O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

December 14, 2012 in Cinema

The Hobbit: An Unexpected Journey. EUA/Nova Zelância, 2012. Director: Peter Jackson. Writers: Fran Walsh (screenplay), Philippa Boyens (screenplay). Stars: Martin Freeman, Ian McKellen, Elijah Wood, Hugo Weaving, Cate Blanchett, Andy Serkis, Christopher Lee and Richard Armitage.

Uma nova jornada se inicia sem a riqueza épica da trilogia anterior.

Baseado no romance de 310 páginas escrito por J. R. R. Tolkien — conhecido aqui no Brasil como “O Hobbit ou Lá e de Volta Outra Vez” — e dirigido por Peter Jackson (trilogia Senhor dos Anéis), a história do pequeno hobbit em sua jornada na companhia de 13 anões e um mago foi dividida em três filmes. Esse texto diz respeito ao primeiro deles, “Uma Jornada Inesperada”.

A introdução que conta a história da montanha habitada por anões e que é subitamente atacada por um gigantesco dragão (Smaug) é sucinta e não desperta o mesmo fervor da fábula épica iniciada em “Senhor dos Anéis — As Sociedade do Anel”. Da mesma forma a solução apresentada pelo roteiro escrito a oito mãos (!) para que o jovem Bilbo Bolseiro (Martin Freeman, Sherlock) participe da empreitada junto com os anões que decidiram reconquistar sua terra soa desproporcional à sua vontade de viver uma aventura. Isso por si só enfraquece toda a premissa. (E depois que este quinto hobbit aceita sair do conforto do seu condado para viver agruras na inóspita Terra Média, começo a duvidar do caráter caseiro dessas curiosas criaturas.)

Mesmo assim, “O Hobbit” ganha forma através não de Bilso, mas do mago Gandalf (Ian McKellen), que aqui mexe muito mais com o destino de seus companheiro do que na jornada anterior, chegando a sugerir ações futuras para dois deles. Sempre simpático e hábil em lidar com as criaturas do universo criado por Tolkien, é o único personagem que consegue surpreender sem exagerar.

E se a música-tema cantada pelos anões na noite em que se reúnem pela primeira vez é encantadora, já não é tanto a atitude de Jackson em empregar os mesmos acordes de Howard Shore incessantemente durante toda a narrativa, o que pode perigosamente a enfraquecer nos momentos primordiais de ação.

E já que falamos de ação, não são as cenas movimentadas que impressionam o espectador atento com aquele universo, mas dois diálogos especialmente inspiradores e que, realizados praticamente sem qualquer vínculo com os anões ou o próprio destino de Bilbo, curiosamente seus participantes são as figuras mais interessantes da trilogia anterior, o que é um alívio.

Com uma conclusão satisfatória, mesmo que saibamos se tratar de apenas um terço do livro, “Uma Jornada Inesperada” estabelece a jornada da mesma forma com que foi feito em “A Sociedade do Anel”, mas sem o tom épico, sem a força da jornada espiritual e, principalmente, sem um fio condutor que nos diga o que é importante nesse universo tão rico e fascinante.

 

Sobre os 48 fps

Uma nova tecnologia nasce no Cinema. Pode ser revolucionário ou temporário. Vai depender, como sempre, dos espectadores.

Como cinéfilo, preciso apontar minha satisfação em detectar algumas vantagens na nova forma de projeção, principalmente aliado ao 3D: geralmente mais escuro por motivos óbvios — apenas metade da luz passa por um óculos 3D, a outra metade serve para dar o efeito de profundidade — a exibição de um quadro a mais por segundo consegue dar mais nitidez às cenas noturnas ou com pouca luz. Se antes o que víamos era um borrão escuro, agora pelo menos temos a chance de observar pequenas nuâncias e texturas.

Da mesma forma, a mesma nitidez em vermos o dobro de quadros por segundo permite que Peter Jackson em O Hobbit possa mover sua câmera com mais velocidade e mesmo assim não perdermos o foco ou o senso de profundidade. Acostumados a perder um pouco do movimento do cenário quando a câmera se move, em 48 fps parece que a ação nunca se perde, e os contornos dos objetos continuam, independente de quanta ação está sendo mostrada na tela.

Agora, os defeitos (sim, eles existem): quando usado em cenas com a luz do dia, os atores parecem exatamente o que são: atores. Ou seja, não há aquela suspensão de realidade criada pelo filtro fotográfico aplicado na pós-produção nem pela perda de silhueta quando os personagens se movem. O que vemos é a performance muito próxima a de um teatro. Isso pode quebrar em um primeiro momento para os cinéfilos mais atentos o que chamamos de imersão cinematográfica. O risco é que para o espectador comum, acostumado a televisores que já utilizam esse efeito “estragando” a visão original de diretores como James Cameron em Avatar fazendo o filme se parecer com um telejornal.

Se esse espectador médio, não-exigente por padrão, começar a apreciar esse novo formato na sétima arte, poderemos ter mais um dilema indústria x arte no Cinema.

O Lobisomen

November 24, 2012 in Home Video

The Wolfman. EUA, 2010. Direção: Joe Johnston. Roteiro: Andrew Kevin Walker (screenplay), David Self (screenplay). Elenco: Benicio Del Toro, Anthony Hopkins and Emily Blunt.

Benicio del Toro, Antony Hopkins e Emily Blunt em um projeto desperdiçado.

Desde o início é possível perceber que a fotografia e a direção de arte usadas para narrar a lenda do homem que se transforma em “lobo”, ou fera, é de uma beleza ímpar, estetizada ao máximo e que cobre os cenários de maneira quase onírica, já lembrando do caráter lendário do monstro em questão. No entanto, toda essa beleza acaba sendo desperdiçada em uma história pedestre, que transforma os personagens em meras caricaturas, e suas relações absurdas fazem cair abaixo o teor realista da trama.

Narrando o drama de Lawrence Talbot (del Toro), que deve retornar à sua terra natal para o enterro do irmão Ben (Simon Merrells) e consequentemente rever o há muito visto pai John (Hopkins) e de maneira surpreendente sua cunhada Gwen (Blunt), a causa da morte brutal pode ter sido um ser que os nativos acreditam ser um monstro mítico que surge em noites de lua cheia e só pode ser abatido por uma bala de prata (durante quase todo o tempo o nome “lobisomen” não é pronunciado). Assustados pelo visitante daquela família já amaldiçoada pela morte da matriarca (um evento narrado rapidamente nos pensamentos de Lawrence), além da má-vinda comunidade de ciganos, que acampa próximo do vilarejo e cuja cultura alimenta a natureza do suposto monstro.

A situação se complica exponencialmente quando o próprio Lawrence é vítima da fera, mas não é morto, permanecendo ferido e, na visão do povo, um ser amaldiçoado eternamente e cujo único fim sadio para o vilarejo é o sacrifício. Juntando desastrosamente elementos de filmes de aventura, terror, “Robert Rodriguez” (como uma mão arrancada que atira e uma cabeça arrancada que fala) e tentando ao mesmo tempo manter o clima dramático de sua história, a direção de Joe Johnston parece não ter a menor noção de qual o tom que irá empregar em sua história, evitando ao máximo impor uma linha temática e investindo em tudo que tem à frente: ótimos efeitos digitais, um ótimo elenco e cenários de encher os olhos.

Infelizmente, tanta pomposidade não corresponde à história e nem aos seus personagens, que são obrigados a seguir linhas absurdas do roteiro de Andrew Kevin (A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça) e David Self (A Casa Amaldiçoada, o que diz muito). Há uma necessidade perene, por exemplo, em tentar criar um romance entre Lawrence e Gwen que simplesmente não funciona e não faz sentido. Ao mesmo tempo os motivos de seu pai John de ter feito alguns atos do passado de qual não se arrepende são pedestres e cheiram a decisões tomadas próximas do final das filmagens.

Baseado no longa de 1941, escrito por Curt Siodmak, essa refilmagem, embora plasticamente impecável, carece de uma alma que a acompanhe, lhe defina e que consiga fazer parte do imaginário do espectador, que não sabe se espera por cenas de ação, um drama pessoal ou simples terror gore no “melhor” estilo de Robert Rodriguez ou Guy Ritchie.

Xingu

April 18, 2012 in Cinema

Idem. Brasil, 2012. Direção: Cao Hamburguer. Produção: Fernando Meirelles, Andrea Barata Ribeiro, Bel Berlinck. Roteiro: Elena Soarez, Cao Hamburger, Anna Muylaert. Fotografia: Adriano Goldman, ABC. Elenco: João Miguel, Felipe Camargo, Caio Blat.

A idealização do mundo índio ameaçando a verdadeira aventura no Centro-Oeste brasileiro.

É um sintoma relevante do Cinema no Brasil que os temas mais polêmicos — salvo jovens clássicos como Cidade de Deus e Tropa de Elite — sofram uma obliteração criativa. Xingu, novo trabalho de Cao Hamburguer na direção (O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias), com produção de Fernando Meirelles (que dispensa apresentações), não consegue fugir desse estigma completamente, embora tenha seus bons momentos.

Baseado nas experiências que três irmãos passaram durante uma expedição de reconhecimento de áreas inabitadas no Brasil o filme busca traçar uma relação entre os históricos Villas-Bôas e suas versões fictícias. Com narração em off de um dos irmãos o filme segue um rumo didático e burocrático, salvo os empolgantes momentos de ação ampliados pela ótima trilha sonora. Os pensamentos narrativos depois de um certo momento nem mais importam, pois o impacto gerado pelo encontro entre os índios e a nossa civilização dispensa palavras (em que língua deveriam elas ser ditas?).

Porém, em troca dos ótimos momentos silenciosos entre dois povos no meio da mata virgem há uma mensagem idealizada/romantizada a respeito da situação dos ingênuos e incapacitados índios após a chegada dos brancos maldosos e gananciosos que simplesmente fica difícil de engolir. Podemos sentir esse ponto de vista unilateral não apenas nos representantes do governo central estereotipados mas também na fotografia granulada que nos remete para uma realidade utópica e distante. Se não é o bastante, a própria visão desgarrada do mundo real de Cláudio Villas-Bôas é destruída por ele próprio e seus impensados atos.

A Invenção de Hugo Cabret

February 25, 2012 in Cinema

Hugo. EUA, 2011. Direção: Martin Scorsese. Roteiro: John Logan. Elenco: Asa Butterfield, Chloë Grace Moretz, Ben Kingsley, Sasha Baron Cohen.

O novo filme de Scorsese brinca com outro gênero em outra linguagem.

Hugo é o primeiro filme em 3D do mestre Scorsese e, é preciso dizer, nesse caso o uso da tecnologia é totalmente justificado. Abordando uma história que gira em torno do cinema e seus primórdios, a ideia de “separar” a criação de filmes antigos do próprio filme cria um exercício metalinguístico admirável e uma aventura extremamente emocionante.

Ainda mais um pouco sobre a linguagem aplicada, esse 3D é muito bem feito, e difere de filmes anteriores principalmente pela velha questão do foco. Em Avatar, por exemplo, último exemplo que me lembro de 3D “de verdade”, James Cameron ainda aplica o foco de maneira binária nos personagens, se esquecendo que estamos em um cenário com profundidade de campo variável. Já em Hugo o que ocorre é uma perda gradual de foco, com o fundo ficando aos poucos “embaçado”, ou seja, uma simulação de mais ou menos como nossos olhos funcionam em um ambiente como no mundo real.

Além disso, o uso de engrenagens e tomadas internas com longos corredores consegue ajudar a nos ambientar nessa profundidade de campo facilmente, e embora esse recurso seja repetido meio à exaustão, ele é importante para nos situarmos no universo do protagonista. Mesmo as tomadas externas, ainda sofrendo a limitação de em 3D assemelharem-se a maquetes, dentro do espírito fabuloso da narrativa encaixa-se perfeitamente.

Porém, mais do que um filme que homenageia o Cinema, Hugo pretende contar uma história, e essa não funciona tão bem, apesar de ideias e momentos icônicos existirem salpicados durante todo o trajeto. Pra começar, Hugo não é o garoto carismático que o roteiro talvez precisasse de fato, e as provações pelos quais ele passa não o tornam um personagem mais dramático. Aliás, nem as passagens mais leves o tornam mais cômico. Tudo parece surgir como um ensaio para a história real, porque nada adquire peso até que se comece a falar de cinema.

Além do mais, os conflitos principais da história não se sustentam, virando em vez disso meras distrações. O próprio inspetor que persegue Hugo pela estação ferroviária, o sempre eficiente Sasha Baron Cohen, vem em uma versão reduzida, limitada, e não consegue fazer rir como em seus personagens habituais. E se a interpretação de Asa Butterfield como Hugo soa apática e sem quaisquer atrativos, sua companheira Isabelle (Chloë Grace Moretz, de Kick-Ass) se sai infinitamente melhor, mas ainda assim o conceito de filme infantil parece perturbar a cabeça do diretor.

Por fim, mesmo com esses óbvios problemas de caráter burocrático para que o filme conte sua grande história, o fato é que, chegando lá, ele funciona impecavelmente bem, levando facilmente o espectador a esquecer que está em uma sala de projeção e a viajar pela história de um dos criadores da arte de contar histórias. Essas sim, deliciosamente fantasiosas.

Os Goonies

October 13, 2011 in Home Video

The Goonies. EUA, 1985. Direção: Richard Donner. Roteiro: Chris Columbus e Steven Spielberg (história). Elenco: Sean Astin (Mikey), Josh Brolin (Brand), Jeff Cohen (Chunk), Corey Feldman (Mouth), Kerri Green (Andy), Martha Plimpton (Stef), Jonathan Ke Quan (Data (as Ke Huy Quan)), John Matuszak (Sloth), Robert Davi (Jake), Joe Pantoliano (Francis), Anne Ramsey (Mama Fratelli), Lupe Ontiveros (Rosalita), Mary Ellen Trainor (Mrs. Walsh), Keith Walker (Mr. Walsh), Curtis Hanson (Mr. Perkins).

“Um grupo de meninos embarcam em uma aventura após encontrar o mapa de um suposto tesouro escondido.” É com esse argumento simples que se contrói um dos filmes mais empolgantes e divertidos dos anos 80. De fato, a união do roteirista Chris Columbus (O Enigma da Pirâmide), do diretor Richard Donner (Superman — O Filme) e do idealizador Steven Spielberg (precisa dizer algo?) deve ter produzido uma espécie de esfera criativa nunca antes vista, e que até produz ecos na filmografia contemporânea, em que o exemplo mais recente é o filme-homenagem Super 8, de J.J. Abrams.

Porém, seríamos injustos se deixarmos de fora Dave Grusin e sua inspirada trilha sonora, que não cria uma música marcante (essa foi tarefa de Cindy Lauper), mas evoca em suas notas memoráveis o espírito de aventura e do deslumbramento infantil.

O núcleo da história se inicia com a dupla de irmãos Mikey (Sean Astin, o Sam de Senhor do Anéis!) e Brandon Walsh (Josh Brolin), que se preparam para mudar porque empresários almejam construir um campo de golfe no lugar de sua casa, que poderá ser salva apenas com dinheiro suficiente para parar a construção. Porém, quando Mikey, junto de seus amigos Chunk e Mouth (Corey Feldman, Conta Comigo), encontram um mapa que pertencia a um suposto pirata que há muito tempo atrás esteve na região, eles começam uma espécie de caça ao tesouro. Porém, um dos lugares investigados é justamente o esconderijo dos irmãos Fratelli, uma família de bandidos que acabou de soltar o irmão da prisão.

A série de acontecimentos que se seguem são primorosamente capturadas e editadas em um ritmo cada vez mais empolgantes por Michael Kahn, editor habitual de Spielberg. O que parecia uma história besta, então, se transforma em um filme digno de aplausos por abraçar sem reservas o ponto de vista das crianças e a sua aventura, contando para isso com movimentos de câmera acelerados, trilha sonora que remete ao deslumbramento dos pequenos, e até a fotografia de Nick McLean ajuda enormemente, por exemplo, ao evocar a caverna escondida com luzes douradas, alusão ao clima lúdico da aventura, em detrimento às luzes frias e escuras das cenas externas (a própria casa dos irmãos é retratada com menos luz, enquando o mapa encontrado no sótão já contém traços da luz dourada).

Porém, o que impressiona mesmo durante todo o filme é a versatilidade dos atores-mirins, pois cada um desenvolve sua própria personalidade de maneira completamente encantadora, sendo difícil escolher apenas um como favorito. As cenas protagonizadas por cada um deles fascina pela individualidade apresentada em seus personagens, com seus traços mais marcantes (e nesse caso merece menção honrosa a divertidíssima atuação de Jeff Cohen como Chunk e a cena em que ele é interrogado pelos irmãos Fratelli).

Aliás, a liberdade entregue aos atores é fruto da inteligência de todos os idealizadores, que perceberam algo que muitos produtores sequer se lembram quando estão fazendo um filme de crianças: não há nada mais mágico e empolgante que o espírito de uma criança solta em uma aventura, qualquer que ela seja.

Super 8

August 15, 2011 in Cinema

Super 8. EUA, 2011. Direção e Roteiro: J.J. Abrams. Elenco: Elle Fanning (Alice Dainard), Joel Courtney (Joe Lamb), Kyle Chandler (Jackson Lamb), Riley Griffiths (Charles), Ryan Lee (Cary), Gabriel Basso (Martin), Zach Mills (Preston), Amanda Michalka (Jen Kaznyk/AJ Michalka).

É tarefa injusta falar de Super 8 de J.J. Abrams (Lost, Missão: Impossível III , Star Trek) sem ter que enumerar todas as semelhanças/referência/homenagens que este faz para a obra de Spielberg (que aqui – coincidência? – é um dos produtores). Desde o ponto de vista das crianças até a escolha de um vilarejo com características semelhantes à cidade de E.T., somos levados por um grupo de jovens que está produzindo um filme de zumbis e acaba presenciando um acontecimento catastrófico que atinge proporções maiores que eles imaginavam a princípio, e que vai aos poucos tomando conta de toda a cidade.

Créditos: Full Trailers

 

Talvez mais do que uma referência a um filme específico, o que temos aqui seja mais uma homenagem ao próprio Spielberg, pois é fato que o tema recorrente em muitos de seus filmes seja a exploração do desconhecido fantasioso funcionando como um reflexo da própria família, que se encontra distante, e que acaba se aproximando em decorrência do próprio evento.

Porém, diferente do diretor de Contatos Imediatos de Terceiro Grau, que sempre priorizou as emoções de seus personagens e seu deslumbramento diante do desconhecido fantasioso, aqui temos muito mais uma experiência cerebral que propriamente de descobertas. O que é espantoso, pois na maior parte do tempo vemos crianças interagindo, e mesmo assim a espontaneidade surge apenas em raros momentos pontuais, tornando toda a experiência mecânica e burocrática, apesar de esteticamente impecável.

 

Créditos: Cinema em Cena

E impecável digo no sentido estético da palavra. Ao saber da época em que a história se passa através do discreto anúncio no rádio a respeito de um acidente famoso, automaticamente relacionamos o fato com a fotografia usada, adequadamente empalidecida para a época. Porém, além disso, a equipe de efeitos decidiu utilizar uma linha azul brilhante em praticamente todas as luzes em cena, o que, infelizmente, acaba revelando a todo momento, ainda que no inconsciente do espectador, que tudo não passa de um filme.

Créditos: Star Dust Trailers

Por outro lado, o uso constante de tomadas escuras e com cortes rápidos facilita o trabalho de aos poucos revelar o monstro que habita a cidade, o que possui a dupla vantagem de usar uma método muito comum da própria época que representa, quando haviam diversas limitações técnicas para produzir os efeitos visuais que hoje são lugar-comum.

Créditos: Cinema em Cena

 

Com ângulos nada imaginativos, como as panorâmicas que mostram a cidade aos poucos se tornando caótica, e a atuação mecânica da maioria do elenco, a experiência como um todo acaba se tornando um passeio turístico, não fossem algumas pontuais cenas de ação, como o ataque a um ônibus e o resgate de Alice. Além disso, o fato de Abrams sempre evitar se aproximar demais dos dramas das crianças que estamos acompanhando evita que no envolvamos assim como nos envolvíamos (novamente comparando) com o valente Elliott ou a pequena Gertie em E.T. E mesmo as inúmeras gags envolvendo o elenco jovem acaba soando previsível demais, denunciando a falta de timing cômico de Abram nas cenas das mais simples, como quando os meninos precisam arrombar um armário.

Orquestrando uma trilha sonora pouco imaginativa do começo ao fim, com exceção da cena final, que é belíssima, mas soa forçada e apelativa por não conseguir ornar com o resto da história, Super 8 acaba empolgando mesmo nos seus créditos finais, quando vemos o resultados dos esforços da equipe-mirim em produzir o seu ambicioso filme de zumbis.

G.I. Joe: A Origem de Cobra

August 14, 2011 in Home Video

G.I. Joe: The Rise of Cobra. EUA, República Tcheca, 2009. Direção: Stephen Sommers. Roteiro: Stuart Beattie e David Elliot. Elenco: Dennis Quaid (General Hawk), Channing Tatum (Duke), Marlon Wayans (Ripcord), Joseph Gordon-Levitt (Rex), Christopher Eccleston (McCullen / Destro), Sienna Miller (Baroness).

G.I. Joe é um filme tão ruim assim como muitos têm falado? Talvez sim. O fato é que, baseado em uma franquia de action figure produzida pela empresa de brinquedos Hasbro (e vendido no Brasil sob o codinome Comandos em Ação), o filme tenta se firmar nessa superfície frágil e infantil usando conceitos mais infantis ainda que acabam por estabelecer relações entre os personagens absurdamente ilógicas e pedestres.

Existem dois recursos usados durante o todo filme que são particularmente irritantes: na direção nada imaginativa, os diálogos sempre são terminados com um zoom out para fora do veículo submerso onde se encontram; na narração, o passado de cada personagem precisa ser necessariamente contado em flashbacks. Não que eles sejam irritantes por serem repetidos várias vezes, pois um recurso usado com inteligência consegue não se fazer perceber e ainda assim ter sido repetido durante todo o filme. Nesse casos, ambos os recursos são repetidos mecanicamente, sem qualquer sombra de criação dramática, mais parecendo as montagens de séries japonesas seculares como Jaspion e Changeman (e não seria nenhuma surpresa se no final víssemos uma briga de robôs gigantes).


Pior do que se limitar a recursos burocráticos em quase todas as cenas, é o roteiro perceber que ele precisa colocar falas artificiais para tentar fechar sua lógica na história e nos flashbacks, como porque certo personagem fez voto de silêncio.

Porém, mesmo assim, o diretor Stephen Sommers (A Múmia, Van Helsing) e seu habitual montador Bob Ducsay conseguem impor um ritmo interessante no ataque a Paris, utilizando para isso o corte paralelo entre duas perseguições distintas. Pena que essa não é a sequência final, muito mais problemática, tanto no comprimento quanto no problema já citado de fechar as histórias dos personagens.

Créditos das imagens: Cinema em Cena.

Piratas do Caribe 4: Navegando em Águas Misteriosas

June 1, 2011 in Cinema

Pirates of the Caribean: On Stranger Tides. EUA, 2011. Direção: Bob Marshall. Roteiro: Ted Elliott, Terry Rossio e muitos outros. Elenco: Johnny Depp, Penélope Cruz, Ian McShane.

Passamos ilesos por Piratas do Caribe 4. No bom e no mau sentido.

A direção de Bob Marshall resgata o antigo objetivo da Disney em transformar a atração do seu parque de diversões em um longa-metragem que tenha as mesmas características do seu “brinquedo”: um passeio que diverte em pontos estratégicos, localizados em cenários dedicados e com piratas que se parecem com “os de verdade”, porém, é claro, inofensivos. Talvez não uma mera coincidência, os trabalhos do diretor também navegam em águas mornas: acostumado com eventos episódicos típicos do gênero musical (Nine e Chicago estão em sua lista), Marshall repete o feito de nos levar por um simples passeio turístico por sets de filmagem que mal conseguem se unir para contar uma história coesa, tudo sob o rótulo de aventura.

A presença de Penélope Cruz apenas ajuda a termos essa sensação, pois suas participações com Johnny Depp revelam que ambos os personagens, inclusive Jack Sparrow, são tão artificiais quanto todo o resto da cena, causando um ar de repugnância que chega a dar saudades, acreditem só, da participação insípida de Keira Knightley. Para efeito de comparação, os diálogos do casal em constante conflito rivalizam em irritação com o casal principal de O Príncipe da Pérsia, no pior estilo do velho clichê de “eles se odeiam, por isso se amam”. Coincidência ou não, ambas as produções são da Disney.

Como se as coisas não pudessem piorar a partir daqui, dessa vez o inimigo do antigo grupo de piratas não é ninguém menos que a famigerada figura de Barba Negra, que nesse modelito, se chega a assustar, é mais fruto da limitada maquiagem do que a figura criada por Ian McShane, que infelizmente tem em suas mãos um boneco manipulado por um roteiro maniqueísta onde os inimigos possuem apenas a aspiração de serem maus como um fim em si.

Porém, pelo menos essa nova versão de Jack Sparrow se entrega novamente ao auto-deboche, o que acaba sendo o único sinal de melhora desde o fastidioso No Fim do Mundo. A própria cena final confirma o que já estava nas entrelinhas da confusa narrativa. Em um filme cujos pontos de tensão não conduzem a trama alguma e, se tentam, desistem no meio do caminho, não há, de fato, uma motivação principal por trás do desfile vazio de roupas de pirata e da mesma trilha sonora irritante invadindo toda e qualquer cenazinha de ação, sob o pretexto de, aí sim, tentar encaixar uma unidade: a de história de pirata com Jack Sparrow e muita aventura.

Infelizmente, apenas isso não sustenta uma narrativa no mínimo interessante.

Hop – Rebeldes sem Páscoa

May 1, 2011 in Cinema

A cada cinco minutos do filme, a cada cena obviamente maquiada e implantada na narrativa da maneira mais artificial possível, eu me fazia uma nota mental que dizia sempre a mesma coisa: “É um filme feito pra Páscoa; pra ESSA Páscoa”.

E no fundo, essa é uma maneira sensata de classificar Hop, que agora faz parte das famigeradas produções que não serão lembradas nunca mais. Se forem, da mesma forma que as pessoas não entenderão por que diabos Luciano Huck está dublando um (futuro?) clássico da Disney, ficarão pensando quais são aquelas músicas usadas no filme com o coelho engraçadinho cuja única ação toda hora é: fazer coisas engraçadinhas.

Pontos fortes: Penny, você por aqui?!

Pontos fracos: É Natal, que legal, pega no meu…

Jumper

April 27, 2011 in Home Video

Em vários momentos de Jumper, principalmente na sua conclusão, podemos quase sentir o desperdício quase completo de uma boa ideia para um filme mais intrigante do que se transformou na realidade.

Apesar de vermos, por exemplo, alguns cortes “inovadores”, em que o personagem com poderes avança vários metros à frente da calçada e a câmera faz uma mudança de foco dele para ele mesmo, e ainda que algumas cenas de ação sejam extremamente efetivas, como a perseguição de um Jumper pelo outro através dos lugares que este vai, não há nada mais vazio que a razão de ser dos paladinos, que acabam por representar, em seu máximo, uma desculpa boba para ação.

Fora isso, temos um par romântico que chega a fazer frente ao casal apaixonado de Transformer, dada sua futilidade para a história e a falta de uma evolução significante nos personagens para que sequer existe, mais uma vez, um sentido dessa relação ser contada.

Não contente em nos jogar simplesmente para uma conclusão simplista, temos aí uma dupla decepção, com o final com a mãe, que mais deixa questões do que resolve, e o desfecho com o paladino-mor, tão infantil, mais uma vez, do que o desfecho do próprio Transformers.

Sem contar a falta de imaginação, pois os dramas dos dois únicos Jumpers vistos no filme são semelhantes demais, dando a impressão que o que os faz serem assim são o problema com os pais.

Pontos fortes: a montagem é envolvente e inovadora, dadas as características da história, e temos portanto diversas cenas de ação extremamente efetivas.

Pontos fracos: toda essa ação, contudo, está recheada de uma história insossa, que nos fazer bocejar enquanto o protagonista viaja pelos lugares mais distantes em um piscar de olhos.