A Parte dos Anjos

March 29, 2013 in Cinema

The Angels’ Share. Reino Unido/França/Bélgica/Itália, 2012. Director: Ken Loach. Writer: Paul Laverty (screenplay). Stars: Paul Brannigan, John Henshaw, Gary Maitland.

A Parte dos Anjos

Dramédia britânica flerta com roteiro tendencioso, mas diverte em experiência etílica.

O diretor Ken Loach consegue extrair tensão nesse suposto drama britânico, como podemos constatar durante um leilão de Wisky e logo antes em uma sequência noturna particularmente inspirada. Essa capacidade, no entanto, parece rivalizar com sua vontade de fazer comédia, que também funciona, mas ao preço de perdermos o gênero inicial. A leveza que ele aplica no resto da história flerta perigosamente com o seu reducionismo. Dessa forma, não é possível desenvolver melhor a relação entre o admirador de uísques e seu protegido, e o aprendizado deste é resumido em 10 segundos de uma cena dele cercado por diversos livros sobre a bebida.

Por outro lado essa mesma capacidade de síntese é bem-vinda na apresentação dos outros personagens. A primeira sequência, onde vemos Albert quase morrer na linha do trem e o corte para o juiz determinando as penas para esses pequenos delitos é eficaz em nos deixar curiosos para saber a história de quem iremos seguir, e parece ser esse um mistério que o diretor se diverte até o final dessa sequência.

Já a dinâmica do grupo que se une para aplicar um golpe baseado nos conhecimentos de Robbie (Paul Brannigan), o protagonista casual, perde justamente por se fixar unicamente no drama deste, empenhando-se para mostrar como a vida do sujeito não pode mudar de rumo caso ele não tome uma medida drástica. O roteiro de Paul Laverty nesse sentido flerta com a desonestidade ao evitar a todo o custo uma solução menos arriscada.

Ainda do ponto de vista narrativo Ken Lock trilha o caminho que dos rapazes pintando-o de dourado, entregando pistas no meio do caminho que permitem que vejamos seus atos muito antes delas acontecerem. E o pior é que não há obstáculos o suficiente para que o desenrolar saia um pouco dos trilhos. Mesmo assim acompanhamos imersos, aguardando que algo dê errado. O imprevisível aqui é que não há obstáculos previsíveis. É o suficiente para nos deixar interessados.

Era uma Vez no Oeste

October 30, 2012 in Cinema

C’era una volta il West. Itália/EUA, 1968. Direção: Sergio Leone. Roteiro: Sergio Leone, Sergio Donati. Elenco: Henry Fonda, Charles Bronson, Jason Robards, Gabriele Ferzetti e Claudia Cardinale. Fotografia: Tonino Delli Colli. Montagem: Nino Baragli. Trilha Sonora: Ennio Morricone. Direção de Arte: Carlo Simi.

36a. Mostra de São Paulo.

Era Uma Vez no Oeste parece ser a tentativa de Sergio Leone de fazer o “Grande Cinema”, tornando todas as cenas costumeiras de seu faroeste mais solenes, lentas e cerimoniosas. Isso explica a trilha-comentário do músico Ennio Morricone, que oscila elegantemente entre toda essa solenidade e o pitoresco, com direito a pausa em uma música que lembra o cavalgar e que serve de tom cômico.

Essa ambição de Leone talvez fosse apenas um ledo engano, pois precisou filmar este épico para chegar em sua continuação temática em Era Uma Vez na América, que poderia muito bem ser exibido em uma sessão dupla.

Com exceção do cenário vislumbroso, as melhores partes do filme lembram muito as técnicas de enquadramento da trilogia dos dólares, em especial o último, Três Homens em Conflito. A montagem ritmada, que cria transições tão eloquentes quanto um tiro e um trem a vapor, exagera ainda mais o tom cartunesco já visto nos outros filmes. E pensar que tudo é feito sem efeitos de divisão de tela (como em Hulk) ou a fotografia alterada (como em Sin City). Não, aqui as pinturas que se criam com o aspecto panorâmico conseguem tanto evocar a beleza do quadro quanto seu tom exagerado.

Mas sou obrigado a voltar para a música. Morricone aqui cria um eco surreal vindo de uma gaita de boca tocada por ninguém nada menos que Charles Bronson, que faz o papel de homem misterioso junto com outros dois que logo se revelam: Jason Robards e Henry Fonda, este que depois de uma carreira como mocinho clássico faz aqui o seu primeiro papel de vilão, sendo por isso devidamente apresentado em uma cena particularmente cruel. Tanto essa mudança de expectativa com Fonda quanto o uso da harmônica com Bronson criam um clima estranho, quase onírico. E note como o som da gaita mescla com a música e tema e todos os outros sons do ambiente.

Aliás o uso do som “natural” no filme é digno de um maestro, pois este colabora com a tensão de uma maneira harmoniosa e ritmada, como pode-se ouvir logo na primeira cena, que utiliza o som de um velho moinho, o bater de gotas em um chapéu e uma mosca teimosa.

No entanto o mestre Leone quer deixar sua marca, e para isso tenta transformar seu bangue-bangue em uma alegoria do progresso – representado pelo trem. No fundo, a visão de Leone é um tanto ácida e talvez pessimista, pois em ambos “Era uma Vez…” os heróis e heroínas nunca representam a visão idealizada do bem, possuem falhas de caráter e conseguimos enxergar bondade em seus atos meramente pela situação onde se encontram.

Se bem que, de certa forma, a trilogia dos dólares dança no mesmo ritmo: fico feliz pelo músico ser o mestre Morricone.

Carmel

October 27, 2012 in Cinema

Idem. Israel/França/Itália, 2009. Direção: Amos Gitai. Roteiro(?): Amos Gitai. Montagem(?): Isabelle Ingold. Elenco: Amitai Ashkenazi, Amos Lavie, Ben Eide, Ben Gitai, Efratia Gitai, Jeanne Moreau.

36a. Mostra de São Paulo.

Que filme odiável. Não que ele seja odiável do começo ao fim. Houve uma tentativa realmente sincera de quem vos escreve de tentar decifrar a narrativa difusa e aparentemente amadorística de um filme que estava sendo apresentado quase que como um tributo à vida do diretor Amos Gitai (presente na sessão) e sua mãe, que viveu as agrúrias do povo judeu desde muito antes da Segunda Guerra. A base da história são as cartas dela, que teoricamente poderiam fazer eco com décadas e mais décadas da visão judia sobre seu povo e suas relações com o mundo.

No entanto, o que mais vemos é o despreparo do diretor e montador em conseguir unir pontas que se confundem entre cenas documentais pré-ensaiadas, leituras de cartas de início a fim, cenas fictícias recriadas ou como peças de teatro ao ar livre ou como telenovelas da pior qualidade e, ainda, sequências inteiras que tentam unir todos esses elementos simplesmente sobrepondo-os com o uso de efeitos que poderiam ser comparados à festas de aniversário em um buffet infantil.

A falta das informações básicas sobre o que estamos vendo revela, além do amadorismo ensaiado, a descarada auto-indulgência dos seus criadores, crentes, talvez, que a importância do diretor e de sua vida fosse tão visível para todos os seres humanos que qualquer tentativa de criar um pano de fundo para o filme fosse inútil e óbvio demais. Bom, não é. Não me importa quem fez o filme e quais são os membros da família de quem fez o filme que nele aparecem. Menos ainda me importa sobre a confecção do filme no momento em que o estou vendo.

No entanto, o filme começa a se tornar odiável quando percebemos estarmos chegando em sua(s) conclusão(ões) e que não há qualquer menção ou relação entre as vidas que foram mostradas e com a vida do povo judeu de maneira geral. Se há, são pequenos traços culturais que, além de ignorar por completo que a maioria da população mundial não saber o que significam, ignoram que a maioria da população conhece o maior conflito da história ainda em andamento, com o povo palestino. Ignorar não só o povo judeu como um símbolo de resistência, como ignorar o povo da palestina como membros legítimos de sua rivalidade religiosa é o ponto mais controverso e enigmático da película. Qualquer interpretação pode ser dada. No meu caso, prefiro entender isso como um sinal de extremo mal gosto para com os espectadores e para com o Cinema. E isso em uma Mostra da Sétima Arte.

Shun Li e o Poeta

October 27, 2012 in Cinema

Io Sono Li. Itália/França, 2011. Direção: Andrea Segre. Roteiro: Marco Pettenello, Andrea Segre. Fotografia: Luca Bigazzi. Elenco: Zhao Tao, Rade Sherbedgia, Marco Paolini.

36a. Mostra de São Paulo.

Shun Li e o Poeta assume que apenas o fato de inserir dois personagens de culturas e povos longínquos em uma terceira nação pudesse significar uma boa história. É possível apreciar a interação entre Shun Li, uma trabalhadora chinesa que assume o controle de um bar na beira do cais de uma cidadezinha litorânea na Itália, com “O Poeta”, um pescador local que emigrou da Iugoslávia e que já aposentado começa a repensar sua vida de solteiro.

Unindo esses dois personagens metaforicamente pela lenda de um poeta chinês que possui um dia especial onde as pessoas colocam pequenas velas acesas no mar para que ele se salve, a relação entre Shun Li e o poeta de carne e osso se indefine como uma amizade verdadeira, pois não há tempo para que haja um amadurecimento nesse sentido. O que fica é a sensação de uma narrativa lenta que acrescenta muito pouco em suas incursões a respeito dos temas discutidos, como o trabalho injusto de Shun Li com os seus patrões e o preconceito entre povos.

No entanto, uma fotografia mais competente consegue nos trasportar pelas emoções de nostalgia que o encontro das duas inusitadas figuras poderiam causar. O mundo como é hoje é um novo universo de pessoas interconectadas. A visão dessas pessoas para seus passados não confere conforto por estarem vivendo em um ambiente que não mais reflete o que um dia foram. No sentido estético, o filme agrada pelo que como história não foi.

Cosmópolis

October 11, 2012 in Cinema

Cosmopolis. França/Canadá/Portugal/Itália, 2012. Direção: David Cronenberg. Roteiro: David Cronenberg, Don DeLillo (romance). Elenco: Robert Pattinson, Juliette Binoche, Sarah Gadon, Kevin Durand.

O Charles Foster Kane de nossa era não é ninguém mais do que qualquer um.

Se visto como um filme com começo, meio e fim, Cosmópolis pode se transformar em uma decepção. No entanto, se percebermos o padrão utilizado em seus caóticos diálogos, será possível destrinchar ao menos o tema da história: um dia na vida de Eric Packer (Robert Pattinson), um bilionário resultado da soma da especulação financeira com sua inteligência fora do comum ao transformar em dinheiro a commoditiy mais importante da nossa era: a informação. Sintetizando a frase anterior, como o próprio Eric o faria: um dia na era da informação.

Aliás, o uso ou desuso de padrões é uma constante na jornada do bilionário dentro de sua limusine em direção à única coisa que sabemos de concreto que ele deseja: um corte de cabelo. Para isso, participaremos de uma visão extremamente peculiar de Cronenberg a respeito do que ele pensa desses senhores donos das pessoas e suas vidas, visionários que se misturam com a população com a única exceção de não fazerem parte dela. É uma jornada de ego, onde o melhor exemplo que pude encontrar foi quando o próprio Eric conta uma passagem de sua infância: contando quatro anos de idade, calculava quanto pesaria em cada planeta do sistema solar. Como sua recente esposa conclui: o exemplo perfeito entre ciência e ego. Digo mais: temos nesse único exemplo referências à sua inteligência (tão jovem), o uso da informação comum (gravidade nos planetas) e a detecção de padrões (gravidade vs peso). A sua descoberta de criança será sua própria recompensa, o que mais uma vez é icônico: como se sabe, o que faz “traders” ganharem mais dinheiro que todos não é o foco em ganhar dinheiro, mas o desejo insaciável de estar certo. Estar certo e antes de todos.

Não contando sequer 30 anos, aparentemente não há mais nada de novo na vida de Eric, ou pelo menos nada que o interessse o suficiente para fazer mudar sua expressão. Assistimos estupefatos às suas tentativas em sentir algo novo, onde até a palavra “novo” é referência a uma droga usada pelos jovens. Note como o rapaz nem liga para o despudor com que fala dos seus funcionários, ou a maneira apática com que assiste por um de seus monitores no carro de luxo a um ataque brutal a uma pessoa conhecida, ou até mesmo eventos extremamente impactantes ocorrendo a poucos metros a partir de sua visão das janelas de sua limusine, tudo isso filmado com a calma e a competência de um maduro Cronenberg. Talvez no fundo ele saiba que nada pode atravessar seu carro/escritório “à prova de riscos”, o que revela, através de sua falta de reação a eventos mais humanos, seu distanciamento das pessoas. Porém, ao mesmo tempo que compreendemos a postura apática diante da humanidade de Eric, é curioso acompanhar sua ânsia de conhecer tudo sobre as pessoas sob um ponto de vista observador de objetos — o que faz inclusive com as mulheres.

Ao mesmo tempo em que sua vida é baseada em comprar coisas e ele coisifique suas relações humanas, sua verdadeira paixão — embora notemos pela falta de outras coisas que o interesse — é a busca por padrões. Nesse momento o roteiro encontra sua razão de ser e os diálogos começam a fazer sentido pela sua falta de um sentido simples. A vida de Eric vai desmoronando e com ela sua lógica. Nós sentimos o mesmo que ele na sua impotência de entender o Yuan. As frases que ouvimos não fazem sentido, assim como as suas ações não fazem. Incapaz de entender sua própria vulnerabilidade dentro do sistema seu único anseio é ter o seu corte de cabelo, uma ação, a única, talvez, que o remeta à sua humilde origem, o que é fácil de notar pelas paredes sujas e pela cadeira infantil da barbearia, um carrinho velho e empoeirado. O fato de quando criança não querer se sentar na cadeira para crianças é sintomático e cria uma curiosa rima com sua própria limusine.

Se, por fim, entendermos as mensagens de seu segurança a respeito da ameaça que o cerca, e todos os elementos repetidos à exaustão em meio a conversas subjetivas e codificadas com seus outros funcionários, encontraremos por fim seu arco dramático: o impassível Eric que conversa em pé no começo de um ensolarado dia não é o mesmo excitado Eric do final da noite, ansioso por uma revelação do seu próprio destino, esse que não conseguiu prever. A participação apaixonada de um Paul Giamatti cria o contraponto que esperávamos não de um antagonista, pois não há inimigos para Eric, mas de alguém que, diferente dele, mas com as mesmas condições, não conseguiu ser ninguém além de um dejeto humano. Ambos objetificam as pessoas e até os sentimentos, mas Eric possui dinheiro/poder/influência. E isso, hoje em dia e sempre, é o que faz toda a diferença.

Para Roma Com Amor

July 2, 2012 in Cinema

To Rome with Love. EUA/Itália/Espanha, 2012. Direção e Roteiro: Woody Allen. Elenco: Flavio Parenti, Roberto Benigni, Alison Pill, Alessandro Tiberi, Judy Davis, Alessandra Mastronardi, Alec Baldwin, Carol Alt, David Pasquesi, Antonio Albanese, Lynn Swanson, Fabio Armiliato, Penélope Cruz, Jesse Eisenberg, Woody Allen, Greta Gerwig, Simona Caparrini, Ellen Page, Vinicio Marchioni.

Comédia de absurdos revela que Allen, felizmente, está mais vivo que nunca.

Quais diretores você conhece que conseguem fazer o velho chichê da “pessoa engasgando com o copo na mão ao ver cena inusitada” funcionar novamente? Eu conheço um: Woody Allen.

Cada vez mais se reinventando em seus últimos filmes, apesar de incluir quase sempre seus temas favoritos, como a angústia da terceira idade e adultérios, Allen investe aqui em uma comédia tradicional dividida em diferentes começos de histórias que, diferente do usual hoje em dia, praticamente não se encontram: os pais que visitam a filha para conhecer a família de seu namorado, o jovem e ingênuo casal italiano em busca de uma vida melhor na capital, o batidíssimo triângulo amoroso encabeçado por uma femme fatale e, como não poderia deixar de ser, a vida típica e pacata de um cidadão italiano.

Como eu disse, são apenas começos de histórias. O que acontece a partir daí, embora não seja lá muito criativo, diverte e entretem ao mesmo tempo em que aborda temas contemporâneos: a fama como um fim em si mesma, a pureza desmascarada dadas as condições propícias, o conhecimento raso de aparências e a ópera como algo menos absurdo do que a própria vida.

Vivendo em um mundo onde os filmes fazem graça de si mesmos e as animações reciclam piadas ad infinitum, Allen consegue mais uma vez ressucitar o humor inteligente, que não apenas gera o riso, mas que embute nele uma crítica aguçada da sociedade de nossa época. O fato dessa crítica estar escancarada em diálogos e imagens apenas faz aumentar a comicidade de seus personagens, que são unidimensionais, mas que nem por isso impedem que nos identifiquemos com cada situação.

Suportado por um elenco não apenas de peso, mas que fazem a combinação perfeita para suas caricaturas, a única decepção é vermos apenas uma fração de cada história em um determinado momento. Dessa forma é um sentimento cíclico a decepção pela troca de personagens e a empolgação pelo enriquecimento da história atual.

Felizmente, Allen consegue fechar com chave de ouro cada uma das situações, deixando apenas uma situação de quero mais. Não me cansaria de assistir por duas horas novamente acontecimentos nA Cidade Eterna.

A Primeira Coisa Bela

June 14, 2012 in Cinema

Idem. Itália, 2010. Direção: Paolo Virzì. Roteiro: Paolo Virzì, Francesco Bruni. Elenco: Valerio Mastandrea, Micaela Ramazzotti, Stefania Sandrelli.

A Itália volta despontando em filmes dramáticos.

Esse filme, junto com o recente cult Um Sonho de Amor, evidencia um Cinema Italiano mais interessante e inovador, ainda que mantenha sua clássica dramaticidade de “novelão”, estilo que paradoxalmente o acaba engrandecendo.

E, convenhamos, há muitíssimo dramalhão na história da família do filme e de sua matrona, a protagonista absoluta, mas que conta com a ajuda de seu problemático primogênito durante as décadas de história. Ambos criam um interessantíssimo contraponto durante toda a narrativa, dotada de idas e vindas no tempo que enriquecem ambos os momentos.
Com uma direção que aproveita cada quadro com precisão milimétrica, além de se aproveitar de ótimas sequências sem cortes que fornecem mais fluidez à história, essa é uma ótima surpresa, que consegue unir técnica e emoção em um equilíbrio constante.

Texto originalmente publicado em 5 de fevereiro de 2012, em decorrência da estreia em Mendoza, Argentina.

Valentin

June 12, 2012 in Home Video

Idem. Argentina/Holanda/França/Espanha/Itália, 2002. Direção e Roteiro: Alejandro Agresti. Elenco: Rodrigo Noya, Alejandro Agresti e Julieta Cardinali.

Drama de garoto de 8 anos é bem dirigido.

Filme que tirou do ostracismo o diretor-ator-roteirista Alejandro Agresti (também que depois foi à Hollywood filmar A Casa do Lago), é muito fácil gostar da história de Valentin. Sempre transbordando otimismo, ainda que a realidade não fosse mais diferente do que suas expectativas, acompanhamos a história do garoto-título vivido por Rodrigo Noya e enxergamos o mundo através do seu filtro de realidade, formado principalmente pela ausência da mãe (ele mora com a avó, vivida por Carmem Maura) e pelas visitas irregulares do pai.

O fato é que a carisma do personagem reside mais das circunstâncias que o cercam do que sua atitude perante elas. Porém, o mais curioso é perceber que os pensamentos que acompanhamos vem de um mero garoto de 8 anos, e sua pouca idade é o principal gancho para que caminhemos pelo seu mundo, onde ele almeja ser astronauta quando crescer (estamos na década de 60 pré-pouco na Lua, e os russos são os pop stars) e ao mesmo tempo deseja um dia poder conhecer a mãe. Não há nada de errado em explorar um drama desse tipo quando há respeito pelos seus personagens, e o respeito de Agresti por Valentin é sensível o suficiente.

Por uns Dólares a Mais

June 10, 2012 in Home Video

Per qualche dollaro in più. Itália/Espanha/Alemanha, 1965. Direção: Sergio Leone. Roteiro: Luciano Vincenzoni e Sergio Leone. Elenco: Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Gian Maria Volonté.

Filme do meio da trilogia de Leone é curva para a grande virada do velho oeste.

Continuação de Por um Punhado de Dólares e apenas um ano após a produção original, Por uns Dólares a Mais concebe o universo do faroeste de uma maneira mais aventureira e empolgante que seu precursor. Dessa vez há duas figuras principais. O Homem Misterioso de antes já não é mais tão misterioso assim. Possui um nome: Manco. E possui uma função: é caçador de recompensas. Aliás, uma consequência mais que natural do que vimos no primeiro filme, pois se há tantos fora-da-lei espalhados pelo oeste faz sentido que a polícia precise de oportunistas para capturá-los.

Agora existem prisões, onde os que ainda não foram mortos aguardam. Um deles, Índio, é além de um cruel assassino, líder de uma gangue de assaltantes. Seu estilo doentio revela o crescente em cima da persona dos vilões, assim como com o Coronel Douglas Mortimer e seus apetrechos de caça. Ele também captura e mata procurados, apesar de aparentemente não precisar de dinheiro. Ambos são caricaturas desse universo, por isso seus nomes são tão “cool”. E por isso ambos carregam um significativo relógio. Uma cena de duelo é anunciada por uma música singela que sai desse relógio; seu fim é o sinal para sacar as armas. Não há nada mais surreal para um filme de brutamontes atirando uns nos outros.

As viagens aumentam, e não ficamos focados apenas em uma cidade, e embora El Paso seja o cenário principal há muito que acontece em seus arredores. Isso, além de dar um espaço maior para cavalgadas, torna o destino de nossos personagens mais dinâmico e imprevisível.

Porém, fora tudo que o filme nos proporciona, sua maior contribuição é ser o primeiro passo para que cheguemos a Três Homens em Conflito, a obra máxima da trilogia, onde o Cinema atinge seu ápice, sustentado por uma guinada épica no conceito de faroeste iniciado por Sergio Leone em três filmes.

Por um Punhado de Dólares

June 9, 2012 in Home Video

Per un pugno di dollari. Itália/Espanha/Alemanha, 1964. Direção: Sergio Leone. Roteiro: Ryûzô Kikushima (Yojimbo), Akira Kurosawa (Yojimbo), A. Bonzzoni, Víctor Andrés Catena, Sergio Leone. Trilha Sonora: Ennio Morricone. Elenco: Clint Eastwood, Gian Maria Volonté, Marianne Koch, Jose Calvo.

Trilha sonora de Morricone é homenagem à jornada do herói na época do velho oeste.

“Per un pugno di dollari”, o clássico do bangue-bangue macarrônico, primeiro dos três filmes idealizado por Sergio Leone a partir de sua fascinação após assistir a outro clássico da época, Yojimbo (de Kurosawa), nos apresenta pela primeira vez a figura do Homem Misterioso, ou homem sem nome, interpretado por um Clint Eastwood ainda jovem para o seu Gran Torino, mas com um olhar já duro e seco para com os maus que governam uma cidadezinha perto da fronteira entre os EUA e o México. À procura de dinheiro (como o título já sugere), esse homem resolve ficar por um tempo na cidade, mesmo em uma terra que odeia forasteiros. Existem duas famílias que tomam conta dos negócios locais, enquanto na violência com que as decisões são tomadas os corpos se acumulam no cemitério na mesma proporção com que as viúvas. O ódio e a ambição pelo ouro fala mais forte em uma terra sem lei.

O Homem Misterioso possui duas funções muito claras na narrativa: primeiro, por ser tão forasteiro quanto o espectador, ele serve de guia para que nós mesmos entendamos as circunstâncias em que os fatos vão se sucedendo. É ele que, por exemplo, fica escondido às margens do rio e presencia o massacre que lá ocorre. É ele que, observador e inteligente, consegue entender melhor que os moradores do vilarejo o papel dos capangas das duas famílias, e busca assim tirar proveito de ambas, e sempre que possível nunca tomando um partido. Leone deixa claro que o Homem não é um herói comum. É bruto e violento como todos os outros, mas que ao mesmo tempo, se sobrar tempo, tenta ajudar os injustiçados. Existe algo em seu passado que determina seu caráter, mas salvo uma breve e imperceptível fala, nunca é mencionado.

E não é à toa. Não são os diálogos que formam o caráter do sujeito, mas a ausência deles. Como um observador nato, nos colocamos a seu lado e de alguma forma torcemos por ele, pela sua imagem, pelo seu estilo. As outras pessoas falam demais, se exibem demais. Ele só fala quando tem algo a dizer. E atira quando precisa.

Nesse universo de tela larga e expressiva, onde a fotografia revela cores profundas, tanto de dia e seu calor em cores quentes quanto à noite, é possível praticamente sentir o frio da noite e suas densas penumbras. Da mesma forma, os closes que Leone realiza revelam muito mais sobre os personagens do que suas falas. Quando estão mais próximos da câmera, tudo fica mais claro e mais dramático. Vemos os sulcos em torno de suas faces iluminados pela noite, e de dia seu suor escorrendo pelas rugas, assim como as estradinhas de terra atravessadas por seus cavalos. Os olhos do Homem Misterioso surgem sempre expressivos, observadores e pensativos.

Mas Leone sabe que nada adianta um herói sem um vilão à altura. E por isso mesmo somos apresentados a Ramon; primeiro pela sua fama, depois pelas suas ações, e por último pelos suas falas. E aqui é importante ressaltar que o que ele diz não está de acordo com os atos que acabamos de presenciar. Portanto, é um mentiroso, e é capaz de tudo para conseguir o que deseja, como matar qualquer um que se opuser. Esse sinal de desvio de caráter é uma espécie de maniqueísmo orgânico que nos ajuda a separar com precisão alegórica o bom do mau no palco de conflitos que se arma: de um lado, a família do xerife; do outro, dos bandidos sanguinários; e, no meio, o não-nomeado: o desequilíbrio que faltava.

O embate não é apenas físico, mas, principalmente, psicológico. Ao acompanharmos as artimanhas do homem de poncho acompanhamos seu raciocínio. Nos poucos diálogos que escapam de sua boca compreendemos que não haverá pistas sobre seus planos. Talvez nem ele saiba ao certo, pois tudo vai acontecendo mais ou menos que por acidente. Mas é um acidente planejado, previsto em roteiro, só que o brilhantismo da história está em não percebermos isso. Da mesma forma, os personagens que precisam existir para atingir a dramaticidade de seu desfecho são desenvolvidos durante os acontecimentos do segundo ato. Como não há muito tempo para eles, alguns até o nome já soam significativos (Jesus e Marisol). Até o preto vestido por uma personagem em específico já denuncia o que virá. Tudo é muito gráfico e visceral, e não apenas nas cenas de ação.

Aliás, o fato da história ter algumas reviravoltas apenas alimenta nosso desejo pela ação, que quando vem, também é divinamente orquestrada. O herói surge em meio a fumaça, como imortal. Aumenta o som e a dramaticidade da trilha sempre presente e inspirada de Ennio Morricone, o John Williams da Itália, que ilustra com precisão a jornada do herói na versão faroeste. Assim como Clint Eastwood, o Yojimbo de Leone acabara de surgir como um herói a resgatar o bom e velho bangue-bangue.