O Lado Bom da Vida

February 6, 2013 in Cinema

Silver Linings Playbook. EUA, 2012. Director: David O. Russell. Writers: David O. Russell (screenplay), Matthew Quick (novel). Stars: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro.

JENNIFER LAWRENCE and BRADLEY COOPER star in SILVER LININGS PLAYBOOK

Comédia-romântica abraça esquisitices dos personagens sem ressalvas.

A partir do primeiro encontro entre Tiffany (Jennifer Lawrence, Inverno da Alma) e Patrick (Bradley Cooper, Se Beber Não Case), mais precisamente no momento em que ela esbofeteia a sua cara, sabemos de imediato que vale a pena seguir essas duas vidas “para ver no que dá”.

Não que sejam as únicas pessoas que mereçam atenção. De uma maneira coesa e ao mesmo tempo torturante, o diretor e roteirista David O. Russell (O Vencedor) — baseado no livro de Matthew Quick — nos deixa conhecer um pouco dos outros fascinantes participantes daquela experiência de vida. Uso a palavra experiência pois Patrick acabou de sair do hospital psiquiátrico depois de um tratamento após quase matar o amante de sua mulher e Tiffany está tentando superar a morte do marido e sua recaída moral através do sexo banal. Pat, como costuma ser chamado, possui bipolaridade, e a divisão do seu nome talvez sugira sua tentativa de sempre tentar enxergar o lado bom, método empregado por ele para tentar se desvencilhar do seu lado agressivo.

O pai de Patrick, Mr. Pat (Robert De Niro, tocante sem soar piegas), após perder o emprego se tornou viciado em jogo de apostas e sofre de todo o tipo de superstição, muitas delas envolvendo a presença do seu filho, o que o transforma em um reflexo de si próprio e até uma maldição para Pat. Seu cunhado sofre a pressão do dia-a-dia e só consegue desabafar com o amigo por este ser imune a franquezas. Na verdade, a maior parte das franquezas do filme saem de sua boca. O método de Patrick de nunca ver o lado negativo das coisas no fundo é bem difícil de ser aplicado em sua vida em família, incluindo o seu bem-sucedido irmão (que parece servir para Pat como modelo idealizado do que gostaria de ser). David O. Russel faz uma brincadeira formando um círculo com seus amigos e familiares em sua casa que lembra o mesmo cículo de pacientes com quem Pat costumava se reunir; os problemas das pessoas “normais” começam a não parecer muito diferentes das pessoas em tratamento psiquiátrico.

Já Tiffany, assim como Pat, é um poço de ansiedade, algo que sutilmente ela consegue controlar quando está próximo dele, um desajustado social como ela. Sua tentativa de ignorar a morte do marido a faz usar o sexo casual como válvula de escape. Mais tarde entendemos os seus motivos. O. Russel não tem pressa de expor os seus personagens, pois entende que a melhor interação entre ambos só ocorre se estes se derem essa liberdade aos poucos. Também não utiliza apenas diálogos. A morada de Tiffany é separada da casa dos seus pais pelo quintal, o que facilita seus costumes sexuais mas que também é uma bela metáfora do alienamento de sua família (o que também explica sua ausência no filme), incapaz de suportar a não-adequação da filha aos costumes sociais.

O saco de lixo que Patrick usa para correr e o preto usado por Tiffany harmoniosamente caminham juntos — ou melhor, correm juntos, outra simbologia da ansiedade — e isso é estranhamente apropriado para eles no dia (e na noite) de Halloween (o primeiro encontro). Ainda que o drama de ambos seja encarado de maneira leve, o que poderia soar perigosamente desonesto, a entrega dos atores sempre convence. O ritmo é acelerado, como a mente de ambos e como todos que têm ansiedade. Isso ajuda a não pensarmos demais sobre o que está ocorrendo, mas nem isso se torna um problema quando ambos começam a dançar, mas torna óbvio que essa experiência para os dois é uma terapia social, além de protagonizarem momentos silenciosos e ao mesmo tempo tocantes. O uso da trilha não é invasiva, e sabe se calar quando a reflexão é necessária. Até os diálogos sabem se calar no tempo certo (como na breve conversa de Pat com sua mulher, o que de forma deturpada lembra o final de Encontros e Desencontros).

Por fim, se o uso de uma aposta final que una todos os finais soe a princípio forçado essa é a metáfora mais poderosa de todas, quando a estratégia de Patrick de catalisar as energias negativas em uma fagulha de esperança é posta à prova. A exposição de ambos com o uso da dança encontra uma belíssima rima com Pequena Miss Sunshine.

Dito isto, O Lado Bom da Vida não se esforça como uma produção Indie em tornar os seus personagens queridinhos por terem uma plantação de produtos orgânicos e namorarem uma negra (vide Minhas Mães e Meu Pai). Os personagens já são fascinantes apenas por existirem, e o filme apenas nos faz conhecê-los de corpo e alma em duas horas. E o faz muito bem.

O Filho da Noiva

January 20, 2013 in Home Video

El hijo de la novia. Argentina/Espanha, 2001. Director: Juan José Campanella. Writers: Juan José Campanella, Fernando Castets. Stars: Ricardo Darín, Héctor Alterio and Norma Aleandro.

O Filho da Noiva

Primeiro grande sucesso de Campanella é contraditório e ao mesmo tempo atual.

O Filho da Noiva se esforça para soar tão engraçado quanto dramático e impede que ambos os lados evoluam. Ancorando sua experiência em um personagem que vive para o trabalho que construiu em torno do restaurante que herdou dos pais (um Ricardo Darín ainda jovem) o objetivo do roteiro do diretor Juan José Campanella (O Segredo dos Seus Olhos) e de Fernando Castets (Clube da Lua, Heleno) é mostrar a curva de mudança desse personagem depois de sofrer um ataque cardíaco.

O problema talvez seja essa mudança de tom repentina. Quando esperamos algo tocante, surge uma piada sem ser anunciada. O amigo de infância dele é um chato de galocha que faz o papel do bom moço que agrada a todos (sem entendermos muito bem como isso espontaneamente ocorre). Sua namorada e sua filha são igualmente infantis, e o que mais irrita em tudo isso é que, mesmo que o personagem de Ricado Darín tenha seus motivos, consegue ser o mais irritante de todos por não tomar suas próprias decisões, mas ser levado por essa torrente de opiniões.

Quando de repente surge a figura de sua mãe e seu pai — que decide se casar com ela depois de ter evitado a cerimônia religiosa por 44 anos — surge o problema de sua mulher estar com Alzheimer, e sua decisão de dizer sim é tão forçada quando a do próprio Darín em dizer sim para sua nova vida. A parte mais interessante dessa história é o paralelo criado entre os dois personagens, ambos impedidos de seguir suas próprias vidas pelas amarras de seu destino.

Mesmo com esse enredo caótico, Campanella consegue extrair essa lógica para nos entregar uma visão menos que perfeita de uma comédia romântica argentina, mas mais que apropriada para um personagem tão contraditório quanto qualquer ser humano que vive para o trabalho.

Quatro Amigas e um Casamento

December 17, 2012 in Cinema

Bachelorette. EUA, 2012. Director: Leslye Headland. Writer: Leslye Headland (screenplay). Stars: Kirsten Dunst, Isla Fisher and Lizzy Caplan.

Comédia romântica segue tendência de mulheres no comando.

Parece que a “moda” iniciada por Missão Madrinha de Casamento (Paul Feig, 2011) está gerando seus primeiros frutos. Esse “Quatro Amigas…” possui o que faltava nas comédias românticas e que pode reinventar o gênero nos próximos anos: mulheres independentes e protagonistas.

Nesse caso o filme gira em torno de quatro amigas: Regan (Kirsten Dunst), Katie (Isla Fisher), Gena (Lizzy Caplan) e Becky (Rebel Wilson), a única que não vive para sua aparência, está com uns quilinhos a mais e também a única que arrumou um pretendente de primeira linha. Para casar. Agora.

Essa inversão de expectativas também é muito bem-vinda, principalmente quando Regan começa a planejar o casamento e junto com Karie e Gena começam e terminam revelando todos os podres que você não esperaria de mulheres “pefeitinhas”. No entanto, a diretora e roteirista Leslye Headland parece não saber usar corretamente todo o potencial de atuação das três meninas e começa a girar a história em círculos. Divertidos, mas círculos.

O resultado é que, mesmo que “Quatro Amigas…” divirta a maior parte do tempo, a narrativa quase nunca consegue encaixar o destino de suas personagens em torno de sua história, o que torna o filme esquecível assim que saímos da sala.

Ruby Sparks: A Namorada Perfeita

October 16, 2012 in Cinema

Ruby Sparks. EUA, 2012. Direção: Jonathan Dayton, Valerie Faris. Roteiro: Zoe Kazan. Elenco: Paul Dano, Zoe Kazan e Annette Bening.

Depois de Pequena Miss Sunshine, comédia romântica original e fresca.

Orquestrada pela dupla de diretores Jonathan Dayton e Valierie Faris (Pequena Miss Sunshine) e escrita pela atriz Zoe Kazan, que interpreta a Ruby Sparks do título, a história gira em torno de Calvin (Paul Dano), um jovem escritor que nem terminou o colégio e vendeu um livro de sucesso. Considerado por muitos um gênio da literatura (uma palavra que Calvin abomina), todos aguardam pelo seu próximo trabalho.

O problema é que Calvin não consegue mais escrever. Faz terapia para conseguir destravar sua inspiração, quando repentinamente começa a sonhar com uma garota (Zoe Kazan), algo normal na vida de alguém que está sozinho, já passou por uma decepção amorosa e não consegue encontrar alguém que preencha seu vazio. Ele escreve, portanto, em um ritmo cadenciado por suas noites de sonhos e páginas batidas em sua clássica máquina de escrever, um resquício, talvez, de um jovem escritor sem condições de ter um laptop ou um sinal de alguém que se considera único.

As coisas começam a fugir do lugar-comum quando misteriosamente Ruby Sparks, a menina dos sonhos e páginas de Calvin, aparece na vida real do escritor. Ele não é bobo, e imagina, como toda pessoa normal, estar alucinando. Até que descobre que todos à volta conseguem enxergá-la. A realidade mostrada pelos diretores parece difícil de assimilar, mais difícil do que outro filme que lhe faz eco, Mais Estranho que a Ficção, que abraça a estranheza da relação autor/personagem de maneira muito mais fluida. Aqui, a relação é mais de autor/namorada, o que confere um grau maior de intimidade com a psique de Calvin, ou seja, todos os trejeitos de Ruby refletem tão somente os desejos infantis do rapaz em torno da garota perfeita.

O que ocorre em seguida possui lógica mas perde em espírito. Se por um lado a história é divertida e tem um potencial fabuloso, por outro dependemos da imaginação pueril de um escritor sem experiência com mulheres (como seu próprio irmão enfatiza) para avançarmos nessa “relação” baseada em controle. E controle, não importa a relação, nunca é algo bom. O resultado, conforme acompanhamos a vida a dois do casal, é naturalmente imprevisível e explosivo, nunca constituindo algo completo e realizador para ambos (e a maneira como Calvin ordena que seu cachorro, Scotty, faça cocô durante seus passeios matinais é a rima semântica para entendermos isso).

De qualquer forma, “Ruby Sparks” agrada principalmente por não cair nos maneirismos do gênero, e por não transformá-lo em uma comédia barata. Existe a parte cômica, mas conforme o filme avança, vemos o lado cruel de seu protagonista, e a coisa deixa de ser engraçada para ganhar um peso dramático inesperado em uma história inicialmente tão leve. Apenas isso garante uma experiência única na telona.

Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada

July 9, 2012 in Home Video

Dan in Real Life. EUA, 2007. Direção: Peter Hedges. Roteiro: Pierce Gardner, Peter Hedges. Elenco: Steve Carell, Juliette Binoche e Dane Cook.

Comédia pé-no-chão estrela Carell e Binoche.

Nem só de comédias estúpidas baseadas em enquete vive Steve Carell. Aqui ele interpreta um de três personagens envolvidos em uma situação cômica e trágica ao mesmo tempo. Isso por si só já consegue estimular seu desenvolvimento. Porém, não fosse o roteiro pé-no-chão desenvolvido pela dupla Pierce Gardner e Peter Hedges não seria possível termos empatia por esses personagens, e ao mesmo tempo darmos boas e saudáveis risadas com seus conflitos.

Qualquer Gato Vira-Lata

May 10, 2012 in Home Video

Idem. Brasil, 2011. Direção: Tomas Portella, Daniela De Carlo. Roteiro: Daniela De Carlo, Juca de Oliveira, Claudia Levay (adaptação), Júlia Spadaccini (adaptação). Elenco: Cléo Pires, Dudu Azevedo, Malvino Salvador, Rita Guedes e Álamo Facó.

Comédia romântica machista e incoerente tem como protagonista uma não-atriz.

A influência norte-americana e suas comédias românticas de caráter duvidoso trouxeram uma produção com elenco brasileiro que não é apenas covarde em sua premissa, mas retrógrada e oportunista. Dirigido por Tomas Portella e Daniela de Carlo, ambos já envolvidos em produções hollywoodianas, o filme gira em torno do roteiro de uma peça de teatro (muito ruim, por sinal) em que a jovem e fisicamente atraente Tati (Cléo Pires) briga com seu namorado Marcelo (Dudu Azevedo) em seu aniversário por conta de suas aventuras fora do relacionamento; ao tentar procurar uma solução para seu relacionamento descobre através das teorias de um professor de biologia, Conrado (Malvino Salvador), que talvez estivesse usando a abordagem errada para seduzir homens.

Tendo como premissa a ideia retrógrada e extremamente machista de que as mulheres não podem ir à caça de seus partidos, mas sim seduzirem seus homens de forma velada aguardando por uma iniciativa destes, Qualquer Gato Vira-Lata já começa, nos seus primeiros 15 minutos, a ser insuportável apenas pelas ideias que defende. Ideias essas colocadas na cabeça do tal professor de biologia, que apesar de ser fã da teoria da Seleção Natural (possui um cachorro com o nome de Darwin) reage de maneira extremamente contraditória ao constatar que não só os humanos, mas o animais devem sempre se comportar da mesma maneira pelos milhões de anos de sua existência como espécie, ignorando, por exemplo, que 15 milhões de anos atrás não existiam quase nenhuma espécie viva hoje em dia, ou, ainda pior, que a consciência e raciocínio humanos, que criaram a moral e a filosofia, por exemplo, não conseguissem nos levar por caminhos diferentes do que reza nosso código genético.

Pior do que isso apenas a futilidade de Tati, que não conseguindo se livrar da paixão que sente por Marcelo, tenta se moldar de acordo com as teorias de Conrado. Ou seja, ainda que ignorássemos as ideias por trás da história e nos focássemos no drama vivido pela protagonista, isso seria impossível, pois ela é inatingível, atrás da inexistente e/ou inexpressiva interpretação de Cléo Pires, que se resume em fazer os mesmos sorrisos e caras de choro (ajudada pelos seus belos lábios) durante o filme inteiro. Vendo Pires como atriz é acabar dando mais méritos de interpretação para sua assemelhada Juliana Paes, por menos talentosa que fosse. Além do mais, nunca sabemos muito sobre Tati, além de que ela é capaz de mudar toda sua forma de ser e agir apenas para ficar do lado de seu macho-alfa, um rapaz deselegante e arrogante cujas únicas virtudes provavelmente foram adquiridas em sessões intermináveis de academia e Jiu-Jitsu.

Não contente com uma fraca trama central, o filme ainda nos brinca com fraquíssimas piadas recicladas de programas de humor televisivos (ou a internet) muito mal sincronizadas nas bocas de personagens secundários que poderiam tranquilamente deixar de existir em um enxugamento do roteiro, já que na maioria das cenas eles se limitam a fazer parte da decoração do cenário e criar contratextos para que os protagonistas não falem sozinhos e sejam tomados por loucos.

Todos esses tropeços fazem com que fique fácil ignorar a amadora fotografia, que perde tantas vezes o foco que parece ter sido mal-feita de propósito para dar um ar mais “artístico” (assim como a “trama”), fazendo rima com a péssima qualidade da mixagem de som, dado que em muitos momentos, principalmente em ambientes barulhentos, as vozes dos atores são quase que totalmente abafados, restando a nós, espectadores, tentarmos adivinhar as falas pelo contexto. Somando-se a isso temos uma equivocada Direção de Arte que planejou a casa de Tati, por exemplo, com um branco e uma largura de quadro que é incompatível com sua mente difusa e minúscula.

O fato é que, mesmo que o ritmo da história seja agradável apesar de todos os poréns, não há nada que nos leve a ser atraídos pelos personas de Tati e Marcelo, que são fúteis e antipáticos (ainda que seus corpos digam o contrário). Nesse sentido, além da trajetória de suas vidas não nos levarem a lugar algum, seus destinos pouco importam, desde que a projeção acabe logo.

O que, felizmente, é um dos poucos acertos do filme.

Românticos Anônimos

January 4, 2012 in Cinema

Les émotifs anonymes. França/Bélgica, 2010. Direção: Jean-Pierre Améris. Roteiro: Jean-Pierre Améris, Philippe Blasband. Elenco: Benoît Poelvoorde (Jean-René Van Den Hugde), Isabelle Carré (Angélique Delange).

O encantador romance entre os acanhados compulsivos.

Como bom tímido que fui (sou?) posso com autoridade dizer que Românticos Anônimos ao mesmo tempo que permite nos identificarmos com o casal protagonizado por dois tímidos irremediáveis também nos permite identificar as diferenças peculiares de cada um, evitando assim estereotipar mas manter-se engraçado e terno.

O problema mesmo é a falta de ambição em contar a história de Angélique Delange (Isabelle Carré, bela) e Jean-René Van Den Hudge (Benoît Poevoorde, angustiante em alguns momentos). Assim, não conhecemos muito o que levou ambos a se tornarem daquele jeito, tendo que contentar-nos com vagas lembranças do pai de Jean-René e uma cena pseudo-reveladora totalmente descartável entre Angélique e sua mãe. Mesmo assim, a dedicação dos atores e a beleza da direção de arte/fotografia, que aproveitam a falta de luz para representar nos cenários esse tom acanhado, mas que ao mesmo tempo tem um tom poético (ou romântico), faz com que a experiência de acompanhar a vida de ambos seja não necessariamente fascinante, mas cativante pelas situações que ambos têm que enfrentar.

Porém, e mais uma vez voltando ao roteiro, as cartas são jogadas de maneira quase gratuita, sendo que nos primeiros 15 minutos de filme já é possível traçar quase todo o trajeto que ambos irão seguir durante o resto da história, faltando apenas acompanhá-los. Embora ambos tenham visíveis problemas de relacionamento, mesmo assim a sensação geral é que tudo acaba se acertando e que não existe um mínimo conflito que nos dê a sensação de incerteza, como acontece todo o tempo, por exemplo, em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

Bonequinha de Luxo

November 27, 2011 in Home Video

Breakfast at Tiffany’s. EUA, 1961. Direção: Blake Edwards. Roteiro: Truman Capote (romance), George Axelrod (roteiro). Elenco: Audrey Hepburn (Holly Golightly), George Peppard (Paul Varjak), Patricia Neal (2-E), Buddy Ebsen (Doc Golightly).

Curiosamente esse filme ficou conhecido como um clássico, ainda que tenha traços de um verdadeiro cult, tanto pela sua excentricidade quanto pela direção inusitada de Blake Edwards (A Pantera Cor de Rosa), que ilustra a vida de Holly Golightly de uma maneira quase surreal.

Fonte: www.cinemaemcena.com.br

Em Bonequinha de Luxo, no original “Café-da-manhã na Tiffany’s”, referenciando a joalheria que ela gostava de ir para se sentir melhor, o fato é que a protagonista hoje seria vista como uma garota de programa no melhor dos casos, mas a leveza da direção e dos diálogos transformam a história em uma comédia romântica leve (mais comédia) com alguns detalhes cafonas (como o brasileiro estereotipado e o final sentimental tantas vezes copiado hoje em dia no subgênero).

Fonte: www.cinemaemcena.com.br

Escrito por George Axelrod (O Pecado Mora ao Lado, Sob o Domínio do Mal) a partir do livro de Truman Capote (A Sangue Frio, Os Inocentes) o roteiro flui facilmente, até por conta da maneira inventiva de contar a história, usando a rotina de Holly e sua interação com seu novo vizinho, o escritor Paul Varjak (George Peppard, do Esquadrão Classe A!).

Talvez o principal atrativo do filme seja Audrey Hepburn, que encarna Holly Golightly (mas que nome deslumbroso) sem o menor pudor, o que enriquece em muito a história. Existem cenas célebres do Cinema também no filme, como quando ela canta em frente à janela de seu apartamento. Particularmente, gostei mais da visita dos dois à Tiffany’s, quando fazem um pedido inusitado a um dos funcionários.

Fonte: www.cinemaemcena.com.br

Apesar de venerado, fica óbvio que possui várias partes datadas, mas felizmente isso não atrapalha o desenvolvimento central da história. Dessa forma, vale a pena uma revisita de vez em quando.

Qual Seu Número?

October 17, 2011 in Cinema

What’s Your Number? EUA, 2011. Direção: Mark Mylod. Roteiro: Gabrielle Allan, Jennifer Crittenden. Elenco: Anna Faris (Ally Darling), Chris Evans (Colin Shea), Ari Graynor (Daisy Darling), Blythe Danner (Ava Darling), Ed Begley Jr. (Mr. Darling), Oliver Jackson-Cohen (Eddie Vogel), Heather Burns (Eileen), Eliza Coupe (Sheila), Kate Simses (Katie), Tika Sumpter (Jamie), Joel McHale (Roger the Boss), Jacquelyn Doucette (Sheila’s Mom), Chris Pratt (Disgusting Donald), Denise Vasi (Cara), Sondra James (Plant Lady).

Aparentemente não há limites para a “criatividade” de Hollywood para comédias românticas. Quem diria que a Cindy (Anna Faris), da franquia Todo Mundo em Pânico, seria par romântico com o Capitão América (Chris Evans)? Um desafio interessante para ambos, visto que seus respectivos currículos de “menina fácil (e alvo de socos) em comédia-paródia” e “super-herói simpático” são ligeiramente diferentes nesse novo longa de Mark Mylod (Quem é Morto Sempre Aparece).

Fonte: collider.com


A história gira em torno da fascinação feminina pelas pesquisas de revistas femininas (nesse caso, a Marie Claire). Ally (Faris), durante os preparativos para o casamento de sua irmão Daisy (Graynor), percebe que o número de seus parceiros sexuais está ligeiramente acima da média nacional (o dobro) através de uma pesquisa da citada revista, e, de acordo com a mesma reportagem, mulheres que passam dos 20 parceiros acabam nunca se casando. Por coincidência, falta apenas um parceiro para que ela preencha os 20 redondos, e fatidicamente ela acaba preenchendo “a vaga” com quem não desejaria se casar. Desiludida, tem a “brilhante” ideia de reciclar seus ex-parceiros para conseguir não fugir às estatística da reportagem da revista feminina e evitar a maldição de ficar pra titia.

Fonte: collider.com

 

Essa proposta inicial (!?) é o que precisamos para dar início à caça de seus ex-namorados. Com potencial para ser divertido, soa bobo na maior parte das piadas, ainda mais quando percebemos cedo que a história já tem final definido, como quase sempre em comédias do gênero, mas que aqui infelizmente ainda nem a reviravolta gera o mínimo de tensão nos personagens.

Chris Evans, por sua vez, demonstra um apreço maior na simpatia de seu personagem, e é inevitável que ele ganhe carisma ao longo da trama, e esse inevitável é tanto por mérito de Evans quanto pela antipatia de Anna Faris, que parece mais determinada à comédia do que qualquer aspiração romântica que o filme possa ter.

Consciente da espécie de “road-movie metafórico” produzido, o diretor tenta escolher transições de planos que acabam chamando mais atenção para si mesmo que para o que está ocorrendo na tela. Pior ainda, porém, são as inconstantes câmeras tremidas, cujo motivo desconfio seja forçar a urgência nas ações de Ally, mas basta um momento de pausa para percebermos que não há motivo algum para tanta pressa assim da personagem.

Fonte: collider.com

 

Ciente da falta de emoção na maioria do longa, a trilha investe então na cena do casamento, apostando articifialmente em músicas românticas e consagradas em um volume nitidamente mais alto, tornando óbvio o desespero para que prestemos atenção ao destino de Ally (e é gritante a lição de moral “seja você mesma” jogada às pressas no terceiro ato, tanto que se aproveita da irmã, que até então era um simples adorno do roteiro, tanto que uma das músicas é de um cantor favorito de Ally).

Bobo e infantil do começo ao fim, ao menos possui coerência interna, e uma seleção de músicas simpática. Mas é só.

Cartas para Julieta

October 10, 2011 in Home Video

Letters to Juliet. EUA, 2010. Direção: Gary Winick. Roteiro: Jose Rivera, Tim Sullivan. Elenco: Amanda Seyfried (Sophie), Marcia DeBonis (Lorraine), Gael García Bernal (Victor), Christopher Egan (Charlie), Vanessa Redgrave (Claire).

Fonte: cinemaemcena.com.br

Sophie e Victor estão noivos e vão passar uma “pré-lua-de-mel” na Itália, onde Victor (Garcpia Bernal) pretende conseguir contatos com fornecedores para o restaurante que pretende abrir. Enquanto isso, Sophie (Seyfried) se desilude com as supostas férias e procura algo melhor para fazer: escrever respostas para as mulheres que lotam a muro da Casa de Julieta (a mesma de Shakespeare) com cartas românticas.

Fonte: cinemaemcena.com.br

A interpretação costuma ser a base para o sucesso de filmes desse gênero, o que não vemos na carinha simpática, mas impassível de Amanda Seyfried (o oposto de Gael García Bernal, seu noivo, que resolve apelar para o overacting nonsense). Felizmente a aparição de Vanessa Redgrave na história como Claire, a autora de uma carta perdida de 50 anos atrás em que procurava manter contato com um amor da juventude e que agora busca reencontrar a pessoa que deixou para trás, consegue estabelecer um pouco de “felicidade” na narrativa, e mesmo a participação de seu mal-humorado neto (Egan) na empreitada consegue dar um pouco de ritmo na relação entre os três.

Fonte: cinemaemcena.com.br

No entanto, a trilha sonora está disposta a estragar o que foi alcançado com uma seleção no mínimo inesperada (para não dizer inadequada). E por que não criticar a direção, que se esforça inultilmente em tentar criar algo mais para a nossa querida Sophie, mas que nunca é correspondida pela atuação de Seyfried.

Porém, o forte acaba sendo mesmo a atuação de Vanessa Redgrave que constrói, ainda que como coadjuvante, uma história muito mais tocante para ser seguida de perto.