O Mesmo Amor, a Mesma Chuva

July 12, 2013 in Home Video

El mismo amor, la misma lluvia. Argentina/EUA, 1999. Director: Juan José Campanella. Writers: Juan José Campanella, Fernando Castets. Stars: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Ulises Dumont.

Drama político e romance de Campanella.

Juan José Companella dirige pela primeira vez o casal dO Segredo dos Seus Olhos, Ricardo Darín e Soledad Villamil, em um romance leve, episódico e que brinca com as palavras ao vento que digerimos conforme a passagem do tempo faz as pessoas mudarem sua visão de mundo, assim como uma Argentina dos anos 80 em amplas modificações políticas e sociais.

Ricardo Darín como o jornalista Jorge Pellegrini é apenas o olho do furacão que acompanha o processo de redemocratização do país. A morte de um velho colega mexe com todos em volta, e acaba virando um fantasma da redação. A jovem Laura (Villamil) é o combustível que tenta empurrar Jorge para o caminho do sucesso, mesmo este sem o desejo de desengavetar suas ambições literárias. A ironia de Jorge em um momento particularmente hipócrita com Laura reflete a própria ironia da nação. Histórias pessoas se misturam com a história de um povo tentando resgatar sua integridade, e Companella abraça o tema sem dar atenção devida a nenhum dos lados.

O Voo

February 9, 2013 in Cinema

Flight. EUA, 2012. Director: Robert Zemeckis. Writer: John Gatins. Stars: Denzel Washington, Nadine Velazquez, Don Cheadle, Tamara Tunie, Brian Geraghty, Kelly Reilly, Charlie E. Schmidt, Bruce Greenwood, E. Roger Mitchell, John Goodman, Don Cheadle.

O Voo

Acidente de avião é pano de fundo para estudo de personagem fascinante.

No início do drama intimista somos apresentados a Whip Whitaker, um piloto “old-timer” que pilota um avião comercial com 102 pessoas a bordo como quem dirige um carro. Só que seu próximo voo apresentaria um defeito mecânico que o deixaria na mão. Utilizando seu instinto e habilidade, decide girar o avião de cabeça para baixo e com isso ganha impulso o suficiente para um pouso forçado em campo aberto, sendo obstruído apenas — que ironia — por uma torre de igreja. A sequência é arrebatadora por sua dramaticidade e impacto visual de um acidente em tempo real acontecendo diante de nós. Não é um espetáculo visual, mas um drama visceral ocorrendo no ar. Quando tudo termina, o resultado frio e matemático é de 6 mortes.

Já as consequências do evento são apresentadas para Whitaker no hospital desde sua primeira conversa, e já de forma a dividir opiniões: enquanto o representante do sindicato diz que ele salvou 96 pessoas, os representantes da auditoria apontam que o voo sob a responsabilidade do piloto resultou em mortes. Os motivos da queda são irrelevantes desde o início, pois estão no fundo procurando por um culpado, e Whitaker pode ser um deles exatamente por ter ingerido álcool e cocaína antes do voo.

O tema mais interessante do novo filme de Robert Zemeckis (Forrest Gump, O Náufrago) é a inversão de expectativa que ele causa em nós: enquanto visto como um herói pelas pessoas e tendo de fato todo o controle na cabine do avião durante o acidente, sua vida parece carecer dessa mesma auto-confiança. Whip Whitaker é um alcoólico inveterado, além de extremamente desonesto, como podemos observar em sua primeira atitude ao sair do hospital: se isolar no sítio de seu avô e jogar fora todas as bebidas. (a princípio podemos pensar que fosse uma mudança de atitude, o que não se comprova quando ele descobre que os testes de álcool no sangue já haviam sido feitos no hospital).

O destino de um sujeito desses não seria difícil de imaginar caso ele não tivesse conhecido no hospital Nicole (Kelly Reilly), uma viciada em recuperação. Diferente de Whitaker, Nicole está ciente que sua vida depende que ela pare (e é interessante que o roteiro estabeleça essa relação entre drogas injetáveis e álcool, uma droga tão letal quanto as proibidas por lei). Whip a traz para sua vida, mas os efeitos positivos da companhia de Nicole nunca parecem penetrar na visão egoísta e descontrolada do piloto.

Robert Zemeckis parece não ter pressa em avançar a história, pois quer que conheçamos mais sobre o estado irrecuperável de Whip pela simples observação do seu dia-a-dia. Enquanto as investigações estão em andamento e o advogado prepara o terreno para um final feliz e indolor, adentramos cada vez mais na obscuridade e irrelevância que sua vida. Enquanto torcemos que a justiça seja feita, ao mesmo tempo não estamos tão certos que essa atitude seria a mais correta, pois outros voos podem não ter o mesmo final bem sucedido com um cara desses na ativa.

E é por isso que sua conclusão possui a força acumulada de nossas próprias conclusões a respeito. Não torcemos mais apenas por sua absolvição, mas por sua redenção. Ele é uma pessoa que tem tudo para dar certo, mas para isso precisa encarar a realidade à sua volta sem o efeito do álcool. Como não gostar de um filme desses, que abre questões tão relevantes sobre o caráter humano e possui coragem para seguir adiante?

Seção com spoiler e análise da decupagem de Zemeckis.

Um dos trabalhos do diretor é enquadrar as cenas de um filme de maneira que possam trazer um significado a mais apenas pela disposição dos elementos em cena. É conhecido na linguagem cinematográfica que os elementos postos à direita da tela possuem mais relevância e são uma posição dominante no imaginário do espectador. Já com o lado esquerdo ocorre o inverso.

No caso de O Voo, o piloto Whip Whitaker não possui controle sobre sua vida, e é constantemente dominado pela bebida. Zemeckis passa essa mensagem não apenas pelas inúmeras pilhas de garrafas de bebidas espalhadas por sua casa, mas o colocando quase que 100% do tempo do lado esquerdo da tela. Se você tiver oportunidade de ver/rever este filme preste atenção a esse detalhe (além de inúmeros outros, claro, mas continuemos o raciocínio apenas deste).

A partir do momento em que Whip Whitaker decide contar a verdade a respeito da bebida em sua vida e passa a ter responsabilidade sobre seus atos o diretor Robert Zemeckis faz uma belíssima transição girando a câmera em torno de Whip Whitaker e o colocando já na prisão, anos depois, falando aos presos. A câmera continua a enfocar o ex-piloto, só que nesse momento ele está no centro da tela. Daí ocorre algo que considero tão emocionante quanto brilhante: a câmera ao se aproximar do protagonista vai lentamente o colocando à direita da tela, em um claro reajuste da própria postura do sujeito a partir de então para com sua vida. Também no diálogo final com seu filho ele está pela primeira vez totalmente à direita da tela, quando fecha a última cena.

Repito a pergunta feita no texto sem spoilers: como não gostar de um filme desses?

Django Livre

February 4, 2013 in Cinema

Django Unchained. EUA, 2012. Director: Quentin Tarantino. Writer: Quentin Tarantino. Stars: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio.

Django: watch the trailer - video

Western mistura culturas e empolga pelo seu estilo.

Django Livre é divertido moderadamente e possui um conteúdo pseudo-histórico de impacto que faz jus aos bons faroestes. Quentin Tarantino poderia ter futuramente — caso conseguisse controlar seu gigantesco ego — a mesma habilidade e maestria na direção que tornou Sergio Leone conhecido para sempre na história do Cinema.

Poderia, mas não é dessa vez.

Em plena época escravocrata do Sul dos EUA, a história gira em torno de Django (Jamie Foxx), um escravo que foi liberto por Dr. King Schultz (Christoph Waltz), um alemão caçador de recompensas. Agora ele precisa resgatar sua esposa de uma das maiores fazendas de algodão da época, controlada por Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), um escravagista absoluto que utiliza os escravos não apenas para o trabalho duro mas também para sua diversão pessoal e cruel, fazendo-os lutar até a morte tais como gladiadores romanos.

Só que para chegar nesse ponto o filme possui um longuíssimo prefácio que estabelece a relação de amizade entre Django e Schultz, além de criar e recriar ótimas cenas de ação que não apenas homenageiam o gênero, mas os principais diretores responsáveis por elevá-lo à sétima arte. A filmagem, feita com a técnica de CinemaScope que estabelece uma proporção de tela em torno de 2.35 por 1, torna tudo mais grandioso, assim como fez Sergio Leone em sua trilogia dos dólares. Mesmo assim, uma das cenas mais emocionantes tem sua finalização em uma tela quadrada, limitadas pelas portas de um celeiro e que juntam os dois protagonistas de maneira definitiva, o que comprova o conhecimento e a experiência do diretor em não ignorar o uso inteligente do espaço na tela.

Porém, estamos em um filme Tarantinesco feito por Tarantino, e é lógico que os seus absurdos estão espalhados por toda a narrativa, como os dois fatos indissociáveis de Django atirar bem desde o primeiro momento em que pega em uma arma e os seus alvos explodirem em jorradas de sangue esteticamente impecáveis. Esse não é um problema, mas um detalhe de seu cinema autoral e que aqui se mescla com as técnicas emprestadas do próprio Leone e que também eram utilizadas como combustível para nossa imaginação, o que faz com que qualquer cena mais ou menos exagerada seja assimilada como um jogo de estilo. Já as cenas cruéis e violentas fazem parte do repertório do diretor, que consegue criar a tensão justamente escondendo os detalhes sórdidos dos atos iniciados por Calvin Candie, onde um homem devorado por cachorros é muito mais traumático de se ver na expressão estarrecida das pessoas em volta do que diretamente.

Voltando aos detalhes culturais, a visão de Calvin Candie sobre o mundo é similar aos romanos instruídos, que se sentindo deuses perante seus servos, se deixa fascinar pelo que seus “macacos de circo” conseguem fazer. Aconselhado, no entanto, por um Samuel L. Jackson irreconhecível, revela-nos a informação vital de quem está verdadeiramente no comando de suas ações. Com uma trilha sonora elegantemente escolhida e uma faixa de músicas que tenta sempre trazer o conflito para os tempos atuais, a mesclagem de carruagens passando ao som de um rap diz muito sobre a mistura cultural que no filme se configura e que tanto nos fascina pela possibilidade de mesclagem. Tarantino prova aqui, ainda que talvez inconsciente e de forma metafórica, que o que nos torna mais fortes como seres humanos é justamente essa mistura de épocas, de culturas e conhecimento. Além disso, utiliza de maneira brilhante a costumeira surpresa dos cidadãos que veem um forasteiro por suas bandas pela mesma estranheza a respeito de um negro em cima de um cavalo, provando por contrastre que a ignorância nunca é algo saudável.

Onde chegamos ao terceiro e decepcionante ato, onde talvez as participações inspiradas de Christopher Waltz e Leonardo DiCaprio tenham suas “parcelas de culpa”, pois em ambas as ausências tornam o personagem de Jammie Foxx obviamente obliterado. Porém, o que fica óbvio é que Tarantino mais uma vez sabota sua própria obra, colocando o seu ego à frente dos eventos e criando uma reviravolta extremamente incoerente com um dos seus personagens no momento mais crucial da sua história, parecendo que com o único objetivo de fazer-nos ver mais tiroteio e chuvas de sangue estilizadas. O efeito para os fãs do diretor pode até funcionar, mas para os fãs do Cinema é um verdadeiro soco para fora do filme, que fica ainda maior quando nos deparamos com o próprio Tarantino atuando.

Dizer que os últimos 20 minutos de filme estragaram toda a experiência é ser um tanto desonesto, mas não se pode negar que a maestria de Tarantino é tamanha que é incômodo constatar que esta foi boicotada por ninguém nada menos que… Quentin Tarantino.

Celebridades

January 24, 2013 in Home Video

Celebrity. EUA, 1998. Director: Woody Allen. Writer: Woody Allen. Stars: Kenneth Branagh, Judy Davis and Leonardo DiCaprio.

Celebridades

Seriam as celebridades de um povo reflexo de sua sociedade?

O que dizer da fase Woody Allen onde ele se propôs a produzir um filme por ano e consegue reunir um elenco tão afiado que conseguem desempenhar papéis que, mesmo longe do seu brilhantismo, participam do universo do diretor de maneira tão orgânica? Temos aqui dois “Allens”: o escritor/roteirista Lee Simon (Kenneth Branagh), que possui sua baixo auto-estima como gancho de todos os seus fracassos, e sua mulher, a professora Robin Simon (Judy Davis), cuja transformação à base de neurose e uma boa dose de sorte a torna a heroína às avessas da história.

Não há muito foco nos personagens, mas muito mais na atmosfera de Hollywood que faz pano de fundo às situações que testemunhamos. Vendo atores, atrizes, diretores, críticos e toda a fauna reunida como pessoas comuns, Allen destitui todo o brilho desses seres para aos poucos construí-los como mitos de mentirinha, frutos de mero capricho do destino. O que é mais genial no roteiro é que as coisas vão acontecendo de uma maneira tão natural e ao mesmo tempo os eventos sucedem no caminho oposto do que esperaríamos dos seus personagens principais.

O filme começa com a separação entre Lee e Robin. Robin está inconsolada, e parece que nunca voltará à tona. Já Lee encara tudo como um processo natural, e, apesar de romântico, está sempre à cata de celebridades para alimentar o seu ego massacrado pelo fato de saber ser ele um escritor medíocre fadado previamente ao fracasso.A partir daí o espectador precisa se atentar às nuances por trás dos acontecimentos. Nada é ao acaso, mas soa como se pudesse ser.

Com participações inspiradas — com destaque na sequência com Di Caprio — Allen conduz sua orquestra desafinada através de diálogos não particularmente brilhantes, mas que talvez por isso questionem tanto o papel das tais celebridades retratadas em preto e branco. Serão elas de fato o reflexo da sociedade? Como todo bom filmes de Allen, a questão está sempre em aberto.

O Som ao Redor

January 12, 2013 in Cinema

Idem. Brasil, 2012. Director: Kleber Mendonça Filho. Stars: Irma Brown, Sebastião Formiga and Gustavo Jahn.


kleber mendonca filho

Filme sem roteiro definido é reflexo de nossa sociedade em estado de putrefação moral.

O Som ao Redor não é o tipo de filme que a gente consiga descobrir através da sua história qual o tema e a opinião do diretor sobre o que ocorre na tela. A coisa toda está mais como um espelho, onde nossa observação dos fatos e a sua interpretação — sobretudo moral — é que irá inserir um significado. Mesmo assim, dadas as devidas proporções, todo filme possui essa liberdade de interpretação. Do contrário, nem existiria crítica, pois todas as respostas estariam no filme, e não haveriam perguntas.

Acompanhamos a vida das pessoas de uma pequena rua em um bairro de classe média. Não somos propriamente apresentados a eles, mas o vemos meio como quem espia a vida alheia. No caso, várias vidas alheias. O tom de realidade é dado não apenas por interpretações convincentes de todo o elenco como pessoas comuns, como pela ausência completa de trilha sonora. O filme honra o seu título e possui percursão musical, temática e transitória através do aumento e diminuição do volume de determinados sons presentes no próprio ambiente e que — esses sim, nos são apresentados desde o começo, em um plano sequência de uma menina andando de patinete dentro de um condomínio. A sinfonia que se forma pelos lugares por onde passa é o suficiente para que identifiquemos boa parte dos ruídos que ouviremos deslocados de cena, mas presentes, de certa forma, no momento que percebemos que todas as vidas ali mostradas estão ligadas em maior ou menor grau.

E qual o tema sugerido? Uma resposta das mais óbvias seria sobre a moralidade daqueles cidadãos.

Vejamos um pequeno exemplo para não nos estendermos demais: o toca-CDs da amiga de um personagem é roubado por um dos vizinhos, que — coincidência ou não — é seu primo. Após uma visita nada cordial — afinal, antes de acusar os outros, esteja certo de não insultar sua honra, mesmo que a pessoa seja culpada — o aparelho é devolvido. Só que se trata do seu aparelho, mas de outro. A decisão dela foi ficar com esse mesmo, que parecia até melhor do que ela tinha.

Pois bem. Quem defenderia a inocência dessa mulher, de que ela não sabia que esse também era produto de um furto? Não precisa ser muito inteligente para saber disso, mas talvez exija um grau de moralidade muito acima da média, o que é uma triste notícia para nós como seres humanos.

E isso é apenas um exemplo, mas existem vários que, apesar de não serem escancarados, o fato de serem sutis é mais um sintoma de que talvez tenhamos chegado em um nível de degradação moral que, haja o que houver, faríamos o mesmo. O fato de inconscientemente sabermos que se trata de um filme, ou seja, produto de fantasia, faz tudo parecer devidamente encaixado em uma realidade que não nos pertence.

Será mesmo. E é aí que entra o espelho, acusando o espectador sem apontar para ele. Somos responsáveis por esse filme, ou pelo menos o que ele significa. Nesse sentido, O Som ao Redor tem muito a dizer como um filme para uma sociedade que acha tudo isso normal.

O Impossível

January 7, 2013 in Cinema

Lo imposible. Espanha, 2012. Director: Juan Antonio Bayona. Writers: Sergio G. Sánchez (screenplay), María Belón (story). Stars: Naomi Watts, Ewan McGregor and Tom Holland.

O Impossível

O tsunami de 2004 visto pela lente atenta e sensível de Juan Antonio Bayona.

A abordagem que o diretor espanhol Juan Antonio Bayona realiza para contar a história da família que se separa durante o Tsunami de 2004 que matou mais de 230 mil pessoas consegue transmitir a emoção pelo drama específico sem se esquecer da perda incomensurável de vidas naquela tragédia que mudou a vida de muito mais pessoas que podemos imaginar. Diz ainda o que números nunca serão capazes de dizer: que cada vida que se perde é uma tragédia particular.

Os efeitos visuais e sonoros, com certeza ocupando a maior quantia da verba para o projeto, são importantes para que o trágico espetáculo fique na nossa mente por um bom tempo, mas apenas o seu uso inteligente, visceral, garante a sua efetividade no máximo. As tomadas mais apavorantes são as que nada vemos, mas ouvimos apenas, o barulho destruidor.

A trilha sonora, tão importante quanto os sons diegéticos, marca presença até quando não se ouve, pois precisamos daquele respiro do silêncio, a reflexão entre cenas, para seguir adiante. Tão digno de nota quanto é a maquiagem utilizada especialmente em Maria, a mãe dos meninos, que sofre sérios ferimentos e vai aos poucos definhando, debilitada, tornando cada fala sua um ato de coragem por si só.

Desde o início percebemos uma troca muito justa: a inevitável previsibilidade do ocorrido deixa espaço para a intensidade de cada momento. O uso inteligente da câmera a torna uma testemunha com “opinião formada”: se aproxima quando exige intimidade, treme como nós mesmos tremeríamos e ainda tem a vantagem da uma visão panorâmica que tanto assusta quando é usada. É ela que acusa um Deus ausente, procurado-o nos céus logo após a tragédia e, já no hospital, usa-a na “primeira pessoa” para expressar que, se Ele existe, parece observar, impotente, os mortos enfileirados e a mãe que aguarda pela segunda cirurgia. As pessoas desse filme parecem ter muito mais força que seu Deus, e quase não sabemos de onde elas tiram a vontade de continuar.

Quase não sabemos, mas está ali todo o momento. Seus olhares denunciam facilmente, especialmente os de Lucas (Tom Holland), que transforma seu desespero em esperança de reencontrar o pai. Seu desempenho é a grande revelação do filme. Nitidamente à frente dos adultos, enxergar tanta vontade de viver e de ajudar o próximo em uma criança se torna de repente a mensagem mais poderosa que poderíamos aprender, essa nossa geração envelhecida e hipócrita.

Criando ou recriando um final cinematográfico, o que embute na mente do espectador que tudo aquilo poderia realmente ter ocorrido, vibramos e torcemos por aquela família como se fosse a única que não de desestruturou, se desmanchou pela fúrias das águas. Pecando talvez apenas ao não pontuar corretamente o esforço do pai, que varre literalmente todos os hospitais de abrigados (e deve ter perdido um pedaço de esperança em cada um deles) “O Impossível” não tem um final 100% feliz justamente por não esquecer que desastres como esse costumam marcar uma geração inteira. A coragem de não se esquecer disso é digna dos aplausos finais, uma decisão capaz de mudar algo em nós mesmos.

Precisamos Falar Sobre o Kevin

December 29, 2012 in Home Video

We Need to Talk About Kevin. Reino Unido/EUA, 2011. Director: Lynne Ramsay. Writers: Lynne Ramsay (screenplay), Rory Kinnear (screenplay). Stars: Tilda Swinton, John C. Reilly and Ezra Miller.

Precisamos Falar Sobre o Kevin

Entrega de Tilda Swinton e direção/montagem arrebatadoras tornam o filme um exemplo na arte de contar histórias.

“Precisamos Falar Sobre o Kevin” aborda de maneira surpreendente e inovadora o ponto de vista não de Kevin, um menino problemático que se tornará na sua adolescência autor de uma tragédia, mas o drama de sua mãe, evocadamente chamada Eva — a que deu à luz Caim, o primeiro assassino do mundo bíblico — e interpretada por Tilda Swinton de maneira brilhante e sem qualquer reservas.

Não se privando de esconder os acontecimentos futuros que irão ocasionar uma mudança radical na vida de toda a família, mas principalmente de Eva, a direção de Lynne Ramsay e a montagem de Joe Bini preferem “brincar” com um jogo de causa e consequência que consegue de maneira impressionante potencializar ainda mais a tensão, o suspense e o drama que se estabelece na vida de Eva a partir do nascimento de Kevin (Jasper Newell e Ezra Miller), seu primeiro filho e que parece não desenvolver suas habilidades morais e emocionais como as outras crianças. Note que eu disse “parece”, e um outro elemento intensificador de tensão usado pela diretora é exatamente nunca deixar clara essa relação de causalidade, preferindo utilizar as percepções e sentimentos da mãe, esta que talvez possua um destino tão trágico quanto a deusa Cassandra, que conhece o seu destino através de sonhos mas não consegue evitá-lo.

Ao mesmo tempo em que a história caminha pelas sutilezas da montagem e de idas e vindas pelo futuro e passado de seus personagens, o uso igualmente arraigado do vermelho na direção de arte e fotografia dos cenários, onde até mesmo um singelo uso de pelúcia pode representar perigo, é digno de aplausos. E igualmente significativa é a edição de som, que consegue sussurrar mensagens subliminares por todo o trajeto mental que Eva parece percorrer após a sua vida não ter mais volta. Os ecos formados entre esses sons e as músicas escolhidas pelo projeto são uma brincadeira à parte.

Nunca nos permitindo parar para respirar, mas em vez disso conseguindo manter um ritmo adequado para processarmos tudo o que virá no esmagador terceiro ato, o brilhantismo de “Precisamos falar…” reside não em sua história, mas as soluções desenvolvidas por toda a equipe para transmitir seu significado de maneira mais visceral possível sem cair no óbvio. Sensorialmente abalante, se torna um filme merecedor de revisitas frequentes.

Pulp Fiction – Tempo de Violência

December 23, 2012 in Home Video

Idem. EUA, 1994. Director: Quentin Tarantino. Writers: Quentin Tarantino (story), Roger Avary (story). Stars: John Travolta, Uma Thurman, Tim Roth, Amanda Plummer, Eric Stoltz, Bruce Willis, Ving Rhames, Rosanna Arquette, Maria de Medeiros and Samuel L. Jackson.

Pulp Fiction

Filme de gângsters é expressivo pelas suas parábolas em uma realidade escabrosa.

Segundo trabalho de Quentin Tarantino (Cães de Aluguel, Kill Bill), Pulp Fiction é seu filme com o roteiro mais intenso, e talvez um dos melhores representantes do seu gênero no quesito introduzir perigosos criminosos em seu dia-a-dia.

Mas qual é o significado de Pulp Fiction? Ora, o próprio Tarantino explica no início, colocando a descrição literal do dicionário American Heritage após acompanharmos um diálogo de um casal que decide assaltar o restaurante onde estão tomando café-da-manhã:

PULP [pulp] n. (POLPA)
1. A soft, moist, shapeless mass or matter.
2. A magazine or book containing lurid subject matter and 
 being characteristically printed on rough, unfinished paper.
(Tradução: 
 1. Uma massa ou matéria suave, úmida e disforme.
2. Uma revista ou livro contendo assunto escabroso e 
 sendo caracteristicamente impresso em papel áspero, inacabado.)

Note como o significado que procuramos está na segunda posição do dicionário, justamente o que nos remete diretamente ao estilo “Lado B” da produção, que não possui um plot grandioso, mas que ao mesmo tempo consegue imprimir qualidade em cada um dos seus enquadramentos através da estilização ao máximo de sua ideia de extravasar os acontecimentos “escabrosos” que ocorrem na tela.

Note que não há protagonistas humanos, apenas meros coadjuvantes desses acontecimentos e uma maleta. Não podemos dizer que Marcellus Wallace (Ving Rhames) desempenhe o papel principal mesmo que boa parte da história seja parte dos seus planos, já que boa parte de tempo em tela se divide em torno de três personagens: a dupla de assassinos Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winfield (Samuel L. Jackson) e Butch Coolidge (Bruce Willis), um lutador em fim de carreira que vende sua luta para o mafioso.

No entanto, mesmo eles não desempenham função primordial à narrativa. No fundo, até as cenas de ação são periféricas à história, que prefere focar no que os personagens fazem quando coisas estranhas acontecem. O primeiro diálogo entre Vincent e Jules, a respeito ao período em que o primeiro esteve na Europa e as diferenças culturais com Los Angeles, é sintomático nesse sentido, pois é esse formato que será adotado para apresentar seus personagens, sem grandes tramas ou algo do gênero. São pessoas comuns, ligadas ao crime, mas que merecem aqui uma visão ordinária, quase corriqueira, da vida.

E o que é a vida para essas pessoas? Muito parecida com a de qualquer um de nós: problemas no serviço, tarefas complicadas, a tentação da traição, o inesperado. Não é à toa que o tom casual da narrativa não se esforce sequer em colocar os eventos em ordem cronológica. Se tornaria inútil, pois o que vemos é um estudo de personagens e não um conflito que precisa ser resolvido. Podemos até dizer que há dois conflitos principais: a entrega da maleta misteriosa para o Sr. Wallace e os acontecimentos antes, durante e após a luta de Butch. São determinantes? Eu não diria isso.

E se eu disser que mais fascinante do que esses dois conflitos é toda a sequência, irretocável, da noite de Vincent Vega e Mia Wallace (Uma Thurman), tendo o ápice em uma dança de twist, culminam em uma overdose que pode ser tão bem aplicada a Mia quanto a nós mesmos, imersos em uma realidade tão comum quando extraordinária, banhada de músicas que parecem ter sido feitas para cada cena? Ao mesmo tempo, como explicar que mais intrigante do que a forma com que Jules executa suas vítimas recitando um trecho da Bíblia, que conhece de cor, não se compara à própria psique do sujeito, para quem o significado dessa passagem adquire inúmeras interpretações em sua mente, especialmente após ter testemunhado algo que considera um milagre? Quer algo mais intrigante que isso? Compare toda a história da dupla através das três interpretações que Jules entrega para o espectador no final do filme. O que temos? Nada conclusivo.

No fundo, a montagem do filme não poderia ser feita de outra maneira. Caminhando lado a lado dos seus personagens, Tarantino consegue extrair o mais inusitado que qualquer um conseguiria em um filme de gângsters: sua alma de pessoas comuns que por mero capricho de acontecimentos “Pulp” estão onde estão. Não importa como chegaram ali, mas entender o que fazem a partir disso é que faz toda a diferença.

O Homem da Máfia

December 11, 2012 in Cinema

Killing Them Softly. EUA, 2012. Director: Andrew Dominik. Writers: Andrew Dominik (screenplay), George V. Higgins (novel). Stars: Brad Pitt, Ray Liotta, Richard Jenkins, Ben Mendelsohn, Scoot McNairy, James Gandolfini, Trevor Long, Max Casella, Sam Shepard.

Quando um filme de gângsters não é só um filme de gângsters.

Esse é um ótimo filme sobre as ações e decisões de um grupo de mafiosos a respeito do destino do seu negócio de jogatina. Basicamente o que se coloca em jogo é a confiança dos donos dessas casas depois que um deles, Markie Trattman (Ray Liotta), rouba seu próprio negócio. O que o torna um filme excepcional é que essa manutenção da confiança no sistema ilegal de jogos de azar traça um paralelo direto com a crise econômica nos Estados Unidos iniciada em 2007 e que até hoje ecoa pelas casas vazias e massas de desempregados cheios de dívidas. A confiança no sistema financeiro também foi abalada naquele momento e algo teve que ser feito.

O que o governo fez e faz para resolver o rombo em suas estruturas é o tema-recheio que se expande através dos olhos aguçados do roteirista Andrew Dominik, baseado no romance de George V. Higgins. No entanto, o que é mais impressionante é que o romance de Higgins, Cogan’s Trade, foi publicado em 1974, e o que resta hoje são os vários diálogos que fazem parte de capítulos inteiros do livro, que preferem ruminar sobre a psicologia dos seus criminososos do que a ação em si.

Nesse sentido, o plot do livro cai como uma luva. Utilizando o som de rádios e televisões que sintonizam a voz do na época senador Barack Obama e o presidente George W. Bush, as decisões políticas entrecortam os diálogos dos criminosos no filme. As cenas de ação são poucas, mas possuem uma intensidade incrível, além de um prazer estético que flertam com o Tarantinesco, só que com muito mais profundidade. Destaco dois: o plano-sequência de entrada e saída da casa de jogos, cuja tensão final é hipnotizante; o assasinato dentro do carro, cujas balas acompanham o movimento da música.

No entanto, mesmo que as cenas de ação mereçam um destaque são os diálogos que prende a atenção pelas atuações sempre interessantes de todo o elenco, sempre parecendo ter algo mais a dizer. Brad Pitt como o frio e calculista Jackie mata a pau no início e no fim, mas o diálogo que ele tem com Frankie no bar a respeito dele ter opções é um momento icônico para a trama justamente pela expressão na cara de Scoot McNairy. E mesmo o insuportável Mickey (James Gandolfini) é uma caricatura construída exatamente para se tornar insuportável aos nossos olhos, para que nós mesmo percebamos que ele não é o cara certo para o serviço. E se Ray Liotta faz aqui uma participação mega-especial com o dono de jogatina Markie Trattman — e cujo caráter do personagem faz eco com seu personagem em Os Bons Companheiros — a cereja do bolo é mesmo Ben Mendelsohn, que faz um Russell estúpido e crível, e cujas cenas onde está chapado servem tanto como exercício estilístico — como a bela transição entre a fumaça e as lanternas do carro — quanto como mais uma caracterização metafórica que deixa em aberto quais são os papéis dessas pessoas na jogatina profissional e os senhores que a controlam: respectivamente a bolsa de valores e o sistema financeiro/político americano.

Frankenweenie (2012)

November 14, 2012 in Cinema

Idem. EUA, 2012. Direção: Tim Burton. Roteiro: Leonard Ripps, Tim Burton (ideia original), John August. Elenco: Winona Ryder, Charlie Tahan, Catherine O’Hara, Martin Short, Martin Landau.

Tim Burton volta à boa forma em animação que revisita seu passado e homenageia o Terror.

Desde o início há algo de mágico em Frankenweenie. Baseado em um curta dirigido pelo próprio Tim Burton e, quem diria, produzido pela Disney, o diretor e roteiro repetem os mesmos passos certeiros do trabalho original, conseguem desviar dos errados e acrescentam, além de uma divertidíssima homenagem ao Terror em seus momentos mais fortes, uma saudável discussão em torno de como as pessoas enxergam a ciência hoje em dia. Afinal de contas, o Frankestein de Mary Shelley nunca esteve tão presente nas discussões de botequim, misturado com superstições religiosas que continuam assombrando-nos até hoje.

A história reconta o clássico de terror sob o ponto de vista do garoto Victor Frankestein (Charlie Tahan) e o seu cachorro Sparky, que devido a um acidente fatal, acaba falecendo e deixando Victor desconsolado. Até que ele tem uma ideia inspirada nas explicações do seu estranho professor Sr. Rzykruski (Martin Landau), que tenta apresentar a ciência para as mentes jovens dos seus alunos como o potencial criador de perguntas e respostas que leva a humanidade a dar passos cada vez maiores. A ideia, como não poderia deixar de ser, dá certo, e Victor consegue trazer Sparky de volta do mundo dos mortos.

Ao apresentar seu cenário exageradamente peculiar dos subúrbios americanos já vistos no pequeno bairro de Edward Mãos de Tesoura, além dos seus habitantes mais peculiares ainda, fica logo claro que a decisão de manter o remake em preto e branco favorece a construção da tensão e do terror que, mesmo infantilizado, é construído de maneira estilizada através das caricaturas que são os seus personagens, como a garota esquisita de pupilas minúsculas que acredita em profecias proferidas pelo seu gato igualmente esquisito que faz cocô com a inicial do nome da próxima pessoa atingida por grandes acontecimentos. Dessa forma, temos sim um filme infantil em seu formato, mas igualmente aterrorizante como os “filmes para adultos”.

Confortável em retornar para fábulas dark como em A Noiva Cadáver e O Estranho Mundo de Jack (como produtor), Tim Burton recria aqui inúmeras referências à histórias de terror, como Gremlins e Godzilla, e mesmo histórias já fabulescas e que remetem ao catáter lúdico do projeto, como Chapeuzinho Vermelho. No entanto, as referências mais divertidas ficam por conta mesmo da maneira de dirigir e usar ângulos exagerados para personagens já “naturalmente” afetados pela fabulosa equipe de direção de arte, que consegue evitar muito diálogo com um visual que já diz tudo. O uso da luz e sombra, tão importante em filmes do gênero, aqui possui o papel que merece. E note como o diretor evita o susto fácil, tão frequente em produções apelativas.

Contando ainda com uma conclusão inesperadamente emocionante, pelo menos para mim, que perdi minha cadela Pata em condições emocionalmente abaladoras, Frankenweenie faz eco com outra produção tão inversa quanto Marley e Eu, mas consegue extrair do seu universo a lição de moral que precisava para recolocar a questão da ciência nas mãos dos adultos. Afinal de contas, já é hora de esquecermo-nos dos inúmeros contos de fada em que acreditávamos e assumir que o conhecimento do mundo é uma dádiva que não podemos ignorar.

Bônus: curta original de 84.