Flores Raras

August 24, 2013 in Cinema

Idem. Brasil, 2013. Director: Bruno Barreto. Writers: Matthew Chapman (screenplay), Julie Sayres (screenplay), Carmen L. Oliveira (romance), Carolina Kotscho (primeiro roteiro). Stars: Glória Pires, Miranda Otto, Tracy Middendorf.

Flores Raras

Drama-romance sensível e sutil, tal qual poesia.

O tema “polêmico” de Flores Raras não existe há muito tempo, e apenas as mentes reduzidas de nossa época, que infelizmente não são poucas, irão enxergar qualquer anomalia no fato da história girar em torno de um triângulo amoroso entre três mulheres: Mary (Tracy Middendorf), a arquiteta Lota (Glória Pires) e a poetisa Elizabeth Bishop (Miranda Otto), todas encapsuladas em tramas tridimensionais. Sensível e inteligente, Bruno Barreto demonstra que a principal anomalia desse relacionamento é o ego controlador e descontrolado de Lota, uma arquiteta que através das influências políticas e dinheiro consegue manter em sua isolada casa no campo a ilusão de um mundo tolerante e tranquilo.

Aliás, Glória Pires mais uma vez se firma como uma das grandes atrizes de nossa época ao encarnar uma personagem que oscila entre o amoroso e o cruel. No entanto, a grande surpresa fica por conta de Miranda Otto, que constrói e realiza um arco admirável em sua Elizabeth Bishop, que parte de um início tímido a um final… bem, não tímido. O resultado é tão satisfatória que sua personagem cria um aspecto inesperadamente sombrio à história.

Iniciando nos anos 50, passando pelo golpe militar brasileiro e avançando os anos com uma sutileza admirável, nos provocando a sensação de passagem no tempo mais pelos aspectos externos (figurino e direção de arte) a psique dos personagens parece se manter quase intacta, como se pouca coisa tenha mudado mesmo que as rugas venham surgindo. Os problemas do longa parecem residir apenas na direção muitas vezes intrusiva de Barreto, que apela para o fantasioso sem qualquer motivo senão “sobredramatizar” (para não dizer “novelizar”). É por isso que, se uma chuva repentina causa surpresas, isso é passageiro, mas se o mesmo efeito se repete nas luzes de um parque ou em tantos outros momentos, podemos duvidar de nossa própria capacidade de entender as entrelinhas ou o filme duvida que aqueles acontecimentos não tenham força própria.

Mesmo assim, é admirável constatar que, baseado em fatos, o hábil roteiro derivado de um romance consegue entregar uma história se não verossímil, degustável através da própria visão literária de sua protagonista. Isso por si só o equipara a Swimming Pool, uma ficção que faz rima inversa ao realismo da obra de Barreto.

O 100o Trabalho

July 9, 2013 in Home Video

The 100th Job. Brasil/EUA, 2009. Director: Micki Mihich. Writer: Micki Mihich. Stars: Micki Mihich, Angelo Angrisani, Greg A. Baron.

O 100o Trabalho

Curta de cineasta brasileiro surpreende pela construção de um clima que merece ser revisitado.

Para quem, assim como eu, está cansado das pseudo-estilizações de seguidores do Tarantino como Guy Ritchie (Snatch – Porcos E Diamantes), exatamente por estas não colaborarem para a atmosfera do filme mais do que o efeito plástico colabora para vídeo-clipes (e Ritchie de fato veio desse mundo), O 100o. Trabalho é uma respirada de ar fresco que bebe, quem diria, da fonte do neo-noir.

Mais empenhado em estabelecer essa atmosfera opressiva que lida com o destino de um matador profissional em torno do seu trabalho de “efetivação”, a partir do qual ele fará parte da gangue, o diretor/roteirista/editor e ator (!) Micki Mihich pode até cometer pecadilhos com os diálogos muitas vezes verborrágicos demais vindo de criminosos “de carreira”, mas consegue através deles (ou apesar deles) despistar o espectador para o desdobramento do que irá ocorrer na metade final do curta, momento no qual valeu a pena entrar por meros vinte minutos naquele mundo do crime cinematográfico.

Uma passada tão breve por aquele mundo que, confesso, gostaria de poder ver mais. Quem sabe não está aí a renovação do neo-noir que filmes como Sin City iniciaram e que mereceria uma revisita desta década?

O que se move

May 16, 2013 in Cinema

Idem. Brasil, 2013. Direção: Caetano Gotardo. Roteiro: Caetano Gotardo. Elenco: Cida Moreira, Andrea Marquee, Fernanda Vianna.

O que se move

Estreia do montador de Trabalhar Cansa na direção e roteiro não decepciona.

Montador de Trabalhar Cansa (2011, Marco Dutra e Juliana Rojas), uma das mais agradáveis surpresas daquele ano no Cinema Nacional, Caetano Gotardo estreia na direção desse filme quase experimental e trabalha em conjunto com os diretores do filme que montara (Juliana Rojas faz aqui a montagem e Marcos Dutra divide o trabalho musical com o diretor). Quase, pois as nuâncias inseridas em suas três historietas trágicas e casuais criam uma dimensão emotiva que não pode ser ignorada. O detalhe mais marcante são as canções entoadas pelos seus próprios atores (não se preocupe quem não gosta de musicais, pois existem apenas três momentos). Nesse sentido, talvez o tempo de experiência na montagem tenha feito uma diferença notável em sua percepção da realidade. Ou podemos dizer que o trio de cineastas conseguem um impressionante desempenho qual sejam suas funções na produção.

Portanto, por mais inconsequentes e despretenciosas que sejam os três episódios, há um crescente emotivo envolvente, ainda que sua primeira história inicial pareça não se esforçar para isso. Podemos dizer que o choque inicial ao final do primeiro episódio seja o estopim necessário para que enxerguemos o que está sendo proposto, e mesmo com seus defeitos (como os diálogos pavorosos, propositais ou não) cumpre bem o que se propõe. Dito isso, ouvir a mãe cantar uma música sem rimas, sem ritmo e sem propósito nenhum a não ser estabelecer o óbvio (explicar o que ocorreu com o filho com a carga dramática de uma mãe embutida) se torna um guia necessário para entendermos o que está acontecendo diante de nós.

Ao ligar os episódios de maneira mais metafísica do que orgânica, a segunda história envolvendo outra família consegue aos poucos subir o degrau de significados. Alguns ocultos, outros parecendo mero artifício hermenêutico “para aparecer” e outros ainda revelando a alma do filme de maneira a fisgar cada vez mais nossa atenção. No entanto, algumas coisas ainda teimam em nos atirar para fora: mais uma vez os diálogos chegando ao embaraço, o acúmulo de cenas desconexas ou desproporcionalmente longas (que quando estão querendo dizer algo, soam óbvias, e quando não estão, soam obscuras).

Mesmo assim o diretor/roteirista insiste em sua temática, o que revela em seu terceiro ato os momentos mais tensos e propositadamente desconcertantes de todo o filme. Boa parte desse efeito pode ser atribuído à revelação do longa, Fernanda Vianna, a atriz que faz a terceira mãe. Ela quase rouba a nossa atenção completa se a situação já não nos forçasse a isso: o primeiro encontro com o filho roubado da maternidade.

Enquanto tentamos juntar as peças derrubadas pela catarse gerada pela evolução de personagens e situações, o que mais fica na mente é o tema proposto, o que há de comum naquelas histórias. Nos esquecemos do resto e, assim como o cisne do primeiro episódio, vemos o tempo passar sem muito o que fazer.

Somos Tão Jovens

May 14, 2013 in Cinema

Idem. Brasil, 2013. Director: Antonio Carlos da Fontoura. Writers: Victor Atherino (collaborating writer), Marcos Bernstein. Stars: Thiago Mendonça, Laila Zaid, Bruno Torres.

Somos Tão Jovens

Semi-biografia do cantor-poeta ganha vida graças a atuação ímpar de Thiago Mendonça.

Antes de tudo, a interpretação de Thiago Mendonça é primorosa do começo ao fim ao estabelecer o “Renato” do filme não apenas como a sombra de um ídolo, mas a própria persona se construindo através de suas referências culturais. O uso de sua voz é um dos pontos fortes: usando entonações sutis que vão aos poucos revelando o Renato Russo que os fãs conhecem, é uma surpresa agradável poder observar sua própria evolução como cantor, engrossando a voz aqui e ali, tentando encontrar o seu estilo. Isso nos aparece de forma completamente natural e discreta. A música e poesia das letras do vocalista parecem sair prontas do seu intelecto, e parte dessa experiência é devido ao interessante roteiro de Marcos Berstein (Central do Brasil) com a colaboração de Victor Atherino que vai construindo as situações e expressões de suas poesias no dia-a-dia casual.

O mesmo não pode ser dito da direção: Antonio Carlos da Fontoura (No Meio da Rua) insiste em burocratizar a história com cortes definidos milimetricamente entre ação e músicas, e evita polemizar em torno do temperamento explosivo do protagonista. Até sua sexualidade é meio deixada de lado e prejudica a construção do personagem, ainda mais sendo um tabu relevante demais na época para apenas ser citado nas entrelinhas. Mesmo assim, é admirável observar sua trajetória em direção à liderança das duas bandas que formou tamanha a naturalidade com que ela se desenvolve. Uma pena que a apresentação dos outros componentes das bandas soe tão artificial e forçadamente prolixo, chegando a usar nome e sobrenome dos que estavam à margem do cantor (“esse é o Marcelo Bonfá”).

Já a participação de sua amiga sempre presente Ana (Laila Zaid) funciona para contribuir ao entrarmos mais na mente do poeta e conhecer suas angústias (como a depressão, um tema recorrente em sua discografia), e mesmo que Mendonça já carregue isso em sua expressão pesada e um jeito de andar deslocado e caótico (com a ajuda da câmera que sempre treme e procura pontos de luz que dominam vários dos seus momentos sozinhos), é importante o contraponto entre seu sucesso nos palcos e sua solidão em seu quarto. Para pontuar ainda mais o drama em que vive o multifacetado artista, a trilha sonora organizada por Carlos Trilha (que já trabalhou nos dois solos de Renato) acerta em vários momentos ao aplicar acordes icônicos de grandes sucessos da banda como forma de comentar a atmosfera de Brasília como um reflexo de um país à espera de um amanhã melhor, e o reflexo das preocupações de um vocalista punk é a melhor maneira de centralizar esse sentimento.

Parte dessa atmosfera consegue ser atingida também através da fotografia e direção de arte, que trabalham juntas para estabelecer uma Brasília pré-democracia. Se a definição da época é estabelecida com competência em uma inteligente transição entre um carro de sorvetes de uma marca antiga e um camburão da polícia militar (a despeito do letreiro que denuncia o ano despropositadamente), o resto não consegue ser pontuado facilmente, mas sentido em cada cena, uma virtude invisível da construção cuidadosa dos cenários. A fotografia nos convida aqui e ali a entrar em um mundo de tons pastéis e granulados que evocam um tom saudosista, e é compreensível que isso apenas seja feito em certos momentos, dando lugar em sua maioria a uma qualidade de imagem considerável.

Com pequenas pontes entre o Renato do filme e o Renato pessoa, não deixa de ser irônico, tráfico e catártico ouvir Renato planejar sua vida dividida em períodos de 20 anos voltados para a música, cinema e literatura, pois sabemos que isso nunca irá se concretizar, o que gera um forte sentimento de desperdício de talento com a sua morte.

E essa é a única passagem que nos remete depois do início do sucesso do Legião no primeiro show no Rio, que termina sua aventura sem definir em nenhum momento qual seria o objetivo dessa história. Assim como tem sido em biografias no Cinema Nacional, vemos imagens reais de Renato Russo e Legião Urbana junto aos créditos, que não impressionam com exceção da comparação com Thiago Mendonça, apenas comprovando sua competência em se igualar ao ícone.

Uma pena que o filme seja tão metalinguístico a ponto de terminar em um Aborto Elétrico.

 

Uma História de Amor e Fúria

April 10, 2013 in Cinema

Idem. Brasil, 2013. Director: Luiz Bolognesi. Writer: Luiz Bolognesi. Stars: Selton Mello, Camila Pitanga.

Uma História de Amor e Fúria

A Viagem brasileira por nossa história de opressão, amor e medo.

Um delírio técnico e estilístico que permite que vejamos nossa história como povo através da lente da dura e cruel realidade dos oprimidos, Uma História de Amor e Fúria estabelece desde o início seu tom fantasioso ao revelar a idade do narrador e protagonista envolvido em uma jornada de cerca de 600 anos através do passado e futuro do Brasil.

Tanto o “amor” quanto a “fúria” do título podem ser sentidos desde a primeira das quatro histórias em que são desenvolvidos os dois personagens principais: um guerreiro imortal da tribo Tupinambá (Selton Mello) e sua amada e sempre belamente reencarnada Janaína (Camila Pitanga). O Rio de Janeiro, palco da história, já nasce de uma luta sanguinária entre franceses e portugueses pelo poder da região. A história apenas se mostra, mas se torna óbvio que aquela sociedade nascida da opressão utiliza a mesma estrutura em qualquer momento de sua evolução tecnológica.

É uma história impactante, intensa e dona de uma triste verdade. Lembra Um Cabra Marcado Para Morrer pelo seu tema, que centraliza na opressão do governo (e da sociedade dominante) sobre um povo desde o começo miserável, escravo e injustiçado. Assim como “Um Cabra…”, delineia sua história por várias gerações. Diferente deste, cria um futuro distópico que nos alerta para o que está ocorrendo nesse exato momento com a nossa sociedade (o que faz eco com outra produção recente, Som ao Redor). Nesse mar de ideias, utiliza maravilhosamente bem a ficção científica ao mostrar um futuro com um povo alienado e sem paixão por nada. A sequência em que uma bola de futebol cai de um arranha-céu gigante para flutuar em uma espécie de bueiro ao céu aberto do lado de um grupo de crianças consegue resumir visualmente todo o sentimento estancado por décadas do nosso processo implacável de injustiça social.

Sem conter pontos específicos de nenhuma das quatro histórias, o filme se revela e se transforma na história do casal apaixonado em uma bela metáfora em busca por essa paixão perdida no tempo, assim como a esperança por dias melhores. Assim como A Viagem (Wachowski/ Tom Tykwer, 2012), a mensagem do filme não poderia ser mais clara e necessária. Por isso o seu clima de urgência.

O que nos leva às suas virtudes técnicas. Cientes da intensidade que precisam passar em uma animação que começa como um estilo quase parado e contemplativo, a edição e mixagem de som mais do que compensam. Compostos pela mesma equipe de Tropa de Elite, os sons todos juntos definem cada atmosfera através das falas e sons que se ouvem ao fundo. Enfatizam o tom emergencial ou apático pelo uso pincelado de sua trilha sonora.

E não é apenas o som que impressiona, apesar deste ser ponto forte e acertadamente levado em conta. O uso inteligente da fotografia consegue claramente estipular uma evolução, iniciando em cores quentes e naturais da selva ainda virgem, passando pelo cinzento e enebriante fumaça do progresso dos anos 70, e atingindo seu ápice em um azul que incomoda justamente pelo seu tom de sofisticação em torno de uma sociedade onde ironicamente falta água, o elemento mais básico da subsistência humana. E esse recurso sagrado é tratado como negócio e defendido pelas classes superiores assim como hoje se defende os maiores privilégios para uma casta previamente selecionada. (Note que até viagens a Marte já são possíveis, e onde a presença de água já foi comprovada, mas são usadas para o carregamento de minério.)

Dessa forma, se no começo a animação soa estranhamente estilizada, o costume dos nossos olhos e a sua sofisticação crescente a cada história faz o artifício se tornar cada vez mais necessário. Um trabalho de produção digno de nota por harmonizar esforços de tão escassos desenhistas em uma história envolvente pela própria natureza do ser humano de torcer pelo lado mais fraco.

“Meus heróis nunca tiveram uma estátua, mas morreram lutando contra os que tinham”, lamenta o nosso protagonista. Não podemos culpá-lo de lutar sempre pelo lado mais fraco, se está claro que ao menos parece o lado certo.

Vai que Dá Certo

April 6, 2013 in Cinema

Idem. Brasil, 2013. Director: Maurício Farias. Writers: Maurício Farias, Alexandre Morcilo, Fábio Porchat. Stars: Felipe Abib, Gregório Duvivier, Natália Lage.

Vai que Dá Certo

Mais um humor afetado pelo nosso mau gosto pelo Cinema.

O filme estrelado (e escrito) em partes pelo elenco do ótimo grupo de humoristas de internet Porta dos Fundos consegue ser engraçado em diversos momentos, apesar de seu tom morno durante quase todo o filme. O sucesso do humor é em boa parte devido ao carismático grupo, que naturalmente exibe um timing cômico de fazer inveja às produções da Globo Filmes. Porém, estamos falando de um filme longa metragem, e o que justamente deixa de ser engraçado é a história criada pelos três roteiristas, que se perde depois que do golpe a um carro forte arquitetado por quatro amigos de infância (e de pobreza) e por um primo de um dos integrantes.

Surgindo como elemento unificador das piadas isoladas dos seres unidimensionais que povoam a tela, o filme perde sua singela força logo após a reviravolta principal, e sofre uma morte lenta e dolorosa ao envolver um bandido nada ameaçador e situações cada vez mais impossibilitadas de nos fazer lembrar o que estamos fazendo assistindo esse filme. A sensação é de tentarmos a todo momento descobrir se há de fato uma mensagem para nos guiarmos ou se tudo não passa de uma sequência de quadros de humor televisivo.

Nunca saberemos. Terminando de maneira esquemática, estamos presos eternamente à cornucópia de clichês. Talvez seja esse o grande motivo de dois personagens discutirem a toda hora a respeito de elementos pop do Cinema (assim como os pôsteres de filmes pendurados casualmente nas paredes mais usadas). Tudo não passa de uma brincadeira desproposital e sem qualquer intenção de se transformar em um filme de verdade.

VIPs

March 2, 2013 in Home Video

Idem. Brasil, 2010. Director: Toniko Melo. Writers: Mariana Caltabiano (book), Thiago Dottori (screenplay). Stars: Wagner Moura, Juliano Cazarré, Emiliano Ruschel.

VIPs

Quando vemos Wagner Moura descendo de helicóptero em uma festa de bacanas e logo em seguida em uma sala de aula imitando seu colega de classe temos em pouquíssimos minutos a exposição de todo o arco dramático de seu personagem. Essa economia ao contar a história de Marcelo permite que o espectador preste atenção a outros detalhes de sua vida, como sua relação com o “pai” ou sua busca por se tornar alguém diferente.

Aliás, depois de entendermos sua fascinação por aviões – algo que Moura faz questão de ressaltar com uma expressão infantil de deslumbramento – os caminhos trilhados pelo personagem fazem todo o sentido, e é dessa forma que, mesmo que com um destino muitas vezes imprevisível conseguimos antever suas ações. Porém, diferente dessas, as consequências das decisões de Marcelo sempre me escapa, e é por isso que momentos onde o personagem está pilotando um avião ou toda a sequência do camarote são extremamente tensos.

Por fim, Carrera é um nome absurdamente ideal para um personagem ambíguo que oscila entre o crime e a fama. E se prestarmos mais atenção à parábola do peixe em dado momento do filme apreciaremos com mais intensidade o drama de uma pessoa fadada ao seu destino, não medindo esforços para provocá-lo.

País do Desejo

February 1, 2013 in Cinema

Idem. Brasil/Portugal, 2012. Director: Paulo Caldas. Writers: Paulo Caldas, Pedro Severien. Stars: Fábio Assunção, Gabriel Braga Nunes, Nicolau Breyner.

País do Desejo

Narrativa tem falta de ritmo para expor o óbvio conflito entre bondade e igreja.

Filmes como A Febre do Rato e O Som ao Redor possuem narrativas pouco convencionais, mas seus temas são tão bem explorados e ensinados ao espectador que não conseguimos imaginar maneira melhor de contar uma história. Que é exatamente o que não existe em País do Desejo, que articula temas complexos e polêmicos como o aborto e a castidade dos padres sem a mínima intenção de explorá-los como mereceriam.

Roberta (Maria Padilha, linda como sempre) é uma famosa artista que utiliza a música para se expressar. O passado trágico envolvendo sua mãe a torna enclausurada em sentimentos mórbidos (quer até usar um requiem, uma espécie de música mórbida, para seu próximo show). Sua relação de amizade com o Padre José (Fábio Assunção) indica sua necessidade de comunicação com o seu lado mais místico, e a fotografia que transita entre as sombras escuras de sua casa e a luz branca do sol e do quarto de hospital onde se encontra após um evento a transforma metaforicamente na figura angelical. Como contraparte, a enfermeira japonesa (Juliana Kametani) que vem cuidar da mãe do padre se veste de maneira sensual, se comporta sensualmente e gosta de provocar deixando a porta aberta do seu quarto enquanto passa creme seminua em seu corpo. Note como seu cabelo no ônibus que chega à passargada possui um aspecto de chifres. Qualquer relação dualidade anjo/diabo, por mais absurdo que possa parecer, está contido nas confusas mensagens do filme.

Já Padre José é aquela figura carismática que faz o bem aos seus fiéis pela bondade cristã de ajudar o próximo, o que o faz bater de frente com a visão sempre anacrônica da igreja, corporizada pela figura do bispo (Nicolau Breyner), seu superior, que parece convenientemente favorecer o status quo de sua religião hierárquica tanto pelos seus privilégios (que o diretor Paulo Caldas representa com um suntuoso almoço em uma suntuosa sala) quanto pela sua demonstração de poder.

Se todos esses elementos não precisassem ser mastigados pelo espectador perdidos e sem pistas em uma novela de caráter global e que nunca permite que seus personagens digam a que vieram (com a possível exceção do bispo, unidimensional à rica) o trabalho de Paulo Caldas e do roteirista Pedro Severien seria infinitamente mais ambicioso.

Porém, pelo visto, o diretor não quis entregar nada mais que os eventos enfileirados, o que parece mais material de pesquisa do que uma história pensada e trabalhada para comunicar ideias que ousam desafiar a narrativa clássica do cinema.

Heleno

January 19, 2013 in Home Video

Idem. Brasil, 2011. Director: José Henrique Fonseca. Writers: Fernando Castets (screenplay), Roberto Ceuninck (collaborating writer). Stars: Rodrigo Santoro, Angie Cepeda and Aline Moraes. Cinematography: Walter Carvalho.

Heleno

Uma trágica lenda do nosso futebol é pano verde de fundo para discussão mais ampla.

Nada mais apropriado às vésperas da segunda Copa do Mundo no Brasil — a primeira, em 1950 — para revermos a biografia de um jogador de futebol totalmente esquecido daquela época e de quebra entendermos um pouco como o processo de modernização do esporte retirou todo o romantismo de uma era e transformou os esportistas em meras figurinhas de um álbum prestes a expirar.

E a expiração desse álbum está cada vez mais rápida: jogadores migram de clube para clube, e os próprios clubes começam a passar de mão em mão sem qualquer vínculo à sua história e tradição. O que fica para trás — mas isso é um mero detalhe — é a vontade de jogar. O futebol perde-se no meio de tantas cifras, incalculáveis para o reles mortal.

Tudo isso bate de frente com a visão que o diretor José Henrique Fonseca (O Homem do Ano) tenta dar para o ídolo Heleno de Freitas, ajudado pela fotografia incomparável de Walter Carvalho (Central do Brasil, A Febre do Rato), que utiliza um preto e branco cheio de contraste, o que nos remete diretamente tanto para o símbolo do time em que Heleno jogava, o Botafogo do Rio, quanto para todo o romantismo de uma era. Muitas das cenas, principalmente as externas, utilizam essa estilização fingindo as limitações da época.

Heleno, mulherengo inveterado, mas jogador acima de tudo, é interpretado como que numa incorporação quase espiritual por Rodrigo Santoro. O seu overacting controlado aqui serve como uma luva, pois todo o drama e tragédia vividos pelo jogador nunca conseguiriam ser transpostos para a tela sem a ajuda da caracterização de Santoro (e que aqui também produz o filme). Perto do Heleno de Santoro, todos os outros personagens são meros coadjuvantes necessários, o que não é um defeito, mas mais um toque de gênio da dupla Fonseca/Caralho, que entendem que uma figura egocentrada como Heleno precisa de um filme só para ele.

Curioso constatar que o próprio futebol fica em segundo plano, e nunca sabemos de fato quem foi Heleno jogador. O que sabemos saiu na mídia ou da boca do próprio Heleno. E ambos, é preciso lembrar, antes de 1950 estavam criando deuses do futebol, indestrutíveis e inabaláveis. Até um templo — o Maracanã — acabou sendo construído para os rituais de adoração. A indignação do próprio Heleno de não ter jogado ainda nesse templo ilustra bem a visão que existia na época pré-futebol-arte.

Ao nos mostrar o fim e o ápice de Heleno, acompanhamos apenas sua trajetória em direção ao buraco do esquecimento. Sua lenta descaracterização merece aplausos, principalmente pela sua última frase, seu último pensamento, a respeito de si mesmo, e, por que não, a respeito de todo ídolo honrado do esporte nacional.

O Som ao Redor

January 12, 2013 in Cinema

Idem. Brasil, 2012. Director: Kleber Mendonça Filho. Stars: Irma Brown, Sebastião Formiga and Gustavo Jahn.


kleber mendonca filho

Filme sem roteiro definido é reflexo de nossa sociedade em estado de putrefação moral.

O Som ao Redor não é o tipo de filme que a gente consiga descobrir através da sua história qual o tema e a opinião do diretor sobre o que ocorre na tela. A coisa toda está mais como um espelho, onde nossa observação dos fatos e a sua interpretação — sobretudo moral — é que irá inserir um significado. Mesmo assim, dadas as devidas proporções, todo filme possui essa liberdade de interpretação. Do contrário, nem existiria crítica, pois todas as respostas estariam no filme, e não haveriam perguntas.

Acompanhamos a vida das pessoas de uma pequena rua em um bairro de classe média. Não somos propriamente apresentados a eles, mas o vemos meio como quem espia a vida alheia. No caso, várias vidas alheias. O tom de realidade é dado não apenas por interpretações convincentes de todo o elenco como pessoas comuns, como pela ausência completa de trilha sonora. O filme honra o seu título e possui percursão musical, temática e transitória através do aumento e diminuição do volume de determinados sons presentes no próprio ambiente e que — esses sim, nos são apresentados desde o começo, em um plano sequência de uma menina andando de patinete dentro de um condomínio. A sinfonia que se forma pelos lugares por onde passa é o suficiente para que identifiquemos boa parte dos ruídos que ouviremos deslocados de cena, mas presentes, de certa forma, no momento que percebemos que todas as vidas ali mostradas estão ligadas em maior ou menor grau.

E qual o tema sugerido? Uma resposta das mais óbvias seria sobre a moralidade daqueles cidadãos.

Vejamos um pequeno exemplo para não nos estendermos demais: o toca-CDs da amiga de um personagem é roubado por um dos vizinhos, que — coincidência ou não — é seu primo. Após uma visita nada cordial — afinal, antes de acusar os outros, esteja certo de não insultar sua honra, mesmo que a pessoa seja culpada — o aparelho é devolvido. Só que se trata do seu aparelho, mas de outro. A decisão dela foi ficar com esse mesmo, que parecia até melhor do que ela tinha.

Pois bem. Quem defenderia a inocência dessa mulher, de que ela não sabia que esse também era produto de um furto? Não precisa ser muito inteligente para saber disso, mas talvez exija um grau de moralidade muito acima da média, o que é uma triste notícia para nós como seres humanos.

E isso é apenas um exemplo, mas existem vários que, apesar de não serem escancarados, o fato de serem sutis é mais um sintoma de que talvez tenhamos chegado em um nível de degradação moral que, haja o que houver, faríamos o mesmo. O fato de inconscientemente sabermos que se trata de um filme, ou seja, produto de fantasia, faz tudo parecer devidamente encaixado em uma realidade que não nos pertence.

Será mesmo. E é aí que entra o espelho, acusando o espectador sem apontar para ele. Somos responsáveis por esse filme, ou pelo menos o que ele significa. Nesse sentido, O Som ao Redor tem muito a dizer como um filme para uma sociedade que acha tudo isso normal.