A Serbian Film

July 31, 2011 in Home Video

Srpski film. Sérvia, 2011. Direção: Srdjan Spasojevic. Roteiro: Aleksandar Radivojevic e Srdjan Spasojevic. Elenco: Srdjan Todorovic (Milos), Sergej Trifunovic (Vukmir) e Jelena Gavrilovic (Marija).

Segundo um relatório sobre a Guerra da Bósnia feito pela Agência Central de Inteligência americana, 90% dos crimes de guerra foram cometidos pelos sérvios. Em uma região conturbada política e religiosamente por mais de um século, o povo sérvio se acostumou a um ambiente instável. A grande questão é como isso afeta a moral dessas pessoas.

A história de A Serbian Film gira em torno de Milos, que desde sua apresentação já se revela um ator pornô que não se envergonha do que faz, pois não se incomoda, por exemplo, que seu filho, ainda criança, assista aos seus trabalhos. Aliás, a própria dinâmica entre Milos, sua família e sua colega de trabalho já seria por si só um material revelador da personalidade do protagonista e do ambiente onde ele está inserido, pois, em situações onde normalmente ficaríamos constrangidos, o mesmo não acontece com nenhum dos personagens do filme.

Mesmo com a percepção moral já racionalizada na visão de Milos, porém, como que a elevar essa distorção da realidade a um próximo nível, eis que surge em cena Vukmir, um produtor/diretor que valoriza tanto os filmes pornográficos que faz que chega a chamá-los de pura arte. No conceito revelador de Vukmir, a princípio, não existem diferenças entre os filmes desse gênero e a própria vida, principalmente com a vida do povo servo e sua situação atual, situação essa evocada muitas vezes por Vukmir, como que a justificar a moral existente entre as pessoas através da situação que é vivida em uma esfera social maior.

Dentro desse ponto de vista, Vukmir considera Milos o expoente máximo dentro dessa arte que, literalmente, e com o perdão da palavra, fode as mulheres com um instinto animal. Disposto a realizar sua obra-prima usando Milos como protagonista, paga a este uma quantia exorbitante para que este participe da produção sem conhecer os pormenores do seu projeto.

E não por coincidência, o trabalho do diretor iniciante Srdjan Spasojevic carrega a nacionalidade de sua obra já no título, o que já traz uma dica importante sobre o que o filme tenta nos transmitir em sua controversa história. Chega a ser uma provocação, aliás, pois ao constatarmos a sua gravidade, o que sobra é apenas o título, como um triste reflexo de uma realidade que o mundo fora da Sérvia, muitas vezes, preferiu ignorar.

The Housemaid

July 8, 2011 in Home Video

Hanyo. Coreia do Sul, 1960. Direção e Roteiro: Ki-young Kim. Elenco: Eun-shim Lee, Jeung-nyeo Ju e Jin Kyu Kim.

Sinopse: uma família possui uma vida aparentemente normal, até que se mudam para uma casa maior e precisam contratar uma empregada doméstica.

O longa possui algumas reviravoltas que podem soar esquisito à cultura ocidental, mas a base do drama, que são os acontecimentos macabros rodeando a honrada família do professor de piano, criam um clima, se não de tensão, definitivamente macabro e sexy.

Existe na literatura e no folclore em geral muito sobre o mito da viúva negra, por analogia ao comportamento reprodutivo dessa espécie de aranha. Cada um interpreta de uma forma. A forma visceral mostrada aqui por Ki-young Kim espanta pelo erotismo crescente, mesmo que não existam muitas cenas “picantes”. O que vemos, na verdade, é um flerte muito bem construído entre vida e morte, entre ascenção e decadência (mais decadência).

Quando a housemaid começa a se vestir de preto, tudo começa a se acelerar em direção ao inevitável final trágico, e visualmente essa construção une de forma inteligente o tom escuro da vestimenta da empregada e o completo contraste com o branco puro, inocente e servil da matriarca. Não existe meio termo. E Ki-young Kim não irá nos poupar de toda a maldade e egoísmo humano para demonstrar, de uma maneira um tanto hardcore, que é isso que nos faz humanos!

Trivia

  • O roteirista-diretor Ki-young Kim, que fez  esse filme de 1960, participa nos nomes do remake de 2010 como roteirista, junto do novo diretor Sang-Soo Im.

Sucker Punch

March 29, 2011 in Cinema

Cenas de ação cheias de adrenalida e perfeição técnica, uma fotografia e direção de arte extremamente competentes e uma trilha sonora que parece que foi feita para cada cena.

Quando assistimos os mundos imaginários, a sensação dos efeitos visuais é de tirar o fôlego. Dirigido com vigor com movimentos de câmera suntuosos, ou cortes precisos para mostrar a ação de todos os ângulos, nesse momento não precisamos sequer pensar sobre a trama principal; não queremos.

Quando voltamos à realidade pós-dança, o que temos é um breve descanso dos nossos olhos, até a próxima dança-aventura.

Com um grupo de garotas obviamente sensuais, porém imaturas (como é demonstrado pela falta de jeito de Baby Doll em andar sobre saltos), a experiência de vê-las em um campo de batalha torna inequívoca a referência aos jogos de vídeo-game onde temos essas mesmas personagens lutando com monstros com o triplo da altura, capturando artefatos e coletando pontos em cada fase.

Pontos fortes: sem dúvida a direção de arte faz um trabalho aqui que é de encher os olhos, mas em geral, todos os aspectos técnicos merecem menção honrosa.

Pontos fracos: a história, por sua vez, fica em um pano de fundo, inerte, sem muitas reviravoltas, e não é exagero dizer que ela apenas existe para as cenas de ação, e não o contrário.

Filmes com mulheres no comando

Sin City. Na cidade do pecado, o maior deles é contrariar as damas.

Bruna Surfistinha

March 15, 2011 in Cinema

O momento que resume a ascenção de Bruna e ao mesmo tempo a visão do primeiro trabalho de Marcus Baldini é quando, em seu discurso na festa preparada por sua amiga, ela diz que acredita em si mesma e encoraja seus antitriões a fazerem o mesmo, pois se o fizerem, “conseguirão chegar aonde eu cheguei”. E é precisamente nesse ponto que o filme deixa de ser uma visita convencional ao mundo da prostituição e vira uma discussão instigante sobre a capacidade das pessoas de fazer o seu melhor, não importando em que profissão ou atividade.

Menina tímida de classe média, vista pelos garotos como mero objeto sexual, e o filme faz um paralelo curioso, mas não determinante, com sua futura profissão, Raquel geralmente se isola dos seus colegas na escola. Com uma família que aparenta não lhe dar a devida atenção em uma fase geralmente complicada da vida, decide fugir de casa, muito embora os reais motivos de Raquel nunca sejam revelados de fato, e esse é mais um ponto positivo do filme, que afinal de contas irá contar não a história de Raquel, mas de Bruna, que foi o que ela se tornou após tomar essa decisão.


A transformação de Raquel até se tornar Bruna, aliás, merece créditos por estar sobriamente equilibrada nos ombros de Deborah Secco, que consegue criar de forma competente a ponte que existe entre a menina cabisbaixa, desengonçada e que fala baixo, na mulher dona de seu próprio caminho, independente em um mundo que facilmente lhe dá as costas.

A narração em off, uma solução convencional para trazer à tona ao espectador os sentimentos e reflexões de Bruna, torna-se um caminho extremamente eficaz para separar a Bruna do passado e a do futuro, que analisa em “flashback” os caminhos que tomou, e que, em vez de se esconder nas palavras, corajosamente demonstra orgulho por ter vivido e vencido tudo que passou.

A participação sensível de Cássio Gabus Mendes como primeiro cliente e companheiro em momentos-chave da narrativa o coloca em uma posição de destaque durante toda a história, ao mesmo tempo que dá a correta impressão de alguém que se importa com a protagonista e que sempre a mantém em contato, e é admirável notar como suas aparições são encaixadas de forma tão orgânica com o próprio desenvolvimento da personagem.

Com uma invejável escolha da trilha sonora durante toda a narrativa, é igualmente corajosa a escolha de sumir com ela durante os momentos pontuais e de maior tensão, como se o filme quisesse reproduzir fielmente o que aconteceu, em detrimento às passagens maiores de tempo, mais abertas à subjetividade.

Com uma direção firme, Baldini reforça a introspecção da personagem buscando, sempre que possível, deixá-la em foco completo, com o cenário aparecendo muitas vezes embaçado e difuso, como quando Raquel aparece pela primeira sozinha nas ruas, mas que em outros momentos funciona como reforçador de que o que estamos vendo são memórias de acontecimentos de um passado já distante.

A passagem maior do tempo, como quando Bruna narra a rotina e as diversas aventuras com seus clientes, é feita com o uso de cortes que transitam com uma fluidez elegante, nunca tornando a experiência desinteressante. Da mesma forma, há a consciência que uma história maior está sendo contada, e mais uma vez é acertada a decisão de não se reter mais que o necessário em momentos de sexo, passando sempre o essencial para o espectador, sem exibicionismo gratuito, como na famigerada e vergonhosa época das pornochanchadas do cinema nacional.

Aliás, não é sempre que vemos decisões corajosas como essa em uma produção notadamente comercial, e é sempre uma agradável surpresa notar como o cinema brasileiro tem se tornado aos poucos resgatador das discussões mais pertinentes de nossa sociedade atual.

Pontos fortes. A direção forte de Baldini mantém uma narrativa coerente e com personalidade, disposto a levantar temas controversos.

Pontos fracos. A higienização do sexo, necessária para moldar o filme em uma censura comercialmente viável, faz perder o peso dramático de uma história que é, enfim, uma biografia.

Se você gosta do tema, não deixe de ver:

Irina Palm. O drama de uma viúva cinquentona que tem que escolher uma profissão nada glorificante para custear os problemas médicos do seu neto.

Pagando Bem, Que Mal Tem?

February 16, 2011 in Home Video

Embora Seth Rogen possua um carisma que transforma as piadas de sua boca, por mais insossas que sejam, como a coisa mais divertida do mundo, o fato é que “Pagando Bem” mal consegue se segurar em sua narrativa confusa e embaraçosa.

Dirigido e escrito por Kevin Smith, que se saiu muito melhor em Dogma, o filme parte da fraca premissa que o par de amigos (não são namorados) que moram juntos, Zack e Miri, quando se veem com problemas financeiros que culminam no corte de água e eletricidade do seu lar, logo decidem que a melhor maneira de arrecadar mais dinheiro e, quem sabe, se tornarem ricos e famosos, é produzir um filme pornô, em que eles mesmo participem “atuando”.

Isso não seria tão estranho para uma comédia escrachada que se supõe ser esta, mas se torna um problema a partir do momento que o filme tenta se levar a sério e desenvolver a relação dos dois a partir de uma atração oculta que os amigos tinham entre si por todos esses anos (se conheceram no colégio), e que se revela ao terem que interpretar uma cena de sexo real.

Ponto forte: Os diálogos de Seth Rogen no início são hilárias.

Ponto fraco: O roteiro se perde em devaneios que não tem nada a ver com o núcleo da história.

O Império dos Sentidos

November 13, 2010 in Home Video

Ai no korîda. Japão/França, 1976. Director: Nagisa Ôshima. Writer: Nagisa Ôshima. Stars: Tatsuya Fuji, Eiko Matsuda, Aoi Nakajima.

O Império dos Sentidos

Soft porn e transgressão criam filme polêmico.

Um senhor cheio de gueixas, uma esposa generosa e uma amante ninfomaníaca fazem a história de Império dos Sentidos percorrer uma curva de aprendizado sobre sexo. Ambientado no Japão da década de 30, o mais curioso é que esse ato aparentemente podia ser praticado sem nenhum pudor na casa de alguém que tinha várias gueixas para servi-lo. Além disso, a própria gueixa-amante podia ir para outro senhor a possui-la em troca de dinheiro, no caso um servidor público (professor).

Com uma personalidade estilo femme-fatale do sexo, Sada caracteriza uma mulher ninfomaníaca e impulsiva, possessiva ao extremo, ao ponto de proibir seu senhor de possuir sua própria esposa.

De resto, temos alguns usos peculiares, mas nada de novidade, na fotografia. O vermelho, por exemplo, começa a ser usado por Sada quando esta começa suas tendências sado-masoquistas (e o que acaba levando à morte o seu senhor).