Retratos de uma Obsessão

July 20, 2013 in Home Video

One Hour Photo. EUA, 2002. Director: Mark Romanek. Writer: Mark Romanek. Stars: Robin Williams, Connie Nielsen, Michael Vartan.

Retratos de uma Obsessão

A fotografia como elemento narrativo de um suspense exemplar.

Entre tantas coisas que poderiam ser destacadas da performance de Robin Williams como Seymour Parrish, um funcionário de uma hoje extinta reveladora de fotos, o que permanece ao final de Retratos de uma Obsessão são os inúmeros filtros que parecem cobrir sua vida de uma aura tão poética quanto trágica. Esse sentimentos ecoam principalmente através das cores, presentes nas fotos e nas vidas das pessoa para quem trabalha, mas que a ele são negadas. Quer uso mais metafórico da fotografia no Cinema do que a própria fotografia sendo o tema principal?

Dos fregueses de costume, uma família em específico é a “obsessão” de Parrish por anos, e sua dedicação em manter a imagem dessa família no decorrer dos anos é ao mesmo tempo tocante e doentio. Nesse sentido, as expressões de um Williams bem mais contido consegue de maneira eficaz a tarefa de nos manter presos a cada passo seu tentando se aproximar de completos estranhos. Da mesma forma, conforme a história começa a se misturar com seus desejos ocultos de pertencer à família, os abusos das cores azul e laranja começam a fazer sentido nesse mundo dessaturado.

Já o trabalho do diretor/roteirista Mark Romanek constrói um thriller que oscila bem entre o clássico e a referência. Em determinado momento, um episódio de Os Simpsons mostra uma piada onde é usado o toque de O Cabo do Medo (Scorsese, 1991). Esse toque, além de uma brincadeira inocente, revela os objetivos do filme enquanto metalinguagem.

Ainda assim, com todas as desculpas possíveis, é difícil ignorar que o diretor de fotografia Jeff Cronenweth não tenha exagerado um pouco. Mas só um pouco. Todo o resto é útil para a construção do personagem e das situações. A medida do exagero é quando todas essas cores insistem em nos jogar para fora do filme. Ou talvez o ritmo às vezes descompassado, que gera um efeito episódico sem necessidade.

De qualquer forma, nada nos prepara para o final anti-climático, revelador e elegante em sua sutileza (e gritante em seu diálogo final, justo em um filme que na maior parte do tempo não precisa disso). Há algo de inocente nesse thriller enquanto thriller, mas algo de maravilhoso sendo construído com cores e enquadramentos enquanto exercício de estilo. Uma pena que ambos não consigam coexistir com total harmonia.

Em Algum Lugar do Passado

July 10, 2013 in Home Video

Somewhere in Time. EUA, 1980. Director: Jeannot Szwarc. Writers: Richard Matheson (screenplay), Richard Matheson (novel). Stars: Christopher Reeve, Jane Seymour, Christopher Plummer.

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Drama-romance e ficção científica, todos ao mesmo tempo, compostos com habilidade e harmonia.

Depois de décadas assistindo a Superman – O Filme, confesso que nas primeiras cenas de Em Algum Lugar do Passado foi difícil desassociar a figura de Christopher Reeve do kriptoniano mais famoso do Cinema. Felizmente, foi possível constatar que o talento de Reeve não se limita ao super-herói que eternizou. Digo mais: sua habilidade cômica ímpar é o que consegue balancear tão bem este drama, assim como foi no filme do homem de aço.

E o motivo do humor ser tão necessário em alguns momentos em um drama é que aqui estamos falando de uma história de peso que se traveste de ficção científica, ainda que, assim como Solaris (de Tarkóvski), seja um mero pano de fundo para uma análise profunda e atemporal dos sentimentos humanos. O plot é denso: o dramaturgo Richard Collier (Reeve) suspeita ter participado de momentos no passado longínquo de Elise McKenna (Jane Seymor), uma atriz que conheceu na noite de estreia de seu trabalho no mesmo hotel onde colheu pistas a seu respeito. Com a ajuda de auto-hipnose, Richard volta ao passado e tenta encontrá-la (ou reencontrá-la) e desvendar os sentimentos que nutre a respeito de um quadro de mais de 60 anos.

A maneira com que o diretor Jeannot Szwarc (Tubarão 2, Santa Claus) desenvolve a trama é digna de outros trabalhos de sci-fi mais ambiciosos, como De Volta para o Futuro, o já citado Solaris e Os 12 Macacos. O uso da trilha sonora temática e imortal de John Barry (saga 007) à exaustão é justificada pelo aspecto de quase-sonho da trama, que recebe apoio de uma fotografia absurdamente bela e surreal de Isidore Mankofsky, que flerta tanto com caráter onírico da experiência quanto com a visão idealista dos anos 10. Descartável dizer, esses elementos só poderiam ganhar força com um enquadramento que priorizasse os personagens em detrimento do cenário onde se encontram, algo que Szwarc faz maravilhosamente bem usando travellings seguros em torno de uma direção de arte primorosa em sua verossimilhança, com destaque para os figurinos caprichados que dão vontade de permanecermos naquela época para sempre (tanto que não nos soa estranho que o próprio Richard pense assim).

Antes da Meia-Noite

June 26, 2013 in Cinema

Before Midnight. EUA, 2013. Director: Richard Linklater. Writers: Richard Linklater, Julie Delpy, Ethan Hawke, Kim Krizan (personagens). Stars: Ethan Hawke, Julie Delpy, Seamus Davey-Fitzpatrick.

Antes da Meia-Noite

A passagem do tempo analisada pelo meu casal favorito do Cinema.

A grande sacada dos filmes que acompanham as conversas entre Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) — o ótimo Antes do Amanhecer, o excelente Antes do Pôr-do-Sol e este fabuloso Antes da Meia-Noite — é que os textos dos diálogos soam naturais, acontecem em uma ordem elegantemente cadenciada e são surpreendentemente relevantes durante todo o tempo, instigando a nossa percepção de realidade e fazendo nosso cérebro não conseguir parar de pensar nas questões tão atuais e filosóficas. Vivenciarmos esses breves momentos que exploram a vida real de maneira tão intensa no Cinema faz com que a quarta parede que nos separa dos personagens se rompa e nos atire para dentro de uma discussão existencialista qualquer, mas que ganha um contorno fascinante por estar sendo discutido com brilhantismo por este adorável casal.

Iniciando este terceiro ato no aeroporto durante a despedida de Jesse e seu filho do antigo casamento Hank (Seamus Davey-Fitzpatrick, o ponto fraco da introdução), o hábil diretor Richard Linklater logo explora a presença dos três filhos em frente à câmera de forma a demonstrar sem palavras a intromissão dessas pequenas criaturas na vida a dois de seus pais. Não é à toa, portanto, que a longa conversa inicial no carro tenha como centro — metafórico e no enquadramento — não seus participantes, mas uma linda menina que dorme e se move conforme as curvas da estrada, e que justamente quando acorda, ao abordar duas questões pontuais — uma delas envolvendo simbolicamente uma maçã —, deixa claro que ser pai e mãe é um aprendizado constante na vida dos dois.

Aliás, a leveza com que se contrói a narrativa é digna de elogios. Boa parte desse feito pode ser atribuído ao ambiente escolhido: a iluminada Grécia, fonte de todo o drama e filosofia que o Ocidente continua bebendo. Ironicamente e sabiamente, a crise economômica recente a coloca também em um clima de instabilidade que faz eco com seus personagens e seus conflitos.

Se tornando um brinde ao espectador que acompanhou a despedida de Antes do Pôr-do-Sol torcendo pelo casal e ao mesmo tempo um desapontamento por não acompanharmos suas vidas durante os nove anos que se passaram, a sequência criada pelo trio Linklater/Delpy/Hawke explora momentos dos dois longas anteriores sem deixar confuso aquele que está vendo os personagens pela primeira vez na vida. No entanto, que pecado não tê-los visto antes! Sempre me assombra como as cerca de seis horas acompanhando o casal parecem tão curtas, o que encontra um ponto de suporte no discurso final à mesa de uma senhora que, tendo perdido o marido, confabula sobre como as picuínhas de casal não são nada frente à efemeridade da vida; se levarmos a própria vida ao pé da letra, estamos apenas de passagem. Esse momento é tão lindo por conseguir unir uma visão poética da vida real com a visão narrativa dos três filmes, pois tanto a vida quanto o Cinema são breves demais para tamanho deslumbramento.

Outra grande sacada dos roteiros envolvendo o instigante casal é que a sua natureza parte das discussões comuns que ocorrem a todo momento entre pessoas da vida real, o que engrandece ainda mais a nossa identificação. Mais ainda, seus questionamentos filosóficos envolvendo a passagem do tempo e todas as consequências que dela deriva, também fazem parte daquele lugar comum que todos nós um dia ou outro pensamos. A grande vantagem de ouvirmos Jesse e Celine é poder catalisarmos nossas frustrações naqueles personagens e verbalizarmos tudo o que inconscientemente sentimos. Tal como um filme que o espectador gosta sem saber por que, a vida se torna mais clara sem entendermos ao certo. Falar sobre a própria vida ou sobre a arte parece ganhar significado.

Se houvesse um grande defeito que eu poderia reclamar das experiências do casal do Amanhecer seria que seus filmes acabam cedo demais. Talvez um aviso necessário de que a vida, por mais pesada que às vezes pareça, é uma simples e breve passagem de e para toda a eternidade.

Lincoln

January 30, 2013 in Cinema

Idem. EUA, 2012. Director: Steven Spielberg. Writers: Tony Kushner (screenplay), Doris Kearns Goodwin (book). Stars: Daniel Day-Lewis, Sally Field, David Strathairn, Joseph Gordon-Levitt, James Spader, Hal Holbrook, Tommy Lee Jones, John Hawkes, Jackie Earle Haley, Bruce McGill. Original Music: John Williams. Cinematography: Janusz Kaminski. Art Direction: Curt Beech, David Crank, Leslie McDonald. Set Decoration: Jim Erickson, Peter T. Frank. Costume Design: Joanna Johnston.

Lincoln

A reconstrução do Mito e da História é de encher os olhos a cada momento.

Talvez Spielberg tenha reverenciado demais a figura do presidente abolicionista. Mas quem poderá acusá-lo? Em uma época onde imperava os pensamentos que vemos do povo e dos seus dirigentes é admirável que o filme comece já com uma figura como ele, vindo do sul e com pensamentos simples e bem colocados, como chefe de estado de uma nação dividida.

Daniel Day-Lewis (Sangue Negro) encarna o personagem com uma igual reverência, mas para nós parece mais humano, mais frágil. Fica difícil entender como um velho de olhar e dizer vagaroso conseguia direcionar seus pensamentos e toda sua vontade por sua causa. Por outro lado, é com essa mesma fragilidade que Day-Lewis nos impressiona nos momentos “pulso-firme” do presidente. Mais difícil ainda para sua atuação é conseguir se sobressair a tantas atuações memoráveis, onde até Tommy Lee Jones ganha seu espaço (se fosse apontar uma única exceção seria Sally Field, obviamente desalinhada com a proposta de uma primeira dama amargurada).

A discussão da escravidão — tema central e presente em todo o momento — é colocada até as últimas consequências. Porém, diferente do bobinho Histórias Cruzadas, que investe no sentimentalismo barato, o jogo de poder e influência é o verdadeiro protagonista. A. Lincoln parece inofensivamente perigoso, mas consegue alterar seu humor para cada momento. É uma lenda para seu povo. Não esperaríamos nada menor. Mesmo assim, os diálogos e a questão maior da liberdade para todos os cidadãos é um objetivo que parece inalcançável até para um dos estadistas mais memoráveis da história americana.

E por isso Spielberg investe em tomadas sempre grandiosas, com muitos figurantes, construções e figurinos. Detalhe: sempre em movimento. Um trabalho de encher os olhos para um filme tão cheio de diálogos. A câmera costuma navegar em torno dos seus personagens, levemente, tendo aparentemente o único motivo de apresentar o cenário, uma reconstrução digna de ser vista na telona, com o mesmo capricho fotográfico do igualmente empolgante Na Estrada.

A trilha sonora acompanha a morosidade da evolução sobre a emenda que poderá vencer a guerra e acabar com a escravidão (e a economia) do sul. Porém, com todo o respeito a John Williams, a única que parece querer dizer de maneira mais expressiva o que está acontecendo é a fotografia, que encobre Lincoln de sombras dentro de sua casa, para apenas depois o vermos sob uma luz forte e renovadora. Não é nenhum segredo o que isso significa e por que acontece, mas continua sempre lindo de se ver.

Heleno

January 19, 2013 in Home Video

Idem. Brasil, 2011. Director: José Henrique Fonseca. Writers: Fernando Castets (screenplay), Roberto Ceuninck (collaborating writer). Stars: Rodrigo Santoro, Angie Cepeda and Aline Moraes. Cinematography: Walter Carvalho.

Heleno

Uma trágica lenda do nosso futebol é pano verde de fundo para discussão mais ampla.

Nada mais apropriado às vésperas da segunda Copa do Mundo no Brasil — a primeira, em 1950 — para revermos a biografia de um jogador de futebol totalmente esquecido daquela época e de quebra entendermos um pouco como o processo de modernização do esporte retirou todo o romantismo de uma era e transformou os esportistas em meras figurinhas de um álbum prestes a expirar.

E a expiração desse álbum está cada vez mais rápida: jogadores migram de clube para clube, e os próprios clubes começam a passar de mão em mão sem qualquer vínculo à sua história e tradição. O que fica para trás — mas isso é um mero detalhe — é a vontade de jogar. O futebol perde-se no meio de tantas cifras, incalculáveis para o reles mortal.

Tudo isso bate de frente com a visão que o diretor José Henrique Fonseca (O Homem do Ano) tenta dar para o ídolo Heleno de Freitas, ajudado pela fotografia incomparável de Walter Carvalho (Central do Brasil, A Febre do Rato), que utiliza um preto e branco cheio de contraste, o que nos remete diretamente tanto para o símbolo do time em que Heleno jogava, o Botafogo do Rio, quanto para todo o romantismo de uma era. Muitas das cenas, principalmente as externas, utilizam essa estilização fingindo as limitações da época.

Heleno, mulherengo inveterado, mas jogador acima de tudo, é interpretado como que numa incorporação quase espiritual por Rodrigo Santoro. O seu overacting controlado aqui serve como uma luva, pois todo o drama e tragédia vividos pelo jogador nunca conseguiriam ser transpostos para a tela sem a ajuda da caracterização de Santoro (e que aqui também produz o filme). Perto do Heleno de Santoro, todos os outros personagens são meros coadjuvantes necessários, o que não é um defeito, mas mais um toque de gênio da dupla Fonseca/Caralho, que entendem que uma figura egocentrada como Heleno precisa de um filme só para ele.

Curioso constatar que o próprio futebol fica em segundo plano, e nunca sabemos de fato quem foi Heleno jogador. O que sabemos saiu na mídia ou da boca do próprio Heleno. E ambos, é preciso lembrar, antes de 1950 estavam criando deuses do futebol, indestrutíveis e inabaláveis. Até um templo — o Maracanã — acabou sendo construído para os rituais de adoração. A indignação do próprio Heleno de não ter jogado ainda nesse templo ilustra bem a visão que existia na época pré-futebol-arte.

Ao nos mostrar o fim e o ápice de Heleno, acompanhamos apenas sua trajetória em direção ao buraco do esquecimento. Sua lenta descaracterização merece aplausos, principalmente pela sua última frase, seu último pensamento, a respeito de si mesmo, e, por que não, a respeito de todo ídolo honrado do esporte nacional.

Precisamos Falar Sobre o Kevin

December 29, 2012 in Home Video

We Need to Talk About Kevin. Reino Unido/EUA, 2011. Director: Lynne Ramsay. Writers: Lynne Ramsay (screenplay), Rory Kinnear (screenplay). Stars: Tilda Swinton, John C. Reilly and Ezra Miller.

Precisamos Falar Sobre o Kevin

Entrega de Tilda Swinton e direção/montagem arrebatadoras tornam o filme um exemplo na arte de contar histórias.

“Precisamos Falar Sobre o Kevin” aborda de maneira surpreendente e inovadora o ponto de vista não de Kevin, um menino problemático que se tornará na sua adolescência autor de uma tragédia, mas o drama de sua mãe, evocadamente chamada Eva — a que deu à luz Caim, o primeiro assassino do mundo bíblico — e interpretada por Tilda Swinton de maneira brilhante e sem qualquer reservas.

Não se privando de esconder os acontecimentos futuros que irão ocasionar uma mudança radical na vida de toda a família, mas principalmente de Eva, a direção de Lynne Ramsay e a montagem de Joe Bini preferem “brincar” com um jogo de causa e consequência que consegue de maneira impressionante potencializar ainda mais a tensão, o suspense e o drama que se estabelece na vida de Eva a partir do nascimento de Kevin (Jasper Newell e Ezra Miller), seu primeiro filho e que parece não desenvolver suas habilidades morais e emocionais como as outras crianças. Note que eu disse “parece”, e um outro elemento intensificador de tensão usado pela diretora é exatamente nunca deixar clara essa relação de causalidade, preferindo utilizar as percepções e sentimentos da mãe, esta que talvez possua um destino tão trágico quanto a deusa Cassandra, que conhece o seu destino através de sonhos mas não consegue evitá-lo.

Ao mesmo tempo em que a história caminha pelas sutilezas da montagem e de idas e vindas pelo futuro e passado de seus personagens, o uso igualmente arraigado do vermelho na direção de arte e fotografia dos cenários, onde até mesmo um singelo uso de pelúcia pode representar perigo, é digno de aplausos. E igualmente significativa é a edição de som, que consegue sussurrar mensagens subliminares por todo o trajeto mental que Eva parece percorrer após a sua vida não ter mais volta. Os ecos formados entre esses sons e as músicas escolhidas pelo projeto são uma brincadeira à parte.

Nunca nos permitindo parar para respirar, mas em vez disso conseguindo manter um ritmo adequado para processarmos tudo o que virá no esmagador terceiro ato, o brilhantismo de “Precisamos falar…” reside não em sua história, mas as soluções desenvolvidas por toda a equipe para transmitir seu significado de maneira mais visceral possível sem cair no óbvio. Sensorialmente abalante, se torna um filme merecedor de revisitas frequentes.

Piratas Pirados!

November 4, 2012 in Home Video

The Pirates! In an Adventure with Scientists! Reino Unido/EUA, 2012. Direção: Peter Lord, Jeff Newitt. Roteiro: Gideon Defoe. Elenco: Hugh Grant, Salma Hayek e Jeremy Piven. Direção de Arte: Sarah Hauldren, Phil Lewis, Matt Perry, Matt Sanders. Fotografia: Charles Copping e Frank Passingham.

Tecnicamente impecável e com uma história de dar dó.

O nome original de “Piratas Pirados!” é algo do tipo “Os Piratas! Em uma Aventura com Cientistas!”. Ou seja, podemos deduzir daí dois pontos críticos e problemático nos dias de hoje: 1) o filme provavelmente foi criado com intenção de continuações e 2) um filme que mistura piratas e cientistas parece ter tanta certeza do que quer quanto “Cowboys e Aliens“.

A direção de Peter Lord (A Fuga Das Galinhas) auxiliado por Jeff Newitt consegue imprimir o mesmo ritmo de outras produções da Aardman, como o próprio A Fuga das Galinhas e outros ótimos exemplos como A Batalha dos Vegetais e Por Água Abaixo. Já a direção de arte encabeçada por quatro pessoas é admirável no sentido de restagar todo o universo dos piratas e inserí-lo discretamente em meio aos cenários e detalhes de figurino (como o fato da maioria da tripulação ter alguma parte do corpo faltando), além de ser soberbamente auxiliados pela fotografia espantosa da dupla Charles Copping e Frank Passingham, que conseguem criar atmosferas completamente distintas em meio ao alto-mar — com o uso de um inspirado mapa antigo — e no meio das ruas de Londres e seu aspecto enevoado e misterioso.

Já o roteiro do novato Gideon Defoe aos poucos nos leva do deslumbramento para a desilusão. Criando uma história confusa e inverossímil envolvendo piratas, Charles Darwin e a rainha da Inglaterra, a história tem a proeza de conter a maior coleção de piadas da Aardman que simplesmente não funcionam, seja por falta de timing ou por serem inseridas com elementos-surpresa que parecem tirados da manga. Quando vemos que o resultado irá dar na batidíssima lição de moral sobre o valor dos nossos entes queridos a aventura, que tinha tudo para ser uma envolvente construção de época em animação, se torna incrivelmente enfadonha.

Os Visitantes

October 31, 2012 in Cinema

Die Besucher. Alemanha, 2012. Direção: Constanze Knoche. Roteiro: Leis Bagdach. Fotografia: Kirsten Weingarten. Elenco: Uwe Kockisch, Corinna Kirchhoff, Anjorka Strechel, Irina Potapenko, Jakob Diehl, Anne Müller, Andreas Leupold.

36a. Mostra de São Paulo.

Os Visitantes é o primeiro longa do alemão Contudo Knoche e talvez por causa disso mesmo seu tema dramático possui uma leveza e ingenuidade que o torna particularmente cômico. Iniciando com a visita inesperada do pai Jacob (Uwe Kockisch) aos seus três filhos Arnolt, Sonni e Karla (Jakob Diehl, Anne Müller e Anjorka Strechel), o atípico convívio com eles é usado para desvendar mais sobre aquelas pessoas do que sobre a visita em si. (Note como apenas os primeiros nomes são usados, levando automaticamente nossa relação com os personagens a um nível familiar.)

Já ganhando a atenção do público, as coisas começam a ficar mais interessante ainda ao descobrirmos que existem na verdade dois acontecimentos a serem discutidos: um trazido pelo pai e outro (Andreas Leupold, como Hans) pela mãe, Hanna (Corinna Kirchhoff). A maneira como ambos se relacionam e como isso revela mais sobre os filhos do que sobre os pais é o que move a história através de diálogos sutis cujo pano de fundo sempre será a estrutura patriarcal clássica na incompatível vida contemporânea e o que ela formou como visão de mundo dos filhos.

Usando um ritmo sem pressa, econômico e competente em esboçar visualmente o seu objetivo, a reproximação daquela família que há tempos não tinha uma conversa como essa irá — como nos filmes do gênero — abrir algumas feridas e paulatinamente fechá-las. O passado de ausências que acabou por moldar o caráter desses jovens é revisitado, e tudo fica mais empolgante com a troca de farpas.

Nunca desinteressante em seu desenrolar um tanto óbvio, mas que com seu timing perfeito e o desempenho competente de todo o elenco o torna, Os Visitantes conclui seus conflitos com uma visão encantadoramente otimista caso seja essa também sua impressão. Contudo, o filme prefere não se intrometer mais ainda na vida daquela família, o que é admirável se considerarmos que já a tomamos como pessoas de carne e osso durante todo esse tempo.

Era uma Vez no Oeste

October 30, 2012 in Cinema

C’era una volta il West. Itália/EUA, 1968. Direção: Sergio Leone. Roteiro: Sergio Leone, Sergio Donati. Elenco: Henry Fonda, Charles Bronson, Jason Robards, Gabriele Ferzetti e Claudia Cardinale. Fotografia: Tonino Delli Colli. Montagem: Nino Baragli. Trilha Sonora: Ennio Morricone. Direção de Arte: Carlo Simi.

36a. Mostra de São Paulo.

Era Uma Vez no Oeste parece ser a tentativa de Sergio Leone de fazer o “Grande Cinema”, tornando todas as cenas costumeiras de seu faroeste mais solenes, lentas e cerimoniosas. Isso explica a trilha-comentário do músico Ennio Morricone, que oscila elegantemente entre toda essa solenidade e o pitoresco, com direito a pausa em uma música que lembra o cavalgar e que serve de tom cômico.

Essa ambição de Leone talvez fosse apenas um ledo engano, pois precisou filmar este épico para chegar em sua continuação temática em Era Uma Vez na América, que poderia muito bem ser exibido em uma sessão dupla.

Com exceção do cenário vislumbroso, as melhores partes do filme lembram muito as técnicas de enquadramento da trilogia dos dólares, em especial o último, Três Homens em Conflito. A montagem ritmada, que cria transições tão eloquentes quanto um tiro e um trem a vapor, exagera ainda mais o tom cartunesco já visto nos outros filmes. E pensar que tudo é feito sem efeitos de divisão de tela (como em Hulk) ou a fotografia alterada (como em Sin City). Não, aqui as pinturas que se criam com o aspecto panorâmico conseguem tanto evocar a beleza do quadro quanto seu tom exagerado.

Mas sou obrigado a voltar para a música. Morricone aqui cria um eco surreal vindo de uma gaita de boca tocada por ninguém nada menos que Charles Bronson, que faz o papel de homem misterioso junto com outros dois que logo se revelam: Jason Robards e Henry Fonda, este que depois de uma carreira como mocinho clássico faz aqui o seu primeiro papel de vilão, sendo por isso devidamente apresentado em uma cena particularmente cruel. Tanto essa mudança de expectativa com Fonda quanto o uso da harmônica com Bronson criam um clima estranho, quase onírico. E note como o som da gaita mescla com a música e tema e todos os outros sons do ambiente.

Aliás o uso do som “natural” no filme é digno de um maestro, pois este colabora com a tensão de uma maneira harmoniosa e ritmada, como pode-se ouvir logo na primeira cena, que utiliza o som de um velho moinho, o bater de gotas em um chapéu e uma mosca teimosa.

No entanto o mestre Leone quer deixar sua marca, e para isso tenta transformar seu bangue-bangue em uma alegoria do progresso – representado pelo trem. No fundo, a visão de Leone é um tanto ácida e talvez pessimista, pois em ambos “Era uma Vez…” os heróis e heroínas nunca representam a visão idealizada do bem, possuem falhas de caráter e conseguimos enxergar bondade em seus atos meramente pela situação onde se encontram.

Se bem que, de certa forma, a trilogia dos dólares dança no mesmo ritmo: fico feliz pelo músico ser o mestre Morricone.

O Menino do Pijama Listrado

October 20, 2012 in Home Video

The Boy in the Striped Pyjamas. Reino Unido/EUA, 2008. Direção: Mark Herman. Roteiro: John Boyne (romance), Mark Herman. Elenco: Asa Butterfield, David Thewlis e Rupert Friend.

(Muito) mais corajoso que A Lista de Schindler.

Há filmes que possuem uma catarse tão forte e fluida durante a narrativa que parece fácil produzir isso no espectador. No entanto, muitas vezes tudo isso é fruto da nossa imaginação, e há um trabalho grande do início ao fim para que esse efeito seja criado da maneira com que ocorre. Ora, como explicar que um amontoado de bonecas consiga ser tão impactante para os nossos olhos?

Baseado em livro homônimo de John Boyne, o filme de Mark Herman (que também assina o roteiro) narra as aventuras de um garoto cujo pai faz parte do exército nazista e precisa se mudar com sua família para uma casa extremamente próxima de um campo de concentração. Nele vive um menino de mesma idade e por isso forma-se uma amizade inusitada. O roteiro de Z consegue oscilar do frívolo ao cruel sem com isso perder o fio da meada, que é enxergar os horrores do holocausto através dos olhos ingênuos de uma criança.

Além de em pouquíssimo tempo de projeção conseguir a proeza de impactar-nos não só com a “solução final” de Hitler como também com os pequenos detalhes, como a convívio com um serviçal judeu na casa. Como se isso não bastasse, a história possui uma coragem fora do comum em sua conclusão, mas que com um pequeno gesto de reflexão é possível entender como era também inevitável. O impacto de um momento horroroso na história da humanidade não deve ser amenizado para irmos para casa tranquilos.