Antes da Meia-Noite

June 26, 2013 in Cinema

Before Midnight. EUA, 2013. Director: Richard Linklater. Writers: Richard Linklater, Julie Delpy, Ethan Hawke, Kim Krizan (personagens). Stars: Ethan Hawke, Julie Delpy, Seamus Davey-Fitzpatrick.

Antes da Meia-Noite

A passagem do tempo analisada pelo meu casal favorito do Cinema.

A grande sacada dos filmes que acompanham as conversas entre Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) — o ótimo Antes do Amanhecer, o excelente Antes do Pôr-do-Sol e este fabuloso Antes da Meia-Noite — é que os textos dos diálogos soam naturais, acontecem em uma ordem elegantemente cadenciada e são surpreendentemente relevantes durante todo o tempo, instigando a nossa percepção de realidade e fazendo nosso cérebro não conseguir parar de pensar nas questões tão atuais e filosóficas. Vivenciarmos esses breves momentos que exploram a vida real de maneira tão intensa no Cinema faz com que a quarta parede que nos separa dos personagens se rompa e nos atire para dentro de uma discussão existencialista qualquer, mas que ganha um contorno fascinante por estar sendo discutido com brilhantismo por este adorável casal.

Iniciando este terceiro ato no aeroporto durante a despedida de Jesse e seu filho do antigo casamento Hank (Seamus Davey-Fitzpatrick, o ponto fraco da introdução), o hábil diretor Richard Linklater logo explora a presença dos três filhos em frente à câmera de forma a demonstrar sem palavras a intromissão dessas pequenas criaturas na vida a dois de seus pais. Não é à toa, portanto, que a longa conversa inicial no carro tenha como centro — metafórico e no enquadramento — não seus participantes, mas uma linda menina que dorme e se move conforme as curvas da estrada, e que justamente quando acorda, ao abordar duas questões pontuais — uma delas envolvendo simbolicamente uma maçã —, deixa claro que ser pai e mãe é um aprendizado constante na vida dos dois.

Aliás, a leveza com que se contrói a narrativa é digna de elogios. Boa parte desse feito pode ser atribuído ao ambiente escolhido: a iluminada Grécia, fonte de todo o drama e filosofia que o Ocidente continua bebendo. Ironicamente e sabiamente, a crise economômica recente a coloca também em um clima de instabilidade que faz eco com seus personagens e seus conflitos.

Se tornando um brinde ao espectador que acompanhou a despedida de Antes do Pôr-do-Sol torcendo pelo casal e ao mesmo tempo um desapontamento por não acompanharmos suas vidas durante os nove anos que se passaram, a sequência criada pelo trio Linklater/Delpy/Hawke explora momentos dos dois longas anteriores sem deixar confuso aquele que está vendo os personagens pela primeira vez na vida. No entanto, que pecado não tê-los visto antes! Sempre me assombra como as cerca de seis horas acompanhando o casal parecem tão curtas, o que encontra um ponto de suporte no discurso final à mesa de uma senhora que, tendo perdido o marido, confabula sobre como as picuínhas de casal não são nada frente à efemeridade da vida; se levarmos a própria vida ao pé da letra, estamos apenas de passagem. Esse momento é tão lindo por conseguir unir uma visão poética da vida real com a visão narrativa dos três filmes, pois tanto a vida quanto o Cinema são breves demais para tamanho deslumbramento.

Outra grande sacada dos roteiros envolvendo o instigante casal é que a sua natureza parte das discussões comuns que ocorrem a todo momento entre pessoas da vida real, o que engrandece ainda mais a nossa identificação. Mais ainda, seus questionamentos filosóficos envolvendo a passagem do tempo e todas as consequências que dela deriva, também fazem parte daquele lugar comum que todos nós um dia ou outro pensamos. A grande vantagem de ouvirmos Jesse e Celine é poder catalisarmos nossas frustrações naqueles personagens e verbalizarmos tudo o que inconscientemente sentimos. Tal como um filme que o espectador gosta sem saber por que, a vida se torna mais clara sem entendermos ao certo. Falar sobre a própria vida ou sobre a arte parece ganhar significado.

Se houvesse um grande defeito que eu poderia reclamar das experiências do casal do Amanhecer seria que seus filmes acabam cedo demais. Talvez um aviso necessário de que a vida, por mais pesada que às vezes pareça, é uma simples e breve passagem de e para toda a eternidade.

Flores Partidas

May 5, 2012 in Home Video

Broken Flowers. EUA, França, 2005. Direção: Jim Jarmusch. Roteiro: Jim Jarmusch (inspirado nas ideias de Bill Raden e Sara Driver). Elenco: Bill Murray, Jeffrey Wright, Jessica Lange, Julie Delpy e Sharon Stone.

Folclore do homem moderno e bem-sucedido rende história metafísica.

Don Johnston (Bill Murray, impagável) tem seu nome frequentemente confundido com seu quasi-homônimo Don Johnson (“o meu é com T”). No entanto, o que intimamente gostaria de ser é seu outro homônimo, Don Juan, conquistador inveterado de corações femininos. Um belo dia recebe uma carta rosa que menciona a existência de um filho já crescido, fruto de uma de suas inúmeras amantes. Crente de ter as qualidades de um verdadeiro conquistador, Don parte em uma jornada pelo país para verificar qual das quatro mulheres que consegue se lembrar de seu passado possuem vínculo com a suposta carta.

Dirigido e escrito por Jim Jarmusch (Sobre Café e Cigarros, Estranhos no Paraíso) baseado em ideias de seus colegas Bill Radem e Sara Driver, Flores Partidas parte de um pressuposto personagem e realiza um arco dramático que diz muito sobre a visão do homem moderno sobre suas conquistas femininas e sobre a auto-imagem que fazemos de nós mesmos e que na esmagadora maioria das vezes não passa de uma ilusão bem construída com a ajuda da opinião de amigos e conhecidos. No caso de Don, o conhecido é seu vizinho Winston (Jeffrey Wright), que, aparentando monotonia de sua própria vida, frequentemente se mete nos detalhes da vida íntima de seu amigo.

Sem muitos detalhes sobre quem é aquele homem ou do que vive, a evolução de um relacionamento é ilustrado com cada visita que ele faz, começando super-bem com uma ex-amante que possui uma ninfeta, ambas atraentes e convidativas (de uma maneira exagerada, pois é a ilusão ainda fazendo valer). No entanto, conforme vamos avançando começamos a entender coisas sobre o passado de Don que seria melhor se fosse deixado de lado. A jornada, no entanto, nunca perde o interesse, apresentando transições inteligentes que sempre estão em harmonia com o estado de espírito de nosso incansável protagonista.

Ao final, um giro de 360 graus nos revela o homem completo e ao mesmo tempo faltando partes. As ideias não encaixam perfeitamente, como a vida muitas vezes é.

Antes do Por-do-Sol

January 3, 2012 in Home Video

Before Sunset. Direção: Richard Linklater. Roteiro: Richar Linklater, Julie Delpy e Ethan Hawke. Elenco: Ethan Hawke (Jesse), Julie Delpy (Celine).

A experiência da vida traduzida em diálogos brilhantes, mas naturais.

A continuação do terno romance de um dia entre Jesse e Celine é assinada não apenas pelo diretor Richard Linklater, mas também pelos próprios atores Ethan Hawke e Julie Delpy, o que dá o tom de filme casual que tenta fechar um arco iniciado nove anos atrás, usando o mesmo espaço de tempo entre os lançamentos dos filmes.

A história começa em uma tarde em Paris, quando o agora escritor Jesse dá sua última entrevista após uma turnê pela Europa. A descrição da história de seu livro, que obviamente é sobre o filme anterior, já entrega as pistas para ligarmos acontecimentos passados e presentes, quando Jesse volta-se a encontrar com Celine.

Mais uma vez usando de diálogos que soam naturais aos dois personagens e a nós mesmos, essa nova tarde junto do casal acaba se tornando uma belíssima extensão das conversas filosóficas sobre a vida e o universo, mas principalmente do processo de amadurecimento e vivência de ambos, agora com opiniões mais amarguradas, mas nem por isso menos fascinantes. Além do mais, o longa não precisa que o espectador tenha assistido ao primeiro filme, mas enriquece com este, ou melhor dizendo, a maneira de encarar Celine e Jesse mudam dependendo se nos lembramos ou não de suas versões mais jovens. Nesse sentido, o filme acerta mais uma vez evitando flashbacks expositivos e permitindo que enxerguemos o passado pelo filtro da vivência de ambos, o que soa muito mais enriquecedor por dar abertura a interpretações diferentes de cada um.

Com uma entrega incondicional de Ethan Hawke e Julie Delpy, as interpretações envelhecidas de Jesse e Celine nos permitem lembrar de ambos mais jovens e ao mesmo tempo perceber as mudanças que podem ocorrer com o tempo, mesmo que o cinismo (agora refinado) de Jesse constate que, no fundo, as pessoas não mudam, mantendo sua essência por toda a vida.

Ironicamente, torcemos pelo mesmo, permitindo que o casal se encontre novamente mais vezes, e permita que experenciemos a beleza de compartilhar nossas vidas com o próximo, não importando que isso se resuma a uma bela tarde em uma cidade qualquer.

Quero Ser John Malkovich

January 1, 2012 in Home Video

Begin John Malkovich. EUA, 1999. Direção: Spike Jonze. Roteiro: Charlie Kaufman. Elenco: John Cusack (Craig Schwartz), Cameron Diaz (Lotte Schwartz), Catherine Keener (Maxine Lund), John Malkovich (John Horatio Malkovich), Orson Bean (Dr. Lester).

A genialidade de um roteiro super-original.

Usando como pano de fundo o universo de um titereiro e explodindo esse tema para o mundo real, Quero Ser John Malkovich não só consegue ser um filme completamente original pelas suas… inusitadas ideias (como o andar 7 e 1/2), como ainda consegue uni-las de maneira orgânica, sendo que a originalidade não é gratuita e possui sempre um significado dentro do universo onde a história se passa.

Mais inacreditável, porém, é que os conceitos cabem como uma luva em seus personagens, cujos conflitos são introduzidos de maneira simplista, que é exatamente a forma como o roteiro os encara. Aliás, não só o roteiro, como todo o trabalho de arte, notadamente a maquiagem, se esforça para apresentar as pessoas como verdadeiros títeres de carne-e-osso, vazios por dentro e toscos por fora. Quando isso fica claro para o espectador, o que ocorre depois da descoberta do portal que leva a pessoa para a consciência de John Malkovich, por mais absurda que seja a premissa, soa natural para aqueles personagens.

O roteiro de Charlie Kaufman é tão original que toda cena é empolgante por trazer algo nunca visto no Cinema. Apenas por isso, já mereceria constar na lista de filmes a se ver e estudar.

X-Men: Primeira Classe

June 7, 2011 in Cinema

X-Men First Class. EUA, 2011. Direção: Matthew Vaughn. Roteiro: Ashley Miller, Zack Stenz e outros. Elenco: James McAvoy (Charles Xavier), Michael Fassbender (Erik Lehnsherr/Magneto), Kevin Bacon (Sebastian Shaw), Jennifer Lawrence (Raven/Mística).

Quando se fala de X-Men no cinema é sempre bom relembrar que uma ficção científica, assim como qualquer filme, é um documentário da época em que foi filmado. No caso do gênero Sci-Fi, as liberdades são signitivamente maiores, e por isso mesmo permitem alegorias/caracterizações que nos levam a viajar para outro universo e debater temas tão presentes no mundo de hoje quanto o preconceito e a intolerância.

Indo a fundo nessa premissa, a intolerância da sociedade é o que une todos os mutantes do filme, que se consideram iguais por estarem na mesma posição de terem que lidar com esse preconceito. Toda essa angústia é demonstrada no filme tanto do lado dos que sofreram violência por conta disso (Magneto) quanto os que conseguiram se inserir discretamente na sociedade (Xavier). A ponte entre esses dois extremos (Raven/Mística) é o verdadeiro arco dramático que enche de lágrimas qualquer apreciador da sétima arte.

A abordagem inicial da história de Erik é primordial no sentido que apenas sabendo (visualmente) o que ele passou podemos entender o personagem dramático e angustiado que viria a ser Magneto, e sem esse início seria impossível a nossa identificação do seu drama, que por sua vez nos faz entender a fundo a causa que defende, implicando, de uma maneira assustadora, que seus argumentos tenham mais lógica até mesmo que o pacífico, e até certo ponto, ingênuo, Xavier.

É bom lembrar também que é igualmente compensadora é a química que existe na relação entre os dois, vital na evolução tanto de ambos quanto do grupo que se forma em torno de suas influências.

Porém, X-Men – Primeira Classe, além de conter internamente um tema filosófico fascinante, é também um filme movimentado, e o diretor de Kick Ass sabe como empregar o ritmo adequado a cada cena, investindo em composições puramente físicas, mas que denotam ao mesmo tempo o comportamento de seus personagens. Um filme onde até uma simples moeda participa do raccord de abertura e de uma montagem paralela espetacular (vide cenas finais), não existem limites para a criatividade do seu idealizador.

Por conta disso é uma diversão intelectual à parte descobrir como cada um dos poderes dos mutantes será usado para resolver cada situação que se encontram, ao mesmo tempo que dá a correta impressão que os mais experientes conhecem muito bem os dons com que nasceram. Xavier, por exemplo, consegue empregar os meios mais criativos a cada novo desafio, como enganar a mente de um grupo de soldados ou forçar pessoas a concordarem com ele.

Da mesma forma, a física nas cenas de ação oscila moderadamente entre o real e o estético, provando-se extremamente eficiente em seu lado ambíguo de se manifestar em composições de quadro memoráveis, como, por exemplo, quando um certo personagem sai voando sobre a água. Até mesmo a já quase-batida estética de quadrinhos é usada de forma orgânica e funciona em momento oportuno.

Se por um lado a trilha desponta timidamente em uma tentativa de criar um tema musical para o grupo, a Direção de Arte acerta em vários pontos, como ao encarar o tom futurista dos anos 60 sob a ótica da mudança que está ocorrendo, e nesse ponto a existência dos X-Men é organicamente inserida. Igualmente inteligente o fato de estarmos na Guerra Fria e detalhes como o campo de pesquisa paranormal é explicado pela própria realidade da época.

Dessa vez, até o uso dos tradicionais uniformes consegue resgatar uma referência dos quadrinhos sem parecer cafona (pelo contrário, além de existir uma explicação para seu uso ainda serve como uma curiosa referência inversa, quando, no primeiro filme, ouviremos Wolverine citar os agora conhecidos uniformes amarelos).

Ao expandir o universo criado pelos três primeiros filmes, o uso discreto e moderado das referências à obras anteriores é uma recompensa aos apreciadores das obras anteriores, independente do nível de conhecimento que este tenha sobre o universo dos quadrinhos.

E ainda que estejamos revisitando personagens já conhecidos, a maneira muito mais rica de apresentá-los sob um contexto histórico torna-os ainda mais interessantes, pois sob o pano de fundo da ação bem conduzida temos aqui personagens cujas motivações muitas vezes são díspares e multifacetadas, criando sempre uma rica discussão sobre o destino dos mutantes no mundo dos humanos, o que praticamente abre um leque infinito de possibilidades de continuações e uso de novos personagens para representar cada nuance desse mundo.

O exemplo de Fera é icônico nesse sentido. Fruto de uma transformação que usa as mesmas peculiaridades visuais do clássico Dr. Jekyll e Mr. Hyde, ele não chega a ser uma caricatura desses personagens, mas uma das tantas brincadeiras que existe no mundo dos mutantes. Em comparação com noturno, que possuía um lado religioso ao mesmo tempo que tinha a aparência de um ser demoníaco, Fera por sua vez possui uma feição bestial e ao mesmo tempo é o mais inteligente dos X-Men.

Porém, a personagem mais fascinante dos personagens secundários acaba sendo Mística, que, vivendo sempre sob a visão conservadora e pacífica de Xavier, não reluta em assumir suas diferenças perante a sociedade e erguer a bandeira do orgulho mutante (e mutante aqui, é importante notar, pode ser substituído por qualquer minoria em nosso mundo real). Dessa forma, temos uma interessante comparação entre Xavier que, devido aos seus poderes discretos, é aceito por uma sociedade que o abominaria se o conhecesse por dentro, e Mística, que é seu exato oposto, pois sua aparência instantaneamente evoca a origem mutante do seu ser.

Aliás, visual é a forma adotada inteligentemente por Matthew Vaughn para ilustrar diversos conceitos e informações disponíveis ao espectador sem a necessidade de diálogo, o que infere à obra um peso cinematográfico impressionante. Note a discrição de pequenas informações que são passadas, como a capacidade de Xavier e Emma Frost de descobrir mutantes próximos, ou a forma com que Erik descobre que o elo usado por Sebastian Shawn o protege de ter sua mente invadida por Xavier.

Mesmo em um filme com um tema sóbrio como esse, as piadas possuem seu lugar e são bem colocadas, algumas inclusive com a dupla vantagem da referência ao próprio universo, como a tentativa frustada de recrutar um mutante em um bar, ou a vaidade de Xavier com seu cabelo. E até as últimas lembranças de uma agente da CIA após ter passado por uma experiência ao lados dos mutantes é pano de fundo para uma observação bem-humorada de seu superior (aliás, em uma cena que antes vira uma discreta homenagem a Superman II).

Ainda que a comunicação visual seja vital para o filme, os diálogos são funcionais o suficiente para explicarem partes importantes da trama. Dessa forma, podemos compreender que, quando Magneto usa seus poderes de forma descomunal, internamente sabemos que os sentimentos por trás de tamanha façanha são fruto de um conjunto de sentimentos difusos, e portanto, compreendemos o sacrifício que para ele isso representa.


O que nos faz voltar ao mais dramático dos personagens, em uma participação admirável de Michael Fassbender, que consegue, ao mesmo tempo, evocar o Magneto que se tornará obcecado por suas ideias, e enriquecer um personagem que já era fascinante pela construção anterior de Ian McKellen. Se a cena que o coloca, com um toque de genialidade, em xeque pelas suas própria convicções, e o força a encarar um destino tão dramático e irônico que só pode ser comparado às obras de Shakespeare, não é algo digno de aplausos, não sei mais o que seria em um filme com tantas virtudes.

Wall Street – Poder e Cobiça

May 23, 2011 in Home Video

Wall Street. EUA, 1987. Direção: Oliver Stone. Roteiro: Stanley Weiser, Oliver Stone. Elenco: Charlie Sheen, Michael Douglas.

Após ganhar o oscar por Platoon, Oliver Stone decide focar suas lentes para sua terra natal e abordar temas em torno do que faz mudar, nós e um país inteiro, a maneira de se enxergar: o dinheiro.

A história se passa coincidentemente um pouco antes dos escândalos dos títulos podres e de informação privilegiada (uma rima da vida real no mínimo interessante, se considerarmos sua continuação após a crise de 2008). Michael Douglas faz seu primeiro papel de mau, deixando os antigos mocinhos da televisão que interpretava para trás. Charlie Sheen, por sua vez, tem a missão de transitar por ambos os extremos da moral, uma tarefa ingrata, se consideramos que terá que disputar atenção com um antagonista tão magnético quanto Gordon Gekko.

Após descrever a selva natural de Platoon, Stone decide filmar a selva de pedra que é Wall Street, onde os mais aptos sobrevivem, e o resto definha. E essa selva é capturada muitas vezes do alto, enxergando a multidão como rebanhos se engalfinhando por um lugar no elevador.

Nessa vida de pequenas disputas por um espaço, alguns tentam mais, ambicionam mais. Como Bud Fox (Sheen), que é o único que vemos sair daquele escritório apertado para procurar algo melhor. Aliás, apertado é apelido. Com seus corredores estreitos, a falta de janelas próximas, um teto baixo que a câmera de Stone captura estrategicamente por um ângulo baixo, e as pilhas de papéis de multiplicando lado a lado, o ambiente onde Fox trabalha mais se parece com um purgatório para os que não conseguiram “vencer na vida”.

Esse é um dos motivos por que impressiona o escritório de Gordon Gekko (Douglas), um megainvestidor assediado pelos menores. Com uma janela grandiosa e espaço livre para se movimentar entre as gigantescas mesas, Gordon Gekko é o personagem futuro de Bud Fox. É, pelo menos, o que ele deseja ser. E, francamente, depois de vermos aqueles corredores apertados onde Fox trabalha, é onde Gekko está que queremos estar: no topo da cadeia alimentar.

Tudo que importa saber sobre dinheiro parece repousar na mesa e nos ombros daquele homem. “Por que estou te ouvindo?”, é o que ele pergunta para Bud Fox, que mal consegue se segurar na cadeira onde senta.

A partir daí, o paralelo entre ambas as realidades é primordial para entendermos todo o contexto da trama. Ao entrarmos no universo onde vive Gordon Gekko percebemos um mundo diferente, distorcido do senso comum. Dinheiro, é o elemento que sobra. De forma que ele é gasto em futilidades como quadros pendurados pelas paredes valendo milhões de dólares. Contudo, estamos enxergando o mundo dos ricos não pela ótica de abastados herdeiros, mas por alguém que trilhou o caminho das pedras, o que faz com que até o hobby de colecionar arte se torne uma atividade lucrativa.

A decoração das habitações dos ricos é mostrada de forma irônica, a ponto de fazer uma rima anedótica com a kitinete minúscula onde vive Fox. Possui paredes com tijosos expostos e objetos com partes que faltam. A mesa, incompleta em sua superfície, também tem sua função metafórica: reflete esse sentimento vazio e deformado de uma pessoa que já teria o suficiente para uma boa vida, mas que quer sempre mais. O meio se torna o fim. A cobiça pelo dinheiro é tamanha, que as notas verdes acabam por representar essa mesma cobiça, e o poder que dele emana na mente das pessoas.

O mundo de Wall Street como é retratado poderia ser visto como um documemtário sobre a economia do país onde foi filmado, mas, mais do que isso, exibe as entranhas da ambição que existe em cada um de nós. Se enxergamos o filme como um auto-reflexo, a experiência se multiplica, como juros sobre juros. Nossa consciência, que oscila muitas vezes entre a integridade do pai de Bud Fox e o oportunismo de Gordon Gekko. Gekko se torna o pai espiritual de Fox, e, de certa forma, de todos nós que temos um pouco de ambição.

Os Agentes do Destino

May 19, 2011 in Cinema

The Adjustment Bureau. EUA, 2011. Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi. Com: Matt Damon (David Norris), Emily Blunt (Elise Sellas), John Slattery (Richardson), Anthony Mackie (Harry Mitchell) e Terence Stamp (Thompson).

Em uma época em que religião e economia precisam ser reinventadas, a visão mesclada de ambas em uma organização fria e calculista não deixa de ser no mínimo curiosa. Porém, mais do que isso é constatarmos que os homens sisudos do filme têm por função coordenar algo que para nós, seres humanos, especialmente em tempos de crise, é sabidamente a única coisa de que realmente somos donos: o livre arbítrio.

Sabendo disso, e ainda de bônus o fato do personagem de Matt Damon ser um político popular, jovem e em ascenção, mas que ao mesmo tempo se questiona sobre suas prioridades, conseguimos, desde o iníco, um filme que aborda discussões pelo menos um passo adiante sobre algumas de nossas principais convicções sociais.

De forma que, quando vemos o discurso de David Norris (Damon), refeito na hora de improviso, que estigma desde já o nosso conceito de espontaneidade, explicando para um público completamente hipnotizado pelo seu poder de comunicação como os sapatos que ele calçou durante a campanha são desgastados meticulosamente para que ao mesmo tempo atraia o trabalhador comum e não afaste a elite do mundo financeiro, somos levados através de um pano de fundo realista para uma experiência no mínimo intrigante sobre o funcionamento da nossa própria realidade.

E, de fato, existe algo durante toda a projeção que nos incita a ficarmos permanentemente curiosos a respeito do futuro de David e Elise, pois, ao mesmo tempo que descobrimos como esse futuro é construído, não conseguimos concebê-lo desde o início, condicionados que estamos com a evolução de uma narrativa cinematográfica clássica, com seus imprevistos e percalços necessários ao arco dramático de nosso protagonista.

E é justamente nesse momento que percebemos a maior fraqueza do filme: não conseguir estimular os anseios dos dois personagens, fixando-se, no lugar, em descrever durante o trajeto a forma como os tais agentes trabalham e os problemas que precisam enfrentar para tornar tudo funcionando da maneira que foram instruídos para funcionar.

No entanto, essa é uma parte necessária ao tema do filme, e muito bem-vinda, pois assim como em A Origem, precisamos de explicações muitas vezes didáticas de como as coisas funcionam nesse universo. O problema, contudo, é que, no terceiro ato, ao tentar voltar-se completamente para David e Eloise, o filme perca toda a construção feita até então para dar foco ao casal do filme que sequer conseguiu se definir na narrativa. Dessa forma, a decisão de David de vê-la mais uma vez, e para isso montar uma estratégia de guerra, soa forçado demais.

Portanto, é de esfriar os ânimos que um filme que se entregue em seu início tão corajosamente a instigar o raciocínio de seus espectadores mais abertos à filosofia, em seu final se entregue justamente ao seu oposto, quase como se o próprio filme, vítima de um plano maior, precisasse reassumir o lado clichê das produções de Hollywood e voltasse à normalidade em seus últimos quinze minutos.

Porém, não seria essa a finalização metalinguística do seu próprio criador?

Pontos fortes: É claro que a dinâmica por trás do funcionamento das portas possui suas cenas de puro êxtase visual narrativo, como nos momentos em que David precisa pular de porta em porta constantemente.

Pontos fracos: George Nolfi prova ter sido um ótimo roteirista (O Ultimato Bourne, Doze Homens e Outro Segredo) até ter sido escalado para direção, neste que é seu primeiro trabalho.

Filmes bobos sobre o tema “mistério e conspiração mundial” para ver com pipoca

  • A Caixa. Cameron Diaz bem que podia ficar só nas comédias românticas.
  • Os Esquecidos. Nada como termos sempre a mesma explicação para os mesmos tipos de filmes.
  • O Mistério da Rua 7. Precisa dizer algo mais que o título?

A Revolução dos Bichos

April 27, 2011 in Home Video

Nunca recomendo a ninguém que leia um livro antes de assistir à sua adaptação cinematográfia. Por motivos óbvios. É grande a chance que a pessoa irá se decepcionar com relação a detalhes ou omissões do roteiro, construção de personagens e cenários que já estavam dentro da psique o espectador antes mesmo dele vislumbrar a primeira cena do filme. Isso pode ser maléfico em muitos casos, e benéfico em raríssimas exceções, das quais lembro de cabeça apenas Contato.

Dito isso, acredito que A Revolução dos Bichos é um caso em que um livro tão antigo e, muito provavelmente, lido pela maioria dos espectadores (pelo menos os cultos), irá tornar a experiência de assistir ao filme um exercício de mente seletiva, que terá que abandonar seus conceitos criados a partir da leitura e entender como é possível transformar partes tão bizarras da história em algo verossímel, ou mesmo, aceitável do ponto de vista da narrativa.

De forma que temos, no exemplo de 99, uma aparente deformação na forma de contar a história que, se excluída a experiência da leitura prévia, pode ser proveitoso.

Pontos fortes: a adaptação escolhe acertadamente representar algumas coisas visualmente, e outras, dentro de diálogos.

Pontos fracos: o final se intimida em mostrar o lado irônico que Orwell tanto se empenhou em ilustrar na história original.

O Fantástico Sr. Raposo

April 27, 2011 in Home Video

Uma história de crianças que usa a inteligência estratégia de direção de arte de ser feita de forma a parecer algo caseiro, mas com uma qualidade assombrosa.

Ainda que mantenha a simplicidade em suas premissas, e divirta por causa disso, para os adultos diverte ainda mais, pois temos a sensação de acompanhar uma história dupla, com os trejeiros adultos dos personagens animais em nossa volta. De quebra, ainda temos um pensamento filosófico, com a ideia que todos aqueles bichos agindo como humanos são “selvagens”, cria-se uma impressão de que, no fundo, o ser humano pode se encaixar muito bem perspectiva.

Pontos fortes: direção de arte completamente enfocada nos objetivos da narrativa.

Pontos fracos: nada a declarar.