Tinha que Ser Você

July 18, 2013 in Home Video

Last Chance Harvey. EUA, 2008. Director: Joel Hopkins. Writer: Joel Hopkins. Stars: Dustin Hoffman, Emma Thompson, Eileen Atkins.

Tinha que Ser Você

Um drama dentro de um formol comédia-romântica (e britânica).

Eu sei que o desfecho final possui vários defeitos. É esquemático porque segue à risca a cartilha das comédias românticas, o que acaba prejudicando demais aqueles dois personagens até então bem construídos. Está longe do clima depressivo de todo o resto, onde o diretor tenta amenizar com músicas bonitinhas e um pouco do desconcertante humor britânico (mas a partir de um dado momento, acompanhar a mãe paranoica nem é mais interessante).

Porém, e coloco um grande porém agora, sua introdução e desenvolvimento são exemplares. A colocação do personagem de Dustin Hoffman como pai deslocado de uma família e de um emprego aos quais já não pertence mais é tocante por vir aos poucos e com certo ritmo. Tanto o desempenho de Hoffman quanto os enquadramentos ressaltando seu isolamento do mundo contribuem para a criação de um ser humano tão complexo quanto Bill Murray em Encontros e Desencontros.

Já Emma Thompson desenvolve uma solteirona sem os dramas existenciais. Alguém que já se acostumou com os foras, e é levada pela mãe a se empenhar em uma vida a dois que já não acredita mais. Sua cena sozinha no banheiro é a mais sintomática e tocante nesse sentido, pois revela algo já existente em seus olhos, sua voz e seus trejeitos, mas ainda não declarada.

Os detalhes periféricos invadem nossa noção de realidade sem pedir licença. A trilha sonora, bonita, se coloca várias vezes para forçar a mudança de humor do quadro formado. Uma pena, pois enquanto Hoffman e Thompson nos aproximam do seu drama, a música nos afasta pelo seu melodrama barato. A insegurança do diretor quanto ao desempenho desses dois atores veteranos (ou do público mal formado) é risível.

Mesmo assim, seu primeiro desfecho é eficiente demais para não gostarmos dele. Tanto que poderíamos aceitar a tristeza e dor de uma partida repentina sem crise (pelo bem e integridade daquele casal). Não é o que acontece, contudo, o que gera o desapontamento do primeiro parágrafo desse texto.

Dezesseis Luas

July 8, 2013 in Home Video

Beautiful Creatures. EUA, 2013. Director: Richard LaGravenese. Writers: Richard LaGravenese (screenplay). Stars: Alden Ehrenreich, Alice Englert, Viola Davis, Jeremy Irons, Emmy Rossum, Thomas Mann, Emma Thompson, Eileen Atkins, Margo Martindale.

Dezesseis Luas

Dramédia com casalsinho se sai pior que o vampiresco anterior.

Beautiful Creatures, ou Dezesseis Luas, é um filme baseado em um romance de Kami Garcia e Margaret Stohl que contém mais algumas continuações que muito provavelmente deverão ser produzidas como novos filmes no estilo da… arght! série Crepúsculo. Este foi dirigido e adaptado por Richard LaGravenese (que já havia feito um belo serviço em PS Eu Te Amo).

Mas não é só seu molde que lembra a saga do vampiro gay. A história da jovem que deve decidir ao completar 16 anos se irá seguir o caminho da Luz ou das Trevas possui a mesma dramédia que se desenvolve no filme original protagonizado por Kristen Stewart e Robert Pattinson que, por coincidência, parecia ter os mesmo problemas de orçamento no desenvolvimento dos seus efeitos visuais.

No entanto, mesmo que assim seja, o maior erro dos defeitos não é serem mal feitos, mas possuírem um tom completamente oposto do drama vivido pelo par romântico Lena (Alice Englert) e Ethan (Alden Ehrenreich). Enquanto os papéis de Alice Englert e Alden Ehrenreich são encarnados de maneira onírica, a visão do diretor/roteirista Richard LaGravenese parecem tender mais para a comédia pastelão, com um pequeno viés que lembra A Morte Lhe Cai Bem e Sombras da Noite. Tanto o é que as duas cenas que mais ficaram fixadas na mente foi o interessante embate psicológico/mágico entre Jeremy Irons e Emma Thompson (e o que esses dois estão fazendo aqui?) e uma mesa giratória no meio da sala de jantar. O fato de ambas as cenas se situarem no mesmo filme já evidencia a óbvia falta de foco e gênero.

Porém, mesmo perdoadas as falhas como estilo, mesmo como ideia Dezesseis Luas parece ter pego apenas o que há de pior nos livros de Stephenie Meyer sem qualquer contraponto positivo. Sendo assim, sua conclusão se torna forçada sem um contraponto que faça merecer uma revisita em uma possível continuação. Que o fluxo de dólares na bilheteria impeça uma monstruosidade dessas. Sem trocadilho.

O Clube das Desquitadas

June 30, 2013 in Home Video

The First Wives Club. EUA, 1996. Director: Hugh Wilson. Writers: Olivia Goldsmith (novel), Robert Harling (screenplay). Stars: Bette Midler, Goldie Hawn, Diane Keaton.

Comédia romântica datada em menos de 10 anos?

Esse é um espécime da safra de comédias românticas realizadas por atrizes já em meia-idade e que serviu de contraponto para a avalanche de divórcios que o mundo estava presenciando: o casamento não era mais sagrado. Não apenas o casamento, mas nem a orientação sexual (como a filha lésbida de Diane Keaton está lá para provar) é mais algo estável e conhecido por todos.

Nesse sentido, O Clube das Desquitadas seria uma bem-vinda comédia, se não abusasse em demasiado de clichês da época que hoje o tornam mais datado do que deveria (o filme não tem nem 10 anos). Pior: utiliza performances duvidosas de ótimas atrizes para simplesmente divertir em um filme despretencioso de ideias inovadoras. Não é um desastre completo, mas poderia ser melhor aproveitado.

Harry & Sally – Feitos um Para o Outro

June 29, 2013 in Home Video

When Harry Met Sally… EUA, 1989. Director: Rob Reiner. Writer: Nora Ephron. Stars: Billy Crystal, Meg Ryan, Carrie Fisher.

Harry & Sally - Feitos um Para o Outro

Comédia romântica com arco dramático?

Nora Ephron morreu ano passado. Escreveu e dirigiu trabalhos desde os anos 80 que hoje são agradáveis passeios pelas origens da comédia romântica como hoje a vemos (ainda que algumas bem datadas, como A Difícil Arte de Amar). No entanto, “Harry & Sally”, comparado com a média das com-rom atuais, possui virtudes o suficiente para elevá-lo à categoria de grande filme.

Note como os personagens não mudam de opinião, não estão loucos por um grande amor e nem são expostos a relacionamentos passageiros para gerar ciúmes no companheiro/a. Harry é visto através da figura de um Billy Crystal sóbrio, divertido e coeso, um Bill Murray sem muito sarcasmo mas com muito carisma. Sally é uma Meg Ryan sem os trejeitos que foi adquirindo ao longo da carreira (principalmente nos anos 90). Os figurinos, a fotografia e a direção de arte dizem quase tudo o que não sai da boca desse casal. Mesmo assim, a direção segura de Rob Reiner (O Clube das Desquitadas) favorece ainda mais tomadas clássicas em torno do casal, como a já batida, mas ainda assim, imperdível, cena do orgasmo.

No caso de Harry e Sally o filme não está datado. Ele serve como experiência romântica e, mais que isso, como um documentário de uma época cheia de transformações sociais.

O Lado Bom da Vida

February 6, 2013 in Cinema

Silver Linings Playbook. EUA, 2012. Director: David O. Russell. Writers: David O. Russell (screenplay), Matthew Quick (novel). Stars: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro.

JENNIFER LAWRENCE and BRADLEY COOPER star in SILVER LININGS PLAYBOOK

Comédia-romântica abraça esquisitices dos personagens sem ressalvas.

A partir do primeiro encontro entre Tiffany (Jennifer Lawrence, Inverno da Alma) e Patrick (Bradley Cooper, Se Beber Não Case), mais precisamente no momento em que ela esbofeteia a sua cara, sabemos de imediato que vale a pena seguir essas duas vidas “para ver no que dá”.

Não que sejam as únicas pessoas que mereçam atenção. De uma maneira coesa e ao mesmo tempo torturante, o diretor e roteirista David O. Russell (O Vencedor) — baseado no livro de Matthew Quick — nos deixa conhecer um pouco dos outros fascinantes participantes daquela experiência de vida. Uso a palavra experiência pois Patrick acabou de sair do hospital psiquiátrico depois de um tratamento após quase matar o amante de sua mulher e Tiffany está tentando superar a morte do marido e sua recaída moral através do sexo banal. Pat, como costuma ser chamado, possui bipolaridade, e a divisão do seu nome talvez sugira sua tentativa de sempre tentar enxergar o lado bom, método empregado por ele para tentar se desvencilhar do seu lado agressivo.

O pai de Patrick, Mr. Pat (Robert De Niro, tocante sem soar piegas), após perder o emprego se tornou viciado em jogo de apostas e sofre de todo o tipo de superstição, muitas delas envolvendo a presença do seu filho, o que o transforma em um reflexo de si próprio e até uma maldição para Pat. Seu cunhado sofre a pressão do dia-a-dia e só consegue desabafar com o amigo por este ser imune a franquezas. Na verdade, a maior parte das franquezas do filme saem de sua boca. O método de Patrick de nunca ver o lado negativo das coisas no fundo é bem difícil de ser aplicado em sua vida em família, incluindo o seu bem-sucedido irmão (que parece servir para Pat como modelo idealizado do que gostaria de ser). David O. Russel faz uma brincadeira formando um círculo com seus amigos e familiares em sua casa que lembra o mesmo cículo de pacientes com quem Pat costumava se reunir; os problemas das pessoas “normais” começam a não parecer muito diferentes das pessoas em tratamento psiquiátrico.

Já Tiffany, assim como Pat, é um poço de ansiedade, algo que sutilmente ela consegue controlar quando está próximo dele, um desajustado social como ela. Sua tentativa de ignorar a morte do marido a faz usar o sexo casual como válvula de escape. Mais tarde entendemos os seus motivos. O. Russel não tem pressa de expor os seus personagens, pois entende que a melhor interação entre ambos só ocorre se estes se derem essa liberdade aos poucos. Também não utiliza apenas diálogos. A morada de Tiffany é separada da casa dos seus pais pelo quintal, o que facilita seus costumes sexuais mas que também é uma bela metáfora do alienamento de sua família (o que também explica sua ausência no filme), incapaz de suportar a não-adequação da filha aos costumes sociais.

O saco de lixo que Patrick usa para correr e o preto usado por Tiffany harmoniosamente caminham juntos — ou melhor, correm juntos, outra simbologia da ansiedade — e isso é estranhamente apropriado para eles no dia (e na noite) de Halloween (o primeiro encontro). Ainda que o drama de ambos seja encarado de maneira leve, o que poderia soar perigosamente desonesto, a entrega dos atores sempre convence. O ritmo é acelerado, como a mente de ambos e como todos que têm ansiedade. Isso ajuda a não pensarmos demais sobre o que está ocorrendo, mas nem isso se torna um problema quando ambos começam a dançar, mas torna óbvio que essa experiência para os dois é uma terapia social, além de protagonizarem momentos silenciosos e ao mesmo tempo tocantes. O uso da trilha não é invasiva, e sabe se calar quando a reflexão é necessária. Até os diálogos sabem se calar no tempo certo (como na breve conversa de Pat com sua mulher, o que de forma deturpada lembra o final de Encontros e Desencontros).

Por fim, se o uso de uma aposta final que una todos os finais soe a princípio forçado essa é a metáfora mais poderosa de todas, quando a estratégia de Patrick de catalisar as energias negativas em uma fagulha de esperança é posta à prova. A exposição de ambos com o uso da dança encontra uma belíssima rima com Pequena Miss Sunshine.

Dito isto, O Lado Bom da Vida não se esforça como uma produção Indie em tornar os seus personagens queridinhos por terem uma plantação de produtos orgânicos e namorarem uma negra (vide Minhas Mães e Meu Pai). Os personagens já são fascinantes apenas por existirem, e o filme apenas nos faz conhecê-los de corpo e alma em duas horas. E o faz muito bem.

O Filho da Noiva

January 20, 2013 in Home Video

El hijo de la novia. Argentina/Espanha, 2001. Director: Juan José Campanella. Writers: Juan José Campanella, Fernando Castets. Stars: Ricardo Darín, Héctor Alterio and Norma Aleandro.

O Filho da Noiva

Primeiro grande sucesso de Campanella é contraditório e ao mesmo tempo atual.

O Filho da Noiva se esforça para soar tão engraçado quanto dramático e impede que ambos os lados evoluam. Ancorando sua experiência em um personagem que vive para o trabalho que construiu em torno do restaurante que herdou dos pais (um Ricardo Darín ainda jovem) o objetivo do roteiro do diretor Juan José Campanella (O Segredo dos Seus Olhos) e de Fernando Castets (Clube da Lua, Heleno) é mostrar a curva de mudança desse personagem depois de sofrer um ataque cardíaco.

O problema talvez seja essa mudança de tom repentina. Quando esperamos algo tocante, surge uma piada sem ser anunciada. O amigo de infância dele é um chato de galocha que faz o papel do bom moço que agrada a todos (sem entendermos muito bem como isso espontaneamente ocorre). Sua namorada e sua filha são igualmente infantis, e o que mais irrita em tudo isso é que, mesmo que o personagem de Ricado Darín tenha seus motivos, consegue ser o mais irritante de todos por não tomar suas próprias decisões, mas ser levado por essa torrente de opiniões.

Quando de repente surge a figura de sua mãe e seu pai — que decide se casar com ela depois de ter evitado a cerimônia religiosa por 44 anos — surge o problema de sua mulher estar com Alzheimer, e sua decisão de dizer sim é tão forçada quando a do próprio Darín em dizer sim para sua nova vida. A parte mais interessante dessa história é o paralelo criado entre os dois personagens, ambos impedidos de seguir suas próprias vidas pelas amarras de seu destino.

Mesmo com esse enredo caótico, Campanella consegue extrair essa lógica para nos entregar uma visão menos que perfeita de uma comédia romântica argentina, mas mais que apropriada para um personagem tão contraditório quanto qualquer ser humano que vive para o trabalho.

Quatro Amigas e um Casamento

December 17, 2012 in Cinema

Bachelorette. EUA, 2012. Director: Leslye Headland. Writer: Leslye Headland (screenplay). Stars: Kirsten Dunst, Isla Fisher and Lizzy Caplan.

Comédia romântica segue tendência de mulheres no comando.

Parece que a “moda” iniciada por Missão Madrinha de Casamento (Paul Feig, 2011) está gerando seus primeiros frutos. Esse “Quatro Amigas…” possui o que faltava nas comédias românticas e que pode reinventar o gênero nos próximos anos: mulheres independentes e protagonistas.

Nesse caso o filme gira em torno de quatro amigas: Regan (Kirsten Dunst), Katie (Isla Fisher), Gena (Lizzy Caplan) e Becky (Rebel Wilson), a única que não vive para sua aparência, está com uns quilinhos a mais e também a única que arrumou um pretendente de primeira linha. Para casar. Agora.

Essa inversão de expectativas também é muito bem-vinda, principalmente quando Regan começa a planejar o casamento e junto com Karie e Gena começam e terminam revelando todos os podres que você não esperaria de mulheres “pefeitinhas”. No entanto, a diretora e roteirista Leslye Headland parece não saber usar corretamente todo o potencial de atuação das três meninas e começa a girar a história em círculos. Divertidos, mas círculos.

O resultado é que, mesmo que “Quatro Amigas…” divirta a maior parte do tempo, a narrativa quase nunca consegue encaixar o destino de suas personagens em torno de sua história, o que torna o filme esquecível assim que saímos da sala.

Ruby Sparks: A Namorada Perfeita

October 16, 2012 in Cinema

Ruby Sparks. EUA, 2012. Direção: Jonathan Dayton, Valerie Faris. Roteiro: Zoe Kazan. Elenco: Paul Dano, Zoe Kazan e Annette Bening.

Depois de Pequena Miss Sunshine, comédia romântica original e fresca.

Orquestrada pela dupla de diretores Jonathan Dayton e Valierie Faris (Pequena Miss Sunshine) e escrita pela atriz Zoe Kazan, que interpreta a Ruby Sparks do título, a história gira em torno de Calvin (Paul Dano), um jovem escritor que nem terminou o colégio e vendeu um livro de sucesso. Considerado por muitos um gênio da literatura (uma palavra que Calvin abomina), todos aguardam pelo seu próximo trabalho.

O problema é que Calvin não consegue mais escrever. Faz terapia para conseguir destravar sua inspiração, quando repentinamente começa a sonhar com uma garota (Zoe Kazan), algo normal na vida de alguém que está sozinho, já passou por uma decepção amorosa e não consegue encontrar alguém que preencha seu vazio. Ele escreve, portanto, em um ritmo cadenciado por suas noites de sonhos e páginas batidas em sua clássica máquina de escrever, um resquício, talvez, de um jovem escritor sem condições de ter um laptop ou um sinal de alguém que se considera único.

As coisas começam a fugir do lugar-comum quando misteriosamente Ruby Sparks, a menina dos sonhos e páginas de Calvin, aparece na vida real do escritor. Ele não é bobo, e imagina, como toda pessoa normal, estar alucinando. Até que descobre que todos à volta conseguem enxergá-la. A realidade mostrada pelos diretores parece difícil de assimilar, mais difícil do que outro filme que lhe faz eco, Mais Estranho que a Ficção, que abraça a estranheza da relação autor/personagem de maneira muito mais fluida. Aqui, a relação é mais de autor/namorada, o que confere um grau maior de intimidade com a psique de Calvin, ou seja, todos os trejeitos de Ruby refletem tão somente os desejos infantis do rapaz em torno da garota perfeita.

O que ocorre em seguida possui lógica mas perde em espírito. Se por um lado a história é divertida e tem um potencial fabuloso, por outro dependemos da imaginação pueril de um escritor sem experiência com mulheres (como seu próprio irmão enfatiza) para avançarmos nessa “relação” baseada em controle. E controle, não importa a relação, nunca é algo bom. O resultado, conforme acompanhamos a vida a dois do casal, é naturalmente imprevisível e explosivo, nunca constituindo algo completo e realizador para ambos (e a maneira como Calvin ordena que seu cachorro, Scotty, faça cocô durante seus passeios matinais é a rima semântica para entendermos isso).

De qualquer forma, “Ruby Sparks” agrada principalmente por não cair nos maneirismos do gênero, e por não transformá-lo em uma comédia barata. Existe a parte cômica, mas conforme o filme avança, vemos o lado cruel de seu protagonista, e a coisa deixa de ser engraçada para ganhar um peso dramático inesperado em uma história inicialmente tão leve. Apenas isso garante uma experiência única na telona.

Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada

July 9, 2012 in Home Video

Dan in Real Life. EUA, 2007. Direção: Peter Hedges. Roteiro: Pierce Gardner, Peter Hedges. Elenco: Steve Carell, Juliette Binoche e Dane Cook.

Comédia pé-no-chão estrela Carell e Binoche.

Nem só de comédias estúpidas baseadas em enquete vive Steve Carell. Aqui ele interpreta um de três personagens envolvidos em uma situação cômica e trágica ao mesmo tempo. Isso por si só já consegue estimular seu desenvolvimento. Porém, não fosse o roteiro pé-no-chão desenvolvido pela dupla Pierce Gardner e Peter Hedges não seria possível termos empatia por esses personagens, e ao mesmo tempo darmos boas e saudáveis risadas com seus conflitos.

Qualquer Gato Vira-Lata

May 10, 2012 in Home Video

Idem. Brasil, 2011. Direção: Tomas Portella, Daniela De Carlo. Roteiro: Daniela De Carlo, Juca de Oliveira, Claudia Levay (adaptação), Júlia Spadaccini (adaptação). Elenco: Cléo Pires, Dudu Azevedo, Malvino Salvador, Rita Guedes e Álamo Facó.

Comédia romântica machista e incoerente tem como protagonista uma não-atriz.

A influência norte-americana e suas comédias românticas de caráter duvidoso trouxeram uma produção com elenco brasileiro que não é apenas covarde em sua premissa, mas retrógrada e oportunista. Dirigido por Tomas Portella e Daniela de Carlo, ambos já envolvidos em produções hollywoodianas, o filme gira em torno do roteiro de uma peça de teatro (muito ruim, por sinal) em que a jovem e fisicamente atraente Tati (Cléo Pires) briga com seu namorado Marcelo (Dudu Azevedo) em seu aniversário por conta de suas aventuras fora do relacionamento; ao tentar procurar uma solução para seu relacionamento descobre através das teorias de um professor de biologia, Conrado (Malvino Salvador), que talvez estivesse usando a abordagem errada para seduzir homens.

Tendo como premissa a ideia retrógrada e extremamente machista de que as mulheres não podem ir à caça de seus partidos, mas sim seduzirem seus homens de forma velada aguardando por uma iniciativa destes, Qualquer Gato Vira-Lata já começa, nos seus primeiros 15 minutos, a ser insuportável apenas pelas ideias que defende. Ideias essas colocadas na cabeça do tal professor de biologia, que apesar de ser fã da teoria da Seleção Natural (possui um cachorro com o nome de Darwin) reage de maneira extremamente contraditória ao constatar que não só os humanos, mas o animais devem sempre se comportar da mesma maneira pelos milhões de anos de sua existência como espécie, ignorando, por exemplo, que 15 milhões de anos atrás não existiam quase nenhuma espécie viva hoje em dia, ou, ainda pior, que a consciência e raciocínio humanos, que criaram a moral e a filosofia, por exemplo, não conseguissem nos levar por caminhos diferentes do que reza nosso código genético.

Pior do que isso apenas a futilidade de Tati, que não conseguindo se livrar da paixão que sente por Marcelo, tenta se moldar de acordo com as teorias de Conrado. Ou seja, ainda que ignorássemos as ideias por trás da história e nos focássemos no drama vivido pela protagonista, isso seria impossível, pois ela é inatingível, atrás da inexistente e/ou inexpressiva interpretação de Cléo Pires, que se resume em fazer os mesmos sorrisos e caras de choro (ajudada pelos seus belos lábios) durante o filme inteiro. Vendo Pires como atriz é acabar dando mais méritos de interpretação para sua assemelhada Juliana Paes, por menos talentosa que fosse. Além do mais, nunca sabemos muito sobre Tati, além de que ela é capaz de mudar toda sua forma de ser e agir apenas para ficar do lado de seu macho-alfa, um rapaz deselegante e arrogante cujas únicas virtudes provavelmente foram adquiridas em sessões intermináveis de academia e Jiu-Jitsu.

Não contente com uma fraca trama central, o filme ainda nos brinca com fraquíssimas piadas recicladas de programas de humor televisivos (ou a internet) muito mal sincronizadas nas bocas de personagens secundários que poderiam tranquilamente deixar de existir em um enxugamento do roteiro, já que na maioria das cenas eles se limitam a fazer parte da decoração do cenário e criar contratextos para que os protagonistas não falem sozinhos e sejam tomados por loucos.

Todos esses tropeços fazem com que fique fácil ignorar a amadora fotografia, que perde tantas vezes o foco que parece ter sido mal-feita de propósito para dar um ar mais “artístico” (assim como a “trama”), fazendo rima com a péssima qualidade da mixagem de som, dado que em muitos momentos, principalmente em ambientes barulhentos, as vozes dos atores são quase que totalmente abafados, restando a nós, espectadores, tentarmos adivinhar as falas pelo contexto. Somando-se a isso temos uma equivocada Direção de Arte que planejou a casa de Tati, por exemplo, com um branco e uma largura de quadro que é incompatível com sua mente difusa e minúscula.

O fato é que, mesmo que o ritmo da história seja agradável apesar de todos os poréns, não há nada que nos leve a ser atraídos pelos personas de Tati e Marcelo, que são fúteis e antipáticos (ainda que seus corpos digam o contrário). Nesse sentido, além da trajetória de suas vidas não nos levarem a lugar algum, seus destinos pouco importam, desde que a projeção acabe logo.

O que, felizmente, é um dos poucos acertos do filme.