RED 2 – Aposentados e Ainda Mais Perigosos

August 3, 2013 in Cinema

Red 2. EUA/França/Canadá, 2013. Director: Dean Parisot. Writers: Jon Hoeber, Erich Hoeber. Stars: Bruce Willis, John Malkovich, Helen Mirren.

RED 2 - Aposentados e Ainda Mais Perigosos

Continuação dos velhinhos espiões é mais do mesmo (um pouco menos).

Parte divertido e parte esquecível, engraçadinho pelo fato dos seus personagens serem idosos que ainda estão na ativa em sua vida de espiões e assassinos profissionais, RED faz parte desse revival de filmes com atores dos anos 80/90 que acabou se saindo razoavelmente bem e “garantiu” uma continuação. Assim é que nasce RED 2, que esquece completamente da sua premissa de contar uma história de espiões com velhinhos (o fato da idade avançada dos heróis é irrevelante aqui) e tenta se tornar interessante complicando sua história em torno de uma trama bobinha e sem imaginação.

É dessa forma que as maiores virtudes do filme acabam sendo as caretas de John Malkovich e uma ou outra cena de ação, que pelo menos são orquestradas de maneira infinitamente melhor do que o sofrível Duro de Matar 5 (que, aliás, também abandona a premissa da série). Se a coerência é uma virtude, podemos dizer que RED 2 faz jus ao original, se tornando igualmente esquecível a partir do momento que saímos da sala de projeção.

A Fuga

March 21, 2013 in Cinema

Deadfall. EUA, 2012. Director: Stefan Ruzowitzky. Writer: Zach Dean. Stars: Eric Bana, Olivia Wilde, Charlie Hunnam.

A Fuga

Policial sem empolgação, drama sem tridimensionalidade.

Não há muito o que falar de A Fuga (Deadfall), com Eric Bana e Olivia Wilde. As atuações desses dois atores elevam uma experiência banal de uma história mediocremente interessante sobre um casal de irmãos, Addison e Liza, que realiza um roubo e precisam fugir pela fronteira com o Canadá. No caminham encontram situações que vão aos poucos revelando suas características e seu passado juntos do pai alcoólatra. Mas isso é pouco. Nunca ficamos sabendo de fato o suficiente para que faça sentido acompanhá-los ou entender o que está em jogo. Addison não é violento, mas estrategista, se torna quando necessário. Porém, não mais do que qualquer pessoa comum no seu lugar. Liza parece querer dizer algo mais a partir do seu comportamento dissimulado e sua lascívia. A troca de nomes que ocorre em determinado momento é um recurso óbvio demais, o que faz perder toda a sutileza da introdução que sugere um histórico incestuoso.

Como se não bastasse somos obrigados a dividir o tempo em tela com outra família, formada por um xerife aposentado (Kris Kristofferson), sua mulher (Sissy Spacek) e o filho Jay (Charlie Hunnam), um ex-boxeador que acabou de sair da prisão por entregar uma luta. Há uma cena inicial com seu treinador em que é sugerido que o rapaz não tem mesmo sorte, mas o que ocorre em seguida nos leva a crer que algumas pontas soltas continuaram soltas no roteiro. O pai nunca o perdoou, mas ele está indo para casa passar o dia de ação de graças. O que ocorre em seguida é tão óbvio que tudo parece somar-se a uma grande perda de tempo.

A câmera do diretor Stefan Ruzowitzky parece tornar as coisas um pouco mais confusas ao não saber definir o estilo que pretende seguir. Se em determinado momento em um banheiro de motel o zoom oscilante evocando realismo e urgência é usado, nunca saberemos por que, pois o resto da história lembra o gênero policial genérico sem personagens marcantes em um ritmo lento e constante.

Em determinados momentos lembramos de Fargo porque a polícia parece estar sempre um passo atrás dos bandiso. Só que diferente do excelente trabalho dos irmãos Coen, a figura da filha do xerife local (mais uma família na história) não chega nem perto da sagacidade de Marge Gunderson (apesar de ter muito mais sorte e ser levada magicamente onde a ação ocorre). Assim como essa lembrança passageira toda a história é uma série de colagens de personagens ainda não terminados ou fracos demais, o que compromete todo o desenvolvimento das histórias paralelas, pois nunca ficamos de fato interessados em qualquer uma das três narrativas.

Com uma ou outra sequência isolada que poderia adicionar mais sobre aquelas pessoas e o que estão vivendo (como a noite na cabana com Addison e uma menina), a cena final que deveria representar todo o clímax daquela situação nunca chega a ser marcante. Piora a situação quando vemos um certo policial realizar um ato completamente insano e sem motivo algum. Se bem que, à essa altura do campeonato, quem se importa com coerência narrativa?

Os Bons Companheiros

January 1, 2013 in Home Video

Goodfellas. EUA, 1990. Director: Martin Scorsese. Writers: Nicholas Pileggi (book), Nicholas Pileggi (screenplay). Stars: Robert De Niro, Ray Liotta and Joe Pesci. Film Editing: James Y. Kwei, Thelma Schoonmaker. Cinematography: Michael Ballhaus.

Os Bons Companheiros

Trabalho de gângsters de Scorsese compete com seu Taxi Driver e Touro Indomável.

A primeira sequência de Os Bons Companheiros começa com os personagens de Robert de Niro (James Conway), Ray Liotta (Henry Hill) e Joe Pesci (Tommy DeVito) tendo que parar o carro para dar fim ao corpo que ainda insistia em manter-se vivo no porta-malas. A violência gráfica com que isso ocorre é sanguinária tanto na luz quanto no ato que ocorre na traseira do veículo. Quando acompanhamos o crescimento de Henry entre os gângsters e voltamos novamente a essa cena é como se fizéssemos já parte do grupo: da gangue e da família que estes formam.

Não há limites para a violência filmada por Scorsese, mas há sempre um motivo muito claro para ela acontecer, nem que seja um acesso de raiva de Tommy, que, já sabemos, parece explodir pelo menor dos motivos de uma hora para outra. O interessante é acompanhar como Henry encara a impulsividade de Tommy, pois esta é a história de um homem que pertence ao grupo dos “Goodfellas”, mas parece manter um dos olhos abertos.

Filmado com uma fotografia absolutamente soberba, de comparar-se a outra obra máxima, O Poderoso Chefão, não possui quase nada comparável ao filme do Copolla mesmo ambos sendo filmes de máfia. A exceção óbvia fica por conta do seu virtuosismo técnico, presente em ambos. Já acostumado com uma equipe que equilibra fotografia, direção de arte e trilha sonora à altura do roteiro e direção impecáveis, como pode ser visto em Taxi Driver e Touro Indomável, Scorsese ainda conta com a magnífica montadora Thelma Schoonmaker, que junto com James Kwei tornam a tarefa de acompanhar mais de duas horas de tensão e envolvimento agradável graças às belíssimas transições.

Não há mais nada a dizer sobre Goodfellas por enquanto, pois é um filme que deve ser degustado com certeza mais de uma vez. A primeira é uma imersão tão completa que acabamos fingindo não se tratar de um filme. É a vida real, romantizada, dramatizada, mas tão real que fica difícil separar os elementos que formam a obra de arte.

Memórias de um Assassino

January 1, 2013 in Home Video

Salinui chueok. Coreia do Sul, 2003. Director: Joon-ho Bong. Writers: Joon-ho Bong, Kwang-rim Kim. Stars: Kang-ho Song, Sang-kyung Kim and Roe-ha Kim.

Memórias de um Assassino

Um filme de investigação policial com uma dose de realismo sádico.

Memórias de um Assassino, do diretor Joon-ho Bong (O Hospedeiro, Mother – A Busca Pela Verdade), compreende que a principal faceta de uma investigação pode estar muitas vezes nos próprios investigadores. Apostando em nossa identificação com os detetives Park Doo-Man (Kang-ho Song) e Seo Tae-Yoon (Sang-kyung Kim), investe na dinâmica entre os dois desde até antes que o primeiro chegue na pequena cidade para ajudar as autoridades locais a desvendar o estupro e assassinato de duas bonitas jovens.

Infelizmente, muito do que se gostaria de saber sobre esses dois personagens fica mais oculto do que o próprio assassino. Nunca entendemos a real motivação de Park Doo-Man ter saído de Seul e nunca chegamos realmente a sermos justificados pelos atos de crueldade e manipulação dos suspeitos de Sang, forçando-se de todo o jeito a encontrar um culpado pelos assassinatos, mesmo que este nunca seja realmente incriminado.

O que nos sobra é a investigação em si, que se aproveita sim da psique dos dois policiais, mas consegue nossa atenção por mais de duas horas de uma busca frustrada exatamente pela criação de um ritmo que oscila de maneira competente entre o humor e o suspense. Acompanhamos cada pista e cada indidente como se fizéssemos parte daquele grupo, e perdemos e reganhamos as esperanças exatamente como eles.

Mantendo a coerência narrativa até o fim, um ato se extrema honestidade com o espectador — ainda que muitos possam não gostar da ideia —, “Memórias de um Assassino” inverte nossas expectativas a todo o momento, misturando realismo e fantasia frequentemente. O final pertence ao campo do realismo, o que não o torna melhor nem pior que outros filmes do gênero, mas sim extremamente honesto.

A Sombra do Inimigo

December 20, 2012 in Cinema

Alex Cross. EUA, 2012. Director: Rob Cohen. Writers: Marc Moss (screenplay), Kerry Williamson (screenplay). Stars: Tyler Perry, Matthew Fox and Rachel Nichols.

kinopoisk.ru

Policial clichê decide se afastar do espectador para soar inteligente.

Alex Cross, aqui chamado de “A Sombra do Inimigo”, é daqueles filmes que apostam em sua própria esperteza. Como não poderia deixar de ser, cai em sua própria auto-indulgência e como consequência é incapaz sequer de trilhar uma narrativa decente que nos faça acompanhar o drama vivido pelo seu personagem-título.

Vivido pelo ator/diretor/roteirista Tyler Perry, o policial Alex Cross é dotado aparentemente de faculdades dedutivas que lembram Sherlock Holmes — artifício demonstrado apenas no anúncio da gravidez de sua mulher e abandonado logo depois. Junto com seu companheiro Thomas (Edward Burns) precisa investigar a origem de um quádruplo assassinato ocorrido em uma casa de um bairro milionário. Ao mesmo tempo, decide se candidatar a um cargo burocrático em outra cidade para ter mais tempo para sua família, o que o coloca na mesma situação de tantos outros policiais e o seu último caso “na ativa”.

Após se encontrar cara-a-cara com o assassino (Matthew Fox) que foi apelidado despropositadamente como Picasso por conta dos desenhos que costuma deixar na cena do crime e cuja arte remete ao estilo do pintor, Alex acaba tendo que enfrentar o ódio do sujeito de frente, pois os policiais acabam se tornando alvos acidentais. O motivo dele querer infringir dor a todas as suas vítimas nunca fica claro, mas é cristalino a sua estupidez pelo modus operandi do seu primeiro crime, onde foi deduzido pelos detetives que ao paralisar uma moça que claramente não consegue falar, Picasso torturou sua vítima para que esta “falasse” a senha do seu laptop.

No entanto, esses pequenos furos de lógica são pecadilhos perto dos diálogos completamente pedestres que somos obrigados a ouvir, entre eles “está doendo”, “te pegamos”, “isto é um estacionamento” (quando todos em volta já sabem disso) e por aí vai a valsa. Tudo isso contribui para a fragilização cada vez maior da história, que não consegue em momento algum criar um nível de tensão eficiente, pois com esses deslizes aliado ao uso de uma câmera que insiste em tremer em toda cena de ação torna muito difícil acompanharmos qualquer coisa.

Se bem que, ainda que conseguíssemos entender o que há por trás de uma trama tão básica, previsível e incoerente em todos os seus detalhes, não haveria prazer algum em constatar o óbvio.

Argo

November 17, 2012 in Cinema

Idem. EUA, 2012. Direção: Ben Affleck. Roteiro: Chris Terrio (screenplay), Joshuah Bearman (article). Elenco: Ben Affleck, Bryan Cranston and John Goodman.

Como um filme de ação consegue emocionar pelo seu realismo?

O início de Argo, terceiro trabalho de Ben Affleck atrás das câmeras, já mostra a que veio. Com uma sequência que envolve a invasão do consulado americano pela população Iraniana — revoltada pelo exílio de seu ex-ditador sanguinário pelos EUA — a tensão se estabelece como uma constante durante toda a projeção, como um ruído a ensurdecer pela constância. A fotografia documental do filme, realista pelas cores fracas e grãos maiores, imediata pelos movimentos incessantes de câmera, consegue se fundir com imagens reais do acontecimento que de fato ocorreu no início da década de 80. A câmera, ao aplicar zooms nas pessoas envolvidas, aproxima o espectador do drama pessoal que se estabelece com esse evento quando descobrimos que seis refugiados poderão ser executados a qualquer momento se forem descobertos.

A introdução que precede a história é rápida, mas faz questão de apresentar todos os fatos políticos que precederam ao ataque. Enquanto ambos os governos negociam durante meses o destino dos presos no consulado a retirada dos refugiados é uma prioridade que, embora oculta, se torna preocupação constante por conta da opinião popular. Há inúmeros ângulos pelos quais se pode analisar a questão — econômico, político, social — e as lentes de Affleck não deixam escapar nenhum deles.

Ao passar-se meses sem ideias com o mínimo de chance de dar certo, o “surgimento” de Tony Mendez (Ben Affleck), um agente da CIA que mantém uma relação distante com seu filho e esposa e que parece ser o menos indicado a pensar a respeito de salvar vidas, é o responsável direto por planejar a produção de um filme de mentira para fazer com que os refugiados saiam do país como inofensivos canadenses. Parece ser a única coisa que conseguiu ser aceito pelo governo (e não temos muitas certeza do porquê), ainda que com receios de que isso gere o efeito contrário, e não apenas pessoas morram, mas a humilhação de um plano patético abra ainda mais a ferida americana nesse incidente diplomático.

O que ocorre em seguida é resultado de um tratamento realista, mas fictício o suficiente para ter o ar cinematográfico necessário para que haja ação mesmo quando estão todos esperando as próximas ordens. Exausto, o grupo que pretende ser resgatado aceitaria qualquer coisa que salve suas vidas, menos ser entregue a um plano vindo de Hollywood (que as câmeras de Affleck sabiamente enfocam através dos seus letreiros caídos, resultado da deterioração e descaso de décadas). Como é possível que alguém saia vivo de um disparate desses?

De qualquer forma, o que nos segura nas cadeiras ainda é a certeza de que essas pessoas passaram muito próximo do que é retratado na tela, e que por isso mesmo sua história é digna de ser mostrada com grandiosidade e até com um certo tom teatral. Não que isso seja ruim. Tanto que um dos momentos mais sublimes do longa envolvendo story boards não é apenas realista, mas visceral e surreal ao mesmo tempo. Da mesma forma, um enquadramento que consegue focalizar ao mesmo tempo Tony Mendes e carros de polícia mereceria entrar para a história do Cinema como uma construção de fuga tão bem planejada como foi a da vida real.

Nesse momento, a arte se torna maior que a vida. E o que é mais irônico: graças à vida.

Dredd

October 4, 2012 in Cinema

Idem. EUA/Reino Unido/Índia, 2012. Direção: Pete Travis. Roteiro: Alex Garland, Carlos Ezquerra (personagens), John Wagner (personagens). Elenco: Karl Urban, Olivia Thirlby e Lena Headey.

A justiça se enxerga no espelho, e em 3D.

Os juízes do futuro pós-apocalíptico em “Dredd” utilizam apenas duas ferramentas para fazer valer a ordem: uma pistola com diversos tipos de disparo e uma interpretação literal das leis. Olhamos essa realidade através do implacável juiz que empresta seu nome ao título, que em suas rondas se limita a aplicar a sentença cabível aos criminosos, incluindo aí a pena de morte. Sua decisão do que fazer a seguir é a resposta da pergunta ”como posso melhor julgar este caso”.

Se passando em uma cidade pós-apocalíptica de proporções continentais chamada pomposamente de Mega City 1, seus sobreviventes precisam suportar, além da radiação que os circunda, uma violência constante e em um grau cada vez mais desumano. Para manter a ordem os já citados juízes possuem o poder conjugado de policiais que capturam os criminosos, os julgam no mesmo lugar e, se necessário, aplicam a sentença definida. Os objetivos por trás dessa organização nunca são reveladas, e nunca conhecemos os governantes (se é que existem) da caótica megalópole.

A história gira em torno do implacável juiz Dredd (Karl Urban) e a novata Anderson (Olivia Thirlby), uma pequena ilha de beleza em meio a tanta opressão e que possui poderes psíquicos resultantes de sua vivência em meio à radiação, e que por conta disso ganha créditos junto à corporação, mesmo não se destacando em seus exames admissionais. Para seu teste prático ela é levada junto em uma missão para descobrir o assassino de três pessoas em um prédio dominado por Ma-Ma (Lena Headey), a líder inescrupulosa de uma gangue que vende uma droga conhecida como slo-mo, que como o nome diz, possui o curioso efeito de retardar os sentidos na mente de uma pessoa.

Aqui reside, aliás, uma das maiores virtudes de “Dredd”: o uso orgânico do 3D. Além de investir em planos fundos com longuíssimos corredores e gigantescos arranha-céus, o que já causa um efeito e tanto, a tecnologia consegue ir além e compor quadros multidimencionais que não agridem os olhos justamente por serem filmados em uma câmera lentíssima, resultado mais uma vez orgânico pois enfoca o ponto de vista dos usuários de slo-mo. O efeito é ressaltado ainda mais pelo uso estético de partículas em suspensão que, apesar de marca registrada de Guy Ritchie, aqui encontra um uso muito mais legítimo.

Porém, “Dredd” não se destaca apenas pelo seu aspecto visual, mas pelas ideias por trás dele. Utilizando um uniforme que nunca revela seus olhos, para proteção e para uma alusão à justiça cega, os juízes reafirmam sua imparcialidade através dos seus atos quase mecanizados. Curioso notar que Anderson não utiliza o capacete para não prejudicar sua mediunidade, e o fato dela ler a mente das pessoas cria um contraponto interessantíssimo que é explorado apenas marginalmente: enquanto Dredd executa suas ações baseado apenas nos acontecimentos à sua volta, Anderson enxerga também o contexto das pessoas que encontra, o que a possibilita, por exemplo, identificar uma vítima em meio a uma gangue sanguinária, ou expandir o significado da vida dessa pessoa, o que gera a cena mais tocante e desafiadora do filme, com a capacidade real de fazer-nos pensar a respeito de toda aquela matança com um olhar mais crítico.

Aliado a isso, temos a informação extremamente relevante, mas não tão óbvia a princípio, da existência de juízes corruptos, que fazem favores aos criminosos em troca de dinheiro fácil. Na posição de uma figura que os cidadão devem não apenas obedecer, mas confiar, exatamente por se tratar do executor e julgador de seus atos, essa simples metáfora da vida real consegue ilustrar de maneira extremamente eficiente os estragos em nossa sociedade de uma justiça enviesada.

Contando com uma conclusão simplista mas corajosa por deixar claro não se tratar de um final feliz, “Dredd” ainda se afirma otimista por um simples ato de humanidade vindo de um ser que teria tudo para continuar isolado de seus sentimentos. Uma mensagem que se torna ainda mais poderosa depois de termos participado do processo sanguinário responsável pela morte de dezenas de pessoas, pelo simples fim de fazer valer uma lei que não permite a reflexão de como nos devemos organizar como seres humanos e ainda continuarmos humanos.

Beijos e Tiros

July 21, 2012 in Home Video

Kiss Kiss Bang Bang. EUA, 2005. Direção e Roteiro: Shane Black. Montagem: Jim Page. Elenco: Robert Downey Jr., Val Kilmer e Michelle Monaghan.

Policial bem-humorado e metalinguístico é ponto acima da média.

Kiss Kiss Bang Bang trabalha em muitas vertentes. Soando fictício a partir da narração onisciente do ex-ladrão e aspirante a ator Harry Lockhart (Robert Downey Jr.), que é ao mesmo tempo o protagonista, ainda consegue uma boa dose de realismo através dos acontecimentos absurdos que se somam durante as investigações de um crime do qual é testemunha enquanto estuda seu papel em um filme com a ajuda do detetive real Gay Perry (Val Kilmer). Somado a isso, Harry volta a encontrar sua amiga e paixão velada de infância Harmony Faith Lane (Michelle Monaghan). Tudo isso, acredite ou não, consegue o seu lugar na história com uma direção e montagem competentes o suficiente para não tornar tudo mais confuso do que já é.

Dito isto, é agradável acompanhar o exercício metalinguístico do longa, pois ao mesmo tempo que os períodos de análise do narrador sirvam como ponto de reflexão sobre a trama que estamos acompanhando e mesmo sobre a própria forma com que ela está sendo exposta, sua característica intrusiva acaba por formar uma nova dimensão, como na brincadeira de parar a cena no meio da troca de quadros de uma suposta película sendo exibida. No entanto, mesmo com essas paradas é possível se surpreender e muito com as reviravoltas do roteiro, que não se intimida por soar absurdo em diversos pontos, mas, pelo contrário, se diverte em conseguir tornar verossímil até uma tentativa de roleta russsa que dá errado.

Como a história gira essencialmente em torno dos três personagens que de uma forma ou outra continuam investigando o crime, o fato dos três serem interpretados de maneira enérgica e carismática pelo trio Downey Jr., Kilmer e Monaghan consegue tirar fôlego até mesmo quando o número de saltos e reviravoltar atinge um nível acima da nossa capacidade de atenção. Além disso, há surpresas que são apresentadas de sopetão, mas que se encaixam de maneira tão orgânica que parecem fazer parte da trama mesmo sem fazer. Essa dualidade de realismo e ficção consegue se equilibrar tanto pelo que pensamos durante as investigações quanto pelos acontecimentos, que entram em um crescente que, se não fosse por um narrador, soariam absurdas por natureza.

Insônia

April 1, 2012 in Home Video

Insomnia. EUA, 2002. Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Hillary Seitz. Elenco: Al Pacino, Robin Williams e Hilary Swank.

Sempre é possível fazer um belo filme em gêneros desgastados pela indústria.

Em um momento em que Hollywood se esqueceu que os bons policiais/suspenses quase sempre vem dotados de uma carga dramática e multidimencional em seus personagens, o segundo trabalho de Christopher Nolan na direção vem lembrar aos cinéfilos que é possível construir uma narrativa inteligente e ainda assim ser envolvente pela sua ação.

Fazendo como David Fincher em Os Homens que Não Amavam as Mulheres e refazendo um longa sueco (na verdade, também norueguês) de 1997, a história gira em torno de uma cidade em que o sol não se põe (no original, na Noruega, aqui, no Alaska) e um crime envolvendo uma jovem brutalmente assassinada. Quando os detetives Will Dormer (Al Pacino) e Hap Eckhart (Martin Donovan) chegam ao local, no entanto, o clima de tensão já estava no ar e apenas piora em terra.

Sem revelar spoilers fica difícil falar sobre a trama, mas podemos dizer que a relação entre Al Pacino e o misterioso assassino consegue produzir as melhores cenas, cheias de significado.

Pontos fortes: direção, roteiro, trilha sonora, atuações, fotografia.
Pontos fracos: praticamente nenhum.

Os Sete Suspeitos

March 4, 2012 in Home Video

Clue. EUA, 1985. Direção: Jonathan Lynn. Roteiro: John Landis, Jonathan Lynn. Elenco: Eileen Brennan (Mrs. Peacock), Tim Curry (Wadsworth), Madeline Kahn (Mrs. White), Christopher Lloyd (Professor Plum), Michael McKean (Mr. Green), Martin Mull (Colonel Mustard), Lesley Ann Warren (Miss Scarlet), Colleen Camp (Yvette), Lee Ving (Mr. Boddy), Bill Henderson (The Cop), Jane Wiedlin (The Singing Telegram Girl), Jeffrey Kramer (The Motorist), Kellye Nakahara (The Cook), Will Nye (Cop #1), Rick Goldman (Cop #2).

Comédia mistura gêneros com maestria.

Já faz algumas décadas que não revia essa comédia ambientada nos anos 50 que mistura elementos de suspense, terror e policial de uma maneira particularmente competente. De certa forma, quando eu tinha cerca de 10 anos já sabia que a graça do filme residia tanto em sua história quanto na dinâmica do grupo, os suspeitos do título.

Algumas piadas, é verdade, estão datadas, e muito dos comportamentos dos personagens podem gerar estranheza. Porém, a dinâmica entre os atores continua lá, e funciona, assim como a direção ágil e cheia de energia de Jonathan Lynn, que consegue, por exemplo, trocar a ambientação da casa para aterrorizante em um determinado momento do longa apenas para as gags que ocorrem quando o grupo resolve se separar em duplas para averiguar os aposentos da casa. Da mesma forma, quando o mordomo começa suas explicações, é nítido que os cortes ficam mais rápidos e fluidos. Para isso temos uma ajuda primordial da trilha sonora, que brinca com o aspecto “fanfarrão” do longa assim como a direção de arte e o figurino.

Hoje em dia poderia constar como uma comédia bobinha dos anos 80 para muito dos jovens cinéfilos, mas o fato é que dirigir um filme naquela época e ainda hoje continuar com a maioria das piadas praticamente intactas é um privilégio de poucos (vide Mulher Nota Mil e outra cópias da época). Nesse sentido, temos uma pequena aula de como dirigir comédias pastelão.