O Senhor das Armas

July 4, 2011 in Home Video

Lor of War. França, EUA, Alemanha, 2005. Direção e Roteiro: Andrew Niccol. Elenco: Nicolas Cage (Yuri Orlov), Ethan Hawke (Jack Valentine), Jared Leto (Vitaly Orlov), Eamonn Walker (Andre Baptiste) e Sammi Rotibi (Andre Baptiste Junior).

Sinopse: Um negociante de armas confronta a moralidade de seu trabalho enquanto é perseguido por um agente da Interpol.

O roteirista-diretor Andrew Niccol, que esteve nessa função dupla nas produções Gattaca e S1mone, além de ter escrito O Show de Truman e O Terminal, dessa vez parte para uma imersão no real, tratando do submundo do comércio ilegal de armas.

Nicholas Cage faz Yuri Orlov, um negociante de armas ilegais, durante sua ascenção em uma carreira mais que controversa. Narrado em off, insere-se no papel por completo, e ao mesmo tempo que narra as atrocidades que seus clientes fazem com as armas e toda a podridão que existe por trás de sua profissão, parece nunca fazer parte disso, alheio aos problemas locais das várias partes do mundo que visita. Mesmo sua mulher, tão desejada em sua adolescência, não o preenche tanto quanto sua profissão, e nisso é relevador que o momento em que seu filho dá seus primeiros passos é o mesmo momento em que ele fica em êxtase, não pelo filho, mas sim pelo fim da Guerra Fria, significando mais possibilidades de comércio de armas para ele.

Há um motivo para a introdução do personagem ser tão corrida e artificial. Como veremos a partir do segundo ato, a única coisa que torna Yuri Olov vivo são as vendas de armas que negocial tão magistralmente. E vê-lo comparar suas vendas a sexo não é um ato gratuito.

Vindo de uma família que no passado fingiu ser judia para conseguir se repatriar, o que reforça sua crise existência em torno do seu mundo, Orlov admira sua própria importância no contexto em que se insere. A parte que melhor resume toda essa imersão é quando, conversando com sua mulher sobre seu trabalho, em certo momento diz que não é sobre o dinheiro, mas que ele faz aquilo realmente bem. Cada vez que ele visita seus clientes, aos poucos nos sentimos cada vez mais como ele: morto por dentro, onde a única excitação é negociar as armas.

Por outro lado, a insistência de manter seu irmão mais novo no negócio em momento nenhum é justificado. Talvez apenas um conforto tê-lo presente, pois não constitui nenhuma ajuda.

Mesmo com um tropeço aqui e ali, a direção consegue destacar as características de cada personagem em cada região e unificar Yuri como o elemento em comum, o facilitador de todos. Nicholas Cage, por sua (im)presença de espírito, prova mais uma vez ser um bom ator nos papeis certos, e aqui não é uma exceção.

Ao mesmo tempo, as narrações em off conseguem na maioria do tempo harmonizar com a ação, que não é pouca. O próprio uso dessas transições entre as regiões serve como continuidade da própria história, em um ótimo exemplo de economia narrativa.

Ao evitar computação, principalmente em cenas como o pouso do avião, ou até mesmo os tanques enfileirados na entrada da Ucrânia, torna toda a experiência mais realista. Houve um trabalho igualmente recompensado em escalar figurantes locais, que se adequam ao cenário como nunca, como a cena em que vemos uma velha senhora enfileirando os ladrinhos de uma rua. Ao mesmo tempo, nota-se a competência em tentar encaixar a melhor fotografia e trilha sonora com o momemtum do personagem.

Mesmo com todas essas virtudes técnicas, a filosofia (ou a mensagem) por trás da história é o ponto forte do longa, que consegue, em seus momentos finais, causar o que todos esperamos ao assistir um bom filme: reflexão.

Trivia

  • É irônico o fato dos produtores do filme trabalharem realmente com gunrunners de armas ilegais para conseguir as armas, e ser mais barato as armas reais do que se falsificassem.
  • O filme foi financiado por instituições internacionais (nenhuma produtora dos Estados Unidos bancaram o filme).

A Queda! As Últimas Horas de Hitler

June 12, 2011 in Home Video

Der Untergang. Alemanha/Itália/Áustria, 2004. Direção: Oliver Hirschbiegel. Roteiro: Bernt Eichinger (baseado no livro de Joachim Fest e outros). Elenco: Bruno Ganz (Adolf Hitler), Alexandra Maria Lara (Traudi Junge), Corinna Harfouch (Magda Goebbels), Ulrich Matthes (Joseph Goebbels), Juliane Köhler (Eva Braun).

A proposta de evitar criar-se um microcosmos do ambiente onde Hitler passou seus últimos dias, enclausurado em um bunker com seu alto escalão e suas pessoas mais próximas, é digno de nota, pois, no decorrer da projeção, temos a sensação que muitas coisas estão acontecendo com o povo da Alemanha, não apenas em suas crescentes baixas de exércitos e civis, mas, principalmente, em sua moral.

Retratando o período desde a invasão de Berlim pelo exército russo até a rendição oficial da Alemanha, enxergamos a resistência, quase inexistente, através de uma fotografia pálida e uma câmera tensa, que não consegue se controlar. A movimentação dos personagens pelos corredores apertados do bunker contribui excepcionalmente para essa atmosfera de desorientação por qual passamos, nunca certos do que pode acontecer no próximo momento, sempre a ouvir os tiros e explosões dos ataques a poucos quilômetros de distância.

Quase ignorando o lado do inimigo vencedor, o filme se foca principalmente nas pessoas, civis ou não, que estão testemunhando os últimos momentos de uma política militar que, segundo seu próprio delírio, existiria para sempre, ou mais, seria a única maneira decente de viver para o povo germânico.

Dentro dessa ótica surreal é possível entender a desilusão nos olhos das crianças, e a crença inesgotável das pessoas na fé de seu líder, inabalável até o último segundo, mérito incontestável de Bruno Ganz, que aqui constrói um Hitler renascido das cinzas e do deboche de toda uma geração que abominou o saldo horrorizante da Segunda Grande Guerra.

Invasão do Mundo – Batalha de Los Angeles

April 27, 2011 in Cinema

Cloverfield abriu o portal de obras de ficção filmados em estilo documental, mesmo em uma produção cara e mais aprimorada que o experimento primordial de Bruxa de Blair.

Portanto, o que vemos em Invasão do Mundo é um conceito já, de certa forma, aglutinado aos gostos do espectador. O que não quer dizer, é claro, que toda obra do gênero já parte do pressuposto que será uma experiência semelhante às obras anteriores, pois tudo sempre vai depender da condução da narrativa, independente da técnica que se use.

O que vejo que está acontecendo com obras que utilizam essa técnica é uma tentativa (ainda frustrada) de mesclar ambas as técnicas: a documental e a ficcional. Essa é uma tendência que vem se repetindo, em maior ou menor grau, por exemplo, em Distrito 9, Incontrolável, Skyline. Batalha de Los Angeles é, mais uma vez, uma tentativa ainda forçada de aproveitar as vantagens de um filme documental em um filme de ação.

O que temos como resultado são efeitos especiais (principalmente sonoros) de boa qualidade em cenas que criam a tensão artificialmente através dessa técnica. Ainda como uma armadilha da própria técnica, as transições para as cenas mais “motivas” sofrem o mesmo princípio artificial, tornando tudo uma experiência tediosa e, por muitas vezes, irritante.

Mas nada disso seria um problema tão visível se aí tivéssemos uma história interessante a ser seguida (o que não ocorre, mesmo com aliens pousando na costa de Los Angeles). O tom de artificialidade gerado pela técnica sugere mais que ela funcione como uma lupa para as deficiências na própria narrativa e caracterização dos personagens, artificiais desde o princípio.

De forma que, se por um lado o desenvolvimento da história fica prejudicado em prol do uso da técnica, a própria técnica esboça sinais de que ela sozinha não consegue sustentar um filme, por melhores que sejam os efeitos.

Pontos fortes: edição de som, embora usada em excesso, é digna de nota.

Pontos fracos: o tom documental não funciona; pior: serve como uma lupa para as deficiências do roteiro.

Para aprender mais sobre a técnica:

  • Cloverfield
  • Distrito 9
  • Skyline