De Bico Calado

October 27, 2012 in Home Video

Keeping Mum. Reino Unido, 2005. Direção: Niall Johnson. Roteiro: Richard Russo, Niall Johnson. Elenco: Rowan Atkinson, Kristin Scott Thomas e Maggie Smith.

Uma comédia nos moldes britânicos com piadas envolvendo cadáveres.

O pastor de uma pequeníssima comunidade com cerca de 50 habitantes (Rowan Atkinson) possui como preocupações diárias uma palestra que precisa proferir no encontro de pastores. Enquanto isso, sua cansada esposa (Kristin Scott Thomas) começa a planejar uma fuga com seu amante professor de golfe (Patrick Swayze). A vinda da nova governanta (Maggie Smith), porém, pode mudar completamente o que o pastor e sua esposa tinham em mente. “De Bico Calado” é ágil como deve ser uma comédia com pouquíssimas e pontuais tiradas, e se dedica a fazer um rodízio entre esses poucos temas. É leve para um humos britânico, e esquecível logo depois de assistido.

E Se Vivêssemos Todos Juntos?

October 19, 2012 in Cinema

Et si on vivait tous ensemble?. França/Alemanha, 2011. Direção: Stéphane Robelin. Roteiro: Stéphane Robelin. Elenco: Guy Bedos, Daniel Brühl e Geraldine Chaplin.

Comédia francesa é leve, mas poderia ser um pouco menos.

“E se todos vivêssemos juntos” parte do princípio que se eu apresentar as características que definem cada um dos simpáticos velhinhos que protagonizam essa comédia poderia me livrar de qualquer compromisso narrativo e simplesmente criar situações engraçadas, livre das amarras de discutir uma questão importantíssima na Europa de hoje: a terceira idade se tornando uma maioria ativa e, se bobear, economicamente mais ativa.

O que não evita que o filme se torne uma experiência leve e agradável. O elenco formado por ícones como Geraldine Chaplin (Chaplin, Dr. Jivago) consegue arrancar risadas apenas aparecendo na tela, extravasando e exagerando seus caricatos personagens, expondo simultaneamente seu melhor e pior. Se não há na história aspirações melhores do que ser engraçadinho, ao menos temos um filme engraçadinho com charme.

Ted

October 3, 2012 in Cinema

Idem. EUA, 2012. Direção: Seth MacFarlane. Roteiro: Seth MacFarlane, Alec Sulkin, Wellesley Wild. Elenco: Mark Wahlberg, Mila Kunis e Seth MacFarlane.

Comédia politicamente incorreta com urso de pelúcia prova estar acima de besteiróis do gênero.

Quando assistimos à introdução que marca o início da amizade entre John, um garoto de 8 anos (Bretton Manley), e Ted, um ursinho de pelúcia que começa a falar a partir de um desejo que o garoto faz para uma estrela cadente, entendemos ser essa amizade o núcleo da história dirigida e escrita por Seth MacFarlane, do desenho politicamente incorreto Family Guy, e que aqui além de dirigir dubla o ursinho com sua voz. Apenas o fato do filme acreditar nessa relação entre os dois é o suficiente para fazer com que o espectador faça o mesmo, e desista de assistir mais um besteirol com piadas envolvendo ursinhos de pelúcia falantes. Ted é tão ou mais real do que John, e depois que ele e John “crescem” (Mark Wahlberg) nunca deixam de honrar a promessa que fizeram quando crianças: que seriam companheiros inseparáveis.

O problema é que, apesar de John e Ted agora terem vozes mais grossas e John estar até namorando por quatro anos com a estonteante Lori (Mila Kunis) não faz com que ambos deixem suas manias de quando crianças, como fazer trocadilhos estúpidos, usar referências aos anos 80 e fazer piadas sobre peidos. No entanto, a proporção com que isso ocorre reflete a fase adulta, e agora a dupla de amigos, bebe, cheira e faz piadas envolvendo inúmeros palavrões (suavizadas por uma legenda mutiladora, o que provavelmente deve se repetir na versão dublada). Esse descomprometimento de John com a vida adulta faz com que Lori se canse deles, e a relação entra em um impasse: ou ela ou o urso.

A produção abraça os anos 80 e toda a nostalgia da época através de uma fotografia com cores mais pálidas e uma trilha sonora muito à vontade com o tema, buscando inspiração em obras como E.T. e Esqueceram de Mim. Sua direção de arte busca retratar o período sem exageros, mas aplica cuidados necessários para que percebamos se tratar de uma singela homenagem. Afinal de contas, o mundo de John reflete essa realidade, onde o centro é seu ursinho Ted. O saudosismo faz parte da experiência de convivermos com o ser de pelúcia falante, e o diretor Seth MacFarlane consegue perceber isso e não estragar tudo engarrafando a história no formato medíocre das comédias românticas que seguem uma fórmula.

Nesse sentido, a comédia politicamente incorreta é inteligente o suficiente para não cair na batidíssima gafe da auto-paródia, se mantendo na superfície com uma história tão sensível quanto cômica, e ainda conseguindo manter uma saudável dose de humor negro (e, sim, isso é possível). Seus personagens são cativantes, por parecerem reais, e a sensação final é de que deveríamos passar mais tempo com esses caras. Não importa que um deles seja um urso de 30 centímetros se ainda consegue ser divertido.

De Quem é a Cinta Liga?

September 29, 2012 in Home Video

¿De quién es el portaligas? Argentina, 2007. Direção: María Cecilia López, Fito Páez. Roteiro: Fito Páez. Elenco: Gonzalo Aloras, Leonora Balcarce e Cristina Banegas.

Pretensa paródia do cinema de Almodóvar cai no ridículo perante o caos.

Essa é uma comédia argentina co-dirigida por Fito Páez (Vidas Privadas) — que também assina o roteiro — e pela estreante María Cecilia López. Ambos estão sintonizados em um projeto que tenta de todas as formas chamar a atenção, não importando que para isso seja sacrificado o bom senso e, o que é pior, o humor de sua história.

Uma história, aliás, nada ruim. Protagonizado por um trio feminino que parece ter nascido de uma cópia mal formada de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, as vidas de Julieta (Julieta Cardinali), Leo (Leonora Balcarce) e sua psicanalista (Fabiana Cantilo) começam a se fundir no momento que Leo descobre estar sendo traída por Julieta, sua melhor amiga, com seu namorado, o cantor metido a fotógrafo Gonzalo (Gonzalo Aloras). As filmagens de Gonzalo servem de pano de fundo de uma história que, iniciando no presente, retorna ao passado através das fitas gravadas.

O que preocupa no filme é essa referência mal feita pelo Cinema. Uma direção invasiva que mistura colagens de Almodóvar com Tarantino com um enredo de Woody Allen. Quando entra em cena um risível Don Corleone já não duvidamos de mais nada. Em vez de engrandecer o filme, as referências nem são engraçadas como paródia, nem estão inseridas na história como algo que faça parte de fato da trama. É jogando essa trivia nas entrelinhas de um roteiro que vai se entortando cada vez mais. No final, uma sensação de caos permanente. Não há nada que junte os pedaços, nem mesmo a tal cinta liga do título.

Palhaços Assassinos do Espaço Sideral

September 22, 2012 in Home Video

Killer Klowns from Outer Space. EUA, 1988. Direção: Stephen Chiodo. Roteiro: Charles Chiodo, Edward Chiodo, Stephen Chiodo. Elenco: Grant Cramer, Suzanne Snyder e John Allen Nelson.

Pessoas com trauma com palhaços, cuidado: esse filme pode faz mal à sua saúde.

Os irmãos Chiodo — hoje praticamente desconhecidos mas responsáveis por efeitos em filmes insólitos como Um Duende em Nova York, Team America e A Hora das Criaturas — fizeram este trabalho mais em um formato laboratório de ideias bizarras do que algo que de fato pudesse conter um enredo. O igualmente bizarro é que o resultado não é tão mal assim, ou, como alguns preferem dizer, é tão ruim que acaba ficando bom.

Fica até difícil encontrar alguma cena de destaque que não revele as absurdas ideias do roteiro dos irmãos. A história toda começa quando uma estrela cadente cai em uma pequena cidadezinha. Na verdade o que “cai” é uma nave espacial no formato de circo que contém grandes palhaços com diversas armas de brinquedo que servem para transformar os seres humanos em gigantescos algodões-doces. Teoricamente o objetivo dos alienígenas de nariz vermelho é estocar uma quantidade grande desses humanos para mais tarde comê-los. Para isso invadem a cidade com um triciclo, tortas e um carro de palhaços (que, pra variar, está cheio deles).

Ignorando o fato que palhaços são, até onde se sabe, terrestres, o filme usa e abusa dos elementos desse universo, criando rimas de horror com linguas-de-sogra, figuras feitas de bexiga e pipocas. A criatividade toda foi dispensada na criação dessas piadas, além de um aprimorado trabalho de maquiagem que torna os palhaços engraçados e ao mesmo tempo assustadores. Note, por exemplo, o uso de dentes pontudos e desalinhados, o que acaba por estragar o lindo sorriso que esboçam para os humanos que encontram pelo caminho.

A Família Addams

September 17, 2012 in Home Video

The Addams Family. EUA, 1991. Direção: Barry Sonnenfeld. Roteiro: Caroline Thompson, Larry Wilson, Charles Addams (personagens). Elenco: Anjelica Huston, Raul Julia, Christopher Lloyd, Dan Hedaya, Elizabeth Wilson, Judith Malina, Carel Struycken, Dana Ivey, Paul Benedict, Christina Ricci, Jimmy Workman. Direção de Arte: Margie Stone McShirley.

Recriação da tradicional série mantem o que há de melhor: o humor negro.

Com uma Direção de Arte e um elenco afinadíssimo que recria as mesmas piadas e o clima humor negro do antigo seriado da década de 60, A Família Addams possui em seu núcleo Mortiça Addams (Angelica Huston), uma matriarca sedutora que consegue convencer acima de tudo pelos seus esforços de manter a hegemonia da secular família. Que é, aliás, uma família das menos convencionais possíveis: os dois filhos vivem brincando de um torturar o outro e o pai diverte-se com brincadeiras de sedução e luta esgrima (usando espadas reais) com seu contador.

O que existe de mais fascinante no projeto de Barry Sonnenfeld além da recriação da série é a capacidade de estabelecer um clima estranho para que as piadas funcionem (na medida do possível) justamente porque entendemos seus personagens. Dessa forma, é perfeitamente aceitável e hilário percebermos a cara de desgosto de Mortiça quando percebe que os modelos desenhados pelos alunos da escola de sua filha são pessoas desprezíveis para ela e sua família mas amados por todos os outros, como líderes carismáticos.

Como Enlouquecer seu Chefe

September 14, 2012 in Home Video

Office Space. EUA, 1999. Direção e Roteiro: Mike Judge. Elenco: Ron Livingston, Jennifer Aniston, David Herman, Ajay Naidu, Diedrich Bader, Stephen Root, Gary Cole, Richard Riehle.

O escritório visto como uma selva.

Criado como uma espécie de experiência acidental ao The Office — seriado que virou sucesso na T.V. britânica e posteriormente na norte-americana —, o filme de Mike Judge, acostumado com produções para a televisão, como Beavis e Butt-Head, estabelece os clichês de uma fauna cada vez mais crescente hoje em dia: o dos cubículos Dibertdianos e sua indissociável gerência incompetente.

O curioso aqui é a maneira inventiva que Judge utiliza para que seus personagens unidimensionais interajam em uma espécie de ecossistema da ignorância. Os únicos que conseguem enxergar o todo somos nós, espectadores. E os únicos que conseguem elencar Peter Gibbons (Ron Livingston) como o herói que nasce debaixo da pilha de relatórios inúteis ao fazer o que todos que trabalham nesse meio quiseram um dia, em seus sonhos, de fato fazer: nada.

Beijos e Tiros

July 21, 2012 in Home Video

Kiss Kiss Bang Bang. EUA, 2005. Direção e Roteiro: Shane Black. Montagem: Jim Page. Elenco: Robert Downey Jr., Val Kilmer e Michelle Monaghan.

Policial bem-humorado e metalinguístico é ponto acima da média.

Kiss Kiss Bang Bang trabalha em muitas vertentes. Soando fictício a partir da narração onisciente do ex-ladrão e aspirante a ator Harry Lockhart (Robert Downey Jr.), que é ao mesmo tempo o protagonista, ainda consegue uma boa dose de realismo através dos acontecimentos absurdos que se somam durante as investigações de um crime do qual é testemunha enquanto estuda seu papel em um filme com a ajuda do detetive real Gay Perry (Val Kilmer). Somado a isso, Harry volta a encontrar sua amiga e paixão velada de infância Harmony Faith Lane (Michelle Monaghan). Tudo isso, acredite ou não, consegue o seu lugar na história com uma direção e montagem competentes o suficiente para não tornar tudo mais confuso do que já é.

Dito isto, é agradável acompanhar o exercício metalinguístico do longa, pois ao mesmo tempo que os períodos de análise do narrador sirvam como ponto de reflexão sobre a trama que estamos acompanhando e mesmo sobre a própria forma com que ela está sendo exposta, sua característica intrusiva acaba por formar uma nova dimensão, como na brincadeira de parar a cena no meio da troca de quadros de uma suposta película sendo exibida. No entanto, mesmo com essas paradas é possível se surpreender e muito com as reviravoltas do roteiro, que não se intimida por soar absurdo em diversos pontos, mas, pelo contrário, se diverte em conseguir tornar verossímil até uma tentativa de roleta russsa que dá errado.

Como a história gira essencialmente em torno dos três personagens que de uma forma ou outra continuam investigando o crime, o fato dos três serem interpretados de maneira enérgica e carismática pelo trio Downey Jr., Kilmer e Monaghan consegue tirar fôlego até mesmo quando o número de saltos e reviravoltar atinge um nível acima da nossa capacidade de atenção. Além disso, há surpresas que são apresentadas de sopetão, mas que se encaixam de maneira tão orgânica que parecem fazer parte da trama mesmo sem fazer. Essa dualidade de realismo e ficção consegue se equilibrar tanto pelo que pensamos durante as investigações quanto pelos acontecimentos, que entram em um crescente que, se não fosse por um narrador, soariam absurdas por natureza.

Meus Vizinhos São um Terror

July 9, 2012 in Home Video

The ‘Burbs. EUA, 1989. Direção: Joe Dante. Roteiro: Dana Olsen. Elenco: Tom Hanks, Bruce Dern e Carrie Fisher.

Comédia de Tom Hanks sobrevive na categoria “bizarrices da época”.

Especializado em comédias do absurdo, como Um Dia a Casa Cai e Quero Ser Grande, Tom Hanks aqui vive a paranoia e a maldição que acomete todo americano que tenta mudar algum hábito nativo de sua cultura, como bisbilhotar a vida dos vizinhos. Nesse sentido, faz um par curioso com Tim Allen em Um Natal Muito, Muito Louco. Contudo, a maluquice é ainda maior do que as comédias natalinas de Allen, pois estamos nos anos 80 e tudo, literalmente, pode acontecer.

Para Roma Com Amor

July 2, 2012 in Cinema

To Rome with Love. EUA/Itália/Espanha, 2012. Direção e Roteiro: Woody Allen. Elenco: Flavio Parenti, Roberto Benigni, Alison Pill, Alessandro Tiberi, Judy Davis, Alessandra Mastronardi, Alec Baldwin, Carol Alt, David Pasquesi, Antonio Albanese, Lynn Swanson, Fabio Armiliato, Penélope Cruz, Jesse Eisenberg, Woody Allen, Greta Gerwig, Simona Caparrini, Ellen Page, Vinicio Marchioni.

Comédia de absurdos revela que Allen, felizmente, está mais vivo que nunca.

Quais diretores você conhece que conseguem fazer o velho chichê da “pessoa engasgando com o copo na mão ao ver cena inusitada” funcionar novamente? Eu conheço um: Woody Allen.

Cada vez mais se reinventando em seus últimos filmes, apesar de incluir quase sempre seus temas favoritos, como a angústia da terceira idade e adultérios, Allen investe aqui em uma comédia tradicional dividida em diferentes começos de histórias que, diferente do usual hoje em dia, praticamente não se encontram: os pais que visitam a filha para conhecer a família de seu namorado, o jovem e ingênuo casal italiano em busca de uma vida melhor na capital, o batidíssimo triângulo amoroso encabeçado por uma femme fatale e, como não poderia deixar de ser, a vida típica e pacata de um cidadão italiano.

Como eu disse, são apenas começos de histórias. O que acontece a partir daí, embora não seja lá muito criativo, diverte e entretem ao mesmo tempo em que aborda temas contemporâneos: a fama como um fim em si mesma, a pureza desmascarada dadas as condições propícias, o conhecimento raso de aparências e a ópera como algo menos absurdo do que a própria vida.

Vivendo em um mundo onde os filmes fazem graça de si mesmos e as animações reciclam piadas ad infinitum, Allen consegue mais uma vez ressucitar o humor inteligente, que não apenas gera o riso, mas que embute nele uma crítica aguçada da sociedade de nossa época. O fato dessa crítica estar escancarada em diálogos e imagens apenas faz aumentar a comicidade de seus personagens, que são unidimensionais, mas que nem por isso impedem que nos identifiquemos com cada situação.

Suportado por um elenco não apenas de peso, mas que fazem a combinação perfeita para suas caricaturas, a única decepção é vermos apenas uma fração de cada história em um determinado momento. Dessa forma é um sentimento cíclico a decepção pela troca de personagens e a empolgação pelo enriquecimento da história atual.

Felizmente, Allen consegue fechar com chave de ouro cada uma das situações, deixando apenas uma situação de quero mais. Não me cansaria de assistir por duas horas novamente acontecimentos nA Cidade Eterna.