Ed Wood

August 22, 2013 in Cinema

Idem. EUA, 1994. Director: Tim Burton. Writers: Rudolph Grey (book), Scott Alexander, Larry Karaszewski. Stars: Johnny Depp, Martin Landau, Sarah Jessica Parker, Patricia Arquette, Jeffrey Jones, Vincent D’Onofrio, Bill Murray, Juliet Landau.

Ed WoodMostra “Ed Wood – o melhor dos piores de todos os tempos”

Talvez o fato do filme sobre Edward D. Wood Jr., o pior diretor de todos os tempos (eleito dois anos após sua morte), ser um dos melhores do diretor Tim Burton, acostumado a flertar com o gênero, seja algo inesperado, mas ainda assim propício para um tema tão metalinguístico. Além de ser a homenagem devida ao diretor trash mais cultuado de sua geração (ou talvez de toda a história do Cinema) o longa de Burton mergulha fundo na atmosfera dos filmes B, onde o fato de ser rodado em P&B ajuda, mas não é só: é fácil entrar nessa dimensão criada pelo diretor a partir de suas duas realidades. O diretor precisa brinca com o gênero e ao mesmo tempo é um narrador onisciente de produções típicas. Isso torna muito difícil não adorá-lo como o filme que representa a esperança dos menos afortunados da indústria do Cinema, mas que nem por isso deixam de ser amantes incondicionais da Sétima Arte.

É com essa devoção “artística” incondicional que conseguimos entender a mente de Ed Wood não como alguém uma pessoa de suas limitações — ele se compara a Orson Welles constantemente, citando o fato de assim como ele ser o produtor/diretor/roteirista/ator de seus filmes — e por isso mesmo tão disposto a entregar sua vida a qualquer chance que o permita produzir os seus filmes de acordo com sua visão. Ed representa como ninguém o ponto de vista de diretores quase sempre medíocres como Michael Bay (Transformers) ou Paul W.S. Anderson (Resident Evil): eles acreditam piamente estarem fazendo filmes bons.

O trunfo do filme é nos fazer concentrar na figura do cineasta como um realizador que através de sua criatividade e amizade com Bela Lugosi conseguiu produzir os filmes que queria. (O fato de Martin Landau viver Bela (aliás, de maneira assustadoramente tocante) também é uma jogada metalinguística de gênio, uma vez que Landau já participou de séries televisivas como Hitchcock Presents e Além da Imaginação, além, é claro, da série Missão Impossível original.)

Ao explorar essa amizade entre os dois cineastas consegue ao mesmo tempo apresentar a figura de Wood como um ser ingênuo de maneira orgânica e até natural, uma naturalidade crucial para que sua força impulsione o filme (além de tocante em vários momentos). Se Martin Landau quase rouba o filme, isso não acontece graças a uma entrega igualmente satisfatória de um Johnny Depp pré-Piratas do Caribe, que não apenas convence o espectador da existência de um ser bizarro como Ed como consegue compreender a proposta de Burton como uma história que se torna mais trágica à medida que acumulamos os seus momentos mais cômicos, invertendo exatamente a proposta original dos filmes de Wood, que visavam o terror/drama e acabaram virando comédias incidentais grotescas.

Porém, não é só com os dois atores que existe essa química. Com a ajuda de um elenco afiadíssimo Burton cria quase uma segunda realidade ao propor que a história de vida do diretor de filmes trash e sua equipe se confundem em uma realidade igualmente trash. Dessa forma, até participações duvidosas (como Sarah Jessica Parker, da série Sex and the City) são usadas a favor da narrativa, e é assim que um ser grotesco com um tom de voz idem (George ‘The Animal’ Steele, que de fato pertence ao mundo da luta livre) consegue se caracterizar como um ator de desempenho eficiente para Wood. Quando questionado se o fato dele quase levar a parede do cenário embora ao tentar atravessar uma porta não iria estragar o take, o diretor responde que prefere deixar assim pelo realismo: “na vida real, ele teria que lidar com esse problema constantemente”.

Aliás, a forma como Burton enfoca a óbvia falta de talento do diretor de maneira sutil (Burton é fã assumido de Wood) é tocante em vários sentidos. Conseguimos observar a propensão a erros do diretor/produtor desde as decisões iniciais do projeto (como ao aceitar qualquer ideia para seu filmes) até a escolha da posição da câmera e dos atores em cenas que obviamente falham em seu objetivo original para o que almejava (e Burton reaproveita as mesmas tomadas utilizando um ângulo que facilite entendermos as reais pretensões do diretor, quase uma releitura de seus fracassos). A forma como ele conduz suas cenas, sem nunca repeti-las e mandá-las direto pra impressão é o sintoma final onde é possível sentir toda a extensão do fracasso de Ed como realizador. No entanto, em vez de humilhar e descaracterizar o personagem como uma figura grotesca por si só, Burton prefere fazer comédia periférica igualmente grotesca (uma panela voando aqui, uma fuga muito doida de uma estreia ali).

Tendo dias para rodar filmes inteiros, a culpa pelos seus fracasos parece não residir apenas em Wood, mas na industria cinematográfica como um todo, e quase o coloca como posição vítima de um negócio lucrativo que coloca a arte em último lugar das suas prioridades (e não é difícil de imaginar que se estivesse vivo hoje ele se mataria com as atrocidades criadas pela tecnologia 3D, embora pudesse criar infinitos filmes com o baixo custo das produções digitais).

A Mostra “Ed Wood” vai até semana que vem (30/08) na Caixa Cultural.

Ninguém é Perfeito

July 13, 2013 in Home Video

Flawless. EUA, 1999. Director: Joel Schumacher. Writer: Joel Schumacher. Stars: Robert De Niro, Philip Seymour Hoffman, Barry Miller.

Ninguém é Perfeito

Dramédia explora o mundo torno dos becos e mistura Desafio no Bron7 e A Gaiola das Loucas.

Robert de Niro é Walt Koontz, um policial aposentado como herói. Philip Seymour Hoffman é Rusty, uma drag queen que canta em uma boate gay em seu próprio show. Ambos vivem em um prédio decadente dos subúrbios, e Walt odeia a ideia de conviver com esses seres bizarros, até que um roubo entre criminosos faz ambos se encontrarem e terem que conviver com suas diferenças.

Não é preciso comentar que ambos os atores são talentosos o suficiente para trazer vida a seus personagens sem os tornarem caricatos. Seymour Hoffman está irreconhecível, mas não particularmente tocante: o tom bizarro do filme impede nossa identificação. O mesmo pode-se dizer de Robert de Niro, que não possui diálogos particularmente inspiradores nem a chance de dizê-los. Porém, esse é um filme mais de momentos, gestos e faces que dizem muito mais sobre o que está ocorrendo em cena.

Exatamente por causa disso, a direção de Joel Schumacher (Batman Eternamente) erra a mão ao não tornar o encontro entre esses dois em algo intimista. A visão geral é que pessoas bizarras existem, e não são exatamente ou apenas drag queens. Talvez seja até o oposto.

Nesse sentido, talvez valha a pena uma revisita a este filme daqui uns anos.

O Mesmo Amor, a Mesma Chuva

July 12, 2013 in Home Video

El mismo amor, la misma lluvia. Argentina/EUA, 1999. Director: Juan José Campanella. Writers: Juan José Campanella, Fernando Castets. Stars: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Ulises Dumont.

Drama político e romance de Campanella.

Juan José Companella dirige pela primeira vez o casal dO Segredo dos Seus Olhos, Ricardo Darín e Soledad Villamil, em um romance leve, episódico e que brinca com as palavras ao vento que digerimos conforme a passagem do tempo faz as pessoas mudarem sua visão de mundo, assim como uma Argentina dos anos 80 em amplas modificações políticas e sociais.

Ricardo Darín como o jornalista Jorge Pellegrini é apenas o olho do furacão que acompanha o processo de redemocratização do país. A morte de um velho colega mexe com todos em volta, e acaba virando um fantasma da redação. A jovem Laura (Villamil) é o combustível que tenta empurrar Jorge para o caminho do sucesso, mesmo este sem o desejo de desengavetar suas ambições literárias. A ironia de Jorge em um momento particularmente hipócrita com Laura reflete a própria ironia da nação. Histórias pessoas se misturam com a história de um povo tentando resgatar sua integridade, e Companella abraça o tema sem dar atenção devida a nenhum dos lados.

O Clube das Desquitadas

June 30, 2013 in Home Video

The First Wives Club. EUA, 1996. Director: Hugh Wilson. Writers: Olivia Goldsmith (novel), Robert Harling (screenplay). Stars: Bette Midler, Goldie Hawn, Diane Keaton.

Comédia romântica datada em menos de 10 anos?

Esse é um espécime da safra de comédias românticas realizadas por atrizes já em meia-idade e que serviu de contraponto para a avalanche de divórcios que o mundo estava presenciando: o casamento não era mais sagrado. Não apenas o casamento, mas nem a orientação sexual (como a filha lésbida de Diane Keaton está lá para provar) é mais algo estável e conhecido por todos.

Nesse sentido, O Clube das Desquitadas seria uma bem-vinda comédia, se não abusasse em demasiado de clichês da época que hoje o tornam mais datado do que deveria (o filme não tem nem 10 anos). Pior: utiliza performances duvidosas de ótimas atrizes para simplesmente divertir em um filme despretencioso de ideias inovadoras. Não é um desastre completo, mas poderia ser melhor aproveitado.

South Park – Primeira Temporada

June 7, 2013 in Séries

Idem. EUA, 1997. Creators: Trey Parker, Matt Stone. Stars: Trey Parker, Matt Stone, Mona Marshall.

Direção: Trey Parker (203 episodes, 1997-2012).

Roteiro: Trey Parker (216 episodes, 1997-2012), Matt Stone (211 episodes, 1997-2012), Brian Graden (123 episodes, 1997-2012), David R. Goodman (89 episodes, 1997-2002), Pam Brady (70 episodes, 1997-2007), Philip Stark (21 episodes, 1997-1999), Dan Sterling (10 episodes, 1997-1998), Andrew Borakove (4 episodes, 1997-1998), Dave Polsky (2 episodes, 1997-1998).

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As crianças nos fazem enxergar o mundo de uma maneira mais limpa.

Comecei assistindo essa animação já “decanária” (10 anos?) recentemente através das temporadas disponíveis na Netflix brasileira. O resultado foi um entusiasmo tão grande e egoísta que praticamente parei o meu ritmo frenético de filmes para reservar boa parte dos meus fins de semana e noites para ir até o último capítulo disponível da versão dublada em português. Posso dizer que aprendi muito sobre a vida, o mundo, a sociedade, e mim mesmo. Cada episódio polêmico me fazia ler os detalhes sórdidos através da Wikipedia, como o clássico Trapped in the Closed, que praticamente me obrigou a rever o “episódio de despedida” de Isaac Hayes em sua versão original, um recorte hilário de dublagens passadas do ator/cantor.

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No entanto, seria injusto ignorar todo o passado desde o programa piloto criado a mão por Trey Parket e Matt Stone, que além da direção e roteiro emprestaram suas vozes para 90% das dublagens dos personagens. É uma obrigação moral acompanhar a evolução de um desenho que me fez pensar mais e rir mais do que os Simpsons, que já são um marco na história das críticas sociais daquele país.

E tudo começa com “Cartman tem uma Sonda Anal”, onde a tosquice completa imperava. Não podia ser diferente. A irreverência ao máximo e as piadas escatológicas/sexuais são o grude primordial usado pela dupla de criadores para alimentar o desenho aparentemente ingênuo, mas que possuía já a semente da auto-crítica, pronta para germinar. Tudo o que tínhamos até o momento era o cômico jogo de “chute o bebê”, mas mesmo isso é algo que nunca faríamos na vida real e que nunca sequer falaríamos que passou pelos nossos pensamentos. Mas, acredite: passou. O ser humano precisa ser sociável e se esquece que é um animal egocêntrico lutando por sua sobrevivência em grupo, e para isso, faz de tudo. Esconde e suprime. Mas está lá. O instinto politicamente incorreto é a porta de abertura para a necessidade de nos definirmos como grupo. South Park estava aí justamente para escancarar algumas verdades sem ressalvas.

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E é por isso que mesmo em sua irregular primeira temporada já podemos observar o crescimento daquele semente relevante e mal-educada. Em Ganhe Peso 4000 já observamos a psique dos perdedores em uma ácida referência a Taxi Driver. Em Vulcão a burrice institucionalizada é vista de perto, seja nas leis de proteção aos animais (“atire, ele vai nos atacar!”) quanto as leis de proteção aos humanos (“vamos desviar a rota de toda essa lava”).

Mesmo as questões ainda inertes em nossa sociedade já começam a tomar forma, como a homossexualidade em A Grande Viagem Gay de Barco (e a própria palavra “gay” será posta em cena 13 anos depois em “The F Word”). De qualquer forma, ainda não é hora de polemizar demais, então ficamos por enquanto nas questões menos controversas, como aquela vez que um elefante fez sexo com uma porca ou quando o avô de Stan pede que ele seja morto.

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E por falar em temas contemporâneos, não é que uma década antes de The Walking Dead já temos um exemplo de futuro pós-apocalíptico com Olhos Cor-de-Rosa? E a questão do convívio entre diferentes religiões em um mundo cada vez mais ateu em um exemplo secular e completamente hilário de figura natalina em Soretinho, o Cocô de Natal? E se pensar em um cocô de natal parece repugnante, o que dizer do episódio em que o Sr. Garrison se vê perseguido por mulheres por ter feito uma plástica que o deixou atraente e a namorada de Stan fazer de tudo para acabar com sua professora substituta simplesmente por ela ser bonita? E claro que não posso deixar de citar no parágrafo sobre religião a visão extremamente cínica da sociedade vista na luta entre o Diabo e Jesus, claramente um dos pontos altos dessa semente de auto-crítica forçando para dominar sobre o escatológico.

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Mesmo que ainda seja extremamente escroto e se divirta com a construção irregular de seus personagens (que muitas vezes oscilam todos para um perfil Cartman para logo depois voltar de um aprendizado de moral), South Park S01 já possui um subtexto superior a qualquer coisa animada (ou mesmo comédias) que saiu do Cinema nos últimos 5 anos. Apenas isso é prova do poder da caixinha luminosa frente ao horrivelmente politicamente correto da indústria cinematográfica americana.

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Tempo de Despertar

May 25, 2013 in Home Video

Awakenings. EUA, 1990. Director: Penny Marshall. Writers: Oliver Sacks (book), Steven Zaillian (screenplay). Stars: Robert De Niro, Robin Williams, Julie Kavner.

Tempo de Despertar

Um drama filosófico e/ou um melodrama tocante.

Robin Williams é sempre Robin Williams. Felizmente, esse fato não é o suficiente para estragar um filme que se esforça de maneira tocante ao tentar estabelecer uma conexão entre quem assiste e o drama dos pacientes que, sem se mover por décadas, conseguem experimentar milagrosamente uma janela de normalidade.

Porém, o mais interessante é poder analisar a “normalidade” na rotina de um hospital. O próprio doutor/pesquisador (Williams) precisa abrir uma grade todo dia para vislumbrar um pedaço do sol e das pessoas comuns. A vida comum pode ser vista como uma vantagem se presa cada vez mais à rotina e convenções? Leonard (de Niro), o paciente mais perspicaz, preso por 30 anos em um corpo que envelhecia sem vivenciar, consegue descobrir mais rápido que o introspectivo e desajeitado doutor. A falta de uma vida pode ser um sintoma válido tanto na rua quanto no hospital.

Tocante em muitos momentos ingênuos, mas desnecessariamente forçado em outros, Tempo de Despertar sofre de uma leve esquizofrenia ao não decidir se quer contar um drama filosófico ou um melodrama de hospital. Mesmo assim, um filme delicioso de ver e rever com o passar dos anos. O ser humano, pelo visto, precisa de algumas doenças para se sentir vivo.

Celebridades

January 24, 2013 in Home Video

Celebrity. EUA, 1998. Director: Woody Allen. Writer: Woody Allen. Stars: Kenneth Branagh, Judy Davis and Leonardo DiCaprio.

Celebridades

Seriam as celebridades de um povo reflexo de sua sociedade?

O que dizer da fase Woody Allen onde ele se propôs a produzir um filme por ano e consegue reunir um elenco tão afiado que conseguem desempenhar papéis que, mesmo longe do seu brilhantismo, participam do universo do diretor de maneira tão orgânica? Temos aqui dois “Allens”: o escritor/roteirista Lee Simon (Kenneth Branagh), que possui sua baixo auto-estima como gancho de todos os seus fracassos, e sua mulher, a professora Robin Simon (Judy Davis), cuja transformação à base de neurose e uma boa dose de sorte a torna a heroína às avessas da história.

Não há muito foco nos personagens, mas muito mais na atmosfera de Hollywood que faz pano de fundo às situações que testemunhamos. Vendo atores, atrizes, diretores, críticos e toda a fauna reunida como pessoas comuns, Allen destitui todo o brilho desses seres para aos poucos construí-los como mitos de mentirinha, frutos de mero capricho do destino. O que é mais genial no roteiro é que as coisas vão acontecendo de uma maneira tão natural e ao mesmo tempo os eventos sucedem no caminho oposto do que esperaríamos dos seus personagens principais.

O filme começa com a separação entre Lee e Robin. Robin está inconsolada, e parece que nunca voltará à tona. Já Lee encara tudo como um processo natural, e, apesar de romântico, está sempre à cata de celebridades para alimentar o seu ego massacrado pelo fato de saber ser ele um escritor medíocre fadado previamente ao fracasso.A partir daí o espectador precisa se atentar às nuances por trás dos acontecimentos. Nada é ao acaso, mas soa como se pudesse ser.

Com participações inspiradas — com destaque na sequência com Di Caprio — Allen conduz sua orquestra desafinada através de diálogos não particularmente brilhantes, mas que talvez por isso questionem tanto o papel das tais celebridades retratadas em preto e branco. Serão elas de fato o reflexo da sociedade? Como todo bom filmes de Allen, a questão está sempre em aberto.

A Casa da Rússia

January 13, 2013 in Home Video

The Russia House. EUA, 1990. Director: Fred Schepisi. Writers: John le Carré (novel), Tom Stoppard (screenplay). Stars: Sean Connery, Michelle Pfeiffer and Roy Scheider.

Sean Connery faz o tipo canastrão galanteador em um filme de espionagem não-convencional

Baseado no romance de John le Carré, um editor que teve a oportunidade de entrar em contato com um dos gênios da União Soviética logo após o processo de abertura política vira isca dos serviços secreto americano e inglês que precisam saber se a Rússia de fato está acabada como potência. O curioso aqui é o pano de fundo da situação, algo conhecido hoje em dia como a opinião pública pos-Fahrenheit, mas muito provavelmente na época controverso: caso a URSS estivesse de fato acabada o que seria da imponente e latente indústria armamentista americana?

A visão cínica dos dirigentes da missão parecem não perceber o que tramam. Ou pior: talvez saibam. E o final é melodramático demais para uma história tão cínica faz pensar: talvez seja a mensagem final do filme: nada é como parece.

Os Bons Companheiros

January 1, 2013 in Home Video

Goodfellas. EUA, 1990. Director: Martin Scorsese. Writers: Nicholas Pileggi (book), Nicholas Pileggi (screenplay). Stars: Robert De Niro, Ray Liotta and Joe Pesci. Film Editing: James Y. Kwei, Thelma Schoonmaker. Cinematography: Michael Ballhaus.

Os Bons Companheiros

Trabalho de gângsters de Scorsese compete com seu Taxi Driver e Touro Indomável.

A primeira sequência de Os Bons Companheiros começa com os personagens de Robert de Niro (James Conway), Ray Liotta (Henry Hill) e Joe Pesci (Tommy DeVito) tendo que parar o carro para dar fim ao corpo que ainda insistia em manter-se vivo no porta-malas. A violência gráfica com que isso ocorre é sanguinária tanto na luz quanto no ato que ocorre na traseira do veículo. Quando acompanhamos o crescimento de Henry entre os gângsters e voltamos novamente a essa cena é como se fizéssemos já parte do grupo: da gangue e da família que estes formam.

Não há limites para a violência filmada por Scorsese, mas há sempre um motivo muito claro para ela acontecer, nem que seja um acesso de raiva de Tommy, que, já sabemos, parece explodir pelo menor dos motivos de uma hora para outra. O interessante é acompanhar como Henry encara a impulsividade de Tommy, pois esta é a história de um homem que pertence ao grupo dos “Goodfellas”, mas parece manter um dos olhos abertos.

Filmado com uma fotografia absolutamente soberba, de comparar-se a outra obra máxima, O Poderoso Chefão, não possui quase nada comparável ao filme do Copolla mesmo ambos sendo filmes de máfia. A exceção óbvia fica por conta do seu virtuosismo técnico, presente em ambos. Já acostumado com uma equipe que equilibra fotografia, direção de arte e trilha sonora à altura do roteiro e direção impecáveis, como pode ser visto em Taxi Driver e Touro Indomável, Scorsese ainda conta com a magnífica montadora Thelma Schoonmaker, que junto com James Kwei tornam a tarefa de acompanhar mais de duas horas de tensão e envolvimento agradável graças às belíssimas transições.

Não há mais nada a dizer sobre Goodfellas por enquanto, pois é um filme que deve ser degustado com certeza mais de uma vez. A primeira é uma imersão tão completa que acabamos fingindo não se tratar de um filme. É a vida real, romantizada, dramatizada, mas tão real que fica difícil separar os elementos que formam a obra de arte.

O Rei Leão

December 24, 2012 in Home Video

The Lion King. EUA, 1994. Direção: Roger Allers e Rob Minkoff. Roteiro: Irene Mecchi, Jonathan Roberts e Linda Woolverton.

Elenco original: Matthew Broderick (Simba Adulto), Niketa Calame (Jovem Nala), Jim Cummings (Ed), James Earl Jones (Mufasa), Nathan Lane (Timão), Ernie Sabella (Pumba), Jeremy Irons (Scar), Robert Guillaume (Rafiki), Rowan Atkinson (Zazu), Moira Kelly (Nala Adulta), Whoopi Goldberg (Shenzi), Cheech Marin (Banzai), Madge Sinclair (Sarabi), Jonathan Taylor Thomas (Jovem Simba).

Elenco brasileiro: Garcia Júnior (Simba Adulto), Patrick de Oliveira (Simba criança), Jorgeh Ramos (Scar), Carla Pompilho (Nala), Paulo Flores (Mufasa), Mauro Ramos (Pumba), Pedro Lopes (Timão), Pádua Moreira (Zazu).

O Rei Leão

Clássico Shakesperiano em visão infantil.

O Rei Leão visto como deve ser visto — ou seja, em 2D — consegue impressionar pela síntese dramática que escolhe para não tornar o programa demasiadamente infantil para o seu principal público-alvo (as crianças) mas consegue se manter íntegro e representar de maneira irretocável a contribuição Disney para manter viva a lenda e uma das peças mais conhecidas de Shakespeare: Hamlet.

Quando eu digo íntegro quero dizer que até mesmo temas que hoje em dia são covardemente evitados mesmo entre o público adulto como a morte e o sexo são inseridos na narrativa e com direito a uma trilha sonora excepcional, que consegue oscilar dinamicamente entre a comédia e o drama épico como ondas que se formam durante a história.

Criando personagens de maneira econômica, mas que se firmam na narrativa pelo que representam — o macaco sábio, os palhaços salvadores de Simba, a princesa como elo com o passado, o criado fiel —, a história se entrelaça de maneira simples o suficiente para que os espectadores infantis entendam o destino de Simba, mas de forma complexa o suficiente para que entendamos toda a filosofia por trás da alegoria com animais, como o reino decadente e o significado da nobreza.

Com uma conclusão que aspira por aplausos em pé, o uso da metáfora do círculo da vida nunca foi tão significativo e poderoso.