Flores Partidas

May 5, 2012 in Home Video

Broken Flowers. EUA, França, 2005. Direção: Jim Jarmusch. Roteiro: Jim Jarmusch (inspirado nas ideias de Bill Raden e Sara Driver). Elenco: Bill Murray, Jeffrey Wright, Jessica Lange, Julie Delpy e Sharon Stone.

Folclore do homem moderno e bem-sucedido rende história metafísica.

Don Johnston (Bill Murray, impagável) tem seu nome frequentemente confundido com seu quasi-homônimo Don Johnson (“o meu é com T”). No entanto, o que intimamente gostaria de ser é seu outro homônimo, Don Juan, conquistador inveterado de corações femininos. Um belo dia recebe uma carta rosa que menciona a existência de um filho já crescido, fruto de uma de suas inúmeras amantes. Crente de ter as qualidades de um verdadeiro conquistador, Don parte em uma jornada pelo país para verificar qual das quatro mulheres que consegue se lembrar de seu passado possuem vínculo com a suposta carta.

Dirigido e escrito por Jim Jarmusch (Sobre Café e Cigarros, Estranhos no Paraíso) baseado em ideias de seus colegas Bill Radem e Sara Driver, Flores Partidas parte de um pressuposto personagem e realiza um arco dramático que diz muito sobre a visão do homem moderno sobre suas conquistas femininas e sobre a auto-imagem que fazemos de nós mesmos e que na esmagadora maioria das vezes não passa de uma ilusão bem construída com a ajuda da opinião de amigos e conhecidos. No caso de Don, o conhecido é seu vizinho Winston (Jeffrey Wright), que, aparentando monotonia de sua própria vida, frequentemente se mete nos detalhes da vida íntima de seu amigo.

Sem muitos detalhes sobre quem é aquele homem ou do que vive, a evolução de um relacionamento é ilustrado com cada visita que ele faz, começando super-bem com uma ex-amante que possui uma ninfeta, ambas atraentes e convidativas (de uma maneira exagerada, pois é a ilusão ainda fazendo valer). No entanto, conforme vamos avançando começamos a entender coisas sobre o passado de Don que seria melhor se fosse deixado de lado. A jornada, no entanto, nunca perde o interesse, apresentando transições inteligentes que sempre estão em harmonia com o estado de espírito de nosso incansável protagonista.

Ao final, um giro de 360 graus nos revela o homem completo e ao mesmo tempo faltando partes. As ideias não encaixam perfeitamente, como a vida muitas vezes é.

Pinóquio (2002)

February 19, 2012 in Home Video

Pinocchio. Itália/EUA, 2002. Direção: Roberto Benigni. roteiro: Roberto Benigni, Vincenzo Cerami. Elenco: Roberto Benigni, Nicoletta Braschi, Carlo Giuffrè.

Benigni depois de A Vida é Bela perde o foco readaptação de obra infantil.

Essa versão da obra literária de Carlo Collodi (e cuja história foi eternizada por Disney em 1940) foi dirigida, co-roteirizada e atuada pelo ator circense Roberto Benigni (A Vida é Bela). Embora o uso da abordagem literal, ou seja, sem nenhuma ressalva ao possível choque para o público infantil, poderia ter sido a grande diferença do filme em relação às suas contrapartes, desde os primeiros quinze minutos fica óbvio que se trata de um projeto desnecessário, ainda mais se considerarmos os poucos recursos utilizados, que limitam sim a imaginação dos espectadores, considerando que se trata de um filme contemporâneo, e não estamos acostumados a fazer ressalvas como no caso do Mágico de Oz, obra mais antiga e, portanto, limitada tecnicamente (note que falo apenas dos efeitos visuais, pois existem obras seculares que até hoje impressionam pelas técnicas de filmagem empregadas).

Dito isso, é inegável que o filme possui seu próprio formato que funciona dadas suas devidas proporções (e limitações). Isso não quer dizer, no entanto, que ele inclua algo de novo, algo que, encontrado pelos cinéfilos, faça valer a pena a experiência. Em suma, ele se torna uma versão pseudo-adulta de um livro para crianças. Com bons momentos, é verdade, mas ainda limitado em seu formato e objetivos.

Nanny McPhee – A Babá Encantada

February 13, 2012 in Home Video

Nanny McPhee. EUA, 2005. Direção: Kirk Jones. Roteiro: Emma Thompson, Christianna Brand. Elenco: Emma Thompson, Colin Firth, Angela Lansbury.

Uma Matilda versão babá-bruxa.

Uma produção com um toque britânico (e atores) que consegue entreter mais pela curiosidade das próximas ações da babá mágica para controlar os sete diabinhos do desafortunado viúvo — que ainda depende de uma tia impiedosa para a sobrevivência da família — do que pela história em si, que é bobinha e previsível. O filme ainda emociona por situações naturalmente emotivas (como a decisão de escolher uma filha para entregar à tia), mas por algum motivo “mágico”, consegue caminhar até sua conclusão pelo menos ileso de apelações maiores. Talvez uma última da babá pós-créditos?

Babe, o Porquinho Atrapalhado

January 29, 2012 in Home Video

Babe. EUA, 1995. Direção: Chris Noonan. Roteiro: Dick King-Smith (romance), George Miller (roteiro). Elenco: James Cromwell e Magda Szubanski.

Uma Revolução dos Bichos mais leve e acessível.

Babe tem ares de ser um filme bonitinho e família. Afinal de contas, por quase todo o tempo vemos animais falantes interagindo e contando a história do porquinho e suas “trapalhadas”. Porém, escondido nessa fábula moderna, e como toda fábula que se preza, o pano de fundo nos remete a discussões muito mais profundas e adultas, como o preconceito e a aceitação do diferente, além de também remeter ao Revolução dos Bichos, de George Orwell, por estabelecer também uma sociedade de animais com funções pré-definidas de acordo com sua espécie e uma certa pressão para a imobilidade social.

Além disso, também temos a primososa direção de arte, que abraça junto da fotografia o lado fantástico da narrativa e constróia uma fazenda adorável, cheio de cores e formas fascinantes, que se tornam mais fascinantes ainda com a visão dos próprios animais que nela vivem, com uma mudança de câmera constante (até porque cada um dos bichinhos tem tamanhos e pontos de vista diferentes). É quase possível sentir o cheiro de mato e admirar as paisagens do amanhecer como se estivéssemos lá.

Ao mesmo tempo, a trilha sonora, competente até nos momentos mais exagerados (mais uma vez, estamos falando de uma fábula), não torna a música-tema repetitiva, mas a encaixa nos momentos-chave, e não há momento de maior significado e profundidade do que quando um certo personagem precisa alegrar o confuso porquinho.

Com uma das sequências mais memoráveis, terminando em um plano-detalhe das mãos de um homem fechando uma cerca, Babe ficará para sempre nas mentes dos que entenderam que a história não é apenas sobre um porquinho bonitinho que fala com os outros animais, mas sobre a nossa própria visão de mundo, e das pessoas que muitas vezes de origem humilde nunca damos o necessário valor ou consideração.

A Revolução dos Bichos

April 27, 2011 in Home Video

Nunca recomendo a ninguém que leia um livro antes de assistir à sua adaptação cinematográfia. Por motivos óbvios. É grande a chance que a pessoa irá se decepcionar com relação a detalhes ou omissões do roteiro, construção de personagens e cenários que já estavam dentro da psique o espectador antes mesmo dele vislumbrar a primeira cena do filme. Isso pode ser maléfico em muitos casos, e benéfico em raríssimas exceções, das quais lembro de cabeça apenas Contato.

Dito isso, acredito que A Revolução dos Bichos é um caso em que um livro tão antigo e, muito provavelmente, lido pela maioria dos espectadores (pelo menos os cultos), irá tornar a experiência de assistir ao filme um exercício de mente seletiva, que terá que abandonar seus conceitos criados a partir da leitura e entender como é possível transformar partes tão bizarras da história em algo verossímel, ou mesmo, aceitável do ponto de vista da narrativa.

De forma que temos, no exemplo de 99, uma aparente deformação na forma de contar a história que, se excluída a experiência da leitura prévia, pode ser proveitoso.

Pontos fortes: a adaptação escolhe acertadamente representar algumas coisas visualmente, e outras, dentro de diálogos.

Pontos fracos: o final se intimida em mostrar o lado irônico que Orwell tanto se empenhou em ilustrar na história original.

O Fantástico Sr. Raposo

April 27, 2011 in Home Video

Uma história de crianças que usa a inteligência estratégia de direção de arte de ser feita de forma a parecer algo caseiro, mas com uma qualidade assombrosa.

Ainda que mantenha a simplicidade em suas premissas, e divirta por causa disso, para os adultos diverte ainda mais, pois temos a sensação de acompanhar uma história dupla, com os trejeiros adultos dos personagens animais em nossa volta. De quebra, ainda temos um pensamento filosófico, com a ideia que todos aqueles bichos agindo como humanos são “selvagens”, cria-se uma impressão de que, no fundo, o ser humano pode se encaixar muito bem perspectiva.

Pontos fortes: direção de arte completamente enfocada nos objetivos da narrativa.

Pontos fracos: nada a declarar.

O Julgamento do Diabo

March 28, 2011 in Home Video

Shortcut to Happiness. EUA, 2007. Direção: Alec Baldwin. Elenco: Anthony Hopkins, Alec Baldwin, Jennifer Love Hewitt.

Existe uma relação entre esse primeiro (e único) longa de Baldwin e um filme de 1941 chamado “The Devil and Daniel Webster”: o protagonista é o mesmo Daniel Webster. Ambos possuem dois títulos: são chamados “The Devil and Daniel Webster”, porém o de 1941 também possui o título “All That Money Can Buy”, enquanto esse de 2007 é chamado também de “Shortcut to Happiness”.

Existe um motivo para isso: os dois se baseiam no mesmo conto de Stephen Vincent Benét escrito em 1937, que possui como característica marcante um julgamento entre o diabo e Daniel Webster, que aparentemente possui algum tipo de controle sobre este.

A explicação para isso, porém, é um mistério. E se pode muito bem ser desnecessário para os objetivos narrativos do pequeno conto, é imperdoável que em um filme de 106 minutos não consigamos sequer ter uma ideia da relação entre esses dois igualmente fascinantes personagens.

Contanto a história em um misto de drama, ficção e comédia moderada nos moldes de Woody Allen, o máximo que o filme consegue como unidade é exemplificar de maneira exemplar as nuâncias entre o sucesso e a felicidade de uma pessoa. Nesse aspecto, o filme toma contornos verdadeiramente intrigantes, pois o modo como Jabez, o escritor ainda não publicado, mas que vem melhorando seu estilo com o tempo, consegue, de uma hora pra outra, a vendagem e adoração fácil pelos leitores, é ao mesmo tempo inteligente e sutil: sem possuir reflexo do seu sucesso na crítica, o autor consegue, ao mesmo tempo, passar a mensagem sobre felicidade e cutucar a ferida sempre exposta dos autores de grande vendagem que possuem conteúdo de qualidade duvidável e, muitas vezes, medíocre.

Pontos fortes: relação sucesso/felicidade e best selling/crítica são de longe a melhor coisa do longa.

Ponto fraco: a indecisão da direção de conseguir se posicionar como drama ou comédia interfere na maneira do espectador se relacionar com o protagonista e, muitas vezes, frusta cenas que poderiam muito bem funcionar em ambos os gêneros, se tivéssemos apenas um.

Os Fantasmas de Scrooge

March 21, 2011 in Home Video

Jim Carrey em Motion Capture é, em poucas palavras, inusitadamente fabuloso. O trabalho feito em seu personagem, protagonista do clássico conto de Charles Dickens, que se mantém homônimo no título original, é, de longe, um trabalho rebuscado tanto nas expressões quanto nos movimentos do boneco através dos cenários igualmente trabalhados à exaustão.

Portanto, é uma pena que o aspecto estético desse tipo de filme ainda peque pela estranheza que gera ao vermos figuras humanas não exatamente reais, e tão pouco virtuais. E apesar de ter havido uma evolução considerável desde o último trabalho utilizando essa técnica (O Expresso Polar), em nada se compara ao uso legítimo e otimizado em Avatar, facilitado por usar criaturas da imaginação.

Para os fãs do livro, a caracterização das cenas não perde em nada no aspecto descritivo. Porém, a noção que temos de Scrooge no original é de que ele é uma pessoa muito mais maldosa e mesquinha, o que não transparece na interpretação de Carrey justamente pelo filme ter um teor e um foco maior no público infantil e familiar.

É uma pena, porém, que as cenas do primeiro espírito sejam sufocadas pelo final romantizado e simplificado.

Pontos fortes: caracterização de Scrooge em Motion Capture ficou fabuloso.

Pontos fracos: a infantilização da trama faz perder a curva de aprendizado que Scrooge passa naquela fatídica noite.