S.O.S. – Tem um Louco Solto no Espaço

January 21, 2013 in Home Video

Spaceballs. EUA, 1987. Director: Mel Brooks. Writers: Mel Brooks, Thomas Meehan. Stars: Mel Brooks, John Candy and Rick Moranis.

S.O.S. - Tem um Louco Solto no Espaço

Mel Brooks cria mais uma vez um universo tão interessante quanto o parodiado.

Entendendo o ridículo em potencial da saga idolatrada de George Lucas (Star Wars, para quem não sabe), a história de Spaceballs contém o mesmo pano de fundo só que trazendo à tona o mesmo padrão já visto centenas de vezes: uma princesa sequestrada, um casamento forçado, o anti-herói que se torna digno de seu amor e por aí vai a valsa. Economizando o personagem de Luke Skywalker colocando-o no papel do próprio anti-herói (o alter-ego de Hans Solo) fica fácil enxergar que já há gorduras no próprio roteiro do filme original.

Não que Guerra nas Estrelas esteja perto de ser ruim. Longe disso. No fundo, qualquer obra de ficção, se vista com uma lupa sarcástica, tende para o ridículo, como vemos tantas vezes hoje em dia nos canais do You Tube que homenageiam filmes contemporâneos em trailers ridicularizados de cinco minutos. A comédia existe em qualquer lugar, e o grande trunfo do diretor aqui foi localizar os elementos que pareceriam mais absurdos sem prejudicar o ritmo de um longa-metragem.

No entanto, o roteiro escrito em parceria com Thomas Meehan (Annie) e Ronny Graham (da série M.A.S.H., homenageado recentemente pela série Community) vai além e utiliza metalinguagem em seus melhores momentos, o que é sinal de ótimos comediantes, que não só zombam do conteúdo alheio como sabem zombar do próprio material. Se em muitos casos isso é desculpa para realizar produções de péssimo gosto aqui é usado em preciosos momentos sem prejudicar a narrativa. (Minha cena favorita é quando eles “alugam” o próprio filme e avançam a fita para o tempo presente.)

Encontrando espaço para “homenagear” de maneira irretocável os clássicos Star Trek, Aliens e Planeta dos Macacos — embora as piadas surjam em cada contexto — a narrativa é seguida à risca e possui começo, meio e fim. Se isso é algo digno de nota hoje em dia é porque a paródia segue hoje descarrilhada em produções patéticas como Espartalhões e a série Todo Mundo em Pânico, que exploram o riso fácil (de uma plateia fácil). Felizmente temos o exemplo passado de Mel Brooks do que é parodiar sem ofender e ainda engrandecer o Cinema como uma arte que pode ser revista de inúmeras maneiras sem soar repetitivo ou apelativo.

Viúvas

January 11, 2013 in Cinema

Viudas. Argentina, 2011. Director: Marcos Carnevale. Writers: Marcos Carnevale (screenplay), Bernarda Pagés. Stars: Graciela Borges, Valeria Bertuccelli and Rita Cortese.

Viúvas

Dramédia falha em não acertar o tom e o assunto.

Projeto menor do diretor Marcos Carnevale (Elsa e Fred), Viúvas possui o seu núcleo na história de Elena (Graciela Borges), que perde o marido depois de um infarto. Fica conhecendo assim a sua amante, Adela (Valeria Bertuccelli), muito mais jovem e inexperiente com seus sentimentos. Unindo a vida pós-marido de ambas através de uma última promessa feita pela esposa, a sensação constante é de que ao tentarmos conhecê-las melhor existe um sentimento de repulsa por mulheres tão egoístas (cada uma à sua maneira).

O que é uma pena, pois o curioso plot coloca a questão dos sentimentos acima dos rótulos em pauta, e apesar do roteiro do próprio diretor deixar o tema morno e frequentemente revisto, o fato é que Viúvas não consegue se desvencilhar da óbvia rivalidade entre as duas desconsoladas para criar algo além de situações controversas e cômicas.

De qualquer forma é notável que o núcleo de personagens seja formado apenas por mulheres, sendo que possíveis pretendentes, quando aparecem, são simples adornos para o ego das duas atraentes mulheres. Recriando situações engraçadas no vai-e-vem da história, Carnevale parece não beneficiar nem a comédia nem o drama, pois não há espaço para que as situações cresçam e se tornem a que vieram.

Hot Hot Hot

November 2, 2012 in Cinema

Item. Luxemburgo, 2012. Direção: Beryl Koltz. Roteiro: Beryl Koltz. Fotografia: Jako Raybaut. Elenco: Rob Stanley, Joanna Scanlan, Gary Cady.

36a. Mostra de São Paulo

A maior virtude criativa de Hot Hot Hot — primeiro longa do cineasta Beryl Koltz — é abordar o arco dramático de Ferdinand (Rob Stanley) do ponto de vista de um pequeno peixe e o seu processo migratório das águas frias de um aquário solitário para o ambiente quente – no sentido sexual e térmico – de uma sauna e a sua tão peculiar fauna.

Gastando o tempo necessário para apresentar os seus personagens secundários sob o ponto de vista do deslocado protagonista, a direção faz uma aposta certeira em demonstrar sempre com ângulos altos a pequenez do nosso heroi, não sem antes ganhar a nossa empatia com uma atuação acertadamente exagerada de Rob Stanley, em sintonia com a proposta fabulesca do roteiro, que investe ainda em inventivos sonhos e representações visuais do seu deslocamente. E exatamente pela sua timidez exagerada é que outra decisão acertada do roteiro é ouvirmos seus pensamentos, pois do contrário seria impossível identificar suas reações internas.

Como as possibilidades de analogia com o mundo aquático são aparentemente ilimitadas, também o são as brincadeiras do filme, que estabelece os pequenos ambientes da sauna como os próprios aquários da vida anterior de Ferdinand, ou seja, apertados (só que quentes).

Mesmo com tudo isso fotografia e trilha sonora posuem papeis de destaque acima das invencionisses, pois são as duas que realmente comentam e ilustram a realidade desse mundo, com o uso constante dos tons de azul e laranja para representar a mesclagem de protagonista e novo mundo. A trilha sonora, parte integrante e esquecida da vida de Ferdinand, passa a ter papel ativo no ambiente da sauna e de sua própria postura diante dos acontecimentos.

Não direi mais nada. Não vale a pena estragar as surpresas da história, pois estas são secundárias. Em vez disso, se atente ao aspecto estético e temático. Há algo de sublime que se mantém independente da história.

Os Visitantes

October 31, 2012 in Cinema

Die Besucher. Alemanha, 2012. Direção: Constanze Knoche. Roteiro: Leis Bagdach. Fotografia: Kirsten Weingarten. Elenco: Uwe Kockisch, Corinna Kirchhoff, Anjorka Strechel, Irina Potapenko, Jakob Diehl, Anne Müller, Andreas Leupold.

36a. Mostra de São Paulo.

Os Visitantes é o primeiro longa do alemão Contudo Knoche e talvez por causa disso mesmo seu tema dramático possui uma leveza e ingenuidade que o torna particularmente cômico. Iniciando com a visita inesperada do pai Jacob (Uwe Kockisch) aos seus três filhos Arnolt, Sonni e Karla (Jakob Diehl, Anne Müller e Anjorka Strechel), o atípico convívio com eles é usado para desvendar mais sobre aquelas pessoas do que sobre a visita em si. (Note como apenas os primeiros nomes são usados, levando automaticamente nossa relação com os personagens a um nível familiar.)

Já ganhando a atenção do público, as coisas começam a ficar mais interessante ainda ao descobrirmos que existem na verdade dois acontecimentos a serem discutidos: um trazido pelo pai e outro (Andreas Leupold, como Hans) pela mãe, Hanna (Corinna Kirchhoff). A maneira como ambos se relacionam e como isso revela mais sobre os filhos do que sobre os pais é o que move a história através de diálogos sutis cujo pano de fundo sempre será a estrutura patriarcal clássica na incompatível vida contemporânea e o que ela formou como visão de mundo dos filhos.

Usando um ritmo sem pressa, econômico e competente em esboçar visualmente o seu objetivo, a reproximação daquela família que há tempos não tinha uma conversa como essa irá — como nos filmes do gênero — abrir algumas feridas e paulatinamente fechá-las. O passado de ausências que acabou por moldar o caráter desses jovens é revisitado, e tudo fica mais empolgante com a troca de farpas.

Nunca desinteressante em seu desenrolar um tanto óbvio, mas que com seu timing perfeito e o desempenho competente de todo o elenco o torna, Os Visitantes conclui seus conflitos com uma visão encantadoramente otimista caso seja essa também sua impressão. Contudo, o filme prefere não se intrometer mais ainda na vida daquela família, o que é admirável se considerarmos que já a tomamos como pessoas de carne e osso durante todo esse tempo.

O Frasco

October 28, 2012 in Home Video

El Frasco. Argentina/Espanha, 2008. Direção: Alberto Lecchi. Roteiro: Pablo Solarz. Elenco: Darío Grandinetti, Leticia Brédice e Rubén Altamirano.

Comédia se baseia apenas na timidez para fazer rir.

E não que ela não consiga. O problema é que a história gira muito em torno apenas de pequenos eventos que se refletidos não fazem muito sentido, o que torna tudo muito artificial e burocrata. Os cacoetes de Perez em frente à sua amada Romina (Leticia Brédice) são repetitivos. A narrativa apenas se move com essas incursões artificiais, como o conflito principal que parte do princípio que Romina, depois de tanto tempo vendo Perez, não consiga perceber que ele se trata de um tímido com problemas graves de comunicação.

De Bico Calado

October 27, 2012 in Home Video

Keeping Mum. Reino Unido, 2005. Direção: Niall Johnson. Roteiro: Richard Russo, Niall Johnson. Elenco: Rowan Atkinson, Kristin Scott Thomas e Maggie Smith.

Uma comédia nos moldes britânicos com piadas envolvendo cadáveres.

O pastor de uma pequeníssima comunidade com cerca de 50 habitantes (Rowan Atkinson) possui como preocupações diárias uma palestra que precisa proferir no encontro de pastores. Enquanto isso, sua cansada esposa (Kristin Scott Thomas) começa a planejar uma fuga com seu amante professor de golfe (Patrick Swayze). A vinda da nova governanta (Maggie Smith), porém, pode mudar completamente o que o pastor e sua esposa tinham em mente. “De Bico Calado” é ágil como deve ser uma comédia com pouquíssimas e pontuais tiradas, e se dedica a fazer um rodízio entre esses poucos temas. É leve para um humos britânico, e esquecível logo depois de assistido.

E Se Vivêssemos Todos Juntos?

October 19, 2012 in Cinema

Et si on vivait tous ensemble?. França/Alemanha, 2011. Direção: Stéphane Robelin. Roteiro: Stéphane Robelin. Elenco: Guy Bedos, Daniel Brühl e Geraldine Chaplin.

Comédia francesa é leve, mas poderia ser um pouco menos.

“E se todos vivêssemos juntos” parte do princípio que se eu apresentar as características que definem cada um dos simpáticos velhinhos que protagonizam essa comédia poderia me livrar de qualquer compromisso narrativo e simplesmente criar situações engraçadas, livre das amarras de discutir uma questão importantíssima na Europa de hoje: a terceira idade se tornando uma maioria ativa e, se bobear, economicamente mais ativa.

O que não evita que o filme se torne uma experiência leve e agradável. O elenco formado por ícones como Geraldine Chaplin (Chaplin, Dr. Jivago) consegue arrancar risadas apenas aparecendo na tela, extravasando e exagerando seus caricatos personagens, expondo simultaneamente seu melhor e pior. Se não há na história aspirações melhores do que ser engraçadinho, ao menos temos um filme engraçadinho com charme.

Ted

October 3, 2012 in Cinema

Idem. EUA, 2012. Direção: Seth MacFarlane. Roteiro: Seth MacFarlane, Alec Sulkin, Wellesley Wild. Elenco: Mark Wahlberg, Mila Kunis e Seth MacFarlane.

Comédia politicamente incorreta com urso de pelúcia prova estar acima de besteiróis do gênero.

Quando assistimos à introdução que marca o início da amizade entre John, um garoto de 8 anos (Bretton Manley), e Ted, um ursinho de pelúcia que começa a falar a partir de um desejo que o garoto faz para uma estrela cadente, entendemos ser essa amizade o núcleo da história dirigida e escrita por Seth MacFarlane, do desenho politicamente incorreto Family Guy, e que aqui além de dirigir dubla o ursinho com sua voz. Apenas o fato do filme acreditar nessa relação entre os dois é o suficiente para fazer com que o espectador faça o mesmo, e desista de assistir mais um besteirol com piadas envolvendo ursinhos de pelúcia falantes. Ted é tão ou mais real do que John, e depois que ele e John “crescem” (Mark Wahlberg) nunca deixam de honrar a promessa que fizeram quando crianças: que seriam companheiros inseparáveis.

O problema é que, apesar de John e Ted agora terem vozes mais grossas e John estar até namorando por quatro anos com a estonteante Lori (Mila Kunis) não faz com que ambos deixem suas manias de quando crianças, como fazer trocadilhos estúpidos, usar referências aos anos 80 e fazer piadas sobre peidos. No entanto, a proporção com que isso ocorre reflete a fase adulta, e agora a dupla de amigos, bebe, cheira e faz piadas envolvendo inúmeros palavrões (suavizadas por uma legenda mutiladora, o que provavelmente deve se repetir na versão dublada). Esse descomprometimento de John com a vida adulta faz com que Lori se canse deles, e a relação entra em um impasse: ou ela ou o urso.

A produção abraça os anos 80 e toda a nostalgia da época através de uma fotografia com cores mais pálidas e uma trilha sonora muito à vontade com o tema, buscando inspiração em obras como E.T. e Esqueceram de Mim. Sua direção de arte busca retratar o período sem exageros, mas aplica cuidados necessários para que percebamos se tratar de uma singela homenagem. Afinal de contas, o mundo de John reflete essa realidade, onde o centro é seu ursinho Ted. O saudosismo faz parte da experiência de convivermos com o ser de pelúcia falante, e o diretor Seth MacFarlane consegue perceber isso e não estragar tudo engarrafando a história no formato medíocre das comédias românticas que seguem uma fórmula.

Nesse sentido, a comédia politicamente incorreta é inteligente o suficiente para não cair na batidíssima gafe da auto-paródia, se mantendo na superfície com uma história tão sensível quanto cômica, e ainda conseguindo manter uma saudável dose de humor negro (e, sim, isso é possível). Seus personagens são cativantes, por parecerem reais, e a sensação final é de que deveríamos passar mais tempo com esses caras. Não importa que um deles seja um urso de 30 centímetros se ainda consegue ser divertido.

De Quem é a Cinta Liga?

September 29, 2012 in Home Video

¿De quién es el portaligas? Argentina, 2007. Direção: María Cecilia López, Fito Páez. Roteiro: Fito Páez. Elenco: Gonzalo Aloras, Leonora Balcarce e Cristina Banegas.

Pretensa paródia do cinema de Almodóvar cai no ridículo perante o caos.

Essa é uma comédia argentina co-dirigida por Fito Páez (Vidas Privadas) — que também assina o roteiro — e pela estreante María Cecilia López. Ambos estão sintonizados em um projeto que tenta de todas as formas chamar a atenção, não importando que para isso seja sacrificado o bom senso e, o que é pior, o humor de sua história.

Uma história, aliás, nada ruim. Protagonizado por um trio feminino que parece ter nascido de uma cópia mal formada de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, as vidas de Julieta (Julieta Cardinali), Leo (Leonora Balcarce) e sua psicanalista (Fabiana Cantilo) começam a se fundir no momento que Leo descobre estar sendo traída por Julieta, sua melhor amiga, com seu namorado, o cantor metido a fotógrafo Gonzalo (Gonzalo Aloras). As filmagens de Gonzalo servem de pano de fundo de uma história que, iniciando no presente, retorna ao passado através das fitas gravadas.

O que preocupa no filme é essa referência mal feita pelo Cinema. Uma direção invasiva que mistura colagens de Almodóvar com Tarantino com um enredo de Woody Allen. Quando entra em cena um risível Don Corleone já não duvidamos de mais nada. Em vez de engrandecer o filme, as referências nem são engraçadas como paródia, nem estão inseridas na história como algo que faça parte de fato da trama. É jogando essa trivia nas entrelinhas de um roteiro que vai se entortando cada vez mais. No final, uma sensação de caos permanente. Não há nada que junte os pedaços, nem mesmo a tal cinta liga do título.

Palhaços Assassinos do Espaço Sideral

September 22, 2012 in Home Video

Killer Klowns from Outer Space. EUA, 1988. Direção: Stephen Chiodo. Roteiro: Charles Chiodo, Edward Chiodo, Stephen Chiodo. Elenco: Grant Cramer, Suzanne Snyder e John Allen Nelson.

Pessoas com trauma com palhaços, cuidado: esse filme pode faz mal à sua saúde.

Os irmãos Chiodo — hoje praticamente desconhecidos mas responsáveis por efeitos em filmes insólitos como Um Duende em Nova York, Team America e A Hora das Criaturas — fizeram este trabalho mais em um formato laboratório de ideias bizarras do que algo que de fato pudesse conter um enredo. O igualmente bizarro é que o resultado não é tão mal assim, ou, como alguns preferem dizer, é tão ruim que acaba ficando bom.

Fica até difícil encontrar alguma cena de destaque que não revele as absurdas ideias do roteiro dos irmãos. A história toda começa quando uma estrela cadente cai em uma pequena cidadezinha. Na verdade o que “cai” é uma nave espacial no formato de circo que contém grandes palhaços com diversas armas de brinquedo que servem para transformar os seres humanos em gigantescos algodões-doces. Teoricamente o objetivo dos alienígenas de nariz vermelho é estocar uma quantidade grande desses humanos para mais tarde comê-los. Para isso invadem a cidade com um triciclo, tortas e um carro de palhaços (que, pra variar, está cheio deles).

Ignorando o fato que palhaços são, até onde se sabe, terrestres, o filme usa e abusa dos elementos desse universo, criando rimas de horror com linguas-de-sogra, figuras feitas de bexiga e pipocas. A criatividade toda foi dispensada na criação dessas piadas, além de um aprimorado trabalho de maquiagem que torna os palhaços engraçados e ao mesmo tempo assustadores. Note, por exemplo, o uso de dentes pontudos e desalinhados, o que acaba por estragar o lindo sorriso que esboçam para os humanos que encontram pelo caminho.