superman sacrificou algo, foi em prol desse mundo científico em que vivemos, e foi a fantasia dos filmes originais; a possibilidade de voarmos tão alto quanto seu protagonista. Aqui acompanhamos seu voo ao longe, de forma controlada, cientificamente correta. O nosso Superman sacrificou os nossos sonhos de ter um herói onde tudo é possível quando se tem boa vontade.

007 – Os Diamantes São Eternos

June 21, 2013 in Home Video

Diamonds Are Forever. Reino Unido, 1971. Director: Guy Hamilton. Writers: Richard Maibaum (screenplay), Tom Mankiewicz (screenplay). Stars: Sean Connery, Jill St. John, Charles Gray.

007 - Os Diamantes São Eternos

Engraçado, rápido e sagaz.

Última aparição de Sean Connery (estranhamente intercalado com George Lazenby em A Serviço de Sua Majestade), Os Diamantes são Eternos é aquele tipo de filme que já começa a se caracterizar como homenagem dos filmes anteriores e da própria síntese do filme de espionagem de ação. Temos tiradas sarcásticas e momentos empolgantes que são ao mesmo tempo hilários, o que não diminui a tensão em momentos chave, como a aparição de um duplo vilão.

A direção de Guy Hamilton (Goldfinger) é precisa e as cenas de ação estão no nível do filme anterior (ainda que um pouco menos ambicioso). Os cortes são rápidos e os detalhes se perdem em meio ao charme e convicção de Sean Connery como o espião britânico mais famoso do Cinema.

Tiffany Case

BondGirl – Jill St. John é Tiffany Case

Plenty OToole

BondGirl – Lana Wood é Plenty O’Toole

A Parte dos Anjos

March 29, 2013 in Cinema

The Angels’ Share. Reino Unido/França/Bélgica/Itália, 2012. Director: Ken Loach. Writer: Paul Laverty (screenplay). Stars: Paul Brannigan, John Henshaw, Gary Maitland.

A Parte dos Anjos

Dramédia britânica flerta com roteiro tendencioso, mas diverte em experiência etílica.

O diretor Ken Loach consegue extrair tensão nesse suposto drama britânico, como podemos constatar durante um leilão de Wisky e logo antes em uma sequência noturna particularmente inspirada. Essa capacidade, no entanto, parece rivalizar com sua vontade de fazer comédia, que também funciona, mas ao preço de perdermos o gênero inicial. A leveza que ele aplica no resto da história flerta perigosamente com o seu reducionismo. Dessa forma, não é possível desenvolver melhor a relação entre o admirador de uísques e seu protegido, e o aprendizado deste é resumido em 10 segundos de uma cena dele cercado por diversos livros sobre a bebida.

Por outro lado essa mesma capacidade de síntese é bem-vinda na apresentação dos outros personagens. A primeira sequência, onde vemos Albert quase morrer na linha do trem e o corte para o juiz determinando as penas para esses pequenos delitos é eficaz em nos deixar curiosos para saber a história de quem iremos seguir, e parece ser esse um mistério que o diretor se diverte até o final dessa sequência.

Já a dinâmica do grupo que se une para aplicar um golpe baseado nos conhecimentos de Robbie (Paul Brannigan), o protagonista casual, perde justamente por se fixar unicamente no drama deste, empenhando-se para mostrar como a vida do sujeito não pode mudar de rumo caso ele não tome uma medida drástica. O roteiro de Paul Laverty nesse sentido flerta com a desonestidade ao evitar a todo o custo uma solução menos arriscada.

Ainda do ponto de vista narrativo Ken Lock trilha o caminho que dos rapazes pintando-o de dourado, entregando pistas no meio do caminho que permitem que vejamos seus atos muito antes delas acontecerem. E o pior é que não há obstáculos o suficiente para que o desenrolar saia um pouco dos trilhos. Mesmo assim acompanhamos imersos, aguardando que algo dê errado. O imprevisível aqui é que não há obstáculos previsíveis. É o suficiente para nos deixar interessados.

Anjos da Noite

March 3, 2013 in Home Video

Underworld. Reino Unido/Alemanha/Hungria/EUA, 2003. Director: Len Wiseman. Writers: Kevin Grevioux (story), Len Wiseman (story). Stars: Kate Beckinsale, Scott Speedman, Shane Brolly.

Anjos da Noite

O primeiro filme da saga dos vampiros e lobisomens (não estou falando de Crepúsculo) pode conter um pano de fundo curioso e com potencial dramático para um ótimo filme. Infelizmente não é isso que acontece em Anjos da Noite, que se esforça como filme de drama e ação sem conseguir se sair bem em nenhum dos dois.

Ambientado sempre no escuro e no subsolo, a história gira em torno de dois clãs que guerreiam por séculos. Os vampiros, imortais por sua natureza, durante 500 anos vivem um período de hegemonia por terem exterminado quase toda a espécie rival. Uma nova suspeita de que pode estar havendo uma busca por uma arma letal contra os vampiros, porém, faz com que Selena, uma vampira assassina, se envolva com um humano que pode ser a chave desse mistério.

Se envergonhando com uma sinopse tão batida como essa, a atuação dos atores não faz melhor, soando inexpressiva a maior parte do tempo. É como se o único objetivo daquelas pessoas fosse posar para uma nova cena estilizada que usa um figurino dark como se fosse a última invenção do Cinema.

Bom, não é. Rodado seis anos após Matrix, o diretor Lea Wiseman não se envergonha sequer em tentar reproduzir todas as cenas famosas do trabalho dos irmãos Wachowski. Na verdade, nem se limita apenas às famosas – como a garota que sai atirando por um corredor no subsolo – mas até mesmo situações e ângulos que delineiam o estilo dos diretores, como o vilão que se recupera de um golpe ou as tomadas vistas de cima de corredores vazios e um carro de polícia. Para “apoiar” a decisão do diretor, o músico insere toque repetidos à exaustão do filme sobre realidade virtual, não se importando com o fato de que esse universo não possui nenhuma relação com o plagiado senão o tom dark mal copiado.

Se os efeitos visuais impressionam, ou impressionavam na época, hoje eles são expostos como meramente exibicionistas. Ainda mais se notarmos que eles ocorrem em quadros isolados da ação, podendo ser trabalhados isoladamente de duas cenas sem sequer se preocupar em inserir parte da ação por trás da transformação das criaturas.

Os Miseráveis

February 7, 2013 in Cinema

Les Misérables. Reino Unido, 2012. Director: Tom Hooper. Writers: William Nicholson (screenplay), Alain Boublil (screenplay). Stars: Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway.

Os Miseráveis

Musical de Tom Hooper esbarra em direção caótica.

Baseado em uma peça musical (que é baseado no clássico literário de Vitor Hugo), a história de Os Miseráveis se passa na França pós-revolução e gira em torno de Jean Valjean (Hugh Jackman), um ex-prisioneiro que foi condenado por ter roubado um pão e que cumpriu pena por 19 anos. Os destinos de diversos personagens se encontram com Valjean, inclusive Javert (Russell Crowe), o inspetor que cuidava das galés onde realizava trabalhos forçados, e Fantine (Anne Hathaway), mãe da pequena Cosette (Amanda Seyfried crescida) e que faz de tudo para sustentar a filha, inclusive chegando a se prostituir.

Com praticamente todos os diálogos cantados, não há números de dança, mas uma trama que mantém o estilo de opereta. O cenário é completamente secundário e a grandiosidade dos horizontes existe apenas para que vejamos a miséria do povo francês alastrada até onde não se consegue ver (um horizonte de papelão no teatro serviria bem). Hugh Jackman está intenso e compenetrado, e o elenco acessório acompanha seu inabalável ritmo. Só que não há ritmo na direção, e nunca sabemos o porquê estamos vendo uma sequência inteira a respeito, por exemplo, de um amor não correspondido. Tudo que NÃO contribui para mover a história parece ter o dobro da duração.

No entanto, mesmo assim há surpresas pontuais que revigoram a história, mas que não necessariamente são conduzidos com a grandiosidade com que foram concebidos originalmente. A batalha entre os jovens revolucionários e os soldados, forte apenas pelo seu simbolismo, perde a mão na indecisão de Tom Hooper, que consegue a proeza de suavizá-la (e até mesmo banalizá-la) mesmo com a morte de uma criança.

Se não é o elenco empenhando em resgatar o filme do desastre de direção, o estrago com certeza seria irreparável.

007 – A Serviço de Sua Majestade

January 31, 2013 in Home Video

On Her Majesty’s Secret Service. Reino Unido, 1969. Director: Peter R. Hunt. Writers: Simon Raven (additional dialogue), Richard Maibaum (screenplay). Stars: George Lazenby, Diana Rigg, Telly Savalas. Original Music: John Barry.

007 A Serviço de Sua Majestade

Um James Bond com adrenalina e emoções acima do comum.

Mais intenso, talvez pela incerteza na troca de Sean Connery por George Lazenby, e já entregando uma trama que mexe na vida pessoal do agente secreto como nunca antes, A Serviço Secreto de Sua Majestade é também um excelente filme de ação, tanto para sua época quanto para agora.

O diretor Peter Hunt (007 Contra Goldfinger) resolveu com cortes rápidos, muitas vezes com a câmera em movimento frenético, o problema dos fundos falsos e toda a trucagem nas cenas envolvendo carros ou mesmo descendo os Alpes de esqui. O efeito foi um filme dinâmico e que envelheceu melhor do que seus antecessores como filme de ação. A trilha sonora, sempre tão importante, aqui recebe tratamento VIP. Além do excelente intrumental-tema feito para o filme e que se encaixa perfeitamente no novo estilo James Bond, os temas anteriores são reaproveitados em cenas significativas para o personagem em versões que não soam recicladas. Além disso, o tema clássico de John Barry é explorado no momento de identificação entre o novo ator e o clássico Connery.

A inesquecível Bond Girl deste filme desde o início nasce para ser sua parceira, principalmente quando ressurge, assim como ele em seu filme de estreia, dentro de um cassino. Além disso a beleza de Diana Rigg como Tracy consegue o feito de nos fazer relembrar das garotas mais “clássicas”, como Akiko Wakabayashi (Aki), Claudine Auger (Domino) e até mesmo a inconfundível Pussy Galore de Goldfinger (Honor Blackman). Todos esses elementos trazidos a partir de cenas sutilmente reproduzidas não são ao acaso, pois este é, como disse, um momento especial na vida pessoal do agente secreto.

O roteiro de Richard Maibaum, livre dessa vez do formato clássico imposto nos filmes anteriores, ganha mais organicidade e faz com que os eventos pareçam seguir um fluxo ininterrupto e coeso. É o filme de maior duração até agora, mas parece ser o que oferece uma maior imersão no arriscado universo de um agente secreto.

Sean Connery será sempre eternizado por iniciar e estabelecer a adaptação do personagem literário para as telas. A troca de atores, porém, faz um bem enorme para o agente 007 no cinema, pois o torna maleável e eternizável para as futuras gerações, como não podemos negar nos dias de hoje com os filmes de Daniel Craig.

BondGirl – Diana Rigg é Tracy

BondGirl – Diana Rigg é Tracy

Precisamos Falar Sobre o Kevin

December 29, 2012 in Home Video

We Need to Talk About Kevin. Reino Unido/EUA, 2011. Director: Lynne Ramsay. Writers: Lynne Ramsay (screenplay), Rory Kinnear (screenplay). Stars: Tilda Swinton, John C. Reilly and Ezra Miller.

Precisamos Falar Sobre o Kevin

Entrega de Tilda Swinton e direção/montagem arrebatadoras tornam o filme um exemplo na arte de contar histórias.

“Precisamos Falar Sobre o Kevin” aborda de maneira surpreendente e inovadora o ponto de vista não de Kevin, um menino problemático que se tornará na sua adolescência autor de uma tragédia, mas o drama de sua mãe, evocadamente chamada Eva — a que deu à luz Caim, o primeiro assassino do mundo bíblico — e interpretada por Tilda Swinton de maneira brilhante e sem qualquer reservas.

Não se privando de esconder os acontecimentos futuros que irão ocasionar uma mudança radical na vida de toda a família, mas principalmente de Eva, a direção de Lynne Ramsay e a montagem de Joe Bini preferem “brincar” com um jogo de causa e consequência que consegue de maneira impressionante potencializar ainda mais a tensão, o suspense e o drama que se estabelece na vida de Eva a partir do nascimento de Kevin (Jasper Newell e Ezra Miller), seu primeiro filho e que parece não desenvolver suas habilidades morais e emocionais como as outras crianças. Note que eu disse “parece”, e um outro elemento intensificador de tensão usado pela diretora é exatamente nunca deixar clara essa relação de causalidade, preferindo utilizar as percepções e sentimentos da mãe, esta que talvez possua um destino tão trágico quanto a deusa Cassandra, que conhece o seu destino através de sonhos mas não consegue evitá-lo.

Ao mesmo tempo em que a história caminha pelas sutilezas da montagem e de idas e vindas pelo futuro e passado de seus personagens, o uso igualmente arraigado do vermelho na direção de arte e fotografia dos cenários, onde até mesmo um singelo uso de pelúcia pode representar perigo, é digno de aplausos. E igualmente significativa é a edição de som, que consegue sussurrar mensagens subliminares por todo o trajeto mental que Eva parece percorrer após a sua vida não ter mais volta. Os ecos formados entre esses sons e as músicas escolhidas pelo projeto são uma brincadeira à parte.

Nunca nos permitindo parar para respirar, mas em vez disso conseguindo manter um ritmo adequado para processarmos tudo o que virá no esmagador terceiro ato, o brilhantismo de “Precisamos falar…” reside não em sua história, mas as soluções desenvolvidas por toda a equipe para transmitir seu significado de maneira mais visceral possível sem cair no óbvio. Sensorialmente abalante, se torna um filme merecedor de revisitas frequentes.

Liv & Ingmar – Uma História de Amor

December 18, 2012 in Cinema

Liv & Ingmar. Noruega/Reino Unido/Índia, 2012. Director: Dheeraj Akolkar. Writer: Dheeraj Akolkar. Stars: Ingmar Bergman and Liv Ullmann.

Liv & Ingmar - Uma História de Amor

Documentário sobre relação de diretor sueco não decola nos sentimentos humanos.

Com certeza o diretor/roteirista Dheeraj Akolkar conhece a fundo o estilo dos filmes do diretor clássico sueco Ingmar Bergman, pois produziu um documentário que reflete exatamente a cinegrafia do autor e utiliza como pano de fundo seu romance e amizade com sua principal atriz: Liv Ullmann.

O filme quase todo é narrado por Ullmann no tempo presente, onde uma ilha belamente fotografada é o personagem principal das histórias envolvendo a atriz e seu diretor. Dentro dos mesmos moldes do excelente José & Pillar, a história não é sobre Bergman, mas sobre sua relação com Ullman. No entanto, diferente do filme de José Saramago, não há uma forte conexão entre o amante/amigo e o diretor, e acabamos por não saber praticamente nada sobre a rotina do aclamado cineasta, o que pode soar decepcionante em diversos momentos em que o longa parece tentar mergulhar em um estudo de personagem mais atento.

Utilizando excessivos fade-ins e fade-outs para narrar os episódios do casal, e demonstrando uma falta de imaginação preocupante em um trabalho exatamente sobre um diretor que primou por desvendar os sentimentos humanos, “Liv & Ingmar” carece de imagens de arquivo, mas, principalmente, de uma mente criativa que extraia mais de Liv do que o velho clichê de entrevista única.

Com 007 Só Se Vive Duas Vezes

November 27, 2012 in Home Video

You Only Live Twice. Reino Unido, 1967. Direção: Lewis Gilbert. Roteiro: Harold Jack Bloom (additional story material), Roald Dahl (screenplay). Elenco: Sean Connery, Akiko Wakabayashi, Tetsurô Tanba, Bernard Lee, Lois Maxwell, Desmond Llewelyn, Donald Pleasence and Mie Hama.

O mito James Bond encontra seu vilão definitivo?

Só se vive duas vezes tem aquela grandiosidade das aventuras do agente 007 no formato clássico que todos lembram, com um ambiente fantástico demais para ser verdade, mas uma trama com pontas e mistérios o suficiente para ficarmos entretidos por boa parte do tempo. Mais acelerado que seus antecessores, a iminência de uma guerra nuclear entre EUA e URSS causada por uma bizarra interferência na corrida espacial é o que causa a primeira “morte” de James Bond, o que dá nome ao filme e possui um plot replicado no recente Skyfalk, mas que aqui adquire um tom mais solene e… fúnebre!

A rapidez do filme se contrapõe à leve e inspirada música-tema, entre as minhas favoritas pelo seu refrão característico e memorável. Logo que termina a abertura-tema partimos para uma verdadeira agitação em torno de diversos cenários do Japão, seus traços culturais e, claro: uma série de lindas e misteriosas Bond Girls asiáticas, mas com destaques abslutos para Akiko Wakabayashi e Mie Hama, que fazem os papéis respectivos de Aki e Kissy.

Toda grandiosidade em torno da missão do agente britânico logo se explica ao descobrirmos que o chefão da SPECTRO está por trás da abdução dos foguetes russos e americanos. A série Austin Powers foi inteiramente baseada no vilão Ernst Blofeld, interpretado de maneira icônica por Donald Pleasence, e esse fascínio pelo personagem é inteiramente justificado: sua versão megalomaníaca do mal, caracterizado pelos seus traços calculistas e de certa forma cômicos são a alavanca necessária para uma série que se pauta em uma visão fantasiosa do espião: o que investiga e luta usando suas artimanhas tecnológicas.

O Cinema merecia um herói como esse. Depois de “You Only Live Twice” esse mito se solidifica e se mantém por décadas a fio.

BondGirl – Mie Hama é Kissy

BondGirl – Akiko Wakabayashi é Aki

007 Contra a Chantagem Atômica

November 11, 2012 in Home Video

Thunderball. Reino Unido, 1965. Direção: Terence Young. Roteiro: Richard Maibaum, John Hopkins, Jack Whittingham (original). Elenco: Sean Connery, Claudine Auger e Adolfo Celi.

007 mais uma vez.

Mais um vilão, Largo (Adolfo Celi), que mantém relações estreitas com o agente 007 e a volta do diretor Terence Young para a franquia. A Bondgirl da vez, Domino (Claudine Auger), é uma ótima surpresa no elenco, pois possui um vigor que ainda restava nas companheiras de Bond (com exceção de Pussy Galore em Goldfinger, que continua sendo minha favorita até o momento). A trama gira em torno do roubo de dois mísseis nucleares pela organização criminosa ESPECTRO, que chantageia os governos americano e britânico ameaçando explodir seus territórios caso não entreguem um milhão de libras. Logo no início do filme há uma reunião da ESPECTRO que vale a pena recordar, com direito a um alçapão nas cadeiras dos mega-criminosos em sua reunião de maldades. Embora cada vez mais caricato, os filmes de James Bond ainda possuem um cavalheiro à altura para suas missões: Sean Connery. E se não fosse pela sua postura e entrega ao personagem seria difícil não entendermos seu universo senão como auto-paródia, algo curioso se considerarmos que ainda não existe de fato o “mito” James Bond. Mesmo assim é crédito de Sir Connery dar o tom realista para o agente britânico, mesmo que este esteja fazendo algo absurdo, como voando com sua mochila ou atirando rapidamente e prendendo um inimigo contra uma árvore.

Divertido em diversos pontos, mas lento e demasiadamente estendido em outros (como o ato final debaixo da água), 007 Contra a Chantagem Atômica parece ser o sinal de que as coisas deverão mudar em breve, ou os filmes logo se parecerão mais do mesmo.

BondGirl – Claudine Auger é Domino