Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar

August 30, 2013 in Home Video

Gake no ue no Ponyo. Japão, 2008. Director: Hayao Miyazaki. Writer: Hayao Miyazaki. Stars: Cate Blanchett, Matt Damon, Liam Neeson (versão em inglês).

Ponyo - Uma Amizade que Veio do Mar

Animação do criador de Chihiro emociona mesmo incompleto.

Até uma animação infantil e ingênua como Ponyo, de Hayao Miyazaki, consegue nos fazer pensar em vários temas ao mesmo tempo. Se em um primeiro plano é uma aventura ecológica, onde o desrespeito do homem pelo meio ambiente é colocado em xeque quando Ponyo — um pequeno peixe filho de um pai controlador e sua mãe-natureza — decide se tornar humano e acidentalmente inicia um novo ciclo de crescimento marítimo que pode acabar com a predominância dos homens (nos mares e na Terra), em um segundo plano é um filme sobre aceitarmos o diferente. O respeito aqui faz rima com amor incondicional, onde pode-se até especular que esse amor ao diferente pode vir de qualquer lugar, até de minorias como homossexuais.

Independente de qual interpretação que damos, o trabalho de animação se torna primososo pela obsessão detalhista dos estúdios Ghibli em retratar as forças da natureza de uma maneira humanizada, mas ao mesmo tempo, sobrenatural. As ondas formam desenhos imensos, as montanhas das ilhas da região onde se passa o filme abrem curvas sob o céu. A trilha sonora, inspirada na grandiosidade do próprio tema, emociona a cada novo acorde, acompanhando a aventura de perto (e muitas vezes a ultrapassando).

Não há nada repreensível em Ponyo senão talvez um pouco de falta de cuidado ao desenvolver os personagens secundários e como eles interagem com Ponyo. Se em A Viagem de Chihiro e O Castelo Animado o sobrenatural está bem situado entre os adultos, aqui há uma definição tão simplista que banaliza um pouco todo esse encantamento com a história do peixe que vira criança. Da mesma forma, o conflito final parece ter sido criado apenas como uma mera formalidade que tenta estender uma narrativa simples com desfecho previsível. Não fosse isso, teríamos mais um trabalho do diretor tão emocionante quanto complexo.

Flores Raras

August 24, 2013 in Cinema

Idem. Brasil, 2013. Director: Bruno Barreto. Writers: Matthew Chapman (screenplay), Julie Sayres (screenplay), Carmen L. Oliveira (romance), Carolina Kotscho (primeiro roteiro). Stars: Glória Pires, Miranda Otto, Tracy Middendorf.

Flores Raras

Drama-romance sensível e sutil, tal qual poesia.

O tema “polêmico” de Flores Raras não existe há muito tempo, e apenas as mentes reduzidas de nossa época, que infelizmente não são poucas, irão enxergar qualquer anomalia no fato da história girar em torno de um triângulo amoroso entre três mulheres: Mary (Tracy Middendorf), a arquiteta Lota (Glória Pires) e a poetisa Elizabeth Bishop (Miranda Otto), todas encapsuladas em tramas tridimensionais. Sensível e inteligente, Bruno Barreto demonstra que a principal anomalia desse relacionamento é o ego controlador e descontrolado de Lota, uma arquiteta que através das influências políticas e dinheiro consegue manter em sua isolada casa no campo a ilusão de um mundo tolerante e tranquilo.

Aliás, Glória Pires mais uma vez se firma como uma das grandes atrizes de nossa época ao encarnar uma personagem que oscila entre o amoroso e o cruel. No entanto, a grande surpresa fica por conta de Miranda Otto, que constrói e realiza um arco admirável em sua Elizabeth Bishop, que parte de um início tímido a um final… bem, não tímido. O resultado é tão satisfatória que sua personagem cria um aspecto inesperadamente sombrio à história.

Iniciando nos anos 50, passando pelo golpe militar brasileiro e avançando os anos com uma sutileza admirável, nos provocando a sensação de passagem no tempo mais pelos aspectos externos (figurino e direção de arte) a psique dos personagens parece se manter quase intacta, como se pouca coisa tenha mudado mesmo que as rugas venham surgindo. Os problemas do longa parecem residir apenas na direção muitas vezes intrusiva de Barreto, que apela para o fantasioso sem qualquer motivo senão “sobredramatizar” (para não dizer “novelizar”). É por isso que, se uma chuva repentina causa surpresas, isso é passageiro, mas se o mesmo efeito se repete nas luzes de um parque ou em tantos outros momentos, podemos duvidar de nossa própria capacidade de entender as entrelinhas ou o filme duvida que aqueles acontecimentos não tenham força própria.

Mesmo assim, é admirável constatar que, baseado em fatos, o hábil roteiro derivado de um romance consegue entregar uma história se não verossímil, degustável através da própria visão literária de sua protagonista. Isso por si só o equipara a Swimming Pool, uma ficção que faz rima inversa ao realismo da obra de Barreto.

Perfeito

August 15, 2013 in Home Video

Aproveitando o Dia dos Solteiros, um curta de Mauricio Bartok transcende a questão do par perfeito usando como base um boneco de madeira. O uso do som para pontuar momentos importantes na construção desse “relacionamento” é o ponto forte, enquanto a câmera escolhida consegue impregnar o trabalho de um dinamismo que nos deixa grudados à espera da resolução.

Dica da DJex.

Círculo de Fogo

August 9, 2013 in Cinema

Pacific Rim. EUA, 2013. Director: Guillermo del Toro. Writers: Travis Beacham (screenplay), Guillermo del Toro (screenplay), Travis Beacham (story). Stars: Charlie Hunnam, Idris Elba, Rinko Kikuchi.

Círculo de Fogo

Monstros e robôs gigantes homenageiam o poder da imaginação.

Ao contrário de Homem de Aço, que apesar de voar se esforça em manter seus dois pés no chão da realidade, Círculo de Fogo parece navegar por outras águas, sempre disposto a impulsionar sua fantasia em direção daquele mundinho que habita nossa mente de criança (espero que você ainda a tenha) em busca de desafios cada vez maiores para nossos gigantes heróis.

Inspirado diretamente das séries japonesas de Eras atrás (estou olhando para vocês, Jaspion / Changeman / Spectroman) a narração introdutória explica como monstros que surgiram do Oceano Pacífico através de uma espécie de portal para outra dimensão/universo impulsionaram as nações a construir o sonho de consumo de qualquer jovem: um robô gigante para esmagar as criaturas dos mares. Embora condicionado no conhecido formato americano de fazer Cinema (que obriga os heróis a terem dramas e fantasmas pessoais do seu passado para resolver), a boa notícia é que a alma oriental permanece, pelo menos nos momentos mais icônicos, o que faz a película vibrar em momentos pontuais, mas em quantidade suficiente para segurar a tensão.

Eu diria até mais: impulsionado pela música que cria um tema fácil de saborear pelas mentes mais simples, Círculo de Fogo gera momentos de fazer vibrar pela sua reimaginaçao em um CGI estupidamente bem elaborado. Em seu momento mais inspirado (envolvendo uma certa cena aérea e um desfecho inesperado) é capaz de arrancar aplausos que surgem da platéia quase que naturalmente.

O uso do 3D, embora com propensão a dores de cabeça nas cenas movimentadas, é inteligente em sua concepção: como quase todas as cenas de luta ocorrem na água e/ou sob pesada chuva as inúmeras gotículas em suspensão criam a sensação de profundidade todo o tempo. Do lado de dentro dos robôs, painéis suspensos no ar também nos ajudam nessa imersão. Outros dois indícios confirmam as boas intenções do diretor para com a tecnologia: a profundidade quando “observamos a mente” dos pilotos durante sua conexão com a máquina e algumas cenas que colocam pessoas à frente e monstros no fundo, em uma óbvia brincadeira com as séries originais, que constantemente faziam colagens nesse estilo usando a velha técnica de projeção ao fundo; aqui, a projeção é em 3D.

Mas nem tudo são robôs, e os cientistas engraçadinhos se saem bem mais ou menos, ainda que façam parte da tal homenagem. Também não é razoável dizer que a história pessoal dos personagens, assim como os próprios personagens, exercem qualquer tipo de influência positiva ou negativa no resultado final.

No fundo o que importa mesmo são as lutas corpo a corpo (ou lata). As máquinas criadas pelo homem são estupidamente grandes e fortes, mas seus movimentos gigantescos são coreografados de forma lenta, dando a sensação de fragilidade em frente aos monstros, que parecem dotados de uma rapidez natural e orgânica. O resultado na maioria das vezes é que, mesmo com cenas memoráveis de ação, é fácil se confundir (e não é pra menos: na chuva, no escuro, envolto por criaturas mais escuras ainda).

Amor Pleno

July 31, 2013 in Cinema

To the Wonder. EUA, 2012. Director: Terrence Malick. Writer: Terrence Malick. Stars: Ben Affleck, Olga Kurylenko, Rachel McAdams, Javier Bardem.

Amor Pleno

Diretor de Árvore da Vida respira em filme menos pretencioso.

É difícil analisar os filmes de Terrence Malick através da abordagem tradicional de “historinha”. O que é possível observar nesse seu novo trabalho é sua semelhança com Árvore da Vida (semelhança narrativa) com muito menos glamour. Assim como a reflexão de Almodóvar em Amantes Passageiros (depois do tenso A Pele que Habito), Malick parece querer não se aprofundar demais em temas existenciais como fez anteriormente, mas mesmo assim não consegue evitar de ligar as referências, como em determinado momento sua câmera foge para o mundo subaquático, quase como uma tentativa de conectar-se com seu predecessor no melhor estilo continuação dos grande temas.

E o amor é o grande tema dessa vez, e mais uma vez a religião é a lupa usada em sua análise, na figura de um padre questionando repetidamente sua fé e a inexistência do amor do casal principal em sua relação com um ser supremo.

Esse casal, com suas idas e vindas, ainda assim parece ter algo a mais do que o padre, que ao olhar para as misérias da vida não consegue conceber que há algum tipo de amor em nossa Criação. Talvez essa repetição insistente de Malick soe como um martelo na cabeça de um religioso, que assim como o personagem de Javier Bardem, no fundo nunca vivenciou um testemunho que poderia se dizer divino no sentido bom da palavra.

Aqui como em Árvore o uso dos sons, da música e principalmente da luz é vital para compreendermos o que se passa. Os atores são meros objetos em cena, ainda que em algum momento esses objetos exprimam alguma emoção significativa em meio a tanta repetição.

Não é difícil contemplar as obras de Malick. A não ser que você precise racionalizar isso de alguma forma.

A Hora do Pesadelo

July 28, 2013 in Home Video

A Nightmare on Elm Street. EUA, 1984. Director: Wes Craven. Writer: Wes Craven. Stars: John Saxon, Heather Langenkamp, Johnny Depp.

A Hora do Pesadelo

Freddy Krueger era muito mais divertido.

Clássico de terror dos anos 80, continua envelhecendo bem, e apesar de sua ingenuidade para com o público sedento por realismo de hoje (só que sem muito sangue, por favor), estabelece o seu medo no campo dos sonhos, onde tudo é possível existir. Os efeitos não-digitais ajudam e muito a nos colocar no quarto com Marge (Ronee Blakley), Tina (Amanda Wyss), Rod (Jsu Garcia) e Glen (Johnny Depp). Quando vemos um garoto ser morto e seu sangue transbordar o teto do seu quarto, se esvaindo de baixo para cima, por mais que saibamos que esse efeito foi produzido filmando o set de cabeça pra baixo o efeito psicológico da cena permanece, pois gera a estranheza necessária do mundo dos sonhos (algo muito higienizado nA Origem de Nolan).

Mesmo assim, Freddy Krueger (Robert Englund) já não assusta mais, e é apenas instrumento do medo que brota do fato de sabermos que se ele está presente naquela realidade e ela pode ser manipulada de acordo com seu demoníaco prazer. O fato dele ir até as últimas consequências dos seus atos é a marca do terror daquela época e a fraqueza do terror de hoje em dia, acostumado a gerar tensão através de sustos fáceis e uma morte tão digital que seria melhor se não víssemos. Ainda melhor é notarmos que a maneira usada por Wes Craven para estabelecer a tensão, que dirigiu e escreveu diversos A Hora do Pesadelo e ressucitou o suspense na década passada com Pânico, foi justamente acelerar os eventos e não nos dar muita certeza do que é possível esperar dessa junção entre real e imaginário. (Mais uma vez comparando com o terror/suspense capenga de hoje, que insiste em explicar todas as regras para no final transgredi-las.)

Por fim, um trabalho completo, embora breve demais. Assistindo o original fica óbvio que ele merecia continuações. A ideia é boa demais para ser usada em apenas 90 minutos de filme.

Os Amantes Passageiros

July 27, 2013 in Cinema

Los amantes pasajeros. Espanha, 2013. Director: Pedro Almodóvar. Writer: Pedro Almodóvar. Stars: Javier Cámara, Lola Dueñas, Cecilia Roth.

Os Amantes Passageiros

Retorno de Almodóvar para a comédia é sadio, mas nada inovador.

Almodóvar volta às suas origens das divertidas comédias dramáticas voltadas para personagens homossexuais, videntes e todo o tipo de intriga novelesca. Aliás, a diferença vital entre novelas televisivas e Almodóvar é que este conta uma história como ninguém (e geralmente assina o roteiro).

Outros aspectos da cinegrafia que o fez famoso se mantêm, ainda que ausente em penúltimo trabalho (A Pele que Habito) — o que demonstra que o diretor sabe se livrar de suas “marcas” quando o filme precisa — e que aqui volta com tudo: vermelho, amarelo, azul, roxo… tudo no Cinema de Almodóvar é exagerado, nada sutil e, hoje em dia, pouco polêmico.

A única “polêmica” parece estar apenas na “modernisse” de seus temas: fraudes financeiras e como elas são escandalosamente menos escandalosas que o sexo, e o mundo hiper-conectado (onde o melhor exemplo é uma divertida e útil metáfora envolvendo um telefone quebrado que permite que todo o avião ouça o que está sendo dito). Apreciamos pequenos contos que parecem ter saído da própria filmografia do cineasta dentro de um avião que precisa realizar um pouso de emergência, mas enquanto aguarda por um aeroporto que coopere precisa entreter seus passageiros de alguma forma.

Quase nunca deixando de entreter, as mensagens das histórias estão tão interconectadas e tratadas de maneira tão “passageira” que sua força se esvai com a própria conclusão, querendo dizer 1) mais uma vez um eco das nossas efêmeras relações com o mundo moderno ou 2) a falta de foco do próprio idealizador, afetado pelo mundo que tenta criticar. De qualquer forma, ruim ou bom, um filme novo de Pedro Almodóvar sempre será algo bem-vindo.

Retratos de uma Obsessão

July 20, 2013 in Home Video

One Hour Photo. EUA, 2002. Director: Mark Romanek. Writer: Mark Romanek. Stars: Robin Williams, Connie Nielsen, Michael Vartan.

Retratos de uma Obsessão

A fotografia como elemento narrativo de um suspense exemplar.

Entre tantas coisas que poderiam ser destacadas da performance de Robin Williams como Seymour Parrish, um funcionário de uma hoje extinta reveladora de fotos, o que permanece ao final de Retratos de uma Obsessão são os inúmeros filtros que parecem cobrir sua vida de uma aura tão poética quanto trágica. Esse sentimentos ecoam principalmente através das cores, presentes nas fotos e nas vidas das pessoa para quem trabalha, mas que a ele são negadas. Quer uso mais metafórico da fotografia no Cinema do que a própria fotografia sendo o tema principal?

Dos fregueses de costume, uma família em específico é a “obsessão” de Parrish por anos, e sua dedicação em manter a imagem dessa família no decorrer dos anos é ao mesmo tempo tocante e doentio. Nesse sentido, as expressões de um Williams bem mais contido consegue de maneira eficaz a tarefa de nos manter presos a cada passo seu tentando se aproximar de completos estranhos. Da mesma forma, conforme a história começa a se misturar com seus desejos ocultos de pertencer à família, os abusos das cores azul e laranja começam a fazer sentido nesse mundo dessaturado.

Já o trabalho do diretor/roteirista Mark Romanek constrói um thriller que oscila bem entre o clássico e a referência. Em determinado momento, um episódio de Os Simpsons mostra uma piada onde é usado o toque de O Cabo do Medo (Scorsese, 1991). Esse toque, além de uma brincadeira inocente, revela os objetivos do filme enquanto metalinguagem.

Ainda assim, com todas as desculpas possíveis, é difícil ignorar que o diretor de fotografia Jeff Cronenweth não tenha exagerado um pouco. Mas só um pouco. Todo o resto é útil para a construção do personagem e das situações. A medida do exagero é quando todas essas cores insistem em nos jogar para fora do filme. Ou talvez o ritmo às vezes descompassado, que gera um efeito episódico sem necessidade.

De qualquer forma, nada nos prepara para o final anti-climático, revelador e elegante em sua sutileza (e gritante em seu diálogo final, justo em um filme que na maior parte do tempo não precisa disso). Há algo de inocente nesse thriller enquanto thriller, mas algo de maravilhoso sendo construído com cores e enquadramentos enquanto exercício de estilo. Uma pena que ambos não consigam coexistir com total harmonia.

Tinha que Ser Você

July 18, 2013 in Home Video

Last Chance Harvey. EUA, 2008. Director: Joel Hopkins. Writer: Joel Hopkins. Stars: Dustin Hoffman, Emma Thompson, Eileen Atkins.

Tinha que Ser Você

Um drama dentro de um formol comédia-romântica (e britânica).

Eu sei que o desfecho final possui vários defeitos. É esquemático porque segue à risca a cartilha das comédias românticas, o que acaba prejudicando demais aqueles dois personagens até então bem construídos. Está longe do clima depressivo de todo o resto, onde o diretor tenta amenizar com músicas bonitinhas e um pouco do desconcertante humor britânico (mas a partir de um dado momento, acompanhar a mãe paranoica nem é mais interessante).

Porém, e coloco um grande porém agora, sua introdução e desenvolvimento são exemplares. A colocação do personagem de Dustin Hoffman como pai deslocado de uma família e de um emprego aos quais já não pertence mais é tocante por vir aos poucos e com certo ritmo. Tanto o desempenho de Hoffman quanto os enquadramentos ressaltando seu isolamento do mundo contribuem para a criação de um ser humano tão complexo quanto Bill Murray em Encontros e Desencontros.

Já Emma Thompson desenvolve uma solteirona sem os dramas existenciais. Alguém que já se acostumou com os foras, e é levada pela mãe a se empenhar em uma vida a dois que já não acredita mais. Sua cena sozinha no banheiro é a mais sintomática e tocante nesse sentido, pois revela algo já existente em seus olhos, sua voz e seus trejeitos, mas ainda não declarada.

Os detalhes periféricos invadem nossa noção de realidade sem pedir licença. A trilha sonora, bonita, se coloca várias vezes para forçar a mudança de humor do quadro formado. Uma pena, pois enquanto Hoffman e Thompson nos aproximam do seu drama, a música nos afasta pelo seu melodrama barato. A insegurança do diretor quanto ao desempenho desses dois atores veteranos (ou do público mal formado) é risível.

Mesmo assim, seu primeiro desfecho é eficiente demais para não gostarmos dele. Tanto que poderíamos aceitar a tristeza e dor de uma partida repentina sem crise (pelo bem e integridade daquele casal). Não é o que acontece, contudo, o que gera o desapontamento do primeiro parágrafo desse texto.

Conduzindo Miss Daisy

July 10, 2013 in Home Video

Driving Miss Daisy. EUA, 1989. Director: Bruce Beresford. Writers: Alfred Uhry (screenplay), Alfred Uhry (play). Stars: Morgan Freeman, Jessica Tandy, Dan Aykroyd.

Conduzindo Miss Daisy

Um leve e adorável drama que envelheceu muito bem.

Um filme que envelheceu bem, mas que continua enigmático em alguns sentidos (ele é, de fato, racista?). Em outros, se reforça ainda mais, como é o caso da belíssima trilha sonora, composta pelo rival de temas de John Williams, Hans Zimmer, e das interpretações de Morgam Freeman e Jessica Tandy.

Freeman estava em plena forma, e o seu Hoke Colburn possui momentos inesquecíveis de tão tenros, como o momento em que ele aprende a ler o nome de uma pessoa em um jazigo e — o meu favorito — quando ele conclui que ter alguém brigando por ele é algo “lindo”. Já Jessica Tandy faz por merecer seu Oscar de atriz principal (dois anos depois ainda seria indicada por Tomates Verdes Fritos), se entregando à degradação do tempo de sua avarenta e desconfiada Miss Daisy com uma verossimilhança e poesia tocantes. A relação entre os dois progride com um ritmo tão sincero que é irresistível não se deixar levar pela passagem do tempo.

O que nos leva à cena final, que fecha um arco iniciado décadas atrás e que é conduzido a cada passo com precisão por Bruce Beresford em um estilo que lembra um pouco a mesma virtude observada em Forrest Gump (só que de Robert Zemeckis). O envelhecimento dos personagens pode ser criticado como pouco natural, mas o comportamento dessas pessoas no decorrer das eras — onde a posição do negro na sociedade americana foi se estabelecendo — é inquestionavelmente mérito de atuação desse afiado elenco.