O Mesmo Amor, a Mesma Chuva

July 12, 2013 in Home Video

El mismo amor, la misma lluvia. Argentina/EUA, 1999. Director: Juan José Campanella. Writers: Juan José Campanella, Fernando Castets. Stars: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Ulises Dumont.

Drama político e romance de Campanella.

Juan José Companella dirige pela primeira vez o casal dO Segredo dos Seus Olhos, Ricardo Darín e Soledad Villamil, em um romance leve, episódico e que brinca com as palavras ao vento que digerimos conforme a passagem do tempo faz as pessoas mudarem sua visão de mundo, assim como uma Argentina dos anos 80 em amplas modificações políticas e sociais.

Ricardo Darín como o jornalista Jorge Pellegrini é apenas o olho do furacão que acompanha o processo de redemocratização do país. A morte de um velho colega mexe com todos em volta, e acaba virando um fantasma da redação. A jovem Laura (Villamil) é o combustível que tenta empurrar Jorge para o caminho do sucesso, mesmo este sem o desejo de desengavetar suas ambições literárias. A ironia de Jorge em um momento particularmente hipócrita com Laura reflete a própria ironia da nação. Histórias pessoas se misturam com a história de um povo tentando resgatar sua integridade, e Companella abraça o tema sem dar atenção devida a nenhum dos lados.

A Marvada Carne

April 24, 2012 in Home Video

Idem. Brasil, 1987. Direção: André Klotzel. Roteiro: André Klotzel e Carlos Alberto Sofredini. Montagem: Alain Fresnot. Elenco: Dionísio Azevedo, Fernanda Torres, Adilson Barros e Chiquinho Brandão.

Comédia sobre a vida simples, mas longe de ser simplista em seu significado.

É muito fácil assistir à Marvada Carne sem compreender o mínimo de subtexto em uma trama que de tão simples parece totalmente despretenciosa. No entanto, se engana quem imagina que existem filmes que estão aí apenas para entreter. Todo filme reflete necessariamente uma opinião, um argumento e um ponto de vista. Partindo desse princípio, podemos afirmar que A Marvada Carne não só contém muito mais do que aparenta ter em sua superfície como tristemente seu conteúdo carece de exemplos na recente filmografia da comédia nacional, que aposta na exploração sexual e nas piadas contemporâneas vazias.

Vejamos, então. Nhô Totó possui apenas um sonho na vida: comer carne de boi. Para conseguir o que quer, resolve se mudar e encontra uma oportunidade de tornar seu sonho realidade se comprometendo com uma garota cujo pai supostamente pretende matar um boi para a festa de casamento. A garota, aliás, é Fernanda Torres, com seus 20 e poucos anos, já demonstrando seus trejeitos e talento para representar personagens caricatos mas verossímeis em seu contexto.

É com essa argumentação simples e com o título sugestivo que o filme consegue não apenas extrair humor das situações na roça e do falatório caipira típico da região como extrair um conteúdo inclusive de cunho político: como é possível que um cidadão que trabalhe tanto e viva em um país especialista em exportar carne (como um programa de TV inclusive consegue ressaltar o fato) não possa saborear, pelo menos uma vez na vida, um produto tão presente na economia local? Existirá termômetro melhor da desigualdade social do que quando os cidadãos de uma nação não podem sequer apreciar o que de melhor produzem?

Consequentemente, por sua desproporcional importância na “saga”, a carne é elevada à própria categoria de protagonista, pois é ela que move as ações de Totó do começo ao fim. Ações essas ritmadas por um competente trabalho de Alain Fresnot na função de montador e orquestradas pela somatória de canções regionais — incluindo aí uma bucólica participação de Tonico e Tinoco em uma espécie de baile da região — que criam o ambiente perfeito, aconchegante, que irá criar o contraponto dramático do terceiro ato, quando Totó experimenta o caos e a desorientação de uma “tal de cidade” e seu progresso desordenado.

Audiência Pública pelo Cine Belas Artes

April 24, 2012 in Blogging

O quê: Audiência Pública – Todos pela desapropriação e reabertura do Cine Belas Artes em São Paulo/SP.

Quando: Amanhã, dia 25 de abril de 2012.

Onde: Auditório Paulo Kobayashi da Assembleia Legislativa.

Quem: Organizado pela Comissão de Educação e Cultura.

Nota: Fui informado por e-mail pelo vereador Eliseu Gabriel, que tem se empenhado junto com os moradores da cidade nesse assunto.

A Dama de Ferro

March 3, 2012 in Cinema

The Iron Lady. Reino Unido/França, 2011. Direção: Phyllida Lloyd. Roteiro: Abi Morgan. Elenco: Meryl Streep, Jim Broadbent e Richard E. Grant.

Diferente de Tudo Pelo Poder, um filme politicamente covarde.

Ao terminar o filme temos a nítida impressão que ele foi dirigido por alguém que possui ideias completamente repulsivas a respeito da figura de Margaret Thatcher e/ou sobre a ideia de uma mulher governando uma nação. Ou isso ou não temos aí um estudo de personagem (histórico), mas simplesmente um pseudo-documentário que tenta ilustrar tanto a vida pessoal quanto política de uma das mulheres mais significativas do nosso século, mas sem conseguir unificá-la em um ser inteligível, sugerindo de uma forma covarde e inescrupulosa que, bem, se as coisas aconteceram daquela maneira, foi porque estávamos falando de uma mulher que não soube o seu lugar.

De qualquer forma, a fotografia sóbria e fria nos leva para o campo das memórias (delírios?) de uma pessoa agora já no fim de sua vida, sozinha nos pensamentos, mas que tenta não se render à sua decadente posição. Ironicamente é através dela que teremos acesso à sua história. E só pode ser ironia, porque a própria pessoa não consegue estabelecer uma lógica que defina seu raciocínio, seja como esposa ou como ministra. E se temos a esperança que as coisas venham a se encaixar durante a evolução da história, ledo engano. Na verdade, elas pioram, e se tornam episódicas (como a odiável guerra das Malvinas, que nem o pessoal da legendagem teve a coragem de nomeá-las de Ilhas Falkland).

É irônico também que vejamos a ministra Thatcher dando ordens e discursos vazios, pois em nada acrescentam à sua já conhecida história, pois continuam desamarradas de suas convicções. Quer dizer, existem convicções, mas essas são genéricas demais para estabelecerem uma relação entre a figura política e a pessoa por trás de suas palavras.

A direção apenas piora isso, inserindo idas e vindas que nada acrescentam e em muito complicam. Ao final temos a sensação de realmente nunca termos conhecido MT como esperaríamos de um filme sobre sua vida. Se em Cidadão Kane isso é uma virtude, pois afinal estamos ouvindo o depoimento de diversas pessoas que conheciam cada um uma faceta do magnata, em A Dama de Ferro é um grave defeito, pois as impressões vem direto da própria pessoa, e não há prova mais incontestável das contradições da história do que a última cena, onde vemos nossa protagonista realizar um ato que por si só é simbólico para os espectadores atentos que notarem um dos seus primeiros discursos, voltado para o estereótipo da mulher. Se isso não é covardia cinematográfica, difícil saber o que é.

Tudo Pelo Poder

December 28, 2011 in Cinema

The Ides of March. EUA, 2011. Direção: George Clooney. Roteiro: George Clooney, Grant Heslov e Beau Willimon. Elenco: Ryan Gosling (Stephen Meyers), George Clooney (Governor Mike Morris), Philip Seymour Hoffman (Paul Zara), Paul Giamatti (Tom Duffy), Evan Rachel Wood (Molly Stearns), Marisa Tomei (Ida Horowicz), Jeffrey Wright (Senator Thompson), Max Minghella (Ben Harpen).

A política como sempre a vimos: assustadora.

Geralmente filmes que tentam revelar os bastidores da política soam pretenciosos e bobinhos em suas conjecturas infantis e roteiros confusos e incompletos. Esse não é o caso de Tudo Pelo Poder, que consegue, de maneira didática e assustadora, revelar muito mais sobre o pano de fundo de influências do que gostaríamos de saber ou de admitir.

Nesse sentido, e apesar de textos muitas vezes necessariamente longos, a direção concisa de George Clooney revela de maneira brilhante as inúmeras subtramas no contexto do poder e como ele vira mercadoria negociável, independente das aspirações ou princípios dos candidatos à presidência. Aliás, o próprio caráter das pessoas envolvidas, mesmo que aparente, vira moeda de influência que possibilita, por exemplo, que figuras competentes da propaganda como Stephen Meyers (Ryan Gosling) confiem e arquitetem de maneira impecável cada próximo movimento de seu candidado, no caso o governador Mike Morris (George Clooney), justamente pela esperança que seus discursos representam para uma nação que depois da crise terrorista e posteriormente econômica anseia quase que desesperadamente.

Na verdade, o que move Meyers é justamente o que faz com que o espectador tome o partido quase que incondicional por Morris, pois seus diálogos sempre revelam uma pessoa imparcial e de bom senso que emerge em meio a opiniões acaloradas sobre temas polêmicos. É quase impossível não se deixar levar pelo magnetismo de seu discurso eloquente e sua inabalável auto-confiança.

É por isso mesmo que, quando o terceiro ato se encarrega de desabar essas convicções como um castelo de cartas levemente mal arranjado, sentimos um mal estar. Não tanto por estarmos presenciando mais uma veia corruptível, mas talvez por essa veia existir em cada um de nós, em menor ou maior grau. Fica parecendo que é praticamente impossível de desvencilhar dos caminhos que Morris e seu pupilo são obrigados a seguir, e o que é mais trágico, seguem esse caminho pelo amor à política.

Quando o jogo começa a virar é que a direção segura de Clooney arrebata o espectador em cenas de tirar o fôlego como quando um certo personagem atende ao celular, ou em suas sutis, mas belíssimas, rimas visuais, como quando outra pessoa desafia a gravidade das atenções fugindo seu olhar de onde todos estão hipnotizados, confirmando naquele momento a radical mudança a qual foi obrigado a passar em poucas horas. Tudo isso impregnado em uma fotografia obscura, sisuda e até um certo ponto sinistra. Nunca há um raio de luz para nos abençoar no filme de Clooney. Se há, é fruto do mesmo cinismo que construiu o candidato perfeito e nos desafia a olhar para dentro dele e enxergar o mecanismo macabro da política, reflexo de nós mesmos.

Um Sonho de Amor

December 22, 2011 in Cinema

Io sono l’amore. Itália, 2009. Direção e Roteiro: Luca Guadagnino. Elenco: Tilda Swinton (Emma Recchi), Flavio Parenti (Edoardo Recchi Jr.), Edoardo Gabbriellini (Antonio Biscaglia).

O novo cinema italiano, ainda político, cresce em forma e narrativa.

Essa história sobre a mudança dos valores sob vários aspectos é uma abordagem quase idílica do novo cinema italiano. Assistimos com certa solenidade o sisudo jantar em família (evidenciado pelo exagero de sombras) em que o patriarca, já debilitado, transfere o controle da empresa para seu filho e neto. O inusitado e refrescante dessa nova história é que nos bastidores (ou para ser mais direto, na cozinha) encontra-se a origem de mudanças radicais naquela forma de funcionar o mundo.

Com detalhes que mesclam realidade e sonho, o filme acaba realizando um entrecorte que não necessariamente faz sentido, mas que acompanha principalmente a ascensão da mãe dessa família, Emma Recchi (Tilda Swinton), mais sob o aspecto amoroso, mas que faz rima com a ascenção da própria empresa familiar, que para crescer necessita se aventurar no universo das aquisições e fusões do mundo capitalista. E por falar em rima, faz de sua abordagem uma narrativa muito mais efetiva do que seu antecessor temático Baarìa, de Tornatore, no sentido de unir pessoas e valores.

Os Nomes do Amor

December 10, 2011 in Cinema

Le nom des gens. França, 2010. Direção: Michel Leclerc. Roteiro: Michel Leclerc, Baya Kasmi. Elenco: Jacques Gamblin (Arthur Martin), Sara Forestier (Baya Benmahmoud), Zinedine Soualem (Mohamed Benhmamoud), Carole Franck (Cécile Delivet Benmahmoud), Jacques Boudet (Lucien Martin), Michèle Moretti (Annette Martin).

Sexo e política no mesmo caldo.

Ele, um esquerdista especialista em epidemias nos animais. Ela, uma libertária tão libertária que às vezes se esquece de colocar a roupa para sair de casa. Ambos, uma relação que mescla tanto as visões políticas quanto sexuais da França atual. Porém, mais importante, levanta a sensível questão da imigração, que vem engrossando caldo desde o movimento anti-terrorista liderado pelo governo Bush e evidenciado na crise europeia.

Narrando o passado dos pais e avós dos personagens como em entrevistas informais, isso ao mesmo tempo que expõem seus sentimentos, é usado como artifício de engajamento político e explica inclusive o relacionamento social de ambos. Dessa forma, o fato da geração anterior padecer nos campos de concentração ou ter origem estrangeira é motivo para que não se toque nunca no assunto ou se use qualquer expressão que remeta a esse passado. Ao mesmo tempo, o trauma dela de ter sido molestada quando criança, embora na maioria das vezes torna a pessoa quando adulta recatada, adota um aspecto prático e funcional (onde o sexo é usado para conversão política). Distraída ao máximo, é capaz de nunca reparar quando acidentalmente deixa seus peitos de fora (em público) e, embora tenha convicções políticas, acaba sempre votando no pior rival.

Com uma trilha sonora leve, que acompanha o ritmo de seus personagens, e uma fotografia de cores básicas, que remete não apenas às cores da bandeira da França mas também ao uso generalizado de bandeiras no sentido de sempre defendermos nosso ponto de vista, Os Nomes do Amor caminha serenamente pelo seu caminho, sempre ressaltando os absurdos das opiniões extremadas e do racionalismo exarcebado que nos impede muitas vezes de pensar (como a funcionária que conhece a mãe do rapaz por 30 anos, mas se nega a emitir outro documento até que ela comprove cidadania francesa) ou de sentir. O mundo para muitos pode até ser preto e branco, mas o filtro cômico pelo qual o filme nos faz enxergar o comportamento insano das pessoas que pensam assim nos faz concluir que, na prática, o mais sensato é enxergamos a cinza paisagem, mesmo.

Diário de uma Busca

August 29, 2011 in Cinema

Direção e Roteiro: Flavia Castro.

Assistir a filmes constantemente e por muito tempo te dá, aos poucos, a capacidade de discernir a linguagem de cada autor e, o que eu acho mais interessante de tudo, extrair as técnicas usadas de forma inconsciente, apenas deixando fluir a percepção comum de um espectador assistindo a uma sessão de cinema. É uma sensação meio que mágica.

Fonte: www.cinemasunibanco.com.br

No caso desse documentário de Flavia Castro, que mostra, ao estilo road movie, sua pesquisa pela história do pai, reacionário ativo da época das ditaduras da América do Sul, é visível sua preocupação em tornar o filme o mais fluido possível e ao mesmo tempo resgatar a memória do pai através do depoimento de pessoas que conviveram com Celso Afonso Gay de Castro, no melhor estilo Cidadão Kane com reality show.

Fonte: m.cinema.uol.com.br

Ordenando de forma competente a ordem dos eventos, os depoimentos, se não necessariamente espontâneos, alcançam esteticamente uma história gostosa de acompanhar, pois há um recorte de narrativas cronológicas que nos permitem entender um pouco de como era a vida dos revolucionários na época, e isso se fortalece ainda mais com a escolha inteligente das músicas que dão o tom nos momentos certos para prolongar essa atmosfera nostálgica para cada período na vida de Celso Castro e todos que o acompanhavam.

Fonte: www.flickr.comphotosriofilmfestival

Não contente em ficar só nisso, o filme ganha ares investigativos quando, em determinado momento, começa a viajar pelos lugares que o pai esteve e a visitar as casas onde ele morava, momentos esses que só tem a acrescentar à nossa própria experiência com o filme, e Castro consegue ainda obter os melhores recortes visuais, como a visão da janela de um avisão indo para o Chile, ou ao mostrar a Torre Eiffel apenas pela foto amarelada de quando era adolescente.

Fonte: guia.folha.com.br

Ao mesmo tempo evocando o lado investigativo por parte de sua misteriosa morte, ocorrida em um apartamento em Porto Alegre durante um suposto assalto (e julgado, talvez erroneamente, como suicídio), a realizadora utiliza técnicas criativas e curiosas para mostrar notícias da época através de recortes de jornais e fotos, utilizando ao mesmo tempo uma montagem ritmada, zoom, foco e iluminação que apresentam um misto de urgência e passado.

O documentário de Castro estreia em uma época que parece tentar evocar o desejo das pessoas de cada vez mais resgatar esse passado manchado, mais pelas pessoas que participaram dele do que pela visão histórica. E é isso que Flavia Castro consegue, de maneira simples e ao mesmo tempo intimista, não se aprodundando muito nas questões macro-políticas da época, sempre mantendo o control ligado no enfoque humano.

O resultado, se não brilhante, é mais que satisfatório.

Quebrando o Tabu

June 23, 2011 in Cinema

Documentário. Direção: Fernando Grostein Andrade. Roteiro: Carolina Kotscho, Fernando Grostein Andrade e outros.

Existem filmes que não são apenas interessantes de se assistir como mais uma manifestação de arte. Os documentários, por natureza, quase sempre tentam nos envolver em algum tipo de realidade que, por muitas vezes não fazer parte da nossa, é preciso ser escancarada e dissecada da maneira como os idealizadores do projeto acreditam ser importante.

É pegando carona na opinião de figuras eminentes de nossa época, e o próprio testemunho dessas pessoas que estavam erradas em seus conceitos sobre o tráfico de drogas e que, conforme observamos hoje em dia, a declarada “Guerra às Drogas” não tem surtido efeito nos últimos 40 anos. Dessa forma, é louvável que seja feito um filme a respeito de tudo que aprendemos até agora e partamos para a análise de possíveis soluções.

Abaixo minhas observações iniciais sobre o filme. Sobre o tema, preciso refletir (e muito) sobre ele, já que o filme abriu várias portas de percepção sobre o problema que a sociedade vive.

  • Destaca-se nessa experiência uma produção de estilo, com a própria descrição dos relatos e a ilustração por casos comuns que acontecem aos usuários de drogas sendo feita com animações artísticas que evocam a própria experiência com as drogas, evidenciada pelo o uso de cores e formatos exaltados.
  • Ao mesmo tempo, tenta ser abrangente ao máximo, evidenciando a experiência dos outros países no problema das drogas pela voz das pessoas envolvidas em todos os âmbitos, dos líderes dessas nações até o usuario final, passando pelos criminosos e a força policial envolvida no processo de combate generalizado da cadeia mercadológica.
  • Fernando Henrique é visto conversando praticamente com todas essas pessoas, o que ao mesmo tempo que serve de testemunho ao seu engajamento no assunto aos poucos estampa em sua testa o rótulo de, se não especialista, o representante no Brasil por essa causa.

Para saber mais

Os Agentes do Destino

May 19, 2011 in Cinema

The Adjustment Bureau. EUA, 2011. Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi. Com: Matt Damon (David Norris), Emily Blunt (Elise Sellas), John Slattery (Richardson), Anthony Mackie (Harry Mitchell) e Terence Stamp (Thompson).

Em uma época em que religião e economia precisam ser reinventadas, a visão mesclada de ambas em uma organização fria e calculista não deixa de ser no mínimo curiosa. Porém, mais do que isso é constatarmos que os homens sisudos do filme têm por função coordenar algo que para nós, seres humanos, especialmente em tempos de crise, é sabidamente a única coisa de que realmente somos donos: o livre arbítrio.

Sabendo disso, e ainda de bônus o fato do personagem de Matt Damon ser um político popular, jovem e em ascenção, mas que ao mesmo tempo se questiona sobre suas prioridades, conseguimos, desde o iníco, um filme que aborda discussões pelo menos um passo adiante sobre algumas de nossas principais convicções sociais.

De forma que, quando vemos o discurso de David Norris (Damon), refeito na hora de improviso, que estigma desde já o nosso conceito de espontaneidade, explicando para um público completamente hipnotizado pelo seu poder de comunicação como os sapatos que ele calçou durante a campanha são desgastados meticulosamente para que ao mesmo tempo atraia o trabalhador comum e não afaste a elite do mundo financeiro, somos levados através de um pano de fundo realista para uma experiência no mínimo intrigante sobre o funcionamento da nossa própria realidade.

E, de fato, existe algo durante toda a projeção que nos incita a ficarmos permanentemente curiosos a respeito do futuro de David e Elise, pois, ao mesmo tempo que descobrimos como esse futuro é construído, não conseguimos concebê-lo desde o início, condicionados que estamos com a evolução de uma narrativa cinematográfica clássica, com seus imprevistos e percalços necessários ao arco dramático de nosso protagonista.

E é justamente nesse momento que percebemos a maior fraqueza do filme: não conseguir estimular os anseios dos dois personagens, fixando-se, no lugar, em descrever durante o trajeto a forma como os tais agentes trabalham e os problemas que precisam enfrentar para tornar tudo funcionando da maneira que foram instruídos para funcionar.

No entanto, essa é uma parte necessária ao tema do filme, e muito bem-vinda, pois assim como em A Origem, precisamos de explicações muitas vezes didáticas de como as coisas funcionam nesse universo. O problema, contudo, é que, no terceiro ato, ao tentar voltar-se completamente para David e Eloise, o filme perca toda a construção feita até então para dar foco ao casal do filme que sequer conseguiu se definir na narrativa. Dessa forma, a decisão de David de vê-la mais uma vez, e para isso montar uma estratégia de guerra, soa forçado demais.

Portanto, é de esfriar os ânimos que um filme que se entregue em seu início tão corajosamente a instigar o raciocínio de seus espectadores mais abertos à filosofia, em seu final se entregue justamente ao seu oposto, quase como se o próprio filme, vítima de um plano maior, precisasse reassumir o lado clichê das produções de Hollywood e voltasse à normalidade em seus últimos quinze minutos.

Porém, não seria essa a finalização metalinguística do seu próprio criador?

Pontos fortes: É claro que a dinâmica por trás do funcionamento das portas possui suas cenas de puro êxtase visual narrativo, como nos momentos em que David precisa pular de porta em porta constantemente.

Pontos fracos: George Nolfi prova ter sido um ótimo roteirista (O Ultimato Bourne, Doze Homens e Outro Segredo) até ter sido escalado para direção, neste que é seu primeiro trabalho.

Filmes bobos sobre o tema “mistério e conspiração mundial” para ver com pipoca

  • A Caixa. Cameron Diaz bem que podia ficar só nas comédias românticas.
  • Os Esquecidos. Nada como termos sempre a mesma explicação para os mesmos tipos de filmes.
  • O Mistério da Rua 7. Precisa dizer algo mais que o título?