O Artista

February 16, 2012 in Cinema

The Artis. França/Bélgica, 2011. Direção e Roteiro: Michel Hazanavicius. Elenco: Jean Dujardin, Berenice Bejo e John Goodman.

O cinema mudo está de volta em sua melhor forma: visual.

Logo no início do filme, me senti acompanhando uma digna e merecida reverência ao Cinema Mudo, presente nos primórdios da arte e que acabou durante a década de 30 (mesmo ainda com defensores ferrenhos e influentes, como Chaplin). Porém, mesmo que você não entenda nada de arte cinematográfica vale a pena acompanhar o arco dramático de George Valentin, que vivia seu auge no cinema ainda não-falado (apenas com músicas de fundo, geralmente tocadas ao vivo por uma orquestra), e que subitamente foi afastado pela novidade dos personagens que agora falavam diretamente, e não com a ajuda dos cartões de falas colocados após alguma declaração importante.

De ambas as formas é possível aproveitar o filme, pois ele contém em seu desenvolvimento detalhes de filmagem, direção e produção que, discretos mas ao mesmo tempo reveladores, dão uma ótima noção do que era fazer cinema naquela época (e até atualmente). Ao mesmo tempo, para quem já conhece um pouco mais de todo o processo, vai se divertir com as referências — óbvias e sutis — de várias obras da História do Cinema. Muitas dessas referências, aliás, são tão sutis que revelam sua fonte unicamente pela sua forma visual de contar a história. Dessa forma, é possível respirar um pouco de Cidadão Kane, por exemplo, mas sem apontamentos claros sobre o filme (com exceção da cena da mesa de jantar). Ou acompanhar uma trágica cena que remete diretamente a Cinema Paradiso (note o formato da casa onde isso ocorre), sem constituir plágio, mas uma elegante referência.

Brincando o tempo todo com o Cinema como metalinguagem — como, por exemplo, durante um hilário e angustiante sonho do protagonista — , a direção de Michel Hazanavicius — que também escreve o roteiro, ou melhor dizendo, os cenários e os diálogos — consegue inserir uma história sensível e ao mesmo tempo cômica, brincando com dois dos principais alicerces dessa arte: fazer rir e fazer chorar. E, assim como o Cinema com C maiúsculo, se aproveita do formato de filme mudo para caprichar nas técnicas visuais, tornando o resultado, se não totalmente universal (o maior ataque de Chaplin ao cinema falado) muito próximo disso.

Com uma muitas vezes tediosa peregrinação à decadência de nosso herói, o maior feito do filme é conseguir nos inserir na atmosfera daqueles tempos, cuja evolução visual tenha sido possível justamente pela ausência técnica de diálogos longos. Talvez devamos realmente essa evolução ao cinema mudo. Pelo sim, pelo não, O Artista faz uma homenagem mais do que apropriada ao nascimento de uma arte.

Alice no País das Maravilhas (1903)

December 24, 2011 in Home Video

Alice in Wonderland. EUA, 1903. Direção: Cecil M. Hepworth, Percy Stow. Roteiro: Cecil H. Hepworth, Lewis Carrol (romance). Elenco: May Clark (Alice).

O experimentalismo do início do cinema.

Interessante notar as rebuscagens angulares que esse primeiro projeto de filmar o romance de Lewis Carrol aplica, tanto para obter os efeitos visuais (especiais?) necessário como quando ela precisa entrar pela porta minúscula (e note como os rótulos “Beba-me” e “Coma-me” são auto-explicativos), quanto para dar um ar mais fantasioso, como o uso de uma aparente estrada sem fim para a tropa da Rainha de Copas. Porém, hoje reside mais como curiosidade cinematográfica do que como uma obra digna de mérito, como é o caso da Viagem à Lua.

O Garoto

December 24, 2011 in Home Video

The Kid. EUA, 1921. Direção e Roteiro: Charles Chaplin. Elenco: Edna Purviance (The Woman), Jackie Coogan (The Kid (as Jack Coogan)), Charles Chaplin (A Tramp (as Charlie Chaplin)).

Chaplin contido, mais emocionante e engraçado.

Uma trilha musical surpreendentemente encantadora para a época, com uma narrativa coesa que favorece seu desenvolvimento um tanto episódico ao mesmo tempo que nunca perde as rédeas de sua história maior (e é de se notar a quase ausência dos textos explicativos). O garoto escalado para o filme é tão encantador quanto sua história, e é igualmente louvável a participação menos overacting de Chaplin como o vagabundo que o adota, favorecendo a interação entre eles e não simplesmente as cenas cômicas de forma isolada.