Celebrity. EUA, 1998. Director: Woody Allen. Writer: Woody Allen. Stars: Kenneth Branagh, Judy Davis and Leonardo DiCaprio.
Seriam as celebridades de um povo reflexo de sua sociedade?
O que dizer da fase Woody Allen onde ele se propôs a produzir um filme por ano e consegue reunir um elenco tão afiado que conseguem desempenhar papéis que, mesmo longe do seu brilhantismo, participam do universo do diretor de maneira tão orgânica? Temos aqui dois “Allens”: o escritor/roteirista Lee Simon (Kenneth Branagh), que possui sua baixo auto-estima como gancho de todos os seus fracassos, e sua mulher, a professora Robin Simon (Judy Davis), cuja transformação à base de neurose e uma boa dose de sorte a torna a heroína às avessas da história.
Não há muito foco nos personagens, mas muito mais na atmosfera de Hollywood que faz pano de fundo às situações que testemunhamos. Vendo atores, atrizes, diretores, críticos e toda a fauna reunida como pessoas comuns, Allen destitui todo o brilho desses seres para aos poucos construí-los como mitos de mentirinha, frutos de mero capricho do destino. O que é mais genial no roteiro é que as coisas vão acontecendo de uma maneira tão natural e ao mesmo tempo os eventos sucedem no caminho oposto do que esperaríamos dos seus personagens principais.
O filme começa com a separação entre Lee e Robin. Robin está inconsolada, e parece que nunca voltará à tona. Já Lee encara tudo como um processo natural, e, apesar de romântico, está sempre à cata de celebridades para alimentar o seu ego massacrado pelo fato de saber ser ele um escritor medíocre fadado previamente ao fracasso.A partir daí o espectador precisa se atentar às nuances por trás dos acontecimentos. Nada é ao acaso, mas soa como se pudesse ser.
Com participações inspiradas — com destaque na sequência com Di Caprio — Allen conduz sua orquestra desafinada através de diálogos não particularmente brilhantes, mas que talvez por isso questionem tanto o papel das tais celebridades retratadas em preto e branco. Serão elas de fato o reflexo da sociedade? Como todo bom filmes de Allen, a questão está sempre em aberto.
The Russia House. EUA, 1990. Director: Fred Schepisi. Writers: John le Carré (novel), Tom Stoppard (screenplay). Stars: Sean Connery, Michelle Pfeiffer and Roy Scheider.
Sean Connery faz o tipo canastrão galanteador em um filme de espionagem não-convencional
Baseado no romance de John le Carré, um editor que teve a oportunidade de entrar em contato com um dos gênios da União Soviética logo após o processo de abertura política vira isca dos serviços secreto americano e inglês que precisam saber se a Rússia de fato está acabada como potência. O curioso aqui é o pano de fundo da situação, algo conhecido hoje em dia como a opinião pública pos-Fahrenheit, mas muito provavelmente na época controverso: caso a URSS estivesse de fato acabada o que seria da imponente e latente indústria armamentista americana?
A visão cínica dos dirigentes da missão parecem não perceber o que tramam. Ou pior: talvez saibam. E o final é melodramático demais para uma história tão cínica faz pensar: talvez seja a mensagem final do filme: nada é como parece.
Goodfellas. EUA, 1990. Director: Martin Scorsese. Writers: Nicholas Pileggi (book), Nicholas Pileggi (screenplay). Stars: Robert De Niro, Ray Liotta and Joe Pesci. Film Editing: James Y. Kwei, Thelma Schoonmaker. Cinematography: Michael Ballhaus.
Trabalho de gângsters de Scorsese compete com seu Taxi Driver e Touro Indomável.
A primeira sequência de Os Bons Companheiros começa com os personagens de Robert de Niro (James Conway), Ray Liotta (Henry Hill) e Joe Pesci (Tommy DeVito) tendo que parar o carro para dar fim ao corpo que ainda insistia em manter-se vivo no porta-malas. A violência gráfica com que isso ocorre é sanguinária tanto na luz quanto no ato que ocorre na traseira do veículo. Quando acompanhamos o crescimento de Henry entre os gângsters e voltamos novamente a essa cena é como se fizéssemos já parte do grupo: da gangue e da família que estes formam.
Não há limites para a violência filmada por Scorsese, mas há sempre um motivo muito claro para ela acontecer, nem que seja um acesso de raiva de Tommy, que, já sabemos, parece explodir pelo menor dos motivos de uma hora para outra. O interessante é acompanhar como Henry encara a impulsividade de Tommy, pois esta é a história de um homem que pertence ao grupo dos “Goodfellas”, mas parece manter um dos olhos abertos.
Filmado com uma fotografia absolutamente soberba, de comparar-se a outra obra máxima, O Poderoso Chefão, não possui quase nada comparável ao filme do Copolla mesmo ambos sendo filmes de máfia. A exceção óbvia fica por conta do seu virtuosismo técnico, presente em ambos. Já acostumado com uma equipe que equilibra fotografia, direção de arte e trilha sonora à altura do roteiro e direção impecáveis, como pode ser visto em Taxi Driver e Touro Indomável, Scorsese ainda conta com a magnífica montadora Thelma Schoonmaker, que junto com James Kwei tornam a tarefa de acompanhar mais de duas horas de tensão e envolvimento agradável graças às belíssimas transições.
Não há mais nada a dizer sobre Goodfellas por enquanto, pois é um filme que deve ser degustado com certeza mais de uma vez. A primeira é uma imersão tão completa que acabamos fingindo não se tratar de um filme. É a vida real, romantizada, dramatizada, mas tão real que fica difícil separar os elementos que formam a obra de arte.
The Lion King. EUA, 1994. Direção: Roger Allers e Rob Minkoff. Roteiro: Irene Mecchi, Jonathan Roberts e Linda Woolverton.
Elenco original: Matthew Broderick (Simba Adulto), Niketa Calame (Jovem Nala), Jim Cummings (Ed), James Earl Jones (Mufasa), Nathan Lane (Timão), Ernie Sabella (Pumba), Jeremy Irons (Scar), Robert Guillaume (Rafiki), Rowan Atkinson (Zazu), Moira Kelly (Nala Adulta), Whoopi Goldberg (Shenzi), Cheech Marin (Banzai), Madge Sinclair (Sarabi), Jonathan Taylor Thomas (Jovem Simba).
Elenco brasileiro: Garcia Júnior (Simba Adulto), Patrick de Oliveira (Simba criança), Jorgeh Ramos (Scar), Carla Pompilho (Nala), Paulo Flores (Mufasa), Mauro Ramos (Pumba), Pedro Lopes (Timão), Pádua Moreira (Zazu).
Clássico Shakesperiano em visão infantil.
O Rei Leão visto como deve ser visto — ou seja, em 2D — consegue impressionar pela síntese dramática que escolhe para não tornar o programa demasiadamente infantil para o seu principal público-alvo (as crianças) mas consegue se manter íntegro e representar de maneira irretocável a contribuição Disney para manter viva a lenda e uma das peças mais conhecidas de Shakespeare: Hamlet.
Quando eu digo íntegro quero dizer que até mesmo temas que hoje em dia são covardemente evitados mesmo entre o público adulto como a morte e o sexo são inseridos na narrativa e com direito a uma trilha sonora excepcional, que consegue oscilar dinamicamente entre a comédia e o drama épico como ondas que se formam durante a história.
Criando personagens de maneira econômica, mas que se firmam na narrativa pelo que representam — o macaco sábio, os palhaços salvadores de Simba, a princesa como elo com o passado, o criado fiel —, a história se entrelaça de maneira simples o suficiente para que os espectadores infantis entendam o destino de Simba, mas de forma complexa o suficiente para que entendamos toda a filosofia por trás da alegoria com animais, como o reino decadente e o significado da nobreza.
Com uma conclusão que aspira por aplausos em pé, o uso da metáfora do círculo da vida nunca foi tão significativo e poderoso.
Idem. EUA, 1994. Director: Quentin Tarantino. Writers: Quentin Tarantino (story), Roger Avary (story). Stars: John Travolta, Uma Thurman, Tim Roth, Amanda Plummer, Eric Stoltz, Bruce Willis, Ving Rhames, Rosanna Arquette, Maria de Medeiros and Samuel L. Jackson.
Filme de gângsters é expressivo pelas suas parábolas em uma realidade escabrosa.
Segundo trabalho de Quentin Tarantino (Cães de Aluguel, Kill Bill), Pulp Fiction é seu filme com o roteiro mais intenso, e talvez um dos melhores representantes do seu gênero no quesito introduzir perigosos criminosos em seu dia-a-dia.
Mas qual é o significado de Pulp Fiction? Ora, o próprio Tarantino explica no início, colocando a descrição literal do dicionário American Heritage após acompanharmos um diálogo de um casal que decide assaltar o restaurante onde estão tomando café-da-manhã:
PULP [pulp] n. (POLPA)
1. A soft, moist, shapeless mass or matter.
2. A magazine or book containing lurid subject matter and
being characteristically printed on rough, unfinished paper.
(Tradução:
1. Uma massa ou matéria suave, úmida e disforme.
2. Uma revista ou livro contendo assunto escabroso e
sendo caracteristicamente impresso em papel áspero, inacabado.)
Note como o significado que procuramos está na segunda posição do dicionário, justamente o que nos remete diretamente ao estilo “Lado B” da produção, que não possui um plot grandioso, mas que ao mesmo tempo consegue imprimir qualidade em cada um dos seus enquadramentos através da estilização ao máximo de sua ideia de extravasar os acontecimentos “escabrosos” que ocorrem na tela.
Note que não há protagonistas humanos, apenas meros coadjuvantes desses acontecimentos e uma maleta. Não podemos dizer que Marcellus Wallace (Ving Rhames) desempenhe o papel principal mesmo que boa parte da história seja parte dos seus planos, já que boa parte de tempo em tela se divide em torno de três personagens: a dupla de assassinos Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winfield (Samuel L. Jackson) e Butch Coolidge (Bruce Willis), um lutador em fim de carreira que vende sua luta para o mafioso.
No entanto, mesmo eles não desempenham função primordial à narrativa. No fundo, até as cenas de ação são periféricas à história, que prefere focar no que os personagens fazem quando coisas estranhas acontecem. O primeiro diálogo entre Vincent e Jules, a respeito ao período em que o primeiro esteve na Europa e as diferenças culturais com Los Angeles, é sintomático nesse sentido, pois é esse formato que será adotado para apresentar seus personagens, sem grandes tramas ou algo do gênero. São pessoas comuns, ligadas ao crime, mas que merecem aqui uma visão ordinária, quase corriqueira, da vida.
E o que é a vida para essas pessoas? Muito parecida com a de qualquer um de nós: problemas no serviço, tarefas complicadas, a tentação da traição, o inesperado. Não é à toa que o tom casual da narrativa não se esforce sequer em colocar os eventos em ordem cronológica. Se tornaria inútil, pois o que vemos é um estudo de personagens e não um conflito que precisa ser resolvido. Podemos até dizer que há dois conflitos principais: a entrega da maleta misteriosa para o Sr. Wallace e os acontecimentos antes, durante e após a luta de Butch. São determinantes? Eu não diria isso.
E se eu disser que mais fascinante do que esses dois conflitos é toda a sequência, irretocável, da noite de Vincent Vega e Mia Wallace (Uma Thurman), tendo o ápice em uma dança de twist, culminam em uma overdose que pode ser tão bem aplicada a Mia quanto a nós mesmos, imersos em uma realidade tão comum quando extraordinária, banhada de músicas que parecem ter sido feitas para cada cena? Ao mesmo tempo, como explicar que mais intrigante do que a forma com que Jules executa suas vítimas recitando um trecho da Bíblia, que conhece de cor, não se compara à própria psique do sujeito, para quem o significado dessa passagem adquire inúmeras interpretações em sua mente, especialmente após ter testemunhado algo que considera um milagre? Quer algo mais intrigante que isso? Compare toda a história da dupla através das três interpretações que Jules entrega para o espectador no final do filme. O que temos? Nada conclusivo.
No fundo, a montagem do filme não poderia ser feita de outra maneira. Caminhando lado a lado dos seus personagens, Tarantino consegue extrair o mais inusitado que qualquer um conseguiria em um filme de gângsters: sua alma de pessoas comuns que por mero capricho de acontecimentos “Pulp” estão onde estão. Não importa como chegaram ali, mas entender o que fazem a partir disso é que faz toda a diferença.
A Bug’s Life. EUA, 1998. Direção: John Lasseter, Andrew Stanton. Roteiro: John Lasseter (original story), Andrew Stanton (original story). Elenco: Kevin Spacey, Dave Foley and Julia Louis-Dreyfus.
Historinha politicamente correta e chata da Pixar.
Conta a história de um formigueiro que é ameaçado por gafanhotos e assim é obrigado a colher todos os alimentos da pequena ilha em que moram para oferecer aos insetos voadores, maiores e feiosos. A fábula, que se assemelha a um conto infantil, possui momentos inspirados em épicos mais adultos (Spartacus), onde um grupo opressor é o que separa os heróis de sua liberdade e consequente felicidade/prosperidade.
Dito isso, Vida de Inseto poderia ser um exercício filosófico e humano caso não se desse tanto ao trabalho de dar voltas em seu roteiro que entregam piadas prontas que funcionam até certo ponto, apesar de ficarem aquém da criatividade dos seus criadores, que inventam um mundo inteiro acontecendo em pouco mais que um quintal e que é rico em detalhes subaproveitados, como na rápida sequência do circo.
Presos à necessidade boba de serem fiéis a uma cartilha de moral e finais esquemáticos — como a exigência de um casal plato-romântico — a adequada conclusão não entrega mais que o óbvio.
Total Recall. EUA, 1990. Direção: Paul Verhoeven. Roteiro: Ronald Shusett, Dan O’Bannon, Gary Goldman, Philip K. Dick (conto). Elenco: Arnold Schwarzenegger, Sharon Stone, Michael Ironside, Ronny Cox.
Ficção científica de primeira qualidade (e com violência gráfica!).
Roteirizado por Ronald Shusett e Dan O’Bannon, duas figuras envolvidos desde o início na série Alien, a história digirida pelo visceral Paul Verhoeven consegue a proeza de ser um filme e tanto de ação e se basear em uma premissa que — diferente do remake recente — consegue se tornar ambígua até o final: tudo que estamos vendo é de fato real ou é apenas um sonho implantado pela companhia que leva o título original?
Construindo seu pano de fundo desde o início através de um telejornal que mostra que o humanos no futuro já estão colonizando Marte e produzem ali um minério cobiçado pelo Planeta Terra, que parece contudo menosprezar os habitantes do planeta vizinho, o governador do local, Vilos Cohaagen (Ronny Cox) tenta manter a colônia livre dos rebeldes, que lutam por maiores liberdades e ter o direito, por exemplo, de respirar o escasso ar do planeta sem precisar com isso de se matarem de trabalhar nas minas de Cohaagen.
Paralelo a isso vemos a história de Doug Quaid (Schwarzenegger), um homem simples que trabalha como operário e que gostaria de um dia poder visitar Marte, talvez pelo fato de ter estranhos sonhos que o relacionam ao planeta e a uma jovem que aparentemente é sua namorada (Rachel Ticotin) alternativa. Alternativa mesmo, pois Quaid é casado com Lori (Sharon Stone), que não entende tanta fixação por Marte.
Os problemas de Quaid começam quando ele decide realizar um implante e “fingir” ter passado duas semanas de férias em Marte sem a presença da esposa. Contudo, os funcionários da Total Recall, a empresa que realiza essa maravilha tecnológica, percebem que sua mente já possui algum tipo de bloqueio mental e que no fundo sua vida na Terra pode ter sido no fundo uma grande mentira implantada em questões de semanas, mas que para ele é a única coisa que se lembra.
Brincando com o próprio conceito cinematográfico de não conhecermos (ou não vermos) o passado dos personagens, mesmo que eles sejam vitais para a história, o roteiro possibilita uma viagem ambígua e inspirada que envolve perseguições e paranóias de espiões. É difícil saber o que é certeza em Marte quando Quaid chega nele. Tanto para ele quanto para nós.
Competente em seu desenvolvimento e empolgante tanto pelas cenas de ação quando pelos efeitos extremamente verossímeis para a época — além dos efeitos de maquiagem que tornam a violência gráfica de Verhoeven um ótimo motivo para revisitar os filmes dos anos 80/90 e suas mortes “de verdade”. No entanto, arrebatador em seu ato final, quando percebemos a grandeza dos acontecimentos com nossos próprios olhos. Quer dizer, talvez sim, talvez não. A conclusão fica por conta do espectador.
Paisagem (Peyzazh). Alemanha, 2003. Direção: Sergei Loznitsa. Roteiro: Sergei Loznitsa. Hoje Vamos Construir uma Casa (Segodnya My Postroim Dom). Rússia, 1996. Direção: Sergei Loznitsa.
36a. Mostra de São Paulo
A maneira do russo Sergei Loznitsa fazer documentários é bem não-ortodoxa. Utilizando em Paisagem diversos minutos iniciais sem nenhum áudio apenas girando a câmera em torno de ruas da cidadezinha onde se passa a história, o início do tema — a espera de diversas pessoas por ônibus que as levarão a um destino desconhecido — possui diálogos esparsos e uma câmera igualmente desfocada para qualquer linha narrativa, o que consegue tanto o efeito do espectador considerar insuportável essa experiência quanto começarmos a enxergar o tom documental do filme em uma camada entre o povo da cidadezinha e o fundo de seus projetos e reclamações.
Já “Vamos Construir uma Casa” atribui o projeto de construção de uma casa e seus trabalhadores um ar lúdico ajudado por músicas quase folclóricas da cultura russa. Utilizando o preto e branco como alusões a um tempo passado, o filme é de 96, o que indica a necessidade do autor de estabelecer o ato de construir uma casa algo atemporal e fascinante em qualquer época da história da humanidade.
Há algumas coisas para aprender com o estilo de Loznitsa, mas é pouco para tanto tempo de tela.
The Addams Family. EUA, 1991. Direção: Barry Sonnenfeld. Roteiro: Caroline Thompson, Larry Wilson, Charles Addams (personagens). Elenco: Anjelica Huston, Raul Julia, Christopher Lloyd, Dan Hedaya, Elizabeth Wilson, Judith Malina, Carel Struycken, Dana Ivey, Paul Benedict, Christina Ricci, Jimmy Workman. Direção de Arte: Margie Stone McShirley.
Recriação da tradicional série mantem o que há de melhor: o humor negro.
Com uma Direção de Arte e um elenco afinadíssimo que recria as mesmas piadas e o clima humor negro do antigo seriado da década de 60, A Família Addams possui em seu núcleo Mortiça Addams (Angelica Huston), uma matriarca sedutora que consegue convencer acima de tudo pelos seus esforços de manter a hegemonia da secular família. Que é, aliás, uma família das menos convencionais possíveis: os dois filhos vivem brincando de um torturar o outro e o pai diverte-se com brincadeiras de sedução e luta esgrima (usando espadas reais) com seu contador.
O que existe de mais fascinante no projeto de Barry Sonnenfeld além da recriação da série é a capacidade de estabelecer um clima estranho para que as piadas funcionem (na medida do possível) justamente porque entendemos seus personagens. Dessa forma, é perfeitamente aceitável e hilário percebermos a cara de desgosto de Mortiça quando percebe que os modelos desenhados pelos alunos da escola de sua filha são pessoas desprezíveis para ela e sua família mas amados por todos os outros, como líderes carismáticos.
From Dusk Till Dawn. EUA, 1996. Direção: Robert Rodriguez. Roteiro: Quentin Tarantino, Robert Kurtzman (história). Elenco: George Clooney, Quentin Tarantino, Harvey Keitel, Juliette Lewis, Salma Hayek, Danny Trejo.
Clássico do drama-terror de Rodriguez/Tarantino continua divertido.
Um filme da década de 90 com George Clooney e Quentin Tarantino como protagonistas (e o último como roteirista) e dirigido pela catarse chamada Robert Rodriguez (O Mariachi, Era Uma Vez no México, Planeta Terror, Machete). Não contente com essa reunião extraordinária, o gênero de Um Drink no Inferno oscila elegantemente entre um drama policial (também religioso) e o terror materializado por um bar onde vampiros se alimentam de seus clientes.
Tarantino está assustadoramente trash como o psicopata estuprador Richard Gecko, irmão mais novo do frio e calculista Seth (Clooney), que está tentando fugir para o México com o resultado de um assalto a banco. No caminho acabam sequestrando a família do ex-pastor Jacob Fuller (Harvey Keitel) que no momento sofre de uma crise de fé. Essa crise, como poderemos ver a partir do segundo ato, possui um significado maior do que inicialmente elaborado.
Com cenas tensas construídas desde o início (como a explosão da loja de conveniência), Rodriguez só não perde o controle do absurdo graças ao roteiro coeso e redondo de Tarantino, que consegue extrair desse absurdo um pouco para refletirmos sobre o que não fazer quando estiver cercado por vampiros demoníacos.