Indie Game: The Movie

June 16, 2013 in Home Video

Idem. Canada, 2012. Directors: Lisanne Pajot, James Swirsky. Stars: Jonathan Blow, Phil Fish, Edmund McMillen.

Indie Game - The Movie

Documentário explora a nerdisse da criação de jogos de computador como expressão de arte.

Focado principalmente no amor, dedicação, desespero e muitas vezes loucura dos criadores de jogos de computador independentes, Indie é uma grata surpresa ao mostrar os nerds solitários como artistas que lutam pelo reconhecimento, mas, acima de tudo, pela máxima expressão de si mesmos dentro dos bits e bytes que insistem em escrever.

Acompanhando a história de três jogos distintos que levaram anos para serem produzidos com os esforços individuais dos seus criadores, e que agora se preparam para ir a público, o diretor primeiro nos entrega a tensão dessas pessoas para depois reconstruir essa mesma tensão em nós mesmos, conforme conhecemos cada vez mais dos projetos e das pessoas por tudo aquilo.

Porém, não há mistérios o suficiente que consigam carregar essa áurea por tanto tempo, o que torna o filme arrastado em alguns momentos pela repetição exagerada das situações, o que talvez indique a falta de mais alguns exemplos de desenvolvedores que engrossem o caldo da vertente solitária dos programadores. Vendo os quatro rapazes isoladamente gera um ar de bando de malucos como Richard Stallman, ativista do movimento do software livre.

Boa parte da narrativa parece justamente querer isso, mostrando a infância problemática dos autores e suas opiniões egocêntricas e claramente infantis a respeito da indústria dos jogos, como falar que jogos de milhões produzidos por centenas de pessoas não passa de lixo. Ironicamente a mesma indústria é usada como alavanca de vendas (e pode ter sido uma péssima ideia usar a plataforma da Microsoft como exemplo de esperança de publicidade para programadores independentes, fazendo com que toda a narrativa pareça cair em uma dura contradição).

De qualquer forma, Indie é uma compilação inédita de momentos com nerds onde a criação é mais importante que a criatura. Um bom motivo para uma olhada entre fases.

Liv & Ingmar – Uma História de Amor

December 18, 2012 in Cinema

Liv & Ingmar. Noruega/Reino Unido/Índia, 2012. Director: Dheeraj Akolkar. Writer: Dheeraj Akolkar. Stars: Ingmar Bergman and Liv Ullmann.

Liv & Ingmar - Uma História de Amor

Documentário sobre relação de diretor sueco não decola nos sentimentos humanos.

Com certeza o diretor/roteirista Dheeraj Akolkar conhece a fundo o estilo dos filmes do diretor clássico sueco Ingmar Bergman, pois produziu um documentário que reflete exatamente a cinegrafia do autor e utiliza como pano de fundo seu romance e amizade com sua principal atriz: Liv Ullmann.

O filme quase todo é narrado por Ullmann no tempo presente, onde uma ilha belamente fotografada é o personagem principal das histórias envolvendo a atriz e seu diretor. Dentro dos mesmos moldes do excelente José & Pillar, a história não é sobre Bergman, mas sobre sua relação com Ullman. No entanto, diferente do filme de José Saramago, não há uma forte conexão entre o amante/amigo e o diretor, e acabamos por não saber praticamente nada sobre a rotina do aclamado cineasta, o que pode soar decepcionante em diversos momentos em que o longa parece tentar mergulhar em um estudo de personagem mais atento.

Utilizando excessivos fade-ins e fade-outs para narrar os episódios do casal, e demonstrando uma falta de imaginação preocupante em um trabalho exatamente sobre um diretor que primou por desvendar os sentimentos humanos, “Liv & Ingmar” carece de imagens de arquivo, mas, principalmente, de uma mente criativa que extraia mais de Liv do que o velho clichê de entrevista única.

Carmel

October 27, 2012 in Cinema

Idem. Israel/França/Itália, 2009. Direção: Amos Gitai. Roteiro(?): Amos Gitai. Montagem(?): Isabelle Ingold. Elenco: Amitai Ashkenazi, Amos Lavie, Ben Eide, Ben Gitai, Efratia Gitai, Jeanne Moreau.

36a. Mostra de São Paulo.

Que filme odiável. Não que ele seja odiável do começo ao fim. Houve uma tentativa realmente sincera de quem vos escreve de tentar decifrar a narrativa difusa e aparentemente amadorística de um filme que estava sendo apresentado quase que como um tributo à vida do diretor Amos Gitai (presente na sessão) e sua mãe, que viveu as agrúrias do povo judeu desde muito antes da Segunda Guerra. A base da história são as cartas dela, que teoricamente poderiam fazer eco com décadas e mais décadas da visão judia sobre seu povo e suas relações com o mundo.

No entanto, o que mais vemos é o despreparo do diretor e montador em conseguir unir pontas que se confundem entre cenas documentais pré-ensaiadas, leituras de cartas de início a fim, cenas fictícias recriadas ou como peças de teatro ao ar livre ou como telenovelas da pior qualidade e, ainda, sequências inteiras que tentam unir todos esses elementos simplesmente sobrepondo-os com o uso de efeitos que poderiam ser comparados à festas de aniversário em um buffet infantil.

A falta das informações básicas sobre o que estamos vendo revela, além do amadorismo ensaiado, a descarada auto-indulgência dos seus criadores, crentes, talvez, que a importância do diretor e de sua vida fosse tão visível para todos os seres humanos que qualquer tentativa de criar um pano de fundo para o filme fosse inútil e óbvio demais. Bom, não é. Não me importa quem fez o filme e quais são os membros da família de quem fez o filme que nele aparecem. Menos ainda me importa sobre a confecção do filme no momento em que o estou vendo.

No entanto, o filme começa a se tornar odiável quando percebemos estarmos chegando em sua(s) conclusão(ões) e que não há qualquer menção ou relação entre as vidas que foram mostradas e com a vida do povo judeu de maneira geral. Se há, são pequenos traços culturais que, além de ignorar por completo que a maioria da população mundial não saber o que significam, ignoram que a maioria da população conhece o maior conflito da história ainda em andamento, com o povo palestino. Ignorar não só o povo judeu como um símbolo de resistência, como ignorar o povo da palestina como membros legítimos de sua rivalidade religiosa é o ponto mais controverso e enigmático da película. Qualquer interpretação pode ser dada. No meu caso, prefiro entender isso como um sinal de extremo mal gosto para com os espectadores e para com o Cinema. E isso em uma Mostra da Sétima Arte.

Programa Loznitsa 4 (Paisagem e Vamos Construir uma Casa)

October 27, 2012 in Cinema

Paisagem (Peyzazh). Alemanha, 2003. Direção: Sergei Loznitsa. Roteiro: Sergei Loznitsa.
Hoje Vamos Construir uma Casa (Segodnya My Postroim Dom). Rússia, 1996. Direção: Sergei Loznitsa.

36a. Mostra de São Paulo

A maneira do russo Sergei Loznitsa fazer documentários é bem não-ortodoxa. Utilizando em Paisagem diversos minutos iniciais sem nenhum áudio apenas girando a câmera em torno de ruas da cidadezinha onde se passa a história, o início do tema — a espera de diversas pessoas por ônibus que as levarão a um destino desconhecido — possui diálogos esparsos e uma câmera igualmente desfocada para qualquer linha narrativa, o que consegue tanto o efeito do espectador considerar insuportável essa experiência quanto começarmos a enxergar o tom documental do filme em uma camada entre o povo da cidadezinha e o fundo de seus projetos e reclamações.

Já “Vamos Construir uma Casa” atribui o projeto de construção de uma casa e seus trabalhadores um ar lúdico ajudado por músicas quase folclóricas da cultura russa. Utilizando o preto e branco como alusões a um tempo passado, o filme é de 96, o que indica a necessidade do autor de estabelecer o ato de construir uma casa algo atemporal e fascinante em qualquer época da história da humanidade.

Há algumas coisas para aprender com o estilo de Loznitsa, mas é pouco para tanto tempo de tela.

Lado a Lado

October 20, 2012 in Cinema

Side by Side. EUA, 2012. Direção: Chris Kenneally. Roteiro: Chris Kenneally. Montagem: Malcolm Hearn, Mike Long. Elenco: Keanu Reeves, Steven Soderbergh, James Cameron, David Lynch, Richard Linklater, Martin Scorsese, Christopher Nolan.

36a. Mostra de São Paulo.

Lado a Lado coloca a questão do formato digital no cinema exatamente como defende o título: uma alternativa para a arte que, assim como o colorido, o som e o 3D, talvez tenha ganho não uma ameaça, mas uma ferramenta.

Produzido por Keanu Reeves, que também é o entrevistador, a maior virtude do documentário talvez seja não resumir a questão como um mero avanço tecnológico, mas adentrar nas salas de edição e nas mentes de diretores, fotógrafos e montadores para extrair quais são os verdadeiros desafios que essa transição enfrentou e vem enfrentando como indústria e como trabalho nas mãos desses habilidosos artistas.

Possuindo a sabedoria em não dividir os lados entre os contra e os a favor, o filme inteligentemente mescla opiniões dissonantes sem manipular o debate para transformá-lo em discussão. Entendemos que não há um conflito em usar digital, mas a necessidade de entendê-lo a ponto dele ser uma opção tão válida quanto a película.

PS: Tive o prazer de reencontrar na sessão um dos colegas do curso do Pablo Villaça, quando  participamos em 2010. Na verdade foi ele que me encontrou (sou péssimo com fisionomias). Falamos brevemente e iríamos participar da mesma sessão de Solaris, às 18:00 no Cinesesc (aliás, com o próprio Pablo Villaça também presente). Foi uma pena não nos vermos de novo, pois mal tive a oportunidade de saber se ele também anda escrevendo.

Portanto, caso leia esse texto, entre em contato novamente. Foi uma ótima experiência rever um cinéfilo assim como eu =)

Cabra Marcado para Morrer

September 19, 2012 in Cinema

Idem. Brasil, 1985. Direção: Eduardo Coutinho. Roteiro: Eduardo Coutinho. Elenco: Eduardo Coutinho, Ferreira Gullar e Tite de Lemos.

O retrato do Brasil oprimido ainda hoje é bruto demais para degustar.

O documentário que Eduardo Coutinho começou a produzir nos anos 60 e que foi interrompido após o golpe militar — tendo 40% do roteiro filmado e apreendido pela polícia como material subversivo — vira um filme completo só na década de 80, com a reabertura política e o reencontro do diretor e sua película. E não apenas isso: o reencontro da história de Elizabeth Teixeira, a viúva de João Pedro, líder dos camponeses assassinado brutalmente na época, e do cinema revolucionário de Glauber Rocha que havia ficado no esquecimento.

O filme possui uma das maiores virtudes de um documentário: partir de uma história particular para o universal. O assassinato de João Pedro foi um evento que mexeu com a mulher e seus onze filhos de maneira permanente, mas também cortou as raízes de uma revolta que havia se formado contra os grandes proprietários de terra e a exploração descarada de seus trabalhadores, uma revolta que poderia ter significado uma mudança radical do panorama social brasileiro.

Para contar essa história através de lembranças os colegas de João Pedro são chamados, pessoas que haviam feito as filmagens de Cabra de 60 e interpretavam eles mesmos. O filme viaja de passado a presente com o uso da fotografia cinza e colorida de um Brasil que mudou apenas de cor. Cada personagem realiza a função de interpretar um papel do evento particular, mas também representa a função de cada um de nós em uma sociedade partida, multifacetada e que não consegue mais se reunir para reinvidicar seus fundamentais direitos.

A partir do drama pessoal de cada participante daquela história Coutinho abre uma lupa através do seu gigantesco microfone e sua equipe peregrina, que consegue arrancar frases de efeito a partir de manifestações espontâneas, e que por isso mesmo ganham uma força ainda maior. É o Brasil falando. Coutinho apenas dá o caminho.

Obs.: Em exibição com cópia restaurada no Itaú Cinemas da Augusta.

Pina

April 3, 2012 in Cinema

Idem. Alemanha/França/Reino Unido, 2011. Direção e Roteiro: Wim Wenders. Elenco: Pina Bausch, Regina Advento e Malou Airaudo.

O experimentalismo do 3D no Cinema e de Pina na Dança; ambos são guiados pela alma.

Nada como diretores como Wim Wenders e Martin Scorsese para resgatar a esperança do Cinema no 3D. Inicialmente usado para aumentar o rendimento das bilheterias e forçar o espectador a ir às salas ver algo que não poderia ver em sua própria casa, o 3D foi massacrado inúmeras vezes em seus primeiros anos, ou com brincadeiras adolescentes de jogar objetos na “cara” do espectador ou com as terríveis versões convertidas. Agora, aos poucos, diretores que conhecem Cinema em sua essência se arriscam a experimentar novos caminhos para a Sétima Arte, e quem ganha com isso obviamente somos nós, cinéfilos.

Aqui Wenders narra um documentário sobre a coreógrafa de dança moderna Pina Bausch usando para isso números protagonizados por alunos que aprenderam com ela o significado místico e essencial da dança. E aqui é preciso abrir um parênteses sobre o uso do 3D, que não é simplesmente parte itinerante do filme, mas praticamente um personagem e uma ferramenta de linguagem. Wenders entende isso e faz de tudo para que isso seja visível para o espectador, além da óbvia experiência de usar os óculos 3D.

Podemos notar isso desde o início ao perceber que, diferente de outros projetos que usam a tecnologia, o desfoco não é usado, de maneira que podemos olhar para qualquer parte a qualquer momento. Para chamar nossa atenção, a decupagem aplica porcentagens de quanto cada personagem/objeto ocupa na tela em vez de desfocar todo o resto. Isso permite, por exemplo, que olhemos para qualquer participante de uma fila indiana de dançarinos, tema recorrente ao longo do filme. O uso de ângulos não-retos nos ambientes, aliado com uma profundidade de campo evidenciada pelos elementos em cena em diferentes distâncias da tela ajuda o espectador a ter uma imersão que não seria possível sem um preparo tão experiente de cada cenário. Dessa forma, ao colocar uma mulher ao fundo, de vermelho, carregando uma árvore, Wenders está nos mostrando os limites de seu mise-en-scène. E, obviamente, da mesma forma, quando brinca com metalinguagem ao perceber que uma largura de campo maior no 3D dá a impressão dos objetos assumirem as características de uma maquete, o filme brinca com esse “defeito” de uma maneira brilhante, ajudando mais ainda em nossa imersão naquele mundo novo.

Indo mais além do que na arte da decupagem, ou seja, dar formas tridimensionais às cenas, o filme brinca com metalinguagem de uma maneira sutil mas efetiva. Note, por exemplo, como existem momentos em que um projetor exibe as mesmas danças vistas em uma parede 2D para um público diegético — ou seja, pertencente ao filme — em 3D. Quando as danças voltam com uma terceira dimensão, possuem uma energia tão forte na transição que é como se fosse sugerida uma troca de papéis com o público real — nós, no cinema — para que virássemos o 2D de outrora: o ambiente multidimensional do filme, tão forte em sua mensagem corporal, toma as rédeas da realidade, mesmo com seu aspecto onírico.

Apesar de haver talvez um abuso aqui e ali envolvendo um trem suspenso e não haver uma narrativa clara da história, esse espírito de experimentar com o 3D caminha junto com a própria dança de Pina, focada mais na alma e na individualidade. Não existem caminhos errados, mas apenas a descoberta de cada um. Dentro dessa ótica, faz todo o sentido um filme que envolva os dois — Dança e Cinema — de maneira indissociável. Sem a tecnologia 3D, esse filme não existiria. E nem deveria. Wenders sabe o que está fazendo, assim como Scorsese. Hugo e Pina são a única coisa hoje em dia que dá esperanças ao 3D de se aliar ao Cinema como arte.

Pontos fortes: coreografia das danças, uso do 3D, fotografia.
Pontos fracos: pequenos abusos no movimento de câmera, que atrapalha em filmes 3D, e o batido artifício de caminhar “nos trilhos”.

The Mysteries of Snæfellsjökull

April 1, 2012 in Home Video

Le mystère du Snæfellsjökull. França/Islândia, 2009. Direção e Roteiro: Jean-Michel Roux.

Forçando a barra para o oculto em 46 minutos.

Esse média-metragem islandês procura mostrar a história de uma região no país em que, de acordo com “relatos” e com a declaração e Júlio Verne de que ali seria o ponto de entrada para o centro da Terra, é um lugar de concentração de energias e poderia muito bem ser o ponto de contato com extraterrestres.

Oscilando relatos com canções da cultura, somos guiados sempre pela visão de pessoas que, de uma forma ou de outra, querem acreditar que o local é mais do que parece, escondendo seus segredos para os céticos e se abrindo para os que verdadeiramente veneram o que a região representa.

Parecendo um pouco canalhesco em suas opiniões unilaterais, no fundo pode ser considerada uma crítica velada sobre crenças exarcebadas da humanidade, ou, por outro lado, uma espécie de homenagem às pessoas que decidiram nutrir suas vidas com os mistérios não resolvidos de sua existência.

Pontos fortes: paisagem do próprio ambiente, músicas da cultura local.
Pontos fracos: opiniões enviesadas, modo desonesto de conduzir o ponto de vista do espectador.

Raul – O Início, o Fim e o Meio

March 27, 2012 in Cinema

Idem. Brasil, 2012. Direção: Walter Carvalho. Roteiro: Leonardo Gudel. Montagem: Pablo Ribeiro. Elenco: Paulo Coelho, Daniel de Oliveira e Tárik de Souza.

O meio, o início e o fim do rock verdadeiramente revolucionário.

Raul — o filme — é um tipo de experiência cinematográfica que faz pensar em muitas coisas, mas que ao mesmo tempo consegue extrair a essência do Maluco Beleza em todos os sentidos de sua vida e de sua filosofia. Dessa forma, temos um protagonista forte, ainda que ausente.

O filme te transporta facilmente para o universo de Raulzito pelo simples fato dos depoimentos de pessoas muito próximas do ídolos praticamente se abrirem com respeito a sentimentos, sensações e impressões que nos dão uma noção muito boa do que era conviver com o cantor. Os cortes rápidos, nunca permitindo que um entrevistado monopolize o tempo, e sim oscilando entre imagens de arquivo que ilustram a narrativa naquele momento, ampliam a experiência áudio-visual. Sim, pois a música não está apenas presente por se tratar da biografia de um cantor, mas é parte conjunta e essencial da narrativa.

A própria razão de tela parece representar esse movimento de vai-e-vem, pois quando vemos a tela larga sabemos que algum ente querido de Raul está tentando ampliar nossa visão de quem ele era, enquanto as tomadas mais quadradas, mais estreitas, nos levam diretamente para ele, como que em uma janela mágica a nos transportar entre passado e presente. As palavras do entrevistado ecoam e vão-se para o passado, e a visão de Raul cantando, falando ou simplesmente em uma sequência super-inspirada de fotos que combina perfeitamente com o momento, faz o desfecho de um episódio. Que alimenta o próximo.

Dessa forma torna-se agradável acompanhar a trajetória do cantor, se envolver e querer mais, pois a cada experiência vivida por alguém que o conhecia parece ampliar e enriquecer nossa própria noção que tínhamos sobre ele. Não há nada de extraordinário nisso, mas na maneira com que a história é contada e como o trabalho excepcional de Pablo Ribeiro consegue fazer fluir momentos tão distintos da vida do cantor. E os recortes de shows! Note, por exemplo, como em alguns momentos Ribeiro intercala na mesma música tomadas de uma “turnê” feita pelas grandes cidades, tudo isso sem perder o tom.

E não é só na edição que podemos notar a fluidez e maestria nas composições, mas também em sua fotografia coesa que, sutil, não agride nossos olhos com idas e vindas de imagens sem qualidade (aqui e ali, mas perdoável), pois as próprias tomadas presentes não são tão estilizadas para causar essa estranheza, mas estão de acordo com o resto do material. Nesse sentido, faz sentido, por exemplo, não exagerar na “maquiagem” nos entrevistados.

E esses, parecem fazer um esforço admirável para ilustrar melhor o que era esse maluco beleza para eles, em um convite realmente sincero para experimentarmos o que era Raul em todos os sentidos e em todas as fases de sua vida. Dessa forma, temos montagens absolutamente surreais de sua banda no estado atual tocando atrás de um pano que projeta suas versões de outrora, ou uma referência quase que espontânea ao filme de Elvis Presley, de quem Raul era fã assumido e escancarado pelo seu trabalho.

Ainda com os entrevistados, a montagem sugere uma espécie de diálogo velado entre eles, expondo por exemplo rixas entre seus parceiros de composição Paulo Coelho e Cláudio Roberto. No entanto, há a tentativa de tornar tudo isso um experimento mais visual que acordado entre as partes, gerando pequenas polêmicas como em um momento em que um entrevistado afirma Raul ser muito mais revolucionário que o próprio Caetano, líder do movimento Tropicália (que, diga-se de passagem, também é um dos entrevistados).

A conversa ainda levanta a questão da censura de maneira quase poética ao enfocar uma gravação sem som de rapazes sendo proibidos de se reunirem na praia para ouvir boa música na época da ditadura e cria um contraponto com a declaração de Paulo Coelho de ter apresentado a Raul todas as drogas possíveis, uma frase que sem sombra de dúvida seria motivo de perseguição política naquela época, mas que hoje pode ser dito, gravado e publicado.

Nesse sentido, o próprio filme é uma homenagem e uma resposta para esse contestador que foi Raulzito, como que houvesse um contato extraterreno a dizer para ele:”Está vendo? Hoje podemos fazer o que quisermos, pois há de tudo ser da lei”.

Acredito, sinceramente, que Raul esteja escutando.

Domingos

November 25, 2011 in Cinema

Idem. Brasil, 2011. Direção e Roteiro: Maria Ribeiro.

Parafraseando o Chefe Gusteau de Ratatouille, “qualquer um pode dirigir”, ou seja, o bom diretor pode vir de qualquer lugar. Dessa vez veio de Maria Ribeiro, a Rosane esposa do Capitão Nascimento em Tropa de Elite, que faz aqui um apanhado brilhante de gravações, depoimentos e tomadas capturadas durante o convívio com o cineasta Domingos de Oliveira que buscam ilustrar e homenagear a pessoa e o diretor/ator/roteirista, ao mesmo tempo que mostra seus inúmeros trabalhos no cinema e teatro.

Fonte: cinema.uol.com.br

Dotado de uma narrativa fluida, que consegue alternar com um sucesso crescente entre as entrevistas com Domingos e partes das obras que ilustram seu pensamento naquele momento, a edição mais que competente consegue invejavelmente capturar a essência de cada personagem representado por ele e trazê-lo para a realidade de uma maneira que transcende o que o próprio entrevistado está dizendo. E mesmo as inúmeras voltas em torno do tema da morte as diferentes formas de encará-la (como aproveitar a vida ao máximo, por exemplo) torna o assunto aparentemente inesgotável e nunca enfadonho. Pelo contrário, um depoimento é enriquecido pela próxima cena de filme ou peça, que enriquece o próximo depoimento, em uma espécie de cornucópia mágica filosófica.

Em um certo momento, após tantos relatos expositivos, o próprio Domingos confessa que alguém já lhe disse que ele se expõe tanto que a impressão que temos no final é que parece que na verdade ele não se expõe realmente. Discordo. No fundo, a riqueza de seus pensamentos e convicções, talhados em todos esses anos de cinema e teatro, fizeram com que o personagem Domingos tivesse para seu público várias facetas, cada uma delas enriquecendo a pessoa, mas ao mesmo tempo impedindo que pudéssemos resumi-lo dessa forma autocontida. Como o próprio filme sugere, a vida continua, e o próprio Domingos, para alegria dos que não se conformam com tantas homenagens póstumas, vivo e ativo em seus projetos.