Lincoln

January 30, 2013 in Cinema

Idem. EUA, 2012. Director: Steven Spielberg. Writers: Tony Kushner (screenplay), Doris Kearns Goodwin (book). Stars: Daniel Day-Lewis, Sally Field, David Strathairn, Joseph Gordon-Levitt, James Spader, Hal Holbrook, Tommy Lee Jones, John Hawkes, Jackie Earle Haley, Bruce McGill. Original Music: John Williams. Cinematography: Janusz Kaminski. Art Direction: Curt Beech, David Crank, Leslie McDonald. Set Decoration: Jim Erickson, Peter T. Frank. Costume Design: Joanna Johnston.

Lincoln

A reconstrução do Mito e da História é de encher os olhos a cada momento.

Talvez Spielberg tenha reverenciado demais a figura do presidente abolicionista. Mas quem poderá acusá-lo? Em uma época onde imperava os pensamentos que vemos do povo e dos seus dirigentes é admirável que o filme comece já com uma figura como ele, vindo do sul e com pensamentos simples e bem colocados, como chefe de estado de uma nação dividida.

Daniel Day-Lewis (Sangue Negro) encarna o personagem com uma igual reverência, mas para nós parece mais humano, mais frágil. Fica difícil entender como um velho de olhar e dizer vagaroso conseguia direcionar seus pensamentos e toda sua vontade por sua causa. Por outro lado, é com essa mesma fragilidade que Day-Lewis nos impressiona nos momentos “pulso-firme” do presidente. Mais difícil ainda para sua atuação é conseguir se sobressair a tantas atuações memoráveis, onde até Tommy Lee Jones ganha seu espaço (se fosse apontar uma única exceção seria Sally Field, obviamente desalinhada com a proposta de uma primeira dama amargurada).

A discussão da escravidão — tema central e presente em todo o momento — é colocada até as últimas consequências. Porém, diferente do bobinho Histórias Cruzadas, que investe no sentimentalismo barato, o jogo de poder e influência é o verdadeiro protagonista. A. Lincoln parece inofensivamente perigoso, mas consegue alterar seu humor para cada momento. É uma lenda para seu povo. Não esperaríamos nada menor. Mesmo assim, os diálogos e a questão maior da liberdade para todos os cidadãos é um objetivo que parece inalcançável até para um dos estadistas mais memoráveis da história americana.

E por isso Spielberg investe em tomadas sempre grandiosas, com muitos figurantes, construções e figurinos. Detalhe: sempre em movimento. Um trabalho de encher os olhos para um filme tão cheio de diálogos. A câmera costuma navegar em torno dos seus personagens, levemente, tendo aparentemente o único motivo de apresentar o cenário, uma reconstrução digna de ser vista na telona, com o mesmo capricho fotográfico do igualmente empolgante Na Estrada.

A trilha sonora acompanha a morosidade da evolução sobre a emenda que poderá vencer a guerra e acabar com a escravidão (e a economia) do sul. Porém, com todo o respeito a John Williams, a única que parece querer dizer de maneira mais expressiva o que está acontecendo é a fotografia, que encobre Lincoln de sombras dentro de sua casa, para apenas depois o vermos sob uma luz forte e renovadora. Não é nenhum segredo o que isso significa e por que acontece, mas continua sempre lindo de se ver.

Heleno

January 19, 2013 in Home Video

Idem. Brasil, 2011. Director: José Henrique Fonseca. Writers: Fernando Castets (screenplay), Roberto Ceuninck (collaborating writer). Stars: Rodrigo Santoro, Angie Cepeda and Aline Moraes. Cinematography: Walter Carvalho.

Heleno

Uma trágica lenda do nosso futebol é pano verde de fundo para discussão mais ampla.

Nada mais apropriado às vésperas da segunda Copa do Mundo no Brasil — a primeira, em 1950 — para revermos a biografia de um jogador de futebol totalmente esquecido daquela época e de quebra entendermos um pouco como o processo de modernização do esporte retirou todo o romantismo de uma era e transformou os esportistas em meras figurinhas de um álbum prestes a expirar.

E a expiração desse álbum está cada vez mais rápida: jogadores migram de clube para clube, e os próprios clubes começam a passar de mão em mão sem qualquer vínculo à sua história e tradição. O que fica para trás — mas isso é um mero detalhe — é a vontade de jogar. O futebol perde-se no meio de tantas cifras, incalculáveis para o reles mortal.

Tudo isso bate de frente com a visão que o diretor José Henrique Fonseca (O Homem do Ano) tenta dar para o ídolo Heleno de Freitas, ajudado pela fotografia incomparável de Walter Carvalho (Central do Brasil, A Febre do Rato), que utiliza um preto e branco cheio de contraste, o que nos remete diretamente tanto para o símbolo do time em que Heleno jogava, o Botafogo do Rio, quanto para todo o romantismo de uma era. Muitas das cenas, principalmente as externas, utilizam essa estilização fingindo as limitações da época.

Heleno, mulherengo inveterado, mas jogador acima de tudo, é interpretado como que numa incorporação quase espiritual por Rodrigo Santoro. O seu overacting controlado aqui serve como uma luva, pois todo o drama e tragédia vividos pelo jogador nunca conseguiriam ser transpostos para a tela sem a ajuda da caracterização de Santoro (e que aqui também produz o filme). Perto do Heleno de Santoro, todos os outros personagens são meros coadjuvantes necessários, o que não é um defeito, mas mais um toque de gênio da dupla Fonseca/Caralho, que entendem que uma figura egocentrada como Heleno precisa de um filme só para ele.

Curioso constatar que o próprio futebol fica em segundo plano, e nunca sabemos de fato quem foi Heleno jogador. O que sabemos saiu na mídia ou da boca do próprio Heleno. E ambos, é preciso lembrar, antes de 1950 estavam criando deuses do futebol, indestrutíveis e inabaláveis. Até um templo — o Maracanã — acabou sendo construído para os rituais de adoração. A indignação do próprio Heleno de não ter jogado ainda nesse templo ilustra bem a visão que existia na época pré-futebol-arte.

Ao nos mostrar o fim e o ápice de Heleno, acompanhamos apenas sua trajetória em direção ao buraco do esquecimento. Sua lenta descaracterização merece aplausos, principalmente pela sua última frase, seu último pensamento, a respeito de si mesmo, e, por que não, a respeito de todo ídolo honrado do esporte nacional.

Precisamos Falar Sobre o Kevin

December 29, 2012 in Home Video

We Need to Talk About Kevin. Reino Unido/EUA, 2011. Director: Lynne Ramsay. Writers: Lynne Ramsay (screenplay), Rory Kinnear (screenplay). Stars: Tilda Swinton, John C. Reilly and Ezra Miller.

Precisamos Falar Sobre o Kevin

Entrega de Tilda Swinton e direção/montagem arrebatadoras tornam o filme um exemplo na arte de contar histórias.

“Precisamos Falar Sobre o Kevin” aborda de maneira surpreendente e inovadora o ponto de vista não de Kevin, um menino problemático que se tornará na sua adolescência autor de uma tragédia, mas o drama de sua mãe, evocadamente chamada Eva — a que deu à luz Caim, o primeiro assassino do mundo bíblico — e interpretada por Tilda Swinton de maneira brilhante e sem qualquer reservas.

Não se privando de esconder os acontecimentos futuros que irão ocasionar uma mudança radical na vida de toda a família, mas principalmente de Eva, a direção de Lynne Ramsay e a montagem de Joe Bini preferem “brincar” com um jogo de causa e consequência que consegue de maneira impressionante potencializar ainda mais a tensão, o suspense e o drama que se estabelece na vida de Eva a partir do nascimento de Kevin (Jasper Newell e Ezra Miller), seu primeiro filho e que parece não desenvolver suas habilidades morais e emocionais como as outras crianças. Note que eu disse “parece”, e um outro elemento intensificador de tensão usado pela diretora é exatamente nunca deixar clara essa relação de causalidade, preferindo utilizar as percepções e sentimentos da mãe, esta que talvez possua um destino tão trágico quanto a deusa Cassandra, que conhece o seu destino através de sonhos mas não consegue evitá-lo.

Ao mesmo tempo em que a história caminha pelas sutilezas da montagem e de idas e vindas pelo futuro e passado de seus personagens, o uso igualmente arraigado do vermelho na direção de arte e fotografia dos cenários, onde até mesmo um singelo uso de pelúcia pode representar perigo, é digno de aplausos. E igualmente significativa é a edição de som, que consegue sussurrar mensagens subliminares por todo o trajeto mental que Eva parece percorrer após a sua vida não ter mais volta. Os ecos formados entre esses sons e as músicas escolhidas pelo projeto são uma brincadeira à parte.

Nunca nos permitindo parar para respirar, mas em vez disso conseguindo manter um ritmo adequado para processarmos tudo o que virá no esmagador terceiro ato, o brilhantismo de “Precisamos falar…” reside não em sua história, mas as soluções desenvolvidas por toda a equipe para transmitir seu significado de maneira mais visceral possível sem cair no óbvio. Sensorialmente abalante, se torna um filme merecedor de revisitas frequentes.

Piratas Pirados!

November 4, 2012 in Home Video

The Pirates! In an Adventure with Scientists! Reino Unido/EUA, 2012. Direção: Peter Lord, Jeff Newitt. Roteiro: Gideon Defoe. Elenco: Hugh Grant, Salma Hayek e Jeremy Piven. Direção de Arte: Sarah Hauldren, Phil Lewis, Matt Perry, Matt Sanders. Fotografia: Charles Copping e Frank Passingham.

Tecnicamente impecável e com uma história de dar dó.

O nome original de “Piratas Pirados!” é algo do tipo “Os Piratas! Em uma Aventura com Cientistas!”. Ou seja, podemos deduzir daí dois pontos críticos e problemático nos dias de hoje: 1) o filme provavelmente foi criado com intenção de continuações e 2) um filme que mistura piratas e cientistas parece ter tanta certeza do que quer quanto “Cowboys e Aliens“.

A direção de Peter Lord (A Fuga Das Galinhas) auxiliado por Jeff Newitt consegue imprimir o mesmo ritmo de outras produções da Aardman, como o próprio A Fuga das Galinhas e outros ótimos exemplos como A Batalha dos Vegetais e Por Água Abaixo. Já a direção de arte encabeçada por quatro pessoas é admirável no sentido de restagar todo o universo dos piratas e inserí-lo discretamente em meio aos cenários e detalhes de figurino (como o fato da maioria da tripulação ter alguma parte do corpo faltando), além de ser soberbamente auxiliados pela fotografia espantosa da dupla Charles Copping e Frank Passingham, que conseguem criar atmosferas completamente distintas em meio ao alto-mar — com o uso de um inspirado mapa antigo — e no meio das ruas de Londres e seu aspecto enevoado e misterioso.

Já o roteiro do novato Gideon Defoe aos poucos nos leva do deslumbramento para a desilusão. Criando uma história confusa e inverossímil envolvendo piratas, Charles Darwin e a rainha da Inglaterra, a história tem a proeza de conter a maior coleção de piadas da Aardman que simplesmente não funcionam, seja por falta de timing ou por serem inseridas com elementos-surpresa que parecem tirados da manga. Quando vemos que o resultado irá dar na batidíssima lição de moral sobre o valor dos nossos entes queridos a aventura, que tinha tudo para ser uma envolvente construção de época em animação, se torna incrivelmente enfadonha.

Os Visitantes

October 31, 2012 in Cinema

Die Besucher. Alemanha, 2012. Direção: Constanze Knoche. Roteiro: Leis Bagdach. Fotografia: Kirsten Weingarten. Elenco: Uwe Kockisch, Corinna Kirchhoff, Anjorka Strechel, Irina Potapenko, Jakob Diehl, Anne Müller, Andreas Leupold.

36a. Mostra de São Paulo.

Os Visitantes é o primeiro longa do alemão Contudo Knoche e talvez por causa disso mesmo seu tema dramático possui uma leveza e ingenuidade que o torna particularmente cômico. Iniciando com a visita inesperada do pai Jacob (Uwe Kockisch) aos seus três filhos Arnolt, Sonni e Karla (Jakob Diehl, Anne Müller e Anjorka Strechel), o atípico convívio com eles é usado para desvendar mais sobre aquelas pessoas do que sobre a visita em si. (Note como apenas os primeiros nomes são usados, levando automaticamente nossa relação com os personagens a um nível familiar.)

Já ganhando a atenção do público, as coisas começam a ficar mais interessante ainda ao descobrirmos que existem na verdade dois acontecimentos a serem discutidos: um trazido pelo pai e outro (Andreas Leupold, como Hans) pela mãe, Hanna (Corinna Kirchhoff). A maneira como ambos se relacionam e como isso revela mais sobre os filhos do que sobre os pais é o que move a história através de diálogos sutis cujo pano de fundo sempre será a estrutura patriarcal clássica na incompatível vida contemporânea e o que ela formou como visão de mundo dos filhos.

Usando um ritmo sem pressa, econômico e competente em esboçar visualmente o seu objetivo, a reproximação daquela família que há tempos não tinha uma conversa como essa irá — como nos filmes do gênero — abrir algumas feridas e paulatinamente fechá-las. O passado de ausências que acabou por moldar o caráter desses jovens é revisitado, e tudo fica mais empolgante com a troca de farpas.

Nunca desinteressante em seu desenrolar um tanto óbvio, mas que com seu timing perfeito e o desempenho competente de todo o elenco o torna, Os Visitantes conclui seus conflitos com uma visão encantadoramente otimista caso seja essa também sua impressão. Contudo, o filme prefere não se intrometer mais ainda na vida daquela família, o que é admirável se considerarmos que já a tomamos como pessoas de carne e osso durante todo esse tempo.

Era uma Vez no Oeste

October 30, 2012 in Cinema

C’era una volta il West. Itália/EUA, 1968. Direção: Sergio Leone. Roteiro: Sergio Leone, Sergio Donati. Elenco: Henry Fonda, Charles Bronson, Jason Robards, Gabriele Ferzetti e Claudia Cardinale. Fotografia: Tonino Delli Colli. Montagem: Nino Baragli. Trilha Sonora: Ennio Morricone. Direção de Arte: Carlo Simi.

36a. Mostra de São Paulo.

Era Uma Vez no Oeste parece ser a tentativa de Sergio Leone de fazer o “Grande Cinema”, tornando todas as cenas costumeiras de seu faroeste mais solenes, lentas e cerimoniosas. Isso explica a trilha-comentário do músico Ennio Morricone, que oscila elegantemente entre toda essa solenidade e o pitoresco, com direito a pausa em uma música que lembra o cavalgar e que serve de tom cômico.

Essa ambição de Leone talvez fosse apenas um ledo engano, pois precisou filmar este épico para chegar em sua continuação temática em Era Uma Vez na América, que poderia muito bem ser exibido em uma sessão dupla.

Com exceção do cenário vislumbroso, as melhores partes do filme lembram muito as técnicas de enquadramento da trilogia dos dólares, em especial o último, Três Homens em Conflito. A montagem ritmada, que cria transições tão eloquentes quanto um tiro e um trem a vapor, exagera ainda mais o tom cartunesco já visto nos outros filmes. E pensar que tudo é feito sem efeitos de divisão de tela (como em Hulk) ou a fotografia alterada (como em Sin City). Não, aqui as pinturas que se criam com o aspecto panorâmico conseguem tanto evocar a beleza do quadro quanto seu tom exagerado.

Mas sou obrigado a voltar para a música. Morricone aqui cria um eco surreal vindo de uma gaita de boca tocada por ninguém nada menos que Charles Bronson, que faz o papel de homem misterioso junto com outros dois que logo se revelam: Jason Robards e Henry Fonda, este que depois de uma carreira como mocinho clássico faz aqui o seu primeiro papel de vilão, sendo por isso devidamente apresentado em uma cena particularmente cruel. Tanto essa mudança de expectativa com Fonda quanto o uso da harmônica com Bronson criam um clima estranho, quase onírico. E note como o som da gaita mescla com a música e tema e todos os outros sons do ambiente.

Aliás o uso do som “natural” no filme é digno de um maestro, pois este colabora com a tensão de uma maneira harmoniosa e ritmada, como pode-se ouvir logo na primeira cena, que utiliza o som de um velho moinho, o bater de gotas em um chapéu e uma mosca teimosa.

No entanto o mestre Leone quer deixar sua marca, e para isso tenta transformar seu bangue-bangue em uma alegoria do progresso – representado pelo trem. No fundo, a visão de Leone é um tanto ácida e talvez pessimista, pois em ambos “Era uma Vez…” os heróis e heroínas nunca representam a visão idealizada do bem, possuem falhas de caráter e conseguimos enxergar bondade em seus atos meramente pela situação onde se encontram.

Se bem que, de certa forma, a trilogia dos dólares dança no mesmo ritmo: fico feliz pelo músico ser o mestre Morricone.

O Menino do Pijama Listrado

October 20, 2012 in Home Video

The Boy in the Striped Pyjamas. Reino Unido/EUA, 2008. Direção: Mark Herman. Roteiro: John Boyne (romance), Mark Herman. Elenco: Asa Butterfield, David Thewlis e Rupert Friend.

(Muito) mais corajoso que A Lista de Schindler.

Há filmes que possuem uma catarse tão forte e fluida durante a narrativa que parece fácil produzir isso no espectador. No entanto, muitas vezes tudo isso é fruto da nossa imaginação, e há um trabalho grande do início ao fim para que esse efeito seja criado da maneira com que ocorre. Ora, como explicar que um amontoado de bonecas consiga ser tão impactante para os nossos olhos?

Baseado em livro homônimo de John Boyne, o filme de Mark Herman (que também assina o roteiro) narra as aventuras de um garoto cujo pai faz parte do exército nazista e precisa se mudar com sua família para uma casa extremamente próxima de um campo de concentração. Nele vive um menino de mesma idade e por isso forma-se uma amizade inusitada. O roteiro de Z consegue oscilar do frívolo ao cruel sem com isso perder o fio da meada, que é enxergar os horrores do holocausto através dos olhos ingênuos de uma criança.

Além de em pouquíssimo tempo de projeção conseguir a proeza de impactar-nos não só com a “solução final” de Hitler como também com os pequenos detalhes, como a convívio com um serviçal judeu na casa. Como se isso não bastasse, a história possui uma coragem fora do comum em sua conclusão, mas que com um pequeno gesto de reflexão é possível entender como era também inevitável. O impacto de um momento horroroso na história da humanidade não deve ser amenizado para irmos para casa tranquilos.

Solaris (1972)

October 20, 2012 in Cinema

Idem. União Soviética, 1972. Direção: Andrei Tarkóvski. Roteiro: Andrei Tarkóvski, Friedrich Gorenstein. Fotografia: Vadim Iússov. Elenco: Donatas Banionis, Natália Bondartchuk, Iúri Iarvet, Vladislav Dvorjetski, Nikolai Grinko, Sos Sarkissian.

36a. Mostra São Paulo

Solaris exige do espectador uma imersão surreal e ao mesmo tempo filosófica. Tudo bem que isso já é esperado de toda boa obra de ficção-científica, que nos coloca em uma realidade alternativa mas que continua debatendo temas da época em que foi feita.

Só que aqui estamos falando de uma união entre sci-fi e filosofia Tarkosvkiana. Quero dizer, o diretor é intenso. E é russo. Sonhos aqui não são apenas descritos: são vividos.

E por falar em sonhos, nos colocamos na situação do psicólogo Kelvin (Donatas Banionis), cuja missão se passa na estação espacial em torno da atmosfera misteriosa do planeta Solaris, que possui um oceano que se comporta como uma espécie de cérebro, materializando criaturas que se parecem (e agem) como humanos. Como não poderia deixar de ser, essas aparições estão deixando a equipe de pesquisadores extremamente perturbada, o que não os ajuda em nada a desvendar o funcionamento do planeta.

O mais curioso de uma história envolvendo gabaritados doutores é que estes fazem parte do filme, e por isso não conseguem entender algo que para nós, espectadores, munidos do poder da metáfora e alegorias, conseguimos enxergar de maneira muito óbvia: o oceano que adquire diversos formatos faz o papel da psique humana. E a psique não se devenda, se interpreta.

E é exatamente isso que Tarkovski nos sugere, aplicando rebuscados planos e se estendendo em torno de quadros que repetem um padrão (ou a falta de). Quando Kelvin passa a conviver com sua ex-amada Hari (Natalya Bondarchuk), a experiência é tão intensa que é como se nós mesmos a conhecêssemos de outras vidas.

De certa forma, isso não é completamente mentira. O oceano de Solaris pode representar, de certa forma, a psique da humanidade inteira. A visão junguiana favorece as elucubrações filosóficas que ocorrem. E se estas podem parecer simplesmente jogadas, é preciso lembrar que ela está saindo da boca de representantes máximos da espécie humana (e Sócrates está presente em ambos os ambientes, na Terra e no Espaço). Estes homens não conseguiram desvendar Solaris assim como o Homem não consegue a si mesmo.

Que triste fim para o Homem que, por não saber quando vai morrer, vive apressadamente. Se pelo menos tiver apreciado uma sessão de Solaris, talvez a viagem não tenha sido feita em vão.

Cosmópolis

October 11, 2012 in Cinema

Cosmopolis. França/Canadá/Portugal/Itália, 2012. Direção: David Cronenberg. Roteiro: David Cronenberg, Don DeLillo (romance). Elenco: Robert Pattinson, Juliette Binoche, Sarah Gadon, Kevin Durand.

O Charles Foster Kane de nossa era não é ninguém mais do que qualquer um.

Se visto como um filme com começo, meio e fim, Cosmópolis pode se transformar em uma decepção. No entanto, se percebermos o padrão utilizado em seus caóticos diálogos, será possível destrinchar ao menos o tema da história: um dia na vida de Eric Packer (Robert Pattinson), um bilionário resultado da soma da especulação financeira com sua inteligência fora do comum ao transformar em dinheiro a commoditiy mais importante da nossa era: a informação. Sintetizando a frase anterior, como o próprio Eric o faria: um dia na era da informação.

Aliás, o uso ou desuso de padrões é uma constante na jornada do bilionário dentro de sua limusine em direção à única coisa que sabemos de concreto que ele deseja: um corte de cabelo. Para isso, participaremos de uma visão extremamente peculiar de Cronenberg a respeito do que ele pensa desses senhores donos das pessoas e suas vidas, visionários que se misturam com a população com a única exceção de não fazerem parte dela. É uma jornada de ego, onde o melhor exemplo que pude encontrar foi quando o próprio Eric conta uma passagem de sua infância: contando quatro anos de idade, calculava quanto pesaria em cada planeta do sistema solar. Como sua recente esposa conclui: o exemplo perfeito entre ciência e ego. Digo mais: temos nesse único exemplo referências à sua inteligência (tão jovem), o uso da informação comum (gravidade nos planetas) e a detecção de padrões (gravidade vs peso). A sua descoberta de criança será sua própria recompensa, o que mais uma vez é icônico: como se sabe, o que faz “traders” ganharem mais dinheiro que todos não é o foco em ganhar dinheiro, mas o desejo insaciável de estar certo. Estar certo e antes de todos.

Não contando sequer 30 anos, aparentemente não há mais nada de novo na vida de Eric, ou pelo menos nada que o interessse o suficiente para fazer mudar sua expressão. Assistimos estupefatos às suas tentativas em sentir algo novo, onde até a palavra “novo” é referência a uma droga usada pelos jovens. Note como o rapaz nem liga para o despudor com que fala dos seus funcionários, ou a maneira apática com que assiste por um de seus monitores no carro de luxo a um ataque brutal a uma pessoa conhecida, ou até mesmo eventos extremamente impactantes ocorrendo a poucos metros a partir de sua visão das janelas de sua limusine, tudo isso filmado com a calma e a competência de um maduro Cronenberg. Talvez no fundo ele saiba que nada pode atravessar seu carro/escritório “à prova de riscos”, o que revela, através de sua falta de reação a eventos mais humanos, seu distanciamento das pessoas. Porém, ao mesmo tempo que compreendemos a postura apática diante da humanidade de Eric, é curioso acompanhar sua ânsia de conhecer tudo sobre as pessoas sob um ponto de vista observador de objetos — o que faz inclusive com as mulheres.

Ao mesmo tempo em que sua vida é baseada em comprar coisas e ele coisifique suas relações humanas, sua verdadeira paixão — embora notemos pela falta de outras coisas que o interesse — é a busca por padrões. Nesse momento o roteiro encontra sua razão de ser e os diálogos começam a fazer sentido pela sua falta de um sentido simples. A vida de Eric vai desmoronando e com ela sua lógica. Nós sentimos o mesmo que ele na sua impotência de entender o Yuan. As frases que ouvimos não fazem sentido, assim como as suas ações não fazem. Incapaz de entender sua própria vulnerabilidade dentro do sistema seu único anseio é ter o seu corte de cabelo, uma ação, a única, talvez, que o remeta à sua humilde origem, o que é fácil de notar pelas paredes sujas e pela cadeira infantil da barbearia, um carrinho velho e empoeirado. O fato de quando criança não querer se sentar na cadeira para crianças é sintomático e cria uma curiosa rima com sua própria limusine.

Se, por fim, entendermos as mensagens de seu segurança a respeito da ameaça que o cerca, e todos os elementos repetidos à exaustão em meio a conversas subjetivas e codificadas com seus outros funcionários, encontraremos por fim seu arco dramático: o impassível Eric que conversa em pé no começo de um ensolarado dia não é o mesmo excitado Eric do final da noite, ansioso por uma revelação do seu próprio destino, esse que não conseguiu prever. A participação apaixonada de um Paul Giamatti cria o contraponto que esperávamos não de um antagonista, pois não há inimigos para Eric, mas de alguém que, diferente dele, mas com as mesmas condições, não conseguiu ser ninguém além de um dejeto humano. Ambos objetificam as pessoas e até os sentimentos, mas Eric possui dinheiro/poder/influência. E isso, hoje em dia e sempre, é o que faz toda a diferença.

Sobre Meninos e Lobos

October 7, 2012 in Home Video

Mystic River. EUA/Austrália, 2003. Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Brian Helgeland, Dennis Lehane (romance). Elenco: Sean Penn, Tim Robbins e Kevin Bacon. Trilha Sonora: Clint Eastwood. Fotografia: Tom Stern.

Eastwood de Menina de Ouro e A Troca se formando.

Dono de uma cinegrafia invejável como diretor, Clint Eastwood aqui começa a demonstrar uma mudança dramática na maneira de contar uma história. Sem pressa para desenvolver a trama e ao mesmo tempo mostrando apenas o necessário para que se mantenha o suspense, o roteiro de Brian Helgeland caminha por igual na vida de cada personagem para que entendamos o peso de cada encontro e de cada diálogo. Além disso, as cenas possuem uma fluidez admirável ainda mais se considerarmos a quebra de ritmo que poderia surgir ao abordar tantos pontos de vista diferentes para um mesmo fato.

O elenco está afinadíssimo, mas Sean Penn e Tim Robbins possuem seus momentos particulares que roubam a cena e quase todo o filme. A trilha sonora consegue manter o clima de tensão e mistério quase sem se fazer notar, diferente da fotografia, triste, bela e azul, que surpreende a cada novo enquadramento de Eastwood, que utiliza o trabalho do fotógrafo Tom Stern para buscar organicidade de tanta beleza, como quando enfoca o personagem de Tim Robbins no escuro de um quarto, ou as diferentes cenas aéreas que parecem querer juntar todos os pedaços de uma só vez.