Os Miseráveis

February 7, 2013 in Cinema

Les Misérables. Reino Unido, 2012. Director: Tom Hooper. Writers: William Nicholson (screenplay), Alain Boublil (screenplay). Stars: Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway.

Os Miseráveis

Musical de Tom Hooper esbarra em direção caótica.

Baseado em uma peça musical (que é baseado no clássico literário de Vitor Hugo), a história de Os Miseráveis se passa na França pós-revolução e gira em torno de Jean Valjean (Hugh Jackman), um ex-prisioneiro que foi condenado por ter roubado um pão e que cumpriu pena por 19 anos. Os destinos de diversos personagens se encontram com Valjean, inclusive Javert (Russell Crowe), o inspetor que cuidava das galés onde realizava trabalhos forçados, e Fantine (Anne Hathaway), mãe da pequena Cosette (Amanda Seyfried crescida) e que faz de tudo para sustentar a filha, inclusive chegando a se prostituir.

Com praticamente todos os diálogos cantados, não há números de dança, mas uma trama que mantém o estilo de opereta. O cenário é completamente secundário e a grandiosidade dos horizontes existe apenas para que vejamos a miséria do povo francês alastrada até onde não se consegue ver (um horizonte de papelão no teatro serviria bem). Hugh Jackman está intenso e compenetrado, e o elenco acessório acompanha seu inabalável ritmo. Só que não há ritmo na direção, e nunca sabemos o porquê estamos vendo uma sequência inteira a respeito, por exemplo, de um amor não correspondido. Tudo que NÃO contribui para mover a história parece ter o dobro da duração.

No entanto, mesmo assim há surpresas pontuais que revigoram a história, mas que não necessariamente são conduzidos com a grandiosidade com que foram concebidos originalmente. A batalha entre os jovens revolucionários e os soldados, forte apenas pelo seu simbolismo, perde a mão na indecisão de Tom Hooper, que consegue a proeza de suavizá-la (e até mesmo banalizá-la) mesmo com a morte de uma criança.

Se não é o elenco empenhando em resgatar o filme do desastre de direção, o estrago com certeza seria irreparável.

Os Muppets Conquistam Nova Iorque

July 7, 2012 in Home Video

The Muppets Take Manhattan. EUA, 1984. Direção: Frank Oz. Roteiro: Tom Patchett, Jay Tarses. Elenco: Jim Henson, Frank Oz e Dave Goelz.

Os Muppets reais, de carne e… pano.

Para quem viu o novo trabalho dos Muppets ano passado deve ter percebido que a magia das trucagens dos anos 80 para fazer com que os bonecos de pano parecessem reais havia dado lugar para o uso sem imaginação da computação gráfica. É uma pena. Porém, ainda existe como colírio os musicais antigos, e da safra esse é o que melhor consegue transmitir essa magia com números protagonizados praticamente pelos bonecos! De brinde, é curioso notar toda a criatividade que Frank Oz aplica para conseguir tornar os personagens de Jim Henson tão carismáticos e multidimensionais quanto qualquer ser humano de carne e osso.

Hairspray: Em Busca da Fama

May 12, 2012 in Home Video

Hairspray. EUA, 2007. Direção: Adam Shankman. Roteiro: Leslie Dixon, John Waters (de 1988), Mark O’Donnell (peça), Thomas Meehan (peça). Elenco: John Travolta, Queen Latifah, Nikki Blonsky, Michelle Pfeiffer, Christopher Walken.

John Travolta de vestido e com duzentos quilos até que dança bem.

Há uma mensagem muito bela em Hairspray sobre o fim da guerra inter-racial ocorrida nos EUA na década de 60. Aliada a danças empolgantes e teatrais, nos leva a concluir tristemente que sua moral pertence ao mundo dos sonhos. E é na dança que está a maior virtude e o maior defeito desse filme.

Ao empolgar pelas performances saudosas e vigorosas de personagens vindos de um filme dos anos 80 imitando a época dos anos 60, o musical perde ainda mais seu contato com o público. A trama principal, sabemos ser tão irreal quanto as cores pastéis estilizadas para os cenários, os figurinos e a maquiagem dos personagens. Até até mesmo John Travolta, apesar de toda a técnica envolvida em transformá-lo em uma quarentona enorme servir apenas para ilustrar a bizarrice de uma história sem muito embasamento.

Não sei se é a figura ingênua encarnada por Nikki Blonsky que não consegue transmitir a emoção real da adolescência da época, ou até mesmo do original dos anos 80. Tudo é muito teatral. Isso não costuma ser ruim em filmes como A Noviça Rebelde, que virou um clássico exatamente por conseguir transpor facilmente a realidade e a ilusão. Porém, aqui tudo é muito difícil de engolir. Aqui a velha crítica das pessoas que os musicais são chatos porque as pessoas saem de qualquer lugar e começam a cantar e a dançar faz sentido. Até a figura de Queen Latifah como a idealista Motormouth Maybelle é excessiva e desmeresse a dramática luta para a aceitação do negro na sociedade americana da década de 60.

Se há algo que conseguimos tirar de hairspray, são ótimas danças com sentimentos mistos de magia e decepção. A viagem para os anos 60 ficou incompleta nesse caso.

Dirty Dancing – Ritmo Quente

February 14, 2012 in Home Video

Dirty Dancing. EUA, 1987. Direção: Emile Ardolino. Roteiro: Eleanor Bergstein. Elenco: Patrick Swayze, Jennifer Grey, Jerry Orbach.

Uma revolução social de duas gerações contada através da dança.

Para os filhos da década de 50/60 a era Disco representou uma mudança radical de apreciar música. Essa mudança não ocorreu obviamente apenas na música, mas na maneira de pensar e agir, sobretudo na adolescência, época conturbada tão bem representada nos trabalhos de John Hughes (Curtindo a Vida Adoidado, O Clube dos Cinco).

É nessa atmosfera que surge esse trabalho tão diferente quanto representativo do seu momento. Além de abordar temas polêmicos como o aborto, ainda que perifericamente, consegue mostrar essa revolução de pensamentos e músicas dos anos 80 como um reflexo das mudanças que ocorreram antes, nos anos 60, onde a história se passa.

Todo esse significado não poderia soar mais óbvio através da encantadora ‘Baby’ (Jennifer Grey, de Curtindo a Vida Adoidado), apelido carinho pelo qual seus pais e sua irmã chamam Frances, a filha caçula da família que irá passar suas férias em um veraneio onde famílias se divertem através dos mesmos jogos e danças tradicionais devidamente programados para entretê-las.

Com uma narrativa ambientada quase como uma fábula, onde Baby não mede esforços para ajudar todos que necessitam e ao mesmo tempo agarra as oportunidades de ser feliz, o que nos conquista é não só sua beleza e inocência, mas a forma como a história é conduzida através da dança, que tem papel primordial para estabelecer o status a qual as pessoas pertencem, dependendo, é claro, a que tipo de dança apreciam. Nesse sentido, o título coube perfeitamente aos propósitos narrativos.

E a dança, maneira universal de comunicação física entre pessoas de qualquer cultura, é usada aqui de maneira impecável não só nas performances exuberantes de Patrick Swayze, Cinthia Rhodes e Jennifer Grey como é acompanhada com um ritmo e uma cronologia impressionantes na montagem, dando a exata impressão — errônea, mas que cabe perfeitamente à intenção — que cada música foi composta para cada cena.

Muppets – O Filme!

February 6, 2012 in Cinema

The Muppets. EUA, 2011. Direção: James Robin. Roteiro: Jason Segel, Nicholas Stoller. Elenco: Amy Adams, Jason Segel, Chris Cooper.

Bonecos sabem dançar; humanos não.

O potencial dos bonecos é evidente no filme, pois todos possuem personalidades marcantes que geram diversas situações ingenuamente engraçadas. E é de modo ingênuo que a história inicia, e a forma de narrar a vida dos irmãos, em que um deles é um boneco que portanto nunca cresce, já denota de modo inconsciente que a interação entre humanos e muppets é algo completamente comum naquele universo fabuloso.

Mesmo assim, a fraca história (incluo aí o conflito batido em que há, acredite ou não, um magnata do petróleo) compromete os não tão inspirados números musicais, que na maioria das vezes apenas torna os defeitos do filme mais evidentes. Porém, não há como negar que a sequência do show final é admiravelmente engraçada, nostálgica e com números bem melhores por estarem inseridos apenas no mundo dos próprios Muppets.

Enfim, um bom filme com promessas de continuações. Apenas aguardemos por roteiros mais ousados e criativos.

Alvin e os Esquilos 3

February 4, 2012 in Cinema

Alvin and the Chipmunks: Chipwrecked. EUA, 2011. Direção: Mike Mitchel. Roteiro: Jonathan Aibel, Glenn Berger. Elenco: Justin Long, Matthew Gray Gubler, Jesse McCartney.

Eles são tão fofinhos que dá até pra assistir filme com eles.

Tenho a nítida impressão que a série Alvin pode ser repetida à exaustão graças à empatia do público com números musicais de sucessos atuais realizados pelo sexteto de esquilinhos. E é necessário apontar: eles são engraçados e fofinhos quase todo o tempo.

O novo filme tenta fugir do cenário de show business e os coloca perdidos em uma ilha, onde terão que se virar sem a ajuda de seu sempre presente “pai” (aquele cuja função principal é gritar irritantemente o nome de Alvin, o pior bordão da série). Essa condição gera algumas situações interessantes, como a inversão de liderança e auto-estima entre os esquilos e a discussão sobre responsabilidade vs liberdade, apesar do surgimento de mais uma personagem enfadonha (coincidência ou não, mais uma humana).
Cenas de ação tão divertidas quanto as músicas, esse capítulo sai ileso, resgatando parte da “qualidade” do original, que já era esquecível por natureza (fora as músicas cantadas pelos esquilos, que insistem em não sair do cérebro facilmente).

Happy Feet 2: O Pinguim

December 1, 2011 in Cinema

Fonte: blackfilm.com

Novo musical dos pinguins decepciona pelo mais do mesmo.

Idem. EUA, 2011. Direção: George Miller. Roteiro: George Miller, Gary Eck e outros. Elenco: Daniel de Oliveira (Mano), Christiane Louise (Glória), Jorge Vasconcellos (Nestor), Manolo Rey (Raul), Guilherme Briggs (Ramón), Sidney Magal (Amoroso).

Era de se esperar uma queda básica na qualidade narrativa do original Happy Feet, de 2006. Na época pegando carona no belíssimo documentário do ano passado, A Marcha dos Pinguins, o filme traçava um paralelo do que aconteceria se um dos filhotes da espécie apresentasse uma característica… inusitada. No caso, todos os pinguins da raça Imperador são exímios cantadores, enquanto o filhote diferente gostava de sapatear. Ambas as características suportaram números de encher os olhos e os ouvidos, com performances de cair o queixo, com destaque absoluto para Somebody to Love (Queen).

Aqui a dança muda um pouco. É indiscutível a qualidade gráfica dos pinguins, como já era 5 anos atrás, mas agora dois novos componentes da “fauna” antártica merecem o destaque absoluto: Will e Bill, dois espécimes de Krill: desde a textura até os movimentos dos olhos, tudo é perfeito nesses dois, que combinam suas cores com o fundo do mar gelado de maneira absolutamente natural e, de certa foram, poética.

O filme começa bem, ressaltando a importância do ecossistema como um todo, com todas as espécies se ajudando entre si, mesmo que pelas leis do acaso. O ponto forte é a questão filosófica dos Krill, que se perguntam se existe algo além do “cardume” (eles vivem no meio de uma massa incontável de irmãos vagando pelos mares glaciais). O final encontra a rima final de maneira satisfatória, quando vemos a melhor performance musical e a mais emocionante do filme (sem maiores detalhes).

Já o problema do longa se instaura no seu meio, seu desenvolvimento. Nunca conseguindo focar em um tema específico, o drama principal dos pinguins presos entre as geleiras fica esmaecido, quase esquecido em alguns momentos, pois não existe ritmo ou até mesmo coerência em contar essa história, dando maior importância às brincadeiras visuais (que funcionam metade do tempo) e falas completamente descartáveis (nem a antes figura carismática de Ramon consegue salvar).

Porém, esse deve ser o filme que vai impressionar mais as plateias pela maneira impecável que ele junta suas duas pontas extremas, mesmo se despreocupando totalmente em como desenvolvê-las de maneira no mínimo interessante.

Jovens Modernos

October 29, 2011 in Cinema

Des jeunes gens mödernes. França, 2011. Direção: Jérôme de Missolz. Roteiro: Jérôme de Missolz e Jean Francois Sanz. Elenco: Yves Adrien, Mathieu Chausseron, Lio, Edwige, Anne-Sophie Le Creurer.

Qual a visão de um crítico musical sobre a música contemporânea de vanguarda? Ou, uma pergunta ainda melhor, o que esse crítico pensa sobre os jovens dessa nova era, tão acomodados a ouvirem músicas de diversas correntes (muitas delas auto-proclamadas futuristas) e se limitarem a apertar o botão Like de seu Facebook?

Fonte: screenrush.co.uk

Essa questão não é respondida em Jovens Modernos, novo documentário de Jérôme de Missolz e que percorreu a meca de diversas correntes musicais das últimas décadas, tendo como seguidores supostos fãs do crítico (ou da música que este persegue).

Fonte: screenrush.co.uk

Iniciando com a morte de um famoso cantor que aparentemente teria um brilhante futuro, mas que decidiu se matar logo cedo, o filme acaba se transformando muito mais em uma mescla e uma viagem por diversos estilos de rock/punk/techno francês, suas influências norte-americanas e uma retrospectiva do que isso significava para sua época e, o mais interessante, qual a visão daqueles tempos nos jovens de hoje.

Fonte: screenrush.co.uk

A resposta é simples: o saudosismo de um tempo em que a criatividade estava a todo vapor e onde os jovens tinham pelo quê lutar (nem que fosse pela contracultura) gerava conteúdo de uma forma ou de outra. As tentativas de se expressar também fizeram parte do modo de se portar, de se vestir e até de se matar de muitos fenômenos das décadas de 80 e 90.

Fonte: 35.mostra.org

Dotado de uma ótima edição de vídeo e som, lembrando o igualmente ótimo Pink Floyd (Another Brick in the Wall), o filme desfila facilmente por diversas vertentes sem nunca soar repetitivo, mas acaba embutindo um sentimento que, ao mesmo tempo que soa anacrônico, é visivelmente datado, o que acaba por invalidar o fato de que este foi produzido nos tempos atuais.

Fonte: screenrush.co.uk

O único resquício de atualizade repousa no último ato, onde crítico e seguidores pousam em Pequim, possível nova fonte artística, ou pelo menos de influência, dos artistas futuristas que Yves Adrien tanto estuda. A queda das torres gêmeas e o declínio econômico são citados en passant, em uma clara alusão à virada socio-econômica mundial, e como isso deve afetar o que será produzido desde então.

Pink Floyd the Wall

November 6, 2010 in Cinema

Idem. Reino Unido, 1982. Direção: Alan Parker. Roteiro: Roger Waters. Elenco: Bob Geldof, Christine Hargreaves, James Laurenson, Eleanor David, Kevin McKeon, Bob Hoskin.

Reunindo várias filmagens que se assemelham a video-clipes e desenhos psicodélidos, o filme de Alan Parker parece dar um tom surreal à história e às impressões da banda britânica Pink Floyd. Jogando com o silêncio das cenas e da música e das letras de outras, o filme faz paralelo entre o passado, presente e futuro de um garoto que tem o pai morto na guerra, como notamos visualmente na transição entre a luz do lampião e a luz do sol com garoto correndo do horizonte.

Uma câmera gira em torno do sofá, mostrando as cinzas de um cigarro que não foi fumado segurado pelas mãos do protagonista em catarse assistindo à TV. Tantos os símbolos mais óbvios quanto os mais íntimos se juntam para compor algo além. A faxineira abre a porta de seu quarto, ao bater a corrente, com as portas acorrentadas e de jovens em debandada, com paralelo com soldados correndo na guerra. Tudo parece se juntar em apenas uma harmônica.

Um filme para degustar com os olhos e ouvidos sintonizados.