Os Amantes Passageiros

July 27, 2013 in Cinema

Los amantes pasajeros. Espanha, 2013. Director: Pedro Almodóvar. Writer: Pedro Almodóvar. Stars: Javier Cámara, Lola Dueñas, Cecilia Roth.

Os Amantes Passageiros

Retorno de Almodóvar para a comédia é sadio, mas nada inovador.

Almodóvar volta às suas origens das divertidas comédias dramáticas voltadas para personagens homossexuais, videntes e todo o tipo de intriga novelesca. Aliás, a diferença vital entre novelas televisivas e Almodóvar é que este conta uma história como ninguém (e geralmente assina o roteiro).

Outros aspectos da cinegrafia que o fez famoso se mantêm, ainda que ausente em penúltimo trabalho (A Pele que Habito) — o que demonstra que o diretor sabe se livrar de suas “marcas” quando o filme precisa — e que aqui volta com tudo: vermelho, amarelo, azul, roxo… tudo no Cinema de Almodóvar é exagerado, nada sutil e, hoje em dia, pouco polêmico.

A única “polêmica” parece estar apenas na “modernisse” de seus temas: fraudes financeiras e como elas são escandalosamente menos escandalosas que o sexo, e o mundo hiper-conectado (onde o melhor exemplo é uma divertida e útil metáfora envolvendo um telefone quebrado que permite que todo o avião ouça o que está sendo dito). Apreciamos pequenos contos que parecem ter saído da própria filmografia do cineasta dentro de um avião que precisa realizar um pouso de emergência, mas enquanto aguarda por um aeroporto que coopere precisa entreter seus passageiros de alguma forma.

Quase nunca deixando de entreter, as mensagens das histórias estão tão interconectadas e tratadas de maneira tão “passageira” que sua força se esvai com a própria conclusão, querendo dizer 1) mais uma vez um eco das nossas efêmeras relações com o mundo moderno ou 2) a falta de foco do próprio idealizador, afetado pelo mundo que tenta criticar. De qualquer forma, ruim ou bom, um filme novo de Pedro Almodóvar sempre será algo bem-vindo.

Elefante Branco

February 5, 2013 in Cinema

Elefante blanco. Argentina/Espanha/França, 2012. Director: Pablo Trapero. Writers: Alejandro Fadel, Martín Mauregui. Stars: Ricardo Darín, Jérémie Renier, Martina Gusman.

Elefante Branco

Cine Cult Cinemark

Novo filme do diretor Pablo Trapero (Abutres) traça na rotina das pessoas que ajudam uma favela a construir moradias dignas para seus habitantes um panorama fiel não apenas dos moradores — acostumados a viver às margens de uma sociedade que escolheu convenientemente ignorá-los em um terreno delimitado — mas da sociedade como um todo. E os que não são mostrados no filme obviamente são os que ignoram essa triste realidade.

O Elefante Branco do título se refere a um hospital que nunca terminou de ser construído no mesmo terreno onde hoje moram cerca de 30 mil pessoas em condições precárias. O projeto do hospital passou por duas democracias e uma ditadura sendo que hoje repousa apenas um esqueleto que faz sombra aos casebres ajuntados. Desse fato duas curiosidades fascinantes também se erguem logo no início do longa: 1) a figura de um hospital inacabado faz rima com os programas sociais inacabados que deixaram a favela se alastrar e permanecer na área e 2) a própria definição de dicionário de elefante branco pode ser aplicada aos moradores, pois governo nenhum soube o que fazer daquelas pessoas vivendo à margem da sobrevivência por décadas a fio.

A presença de um jovem padre recém-chegado, um padre veterano e um padre morto representa não apenas a desesperança de dias melhores, mas a sua desconstrução, como se a simples existência da religião naquele lugar fosse a prova do descaso de Deus com aquelas pessoas. Portanto, faz todo o sentido elas estarem constantemente cansadas e com medo. Não se enxerga saída em nenhum momento, e o que soa mais cruel é essa alegoria da vida real. Os moradores também participam do jogo, pela sua inércia e apatia.

Trapero não diz nada disso, mas mostra através de sons e imagens. O som ecoa e aumenta o seu “grito” em momentos específicos da trama como a querer chamar a atenção do resto do mundo. Os belíssimos plano-sequência estão cumprindo a função de nos mostrar extensão: no início a extensão da própria favela (miséria); no protesto dos moradores a extensão da opressão; e, por fim, na irretocável sequência da fuga de carro, a extensão daquele destino que parece insistir em se repetir, imutável.

O Filho da Noiva

January 20, 2013 in Home Video

El hijo de la novia. Argentina/Espanha, 2001. Director: Juan José Campanella. Writers: Juan José Campanella, Fernando Castets. Stars: Ricardo Darín, Héctor Alterio and Norma Aleandro.

O Filho da Noiva

Primeiro grande sucesso de Campanella é contraditório e ao mesmo tempo atual.

O Filho da Noiva se esforça para soar tão engraçado quanto dramático e impede que ambos os lados evoluam. Ancorando sua experiência em um personagem que vive para o trabalho que construiu em torno do restaurante que herdou dos pais (um Ricardo Darín ainda jovem) o objetivo do roteiro do diretor Juan José Campanella (O Segredo dos Seus Olhos) e de Fernando Castets (Clube da Lua, Heleno) é mostrar a curva de mudança desse personagem depois de sofrer um ataque cardíaco.

O problema talvez seja essa mudança de tom repentina. Quando esperamos algo tocante, surge uma piada sem ser anunciada. O amigo de infância dele é um chato de galocha que faz o papel do bom moço que agrada a todos (sem entendermos muito bem como isso espontaneamente ocorre). Sua namorada e sua filha são igualmente infantis, e o que mais irrita em tudo isso é que, mesmo que o personagem de Ricado Darín tenha seus motivos, consegue ser o mais irritante de todos por não tomar suas próprias decisões, mas ser levado por essa torrente de opiniões.

Quando de repente surge a figura de sua mãe e seu pai — que decide se casar com ela depois de ter evitado a cerimônia religiosa por 44 anos — surge o problema de sua mulher estar com Alzheimer, e sua decisão de dizer sim é tão forçada quando a do próprio Darín em dizer sim para sua nova vida. A parte mais interessante dessa história é o paralelo criado entre os dois personagens, ambos impedidos de seguir suas próprias vidas pelas amarras de seu destino.

Mesmo com esse enredo caótico, Campanella consegue extrair essa lógica para nos entregar uma visão menos que perfeita de uma comédia romântica argentina, mas mais que apropriada para um personagem tão contraditório quanto qualquer ser humano que vive para o trabalho.

O Impossível

January 7, 2013 in Cinema

Lo imposible. Espanha, 2012. Director: Juan Antonio Bayona. Writers: Sergio G. Sánchez (screenplay), María Belón (story). Stars: Naomi Watts, Ewan McGregor and Tom Holland.

O Impossível

O tsunami de 2004 visto pela lente atenta e sensível de Juan Antonio Bayona.

A abordagem que o diretor espanhol Juan Antonio Bayona realiza para contar a história da família que se separa durante o Tsunami de 2004 que matou mais de 230 mil pessoas consegue transmitir a emoção pelo drama específico sem se esquecer da perda incomensurável de vidas naquela tragédia que mudou a vida de muito mais pessoas que podemos imaginar. Diz ainda o que números nunca serão capazes de dizer: que cada vida que se perde é uma tragédia particular.

Os efeitos visuais e sonoros, com certeza ocupando a maior quantia da verba para o projeto, são importantes para que o trágico espetáculo fique na nossa mente por um bom tempo, mas apenas o seu uso inteligente, visceral, garante a sua efetividade no máximo. As tomadas mais apavorantes são as que nada vemos, mas ouvimos apenas, o barulho destruidor.

A trilha sonora, tão importante quanto os sons diegéticos, marca presença até quando não se ouve, pois precisamos daquele respiro do silêncio, a reflexão entre cenas, para seguir adiante. Tão digno de nota quanto é a maquiagem utilizada especialmente em Maria, a mãe dos meninos, que sofre sérios ferimentos e vai aos poucos definhando, debilitada, tornando cada fala sua um ato de coragem por si só.

Desde o início percebemos uma troca muito justa: a inevitável previsibilidade do ocorrido deixa espaço para a intensidade de cada momento. O uso inteligente da câmera a torna uma testemunha com “opinião formada”: se aproxima quando exige intimidade, treme como nós mesmos tremeríamos e ainda tem a vantagem da uma visão panorâmica que tanto assusta quando é usada. É ela que acusa um Deus ausente, procurado-o nos céus logo após a tragédia e, já no hospital, usa-a na “primeira pessoa” para expressar que, se Ele existe, parece observar, impotente, os mortos enfileirados e a mãe que aguarda pela segunda cirurgia. As pessoas desse filme parecem ter muito mais força que seu Deus, e quase não sabemos de onde elas tiram a vontade de continuar.

Quase não sabemos, mas está ali todo o momento. Seus olhares denunciam facilmente, especialmente os de Lucas (Tom Holland), que transforma seu desespero em esperança de reencontrar o pai. Seu desempenho é a grande revelação do filme. Nitidamente à frente dos adultos, enxergar tanta vontade de viver e de ajudar o próximo em uma criança se torna de repente a mensagem mais poderosa que poderíamos aprender, essa nossa geração envelhecida e hipócrita.

Criando ou recriando um final cinematográfico, o que embute na mente do espectador que tudo aquilo poderia realmente ter ocorrido, vibramos e torcemos por aquela família como se fosse a única que não de desestruturou, se desmanchou pela fúrias das águas. Pecando talvez apenas ao não pontuar corretamente o esforço do pai, que varre literalmente todos os hospitais de abrigados (e deve ter perdido um pedaço de esperança em cada um deles) “O Impossível” não tem um final 100% feliz justamente por não esquecer que desastres como esse costumam marcar uma geração inteira. A coragem de não se esquecer disso é digna dos aplausos finais, uma decisão capaz de mudar algo em nós mesmos.

O Frasco

October 28, 2012 in Home Video

El Frasco. Argentina/Espanha, 2008. Direção: Alberto Lecchi. Roteiro: Pablo Solarz. Elenco: Darío Grandinetti, Leticia Brédice e Rubén Altamirano.

Comédia se baseia apenas na timidez para fazer rir.

E não que ela não consiga. O problema é que a história gira muito em torno apenas de pequenos eventos que se refletidos não fazem muito sentido, o que torna tudo muito artificial e burocrata. Os cacoetes de Perez em frente à sua amada Romina (Leticia Brédice) são repetitivos. A narrativa apenas se move com essas incursões artificiais, como o conflito principal que parte do princípio que Romina, depois de tanto tempo vendo Perez, não consiga perceber que ele se trata de um tímido com problemas graves de comunicação.

Para Roma Com Amor

July 2, 2012 in Cinema

To Rome with Love. EUA/Itália/Espanha, 2012. Direção e Roteiro: Woody Allen. Elenco: Flavio Parenti, Roberto Benigni, Alison Pill, Alessandro Tiberi, Judy Davis, Alessandra Mastronardi, Alec Baldwin, Carol Alt, David Pasquesi, Antonio Albanese, Lynn Swanson, Fabio Armiliato, Penélope Cruz, Jesse Eisenberg, Woody Allen, Greta Gerwig, Simona Caparrini, Ellen Page, Vinicio Marchioni.

Comédia de absurdos revela que Allen, felizmente, está mais vivo que nunca.

Quais diretores você conhece que conseguem fazer o velho chichê da “pessoa engasgando com o copo na mão ao ver cena inusitada” funcionar novamente? Eu conheço um: Woody Allen.

Cada vez mais se reinventando em seus últimos filmes, apesar de incluir quase sempre seus temas favoritos, como a angústia da terceira idade e adultérios, Allen investe aqui em uma comédia tradicional dividida em diferentes começos de histórias que, diferente do usual hoje em dia, praticamente não se encontram: os pais que visitam a filha para conhecer a família de seu namorado, o jovem e ingênuo casal italiano em busca de uma vida melhor na capital, o batidíssimo triângulo amoroso encabeçado por uma femme fatale e, como não poderia deixar de ser, a vida típica e pacata de um cidadão italiano.

Como eu disse, são apenas começos de histórias. O que acontece a partir daí, embora não seja lá muito criativo, diverte e entretem ao mesmo tempo em que aborda temas contemporâneos: a fama como um fim em si mesma, a pureza desmascarada dadas as condições propícias, o conhecimento raso de aparências e a ópera como algo menos absurdo do que a própria vida.

Vivendo em um mundo onde os filmes fazem graça de si mesmos e as animações reciclam piadas ad infinitum, Allen consegue mais uma vez ressucitar o humor inteligente, que não apenas gera o riso, mas que embute nele uma crítica aguçada da sociedade de nossa época. O fato dessa crítica estar escancarada em diálogos e imagens apenas faz aumentar a comicidade de seus personagens, que são unidimensionais, mas que nem por isso impedem que nos identifiquemos com cada situação.

Suportado por um elenco não apenas de peso, mas que fazem a combinação perfeita para suas caricaturas, a única decepção é vermos apenas uma fração de cada história em um determinado momento. Dessa forma é um sentimento cíclico a decepção pela troca de personagens e a empolgação pelo enriquecimento da história atual.

Felizmente, Allen consegue fechar com chave de ouro cada uma das situações, deixando apenas uma situação de quero mais. Não me cansaria de assistir por duas horas novamente acontecimentos nA Cidade Eterna.

Valentin

June 12, 2012 in Home Video

Idem. Argentina/Holanda/França/Espanha/Itália, 2002. Direção e Roteiro: Alejandro Agresti. Elenco: Rodrigo Noya, Alejandro Agresti e Julieta Cardinali.

Drama de garoto de 8 anos é bem dirigido.

Filme que tirou do ostracismo o diretor-ator-roteirista Alejandro Agresti (também que depois foi à Hollywood filmar A Casa do Lago), é muito fácil gostar da história de Valentin. Sempre transbordando otimismo, ainda que a realidade não fosse mais diferente do que suas expectativas, acompanhamos a história do garoto-título vivido por Rodrigo Noya e enxergamos o mundo através do seu filtro de realidade, formado principalmente pela ausência da mãe (ele mora com a avó, vivida por Carmem Maura) e pelas visitas irregulares do pai.

O fato é que a carisma do personagem reside mais das circunstâncias que o cercam do que sua atitude perante elas. Porém, o mais curioso é perceber que os pensamentos que acompanhamos vem de um mero garoto de 8 anos, e sua pouca idade é o principal gancho para que caminhemos pelo seu mundo, onde ele almeja ser astronauta quando crescer (estamos na década de 60 pré-pouco na Lua, e os russos são os pop stars) e ao mesmo tempo deseja um dia poder conhecer a mãe. Não há nada de errado em explorar um drama desse tipo quando há respeito pelos seus personagens, e o respeito de Agresti por Valentin é sensível o suficiente.

Por uns Dólares a Mais

June 10, 2012 in Home Video

Per qualche dollaro in più. Itália/Espanha/Alemanha, 1965. Direção: Sergio Leone. Roteiro: Luciano Vincenzoni e Sergio Leone. Elenco: Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Gian Maria Volonté.

Filme do meio da trilogia de Leone é curva para a grande virada do velho oeste.

Continuação de Por um Punhado de Dólares e apenas um ano após a produção original, Por uns Dólares a Mais concebe o universo do faroeste de uma maneira mais aventureira e empolgante que seu precursor. Dessa vez há duas figuras principais. O Homem Misterioso de antes já não é mais tão misterioso assim. Possui um nome: Manco. E possui uma função: é caçador de recompensas. Aliás, uma consequência mais que natural do que vimos no primeiro filme, pois se há tantos fora-da-lei espalhados pelo oeste faz sentido que a polícia precise de oportunistas para capturá-los.

Agora existem prisões, onde os que ainda não foram mortos aguardam. Um deles, Índio, é além de um cruel assassino, líder de uma gangue de assaltantes. Seu estilo doentio revela o crescente em cima da persona dos vilões, assim como com o Coronel Douglas Mortimer e seus apetrechos de caça. Ele também captura e mata procurados, apesar de aparentemente não precisar de dinheiro. Ambos são caricaturas desse universo, por isso seus nomes são tão “cool”. E por isso ambos carregam um significativo relógio. Uma cena de duelo é anunciada por uma música singela que sai desse relógio; seu fim é o sinal para sacar as armas. Não há nada mais surreal para um filme de brutamontes atirando uns nos outros.

As viagens aumentam, e não ficamos focados apenas em uma cidade, e embora El Paso seja o cenário principal há muito que acontece em seus arredores. Isso, além de dar um espaço maior para cavalgadas, torna o destino de nossos personagens mais dinâmico e imprevisível.

Porém, fora tudo que o filme nos proporciona, sua maior contribuição é ser o primeiro passo para que cheguemos a Três Homens em Conflito, a obra máxima da trilogia, onde o Cinema atinge seu ápice, sustentado por uma guinada épica no conceito de faroeste iniciado por Sergio Leone em três filmes.

Por um Punhado de Dólares

June 9, 2012 in Home Video

Per un pugno di dollari. Itália/Espanha/Alemanha, 1964. Direção: Sergio Leone. Roteiro: Ryûzô Kikushima (Yojimbo), Akira Kurosawa (Yojimbo), A. Bonzzoni, Víctor Andrés Catena, Sergio Leone. Trilha Sonora: Ennio Morricone. Elenco: Clint Eastwood, Gian Maria Volonté, Marianne Koch, Jose Calvo.

Trilha sonora de Morricone é homenagem à jornada do herói na época do velho oeste.

“Per un pugno di dollari”, o clássico do bangue-bangue macarrônico, primeiro dos três filmes idealizado por Sergio Leone a partir de sua fascinação após assistir a outro clássico da época, Yojimbo (de Kurosawa), nos apresenta pela primeira vez a figura do Homem Misterioso, ou homem sem nome, interpretado por um Clint Eastwood ainda jovem para o seu Gran Torino, mas com um olhar já duro e seco para com os maus que governam uma cidadezinha perto da fronteira entre os EUA e o México. À procura de dinheiro (como o título já sugere), esse homem resolve ficar por um tempo na cidade, mesmo em uma terra que odeia forasteiros. Existem duas famílias que tomam conta dos negócios locais, enquanto na violência com que as decisões são tomadas os corpos se acumulam no cemitério na mesma proporção com que as viúvas. O ódio e a ambição pelo ouro fala mais forte em uma terra sem lei.

O Homem Misterioso possui duas funções muito claras na narrativa: primeiro, por ser tão forasteiro quanto o espectador, ele serve de guia para que nós mesmos entendamos as circunstâncias em que os fatos vão se sucedendo. É ele que, por exemplo, fica escondido às margens do rio e presencia o massacre que lá ocorre. É ele que, observador e inteligente, consegue entender melhor que os moradores do vilarejo o papel dos capangas das duas famílias, e busca assim tirar proveito de ambas, e sempre que possível nunca tomando um partido. Leone deixa claro que o Homem não é um herói comum. É bruto e violento como todos os outros, mas que ao mesmo tempo, se sobrar tempo, tenta ajudar os injustiçados. Existe algo em seu passado que determina seu caráter, mas salvo uma breve e imperceptível fala, nunca é mencionado.

E não é à toa. Não são os diálogos que formam o caráter do sujeito, mas a ausência deles. Como um observador nato, nos colocamos a seu lado e de alguma forma torcemos por ele, pela sua imagem, pelo seu estilo. As outras pessoas falam demais, se exibem demais. Ele só fala quando tem algo a dizer. E atira quando precisa.

Nesse universo de tela larga e expressiva, onde a fotografia revela cores profundas, tanto de dia e seu calor em cores quentes quanto à noite, é possível praticamente sentir o frio da noite e suas densas penumbras. Da mesma forma, os closes que Leone realiza revelam muito mais sobre os personagens do que suas falas. Quando estão mais próximos da câmera, tudo fica mais claro e mais dramático. Vemos os sulcos em torno de suas faces iluminados pela noite, e de dia seu suor escorrendo pelas rugas, assim como as estradinhas de terra atravessadas por seus cavalos. Os olhos do Homem Misterioso surgem sempre expressivos, observadores e pensativos.

Mas Leone sabe que nada adianta um herói sem um vilão à altura. E por isso mesmo somos apresentados a Ramon; primeiro pela sua fama, depois pelas suas ações, e por último pelos suas falas. E aqui é importante ressaltar que o que ele diz não está de acordo com os atos que acabamos de presenciar. Portanto, é um mentiroso, e é capaz de tudo para conseguir o que deseja, como matar qualquer um que se opuser. Esse sinal de desvio de caráter é uma espécie de maniqueísmo orgânico que nos ajuda a separar com precisão alegórica o bom do mau no palco de conflitos que se arma: de um lado, a família do xerife; do outro, dos bandidos sanguinários; e, no meio, o não-nomeado: o desequilíbrio que faltava.

O embate não é apenas físico, mas, principalmente, psicológico. Ao acompanharmos as artimanhas do homem de poncho acompanhamos seu raciocínio. Nos poucos diálogos que escapam de sua boca compreendemos que não haverá pistas sobre seus planos. Talvez nem ele saiba ao certo, pois tudo vai acontecendo mais ou menos que por acidente. Mas é um acidente planejado, previsto em roteiro, só que o brilhantismo da história está em não percebermos isso. Da mesma forma, os personagens que precisam existir para atingir a dramaticidade de seu desfecho são desenvolvidos durante os acontecimentos do segundo ato. Como não há muito tempo para eles, alguns até o nome já soam significativos (Jesus e Marisol). Até o preto vestido por uma personagem em específico já denuncia o que virá. Tudo é muito gráfico e visceral, e não apenas nas cenas de ação.

Aliás, o fato da história ter algumas reviravoltas apenas alimenta nosso desejo pela ação, que quando vem, também é divinamente orquestrada. O herói surge em meio a fumaça, como imortal. Aumenta o som e a dramaticidade da trilha sempre presente e inspirada de Ennio Morricone, o John Williams da Itália, que ilustra com precisão a jornada do herói na versão faroeste. Assim como Clint Eastwood, o Yojimbo de Leone acabara de surgir como um herói a resgatar o bom e velho bangue-bangue.

O Corvo

May 24, 2012 in Cinema

The Raven. EUA/Hungria/Espanha, 2012. Direção: James McTeigue. Roteiro: Ben Livingston, Hannah Shakespeare. Elenco: John Cusack, Alice Eve e Luke Evans.

Thriller sobre as obras de Edgar Allan Poe não fazem jus à obra do escritor.

Edgar Allan Poe é considerado um dos precursores da literatura norte-americana, e com Júlio Verne, dos gêneros de ficção-científica e fantástica. Suas histórias geralmente giram em torno de crimes e mortes bizarras, o que revela não apenas a genialidade na arte de escrever como também sua criatividade mórbida, fruto do mais novo filme sobre ele, O Corvo, estrelando John Cusack na pele do escritor de contos.

A ideia da trama gira em torno de seus contos e a morte misteriosa de Poe, encontrado em estado catatônico em um parque. Tudo se inicia quando um assassinato começa a recriar as cenas de crimes contidas nos contos do esctitor. Determinado a encontrar o lunático, o detetive Fields (Luke Evans) encontra em Poe um forte aliado por ter todos os passos do próximo assassinato em sua mente, na memória de suas obras.

Contrariando as expectativas de ter um mestre e gênio da literatura encarnado, a introdução apresentada pelo filme desaponta pelos inúmeros diálogos expositivos sobre a figura de Allan Poe, como se estivéssemos falando já de uma figura ilustre da literatura, chegando a incluir desnecessariamente a anedota sobre o preço que sua obra-prima, o poema O Corvo, foi vendido para custear seu vício com bebidas.

A escolha de John Cusack torna-se logo de início obviamente errada, pois apesar de sua introspecção e ausência de expressão (ou exagero), a figura de Poe parece nunca atingir as expectativas que são geradas por uma das figuras mais emblemáticas e geniais da literatura mundial. Sua ironia não é vista, apesar da história sugerir sutilmente em seu desfecho, único momento em que vemos as influências dos textos de Poe inseridos na narrativa. Até quando o ilustre escritor visita pela primeira vez uma cena de um dos seus crimes fictícios para ele é como se apenas constatasse mecanicamente os detalhes de seus parágrafos visto em cores sombrias de uma Baltimore cinzenta e enevoada.

Porém, os erros não se limitam ao desempenho de Cusack, mas pioram na criação de um suposto interesse romântico do autor e ao mesmo tempo sua inspiração, o que soa artificial todo o tempo, ainda mais se considerarmos uma atuação nada significativa de Alice Eve como Emily Hamilton, o que chega a comprometer seriamente a história em momentos-chave da trama.

Os aspectos técnicos, no entanto, conseguem transmitir com precisão o ambiente sufocante de uma Baltimore do século IXX, em uma fotografia sem muitas cores saltando da tela, com um Egdar Allan Poe devidamente vestido de preto e com capa e, é claro, uma névoa que cobre boa parte do cenário nas cenas externas e que muito lembra Do Inferno, onde víamos em vez de um copycat do escritor o famigerado Jack o Estripador representado pelos becos escuros e sujos de Londres.

De uma forma talvez irônica, o fato das mortes terem como essência as mesmas cenas idealizadas nas obras do escritor gera a interessante questão que talvez a vontade de ver mais assassinatos clássicos é o que move a trama e não a resolução dos crimes e descobrimento do culpado, que nunca chega a ocupar o tema central. Nesse sentido a história parece ficar sempre estacionada em uma investigação infértil e que vai aos poucos criando episódios separados, recortados e juntos apenas pela trilha que lembra erroneamente mais uma aventura de games do que um filme de mistério, esse que seria talvez o maior equívoco do longa.

Ainda assim, seu desfecho desperta uma atenção que até então estava adormecida, e seu feitor é igualmente interessante, motivo pelo qual o terceiro ato parece tão mais curto e tão menos desenvolvido que todo o resto. Porém, terminando desastrosamente mal, com o uso de um clichê que mais envergonha do que homenageia a figura de Poe, os créditos acabam expondo o que desconfiávamos desde o princípio: não havia sombra de um objetivo definido ao contar a história.