Círculo de Fogo

August 9, 2013 in Cinema

Pacific Rim. EUA, 2013. Director: Guillermo del Toro. Writers: Travis Beacham (screenplay), Guillermo del Toro (screenplay), Travis Beacham (story). Stars: Charlie Hunnam, Idris Elba, Rinko Kikuchi.

Círculo de Fogo

Monstros e robôs gigantes homenageiam o poder da imaginação.

Ao contrário de Homem de Aço, que apesar de voar se esforça em manter seus dois pés no chão da realidade, Círculo de Fogo parece navegar por outras águas, sempre disposto a impulsionar sua fantasia em direção daquele mundinho que habita nossa mente de criança (espero que você ainda a tenha) em busca de desafios cada vez maiores para nossos gigantes heróis.

Inspirado diretamente das séries japonesas de Eras atrás (estou olhando para vocês, Jaspion / Changeman / Spectroman) a narração introdutória explica como monstros que surgiram do Oceano Pacífico através de uma espécie de portal para outra dimensão/universo impulsionaram as nações a construir o sonho de consumo de qualquer jovem: um robô gigante para esmagar as criaturas dos mares. Embora condicionado no conhecido formato americano de fazer Cinema (que obriga os heróis a terem dramas e fantasmas pessoais do seu passado para resolver), a boa notícia é que a alma oriental permanece, pelo menos nos momentos mais icônicos, o que faz a película vibrar em momentos pontuais, mas em quantidade suficiente para segurar a tensão.

Eu diria até mais: impulsionado pela música que cria um tema fácil de saborear pelas mentes mais simples, Círculo de Fogo gera momentos de fazer vibrar pela sua reimaginaçao em um CGI estupidamente bem elaborado. Em seu momento mais inspirado (envolvendo uma certa cena aérea e um desfecho inesperado) é capaz de arrancar aplausos que surgem da platéia quase que naturalmente.

O uso do 3D, embora com propensão a dores de cabeça nas cenas movimentadas, é inteligente em sua concepção: como quase todas as cenas de luta ocorrem na água e/ou sob pesada chuva as inúmeras gotículas em suspensão criam a sensação de profundidade todo o tempo. Do lado de dentro dos robôs, painéis suspensos no ar também nos ajudam nessa imersão. Outros dois indícios confirmam as boas intenções do diretor para com a tecnologia: a profundidade quando “observamos a mente” dos pilotos durante sua conexão com a máquina e algumas cenas que colocam pessoas à frente e monstros no fundo, em uma óbvia brincadeira com as séries originais, que constantemente faziam colagens nesse estilo usando a velha técnica de projeção ao fundo; aqui, a projeção é em 3D.

Mas nem tudo são robôs, e os cientistas engraçadinhos se saem bem mais ou menos, ainda que façam parte da tal homenagem. Também não é razoável dizer que a história pessoal dos personagens, assim como os próprios personagens, exercem qualquer tipo de influência positiva ou negativa no resultado final.

No fundo o que importa mesmo são as lutas corpo a corpo (ou lata). As máquinas criadas pelo homem são estupidamente grandes e fortes, mas seus movimentos gigantescos são coreografados de forma lenta, dando a sensação de fragilidade em frente aos monstros, que parecem dotados de uma rapidez natural e orgânica. O resultado na maioria das vezes é que, mesmo com cenas memoráveis de ação, é fácil se confundir (e não é pra menos: na chuva, no escuro, envolto por criaturas mais escuras ainda).

Warriors – Os Selvagens da Noite

August 1, 2013 in Home Video

The Warriors. EUA, 1979. Director: Walter Hill. Writers: Sol Yurick (novel), David Shaber (screenplay). Stars: Michael Beck, James Remar, Dorsey Wright.

Warriors - Os Selvagens da Noite

Warriors, épico da Era Moderna.

Filmado claramente como um filme de batalhas do Império Romano — a la Spartacus, Ben-Hur e tantos outros — nossa visão é forçada a enxergar aquelas gangues de rua como exércitos a defender seu território, o que é fascinante por si só, pois embute em nossa mente o mesmo perigo de morte que exércitos “tradicionais” teriam em zona inimiga.

O uso de diálogos que remetem a esse universo (como aquele sobre diplomacia) e os ângulos que engrandecem seus personagens, cujos atores parecem ter sido escolhidos a dedo pelo seu físico e feições de rosto que facilitam sua identificação (o líder, o valente, o fraco, o estratégico, o bobão). Até personagens menores, como um policial, possui um rosto que remete tanto à sua brutalidade quanto à sua falta de arbítrio, se comportando como um homem a serviço da lei e que não pensa suas ações. Porém, tudo isso é construído através da lógica visual dos atores, e é a grande vantagem do Cinema comparado com o Teatro, vantagem essa defendida por teóricos (lá no nascimento da sétima arte; não é só a atuação que conta, mas o tipo físico que cria a persona. A trilha sonora, ou escolha de músicas, é um trabalho à parte, preocupada com o ritmo de cada cena, o que remete ao trabalho conjunto de uma montagem que consegue acelerar e desacelerar de forma extremamente elegante.

Mas repare que não é um filme de interpretações, embora os rostos, as expressões e até o tom de voz colabora com a criação de personas quase estereotipadas, mas que em conjunto funcionam, que é o que importa. Até o despretencioso vilão, sinônimo do mal encarnado, se torna um ícone e protagoniza a cena que imortalizou o filme no mundo pop e cinematográfico(“Warriors, come out to play” é usado ad infinitum por inúmeros filmes, até Strippers Zumbi).

E mesmo com tantos estereótipos e o mergulho no épico a questão social daqueles meninos (e menina) é levantada de forma orgânica e que nos faz questionar, como os próprios garotos fazem, se o destino final deles vale tanto à pena.

007 – Os Diamantes São Eternos

June 21, 2013 in Home Video

Diamonds Are Forever. Reino Unido, 1971. Director: Guy Hamilton. Writers: Richard Maibaum (screenplay), Tom Mankiewicz (screenplay). Stars: Sean Connery, Jill St. John, Charles Gray.

007 - Os Diamantes São Eternos

Engraçado, rápido e sagaz.

Última aparição de Sean Connery (estranhamente intercalado com George Lazenby em A Serviço de Sua Majestade), Os Diamantes são Eternos é aquele tipo de filme que já começa a se caracterizar como homenagem dos filmes anteriores e da própria síntese do filme de espionagem de ação. Temos tiradas sarcásticas e momentos empolgantes que são ao mesmo tempo hilários, o que não diminui a tensão em momentos chave, como a aparição de um duplo vilão.

A direção de Guy Hamilton (Goldfinger) é precisa e as cenas de ação estão no nível do filme anterior (ainda que um pouco menos ambicioso). Os cortes são rápidos e os detalhes se perdem em meio ao charme e convicção de Sean Connery como o espião britânico mais famoso do Cinema.

Tiffany Case

BondGirl – Jill St. John é Tiffany Case

Plenty OToole

BondGirl – Lana Wood é Plenty O’Toole

Homem de Ferro 3

May 2, 2013 in Cinema

Iron Man 3. EUA/China, 2013. Director: Shane Black. Writers: Drew Pearce (screenplay), Shane Black (screenplay). Stars: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Don Cheadle.

IRON MAN 3

Terceira aventura é mais densa, mas possui os velhos problemas do segundo filme.

Críticas ao Superman são comuns pelo fato do super-herói ser virtualmente invencível, sendo sua única fraqueza a sua fé na humanidade. No caso de um herói como Tony Stark, gênio, bilionário, sedutor e munido de uma armadura extremamente resistente, nem o lado humano pode ser considerada uma fraqueza. As inúmeras facetas de Tony se descascam como seus inúmeros protótipos de robôs, e a própria imagem do Homem de Ferro se apresenta como uma figura completamente destacada da pessoa que a veste ou controla à distância. Para ele seu avatar (ou avatares) são um elemento importante de sua personalidade atual, mais do que ele mesmo. E assim como no filme anterior — Homem de Ferro 2, não Os Vingadores — a jornada de Tony Stark é mais interna que externa. O vilão mais uma vez tem algo a dizer sobre o herói, mas não só ele. Se antes a história do pai era o que movia o drama no segundo filme, aqui essa relação é revista entre o gênio bilionário e um garoto (Ty Simpkins) que se revela o reflexo perfeito de sua própria imaturidade. Nesse sentido a interpretação de Robert Downey Jr. vai no automático, o que não é ruim na maioria dos momentos, mas prejudica a história em momentos-chave onde os sentimentos do personagem são postos à prova. Até onde me lembro, seu romance com Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) era o elemento humano que deveria fazer alguma diferença em sua forma de ver a vida. Em sua terceira aventura, todos os elementos já explorados são quase inexistentes, e o que sobre é um Stark robótico até fora da armadura.

Mas divago.

O filme tem início com uma narrativa do próprio Tony Stark lamentando sobre os demônios que criamos no passado (mais um). Dessa forma conhecemos o pesquisador Aldrich Killian (Guy Pearce) que é desprezado pelo bilionário em um passado “sombrio” do futuro herói — mais uma falha grave na interpretação de Downey Jr. ao não ressaltar a mudança de seu personagem. Passa-se uma década e vemos que Aldrich se tornou um empresário que possui um projeto que interfere com o DNA humano em “tempo real”, transformando pessoas com alguma deficiência física em seres com poderes especiais (é até saudável que não existam mais explicações). Se dessa vez os ataques terroristas em Boston não causaram o adiamento da estreia de Homem de Ferro 3 como aconteceu com o último Batman (mesmo que seu vilão explore esse tema) não podemos acusar os americanos de banalizarem a violência ou de se tornarem menos sensíveis com o passar do tempo. Talvez o que deva ser questionado aqui é o quão irreais os terroristas do filme são para evitar qualquer comparação com a vida real.

Dado este pequeno interlúdio, a ação de fato começa quando Mandarim (Ben Kingsley inspirado e divertido), um terrorista que no “melhor” estilo de Bin Laden manda mensagens de ódio através de transmissões televisivas, realiza um ataque que fere gravemente o ex-segurança de Stark (Jon Favreau, diretor dos primeiros dois filmes), fazendo com que ele decida se vingar e “coincidentemente” ajudar o governo norte-americano, que tenta localizá-lo. Os eventos posteriores, ainda que impactantes, não fazem parar de pensar por que isso nunca havia acontecido antes. Enfim…

Aqui e ali no meio da história são colocadas referências intrusivas dos Vingadores, como o homem que desceu do céu com um martelo ou a recorrente história dos aliens e o buraco de minhoca em Nova Iorque, e soam mais como um pedido de desculpas pela história ignorar completamente esses acontecimentos na vida do personagem do que brincadeiras como a tradicional aparição de Stan Lee nos filmes. Aliás, seria desonesto ignorar a crise de ansiedade que acomete o herói — possivelmente um trauma do que ocorreu no filme de Joss Whedon — se não soubéssemos que esse é um artifício barato (e descartável) para tentar fragilizar o invulnerável Homem de Ferro.

Igualmente frágil são os efeitos digitais, mas funcionam moderadamente. Já o confuso 3D, palavras praticamente sinônimas em filmes de ação, se torna mais confuso ainda com os cortes obrigatórios que evitam mostrar sangue ou violência além dos limites, uma controversa, ainda que comum, decisão dos estúdios para evitar barrar a entrada dos jovens aos cinemas, o que possui o perigoso efeito de infantilizar a ação (vide Vingadores) e impedir que nos importemos pela vida das pessoas que correm riscos. Mesmo assim a cena que envolve a queda de várias pessoas do avião é um momento particularmente tenso, mas que se desfaz rapidamente como tantas sequências com efeitos que parecem perigosamente flertar com o exibicionismo e até um certo fetichismo por parte da personalidade de Stark que o diminui como herói.

Com uma equipe respeitosamente grande de compositores a trilha sonora cria uma atmosfera quase sempre cativante ao espírito irreverente do herói e ainda consegue nos momentos-chave ensaiar acordes de uma música-tema que não se torna cansativa, ganhando o direito de figurar entre os pontos altos dos filmes de herói ao lado do Batman de Nolan (mas não ao lado do Superman de John Williams). Esse detalhe combina perfeitamente com os excelentes créditos finais que ao estilizar os personagens mereceria estar logo no início, já que acerta em cheio no tom cartunesco da história.

E por falar em créditos, ele contém uma massa gigantesca de pessoas que é a equipe de efeitos digitais, comprovando que as cenas produzidas em sua maioria dentro de computadores já conquistaram sua parcela lucrativa de fãs ainda que estas tornem a experiência nitidamente artificial (ponto para a Marvel, que com seus heróis fantasiosos não precisa se preocupar com isso). O mesmo não se pode dizer da direção de arte, que aposta em soluções muito menos sutis para revelar “surpresas” ou “segredos” trinta segundos antes de serem revelados (como um camarim no meio de uma sala que salta aos olhos do espectador).

Por fim, Tony Stark continuará sendo o mesmo Tony Stark de sempre. Talvez seja a hora, sem trocadilhos, de reciclar o personagem para algo mais ecologicamente correto (e viável): um personagem orgânico.

Obs.: Após os créditos há uma breve, mas espirituosa cena que explica a narrativa da história, e que, sim, mais uma vez remete aos Vingadores.

G.I. Joe – Retaliação

April 3, 2013 in Cinema

G.I. Joe: Retaliation. EUA, 2013. Director: Jon M. Chu. Writers: Rhett Reese, Paul Wernick. Stars: Dwayne Johnson, D.J. Cotrona, Channing Tatum.

G.I. Joe - Retaliação

Brincadeira de criança é prejudicada por delírio de filme sério mais uma vez.

Na cena inicial de “G.I. Joe: Retaliação” (que nomezinho) o comandante de uma missão (Dwayne Johnson) que precisa adentrar uma zona militar da Coreia do Norte ao lado de uma guarita vigiada em uma quase total escuridão resolve derreter a cerca de arame e formar um círculo de fogo que provavelmente poderia ser avistado a uns dois quilômetros. Essa introdução espetacular do grupo de operações especiais secreta do governo norte-americano — os chamados G.I. Joes — é o bastante para termos certeza que nada do que aparecer diante de nós deve ser levado a sério.

Como um dos representantes do gênero “filmes baseados em brinquedos” — assim como Transformers e Battleship — a saga protagonizada por bonecos de plástico e carrinhos irados da Hasbro consegue ao menos contar uma história simples com começo, (longo) meio e fim enquanto exibe no meio do caminho um conjunto de armas e veículos completamente desvinculados da realidade (meu exemplo favorito e menção honrosa é um tanque que parece querer voar). A graça da coisa reside em pensar nos seus heróis musculosos e com coragem suicida como os próprios bonecos de plástico que os inspiraram, manipulados por um garoto megalomaníaco de comercial de TV.

Nesse sentido o enredo dessa continuação se sai muitíssimo melhor que seu desprezível predecessor. Brincando com mísseis nucleares acionados por botões em maletas pessoais de líderes mundiais que se diferenciam apenas pela bandeira de cada país — isso deve fazer parte de algum padrão mundial para destruição em massa — e satélites que explodem assim que uma operação é cancelada (o que são alguns bilhões pela diversão de ver acontecer) o perfil “brincadeira de criança” do filme parece nunca querer sair da mente. O que não seria algo ruim caso o longa abraçasse de vez a unidimensionalidade dos seus personagens e esquecesse do drama vazio da família de ninjas e pessoas com máscara fumê. É esse delírio de grandiosidade que torna tão massante as cenas de ação envolvendo um bando de ninjas, que se vestem com uniformes amarelo e vermelho parece que apenas para combinar com o fundo branco das montanhas geladas de algum povoado chino-japonês (bons tempos quando os ninjas era guerreiros invisíveis). A baboseira se torna particularmente cansativa por enfatizar que a luta é pelo destino de alguém que não damos a mínima. Enquanto isso, os planos maquiavélicos do nosso garoto estirado no tapete da sala brincando de destruição do planeta se saem muito melhor, já que não precisa de drama nenhum para entreter (acho que “destruição mundial” é um tema que já costuma chamar bastante atenção).

Porém, mesmo se saindo bem em algumas sequências de ação razoavelmente eficientes somos obrigados a participar de uma tonelada de cenas descartáveis que tentam explicar mais uma vez a origem e a personalidade (inexistente) dos seus heróis — um dos maiores defeitos do original — e que acabam mais uma vez não explicando nem revelando nada de especial, por mais expositivos que sejam os diálogos (o meu “preferido” é um discurso de um velho, negro, cego, oriental e com seu cajado batendo no chão explicando toda a trama em torno da prima e de toda a família do ninja musculoso — e por algum motivo obscuro ela precisa ser prima do rapaz, e não é pelo sexo, pois nem sangue é possível ver nas lutas, por mais sangrento que seja o combate; e a explicação da caricatura de Sr. Miyagi é obviamente para nós, espectadores, os únicos que não estão sabendo de nada sobre o pano de fundo dessa família do barulho; e, particularmente, preferiria continuar não sabendo).

Nunca conseguindo se firmar como gênero por tempo o suficiente, “G. I. Joe” ao menos parece tentar enxugar bastante a história dos seus personagens, só que mesmo assim parece ter tempo demais na tela. Talvez para que um terceiro filme exista seja necessário enxugar ainda mais caso ele tenha a (fácil) pretensão de se sair melhor que “Retaliação” segundo o mesmo formato. Talvez quinze minutos e tudo já esteja resolvido (e ainda dá tempo para o garoto ir almoçar).

Lady SnowBlood

March 8, 2013 in Cinema

Shurayukihime. Japão, 1973. Director: Toshiya Fujita. Writers: Kazuo Kamimura (story), Kazuo Koike (story), Norio Osada (screenplay). Stars: Meiko Kaji, Toshio Kurosawa, Masaaki Daimon.

LadySnowblood

Mostra Mondo Tarantino.

Originalmente um mangá da década de 70, Lady Snowblood (sem título nacional, provavelmente nunca lançado no Brasil) contém uma verdadeira miscelânea que com certeza foi fonte de inspiração de Quentin Tarantino na confecção de sua Noiva em Kill Bill. Fica até difícil listar todos os tipos de influências, referências e cópia descarada (como a música-tema). Porém, diferente de um plágio barato, ambos são trabalhos impecáveis de composição, e hoje em dia emprestam diversos significados um ao outro, formando uma perfeita sessão dupla (ou tripla, se considerarmos que Kill Bill possui dois “volumes”).

Tendo por tema central a vingança, representada pela figura de Yuki Kashima (Meiko Kaji), uma jovem espadachim que assumiu a vingança de sua família, destroçada por um grupo de assassinos, o vermelho é marca registrada da morte e presente em toda a história. Porém, branco e vemelho trabalham juntos para encontrar os assassinos um a um e completar sua missão.

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Aqui o uso do vermelho e branco é o que une o instinto de vingança da heroína e nos permite enxergarmos a violência de uma forma mais gráfica e ao mesmo tempo cartunesca (além de servir de mensagem temática — sua família é morta por usar branco). O uso exagerado de closes, zooms rápidos e profundidade de campo, traços da época dos filmes de artes marciais, é aplicado de forma sistemática, servindo com o propósito de abrandar as cenas mais fortes, mas ao mesmo tempo exaltar seu significado subliminar na história. (Também é importante ter em mente que os vilões e impuros usam uma cor acizentada.)

Encontrando no caminho com Ryûrei Ashio (Toshio Kurosawa), um jornalista que se interessa por sua história, seu jornal passa a narrar suas aventuras e chamar a atenção do povo local. Os desenhos mostram de forma monocromática o que já vimos em vermelho, uma maneira — diga-se de passagem — muito mais orgânica de inserir a arte gráfica oriental do que a utilizada pelo próprio Kill Bill (assim como os capítulos que dividem o filme, que aqui possuem a desculpa do estilo narrativo da história já escrita). E por falar em comparações é preciso que se ressalte a bomba de fumaça vermelha utilizada em uma cena particularmente tensa, um artifício muito mais elegante que o apagar súbito das luzes no filme de Tarantino, sem explicação plausível a não ser tornar a cena na contraluz mais bonita esteticamente. De certa maneira a metalinguagem em Snowblood também se beneficia por já estarmos inseridos na cultura japonesa. O quatro, por exemplo, número de inimigos de Yuki, também representa a morte.

KillBillVsSnowblood

A montagem, minimalista nas cenas de luta, consegue expressar a violência sem mostrá-la com todos os detalhes sádicos. Basta a sugestão do movimento (ajudada pela câmera e seu enquadramento eficiente) aliada a uma edição de som igualmente competente para ilustrar a agonia dos combatentes, o que também acaba por ilustrar os resultados da vingança. A mixagem de som também sabe atribuir o valor do silêncio, e é por isso que ele se torna vital em dois momentos finais decisivos. Fora a competência técnica e narrativa de uma história que do contrário seria mais uma, o pano de fundo de Snowblood se passa em uma época de ascenção da nação japonesa frente à guerra com os chineses, e a evolução do uso das armas de fogo, onde ganham cada vez mais importância (e é por isso que os dois últimos inimigos a usam, por analogia os mais perigosos).

Da mesma forma, o destino final do inimigo maior de Yuki pode sugerir muitas coisas, como o sacrifício dos mais novos como uma consequência da ganância (é uma morte forçada, mas o filme a faz parecer necessária, e Snowblood não vacila porque sua própria família já havia sido sacrificada pela mesma ganância). O vermelho sempre tão presente nas cenas ao final dá lugar ao branco, sereno, mas que ao mesmo tempo possui o destino de desaparecer com a chegada do sol. Tantos símbolos é que tornam Lady SnowBlood tão fascinante, e que com certeza devem ter aberto os olhos do mestre Tarantino assim que o viu.

Fotos comparativas deste artigo da Rope of Silicon.

Duro de Matar: Um Bom Dia Para Morrer

March 5, 2013 in Cinema

A Good Day to Die Hard. EUA, 2013. Director: John Moore. Writers: Skip Woods, Roderick Thorp (certain original characters). Stars: Bruce Willis, Jai Courtney, Sebastian Koch.

Duro de Matar - Um Bom Dia Para Morrer

Novo duro de matar também é duro de assistir.

Digirido pelo medíocre John Moore (Max Payne) e escrito pelo problemático Skip Woods (X-Men Origens: Wolwerine), o novo filme da série Die Hard parece uma mistura de estilos que mais confunde do que inova. Há a trilha de espionagem claramente inspirada em 007 e Missão Impossível. Há os cortes, movimentos de câmera e zooms frenéticos da série Identidade Bourne. Há, sim, perseguições e explosões dignas da série original, mas que não desempenham qualquer função em uma história sem reviravoltas (foras as mais patéticas) e sem tensão (ou alguém duvida em algum momento que a dupla principal não vai se safar dos bandidos histéricos?).

De maneira curiosa, o filme nos apresenta ao filho de John McLaine (Bruce Willis), o “profissional” Jack McClane (Jai Courtney), além de tentar aqui e ali formar a composição clássica da série: “estou de férias e não quero confusão, só curtir com meus filhos”. O problema é que em nenhum momento isso funciona, pois McLaine parece disposto desde o primeiro momento a criar confusão (ou pelo menos o fraco roteiro o força a isso), e a participação de sua filha apresentada já adulta no filme anterior é periférica e apenas introduz a “trama”.

E a “trama” é algo que parece ter sido escrito no verso de um guardanapo e mantido ali até a pós-produção: um preso político precisa ser protegido para um julgamento de cartas marcadas, mas uma força especial da CIA pretende resgatá-lo e obter um suposto dossiê que envolveria a rede corrupta da justiça russa e seu oponente direto. Jack McClane pertende a essa força e John McClane pertence ao imprevisto. Ambos conversam e agem lado a lado, mas não há química de parceiros nem de pai e filho.

Não satisfeitos em criar um filme de ação menor apenas utilizando o personagem de Bruce Willis como gancho de uma série que mereceria um certo respeito por iniciar o gênero, ainda somos obrigados a engolir conceitos completamente inverossímeis a respeito de radiação, urânio e russos. A ironia é que uma produção que gasta horrores para protagonizar a destruição em massa de uma frota de veículos não se envergonhe de apresentar uma máscara que mal tapa os ouvidos como proteção contra radiação. Continuando a gafe, aparentemente existe um gás que serve como escudo instantâneo para seus efeitos. (Aposto que os japoneses matariam para obter esse gás.)

Por fim, a arrogância ensaiada no iníco e citada no diálogo de um dos bandidos russos a respeito aos poucos se assemelha a um exercício de metalinguagem, pois John Moore insiste em inserir um encontro familiar final que beira o clichê (e termina como um) que ainda aposta em uma trilha grandiosa digna dos filmes de grandes aventuras e provações dos personagens.

Com certeza esse filme deve estar em algum lugar na sala de montagem, mas ficou irreconhecível na sala de projeção.

007 – A Serviço de Sua Majestade

January 31, 2013 in Home Video

On Her Majesty’s Secret Service. Reino Unido, 1969. Director: Peter R. Hunt. Writers: Simon Raven (additional dialogue), Richard Maibaum (screenplay). Stars: George Lazenby, Diana Rigg, Telly Savalas. Original Music: John Barry.

007 A Serviço de Sua Majestade

Um James Bond com adrenalina e emoções acima do comum.

Mais intenso, talvez pela incerteza na troca de Sean Connery por George Lazenby, e já entregando uma trama que mexe na vida pessoal do agente secreto como nunca antes, A Serviço Secreto de Sua Majestade é também um excelente filme de ação, tanto para sua época quanto para agora.

O diretor Peter Hunt (007 Contra Goldfinger) resolveu com cortes rápidos, muitas vezes com a câmera em movimento frenético, o problema dos fundos falsos e toda a trucagem nas cenas envolvendo carros ou mesmo descendo os Alpes de esqui. O efeito foi um filme dinâmico e que envelheceu melhor do que seus antecessores como filme de ação. A trilha sonora, sempre tão importante, aqui recebe tratamento VIP. Além do excelente intrumental-tema feito para o filme e que se encaixa perfeitamente no novo estilo James Bond, os temas anteriores são reaproveitados em cenas significativas para o personagem em versões que não soam recicladas. Além disso, o tema clássico de John Barry é explorado no momento de identificação entre o novo ator e o clássico Connery.

A inesquecível Bond Girl deste filme desde o início nasce para ser sua parceira, principalmente quando ressurge, assim como ele em seu filme de estreia, dentro de um cassino. Além disso a beleza de Diana Rigg como Tracy consegue o feito de nos fazer relembrar das garotas mais “clássicas”, como Akiko Wakabayashi (Aki), Claudine Auger (Domino) e até mesmo a inconfundível Pussy Galore de Goldfinger (Honor Blackman). Todos esses elementos trazidos a partir de cenas sutilmente reproduzidas não são ao acaso, pois este é, como disse, um momento especial na vida pessoal do agente secreto.

O roteiro de Richard Maibaum, livre dessa vez do formato clássico imposto nos filmes anteriores, ganha mais organicidade e faz com que os eventos pareçam seguir um fluxo ininterrupto e coeso. É o filme de maior duração até agora, mas parece ser o que oferece uma maior imersão no arriscado universo de um agente secreto.

Sean Connery será sempre eternizado por iniciar e estabelecer a adaptação do personagem literário para as telas. A troca de atores, porém, faz um bem enorme para o agente 007 no cinema, pois o torna maleável e eternizável para as futuras gerações, como não podemos negar nos dias de hoje com os filmes de Daniel Craig.

BondGirl – Diana Rigg é Tracy

BondGirl – Diana Rigg é Tracy

Os Caça-Fantasmas

January 24, 2013 in Home Video

Ghost Busters. EUA, 1984. Director: Ivan Reitman. Writers: Dan Aykroyd, Harold Ramis. Stars: Bill Murray, Dan Aykroyd and Sigourney Weaver.

Os Caça-Fantasmas

Heróis nova-iorquinos dos anos 80 ainda se sustentam.

O que torna Os Caça-Fantasmas ainda um excelente filme e nos faz acreditar em sua história é a sua entrega total ao universo criado desde o início: existem fantasmas por toda Nova Iorque e ninguém discute isso. Eles estão começando a se manifestar, e não há lugar melhor para isso do que uma biblioteca.

Mais importante do que os fantasmas, porém, é acreditarmos em um serviço que os elimine. E lá pelos dez minutos de projeção, quando já vemos o time original de caça-fantasmas formado, seu carro, seus uniformes e seu estilo — e sua empolgante música-tema — já não há mais dúvida que eles existem. O que o resto da história se preocupa em narrar, e o faz maravilhosamente bem, é discutir como eles são necessários.

Com a participação inspirada de todo o elenco — incluindo aí a “musa” Sigourney Weaver (série Aliens) e o sempre ótimo Rick Moranis (S.O.S. Tem um Louco Solto no Espaço) — o roteiro escrito por Dan Aykroyd (um dos caça-fantasmas) e Harold Ramis não deixa pontas soltas e privilegia o fortalecimento do grupo e sua inserção no universo nova-iorquino. Um espírito maligno deseja retornar de seu descanso milenar e utiliza o acúmulo de espíritos capturados pelos rapazes para conseguir se materializar. A mitologia antiga é tratada de maneira irreverente — onde até um monstro de marshmallow pode ser assustador — e funciona tão bem. Mesmo os efeitos especiais datados conseguem segurar as sequências de Ivan Reitman facilmente.

Não há essa história de sucesso na época para Ghostbusters. Suas virtudes se mantém mesmo quase 30 anos depois.

Com 007 Só Se Vive Duas Vezes

November 27, 2012 in Home Video

You Only Live Twice. Reino Unido, 1967. Direção: Lewis Gilbert. Roteiro: Harold Jack Bloom (additional story material), Roald Dahl (screenplay). Elenco: Sean Connery, Akiko Wakabayashi, Tetsurô Tanba, Bernard Lee, Lois Maxwell, Desmond Llewelyn, Donald Pleasence and Mie Hama.

O mito James Bond encontra seu vilão definitivo?

Só se vive duas vezes tem aquela grandiosidade das aventuras do agente 007 no formato clássico que todos lembram, com um ambiente fantástico demais para ser verdade, mas uma trama com pontas e mistérios o suficiente para ficarmos entretidos por boa parte do tempo. Mais acelerado que seus antecessores, a iminência de uma guerra nuclear entre EUA e URSS causada por uma bizarra interferência na corrida espacial é o que causa a primeira “morte” de James Bond, o que dá nome ao filme e possui um plot replicado no recente Skyfalk, mas que aqui adquire um tom mais solene e… fúnebre!

A rapidez do filme se contrapõe à leve e inspirada música-tema, entre as minhas favoritas pelo seu refrão característico e memorável. Logo que termina a abertura-tema partimos para uma verdadeira agitação em torno de diversos cenários do Japão, seus traços culturais e, claro: uma série de lindas e misteriosas Bond Girls asiáticas, mas com destaques abslutos para Akiko Wakabayashi e Mie Hama, que fazem os papéis respectivos de Aki e Kissy.

Toda grandiosidade em torno da missão do agente britânico logo se explica ao descobrirmos que o chefão da SPECTRO está por trás da abdução dos foguetes russos e americanos. A série Austin Powers foi inteiramente baseada no vilão Ernst Blofeld, interpretado de maneira icônica por Donald Pleasence, e esse fascínio pelo personagem é inteiramente justificado: sua versão megalomaníaca do mal, caracterizado pelos seus traços calculistas e de certa forma cômicos são a alavanca necessária para uma série que se pauta em uma visão fantasiosa do espião: o que investiga e luta usando suas artimanhas tecnológicas.

O Cinema merecia um herói como esse. Depois de “You Only Live Twice” esse mito se solidifica e se mantém por décadas a fio.

BondGirl – Mie Hama é Kissy

BondGirl – Akiko Wakabayashi é Aki