O que se move

May 16, 2013 in Cinema

Idem. Brasil, 2013. Direção: Caetano Gotardo. Roteiro: Caetano Gotardo. Elenco: Cida Moreira, Andrea Marquee, Fernanda Vianna.

O que se move

Estreia do montador de Trabalhar Cansa na direção e roteiro não decepciona.

Montador de Trabalhar Cansa (2011, Marco Dutra e Juliana Rojas), uma das mais agradáveis surpresas daquele ano no Cinema Nacional, Caetano Gotardo estreia na direção desse filme quase experimental e trabalha em conjunto com os diretores do filme que montara (Juliana Rojas faz aqui a montagem e Marcos Dutra divide o trabalho musical com o diretor). Quase, pois as nuâncias inseridas em suas três historietas trágicas e casuais criam uma dimensão emotiva que não pode ser ignorada. O detalhe mais marcante são as canções entoadas pelos seus próprios atores (não se preocupe quem não gosta de musicais, pois existem apenas três momentos). Nesse sentido, talvez o tempo de experiência na montagem tenha feito uma diferença notável em sua percepção da realidade. Ou podemos dizer que o trio de cineastas conseguem um impressionante desempenho qual sejam suas funções na produção.

Portanto, por mais inconsequentes e despretenciosas que sejam os três episódios, há um crescente emotivo envolvente, ainda que sua primeira história inicial pareça não se esforçar para isso. Podemos dizer que o choque inicial ao final do primeiro episódio seja o estopim necessário para que enxerguemos o que está sendo proposto, e mesmo com seus defeitos (como os diálogos pavorosos, propositais ou não) cumpre bem o que se propõe. Dito isso, ouvir a mãe cantar uma música sem rimas, sem ritmo e sem propósito nenhum a não ser estabelecer o óbvio (explicar o que ocorreu com o filho com a carga dramática de uma mãe embutida) se torna um guia necessário para entendermos o que está acontecendo diante de nós.

Ao ligar os episódios de maneira mais metafísica do que orgânica, a segunda história envolvendo outra família consegue aos poucos subir o degrau de significados. Alguns ocultos, outros parecendo mero artifício hermenêutico “para aparecer” e outros ainda revelando a alma do filme de maneira a fisgar cada vez mais nossa atenção. No entanto, algumas coisas ainda teimam em nos atirar para fora: mais uma vez os diálogos chegando ao embaraço, o acúmulo de cenas desconexas ou desproporcionalmente longas (que quando estão querendo dizer algo, soam óbvias, e quando não estão, soam obscuras).

Mesmo assim o diretor/roteirista insiste em sua temática, o que revela em seu terceiro ato os momentos mais tensos e propositadamente desconcertantes de todo o filme. Boa parte desse efeito pode ser atribuído à revelação do longa, Fernanda Vianna, a atriz que faz a terceira mãe. Ela quase rouba a nossa atenção completa se a situação já não nos forçasse a isso: o primeiro encontro com o filho roubado da maternidade.

Enquanto tentamos juntar as peças derrubadas pela catarse gerada pela evolução de personagens e situações, o que mais fica na mente é o tema proposto, o que há de comum naquelas histórias. Nos esquecemos do resto e, assim como o cisne do primeiro episódio, vemos o tempo passar sem muito o que fazer.

A Morte do Demônio

May 8, 2013 in Cinema

Evil Dead. EUA, 2013. Director: Fede Alvarez. Writers: Fede Alvarez (screenplay), Rodo Sayagues (screenplay), Sam Raimi. Stars: Jane Levy, Shiloh Fernandez, Lou Taylor Pucci.

A Morte do Demônio

Uma experiência para ser saboreada mais pelos sentidos do que pelo lógica.

Um remake e uma revisita ao clássico trash da década de 80 (antes dirigido por Sam Raimi, o mesmo da trilogia Homem-Aranha), o longa de estreia de Fede Alvarez deixa a razão em segundo plano, mas por um motivo dos mais louváveis: tudo acontece tão rápido que se preocupar demais com isso tornaria a experiência intelectual demais. No fundo, queremos acreditar que tudo não passa de alucinações coletivas que logo irão se revelar uma fraude. Na verdade, rezamos por isso, pois a imersão ao horror da história é feito com tal profundidade que em determinados momentos fica difícil focalizar na tela o que está acontecendo.

A introdução rápida e eficaz mostra uma garota queimada pelo próprio pai (que logo em seguida atira em sua cabeça) em torno de pessoas que parecem pertencer a uma seita satânica. Através das palavras da que seria a feiticeira do grupo, no entanto, ficamos sabendo que o que de fato está ocorrendo é um exorcismo dos mais radicais. Esse pequeno prólogo já revela a que veio o filme, sem pudores de mostrar graficamente tudo o que acontece na tela, miolo por miolo.

Como é de praxe no gênero, algum tempo se passa e vemos o mesmo local revisitado pelo encontro de dois irmãos e seus amigos em uma cabana no meio de uma floresta de pinheiros (que é enfocada sugestivamente logo no início de cabeça pra baixo). A história principal gira em torno de Mia (Jane Levy), que resolve mais uma vez tentar se afastar das drogas que quase a levaram deste mundo. Com o apoio dos amigos — incluindo uma enfermeira — e seu até então ausente irmão (Shiloh Fernandez), o grupo tentará evitar ao máximo a saída do local antes do processo de desintoxicação que Mia precisa enfrentar.

O que não poderia ser previsto é que um livro encontrado no porão desperta o mal que até então parecia adormecido pelo ato visto no início do filme. Revemos o que parece ser a menina queimada, em uma sequência que já dá calafrios ao repassar na mente. E o que acontece em seguida merece existir simplesmente na imaginação visual dos espectadores. Ninguém deveria narrar o filme para seus amigos, pois eles deveria ver (e ouvir) por si mesmos. Irei poupá-los também de maiores descrições.

Uma pequena virtude que torna a narrativa acima da média dos adolescentes descerebrados que não conseguem fugir de uma cabana é a sacada dos jovens tentarem evitar que a amiga não resista à sua abstinência. A partir disso, e entendendo que o que está em jogo também é a longa amizade entre aquelas pessoas, qualquer ato, por mais insano que seja, tenta ser racionalizado. Nós acompanhamos essa tentativa tão desconsolados quanto eles, pois não vemos muito mais do que todos veem. A trilha sonora brinca com o terror em nossa imaginação. Ela participa dessa tentativa de fantasiar, mas sem drama. É leve em muitos momentos tensos. Sem medo de criar algumas cenas escatológicas e outras sobre mutilação e muito sangue, com o risco de impressionar de maneira episódica, sempre somos levados de volta para a questão central: o que fazer nessa situação?

A câmera, sempre esguia e disposta a empregar enquadramentos tortos e movimentos inusitados desde o início (como a floresta invertida já citada), nos força a olhar sempre para os cantos, o que fazemos de maneira inconsciente até mesmo quando sabemos que não veremos nada. Uma técnica batida, sim, mas que funciona extraordinariamente bem aqui, onde o sobrenatural é tateado aos poucos.

Se tornando levemente mais apelativo nos momentos finais, Evil Dead prova sua força ao conduzir-nos em um pós-clímax de maneira incrivelmente eficiente, ainda que para isso force a ação dentro dos lugares mais inusitados possíveis e sob uma forte e inusitada chuva. No entanto, isso é o que torna a experiência fantasiosa mais incrivelmente sedutora. E, caso ainda sobre um sentimento de trapaça, é bom lembrar que se existisse um demônio, seria ingênuo demais pensar que ele seguiria alguma regra.

O filme diverte e é trágico. Diverte pelas sequências absurdas, mas que prendem a atenção. É trágico se pensarmos que essas pessoas estão fazendo o que podem. Não são estúpidas como na maioria dos filmes, e seu pecado menor do grupo talvez seja o ceticismo generalizado, e nem isso é indesculpável (poderia ser explicado pela razão até determinado momento chave onde as coisas fogem completamente do controle).

Talvez seja uma ilusão essa de controle. Ele pode muito bem não existir nunca. Apenas vamos nos tocamos disso aos poucos, dolorosa e lentamente.

Quanto à lógica. Se a única questão em debate seria o livro (que poderia ter sido destruído) ele se resolve sozinho. O resto não merece maiores pensamentos. É uma força oculta e que pode se materializar de diferentes formas.

As interpretações dos atores não é nada demais, mas não prejudica. No entanto, se quiser ter em mente o que assolava tanto o grupo durante todo o tempo, lembre-se da cara de Mia ao retornar da floresta. Essa é a expressão do terror que felizmente ficou do outro lado da tela (espero).

PS: Após os créditos há uma narração em off e uma aparição inusitada, mas apropriada, de um certo personagem.

Um Crime de Mestre

April 21, 2013 in Home Video

Fracture. EUA/Alemanha, 2007. Director: Gregory Hoblit. Writers: Daniel Pyne (screenplay), Glenn Gers (screenplay). Stars: Anthony Hopkins, Ryan Gosling, David Strathairn.

fracture-4

Suposto thriller é análise fria e pessimista do sistema judiciário norte-americano.

Um Crime de Mestre utiliza seus dois atores principais da melhor maneira. Anthony Hopkins, relembrado pelo título original (Fracture) que remete à mesma brincadeira metafórica do jovem clássico Silêncio dos Inocentes (Silence of the “Lambs”), estabelece um personagem frio e calculista que parece estar sempre se divertindo com seus jogos mentais e é alheio à realidade à sua volta, e ainda que cometa um crime passional logo no início o faz de forma hedionda e determinística. Já Ryan Gosling, que hoje possui em seu currículo o controverso motorista de Drive, é um advogado que se relaciona com as pessoas, mas assim como Hopkins, olha o mundo sempre do ponto de vista como ele pode servi-lo.

Quando ambos os egos se encontram em um embate mais intelectual do que emotivo, as regra do sistema judiciário americano são vitais para a compreensão do que está em jogo: o único suspeito de assassinar sua própria esposa pode sair impune caso as peças não estejam devidamente encaixadas. A impressão que é passada a quase todo momento é que o sistema legal daquele país é tão frágil — ou seus “jogadores” tão ambiciosos — que gerenciar a justiça se torna função de empresas frias e calculistas como o próprio assassino. Nesse sentido, o que o diferencia dos seus advogados?

Aliá, emoção é um tema que nunca é deixado fluir. Utilizando tons noturnos quase sempre azuis e tristes, a película como um todo é uma reflexão nada otimista sobre como a justiça pode se relativizar e consequentemente se desumanizar. Mesmo quando Gosling se apresenta como o adversário passional do jogo que se desenrola, sabemos que sua principal motivação é simplesmente sua auto-afirmação como o promotor que teve 97% de suas causas ganhas. O diretor Gregory Hoblit (As Duas Faces de Um Crime) e o roteirista Daniel Pyne (Sob o Domínio do Mal) não permitem em nenhum momento que a história descambe para o melodrama, o que pode repelir os que esperam um thriller ou algo com mais ação. No entanto, o dia-a-dia da lei não poderia estar melhor retratado que na desesperança de uma vítima que sobrevive apenas formalmente com a ajuda de máquinas.

Pieta

March 18, 2013 in Cinema

Idem. Coreia do Sul, 2012. Director: Ki-duk Kim. Writer: Ki-duk Kim. Stars: Min-soo Jo, Eunjin Kang, Jae-rok Kim.

Pieta

Visceral como sempre, diretor coreano traz mais uma história original e intensa.

Finalmente, depois de ganhar prêmios na Europa e ser exibido apenas na Mostra do Rio do ano passado (em uma atitude claramente estúpida dos organizadores da Mostra SP), algumas distribuidoras nacionais resolveram estrear o novo trabalho de Kim Ki-duk. É impressionante como parece que a qualidade dos trabalhos lá fora é inversamente proporcional à pressa das distribuidoras brasileiras em fornecer conteúdo para o público local.

Kim Ki-duk é conhecido pelos seus filmes cheios de significado e símbolos, sobretudo nas cores que utiliza. Em Fôlego e “Primavera, Verão…” temos os momentos mais enigmáticos e controversos do diretor que adota projetos já polêmicos desde o roteiro (que geralmente também escreve).

Em Pieta a polêmica fica por conta de Gang-Do (Lee Jeong-jin), um cobrador de dívidas de um agiota que trabalha em uma região de trabalhadores de máquinas pesadas e que os obriga a “se aleijar” para através dinheiro do seguro que recebem conseguirem pagar pelos abusivos juros. No momento em que encontra sua suposta mãe (Jo Min-su) o seu estilo de vida fundado em uma violência praticamente primitiva (ele leva os animais que come ainda vivos) é questionado pelos seus primeiros sentimentos de afeição que procuram uma maneira nada convencional se expressar. O detalhe é que o seu modo violento de tratar as pessoas é usado como forma dos dois se aproximarem.

Esse choque de realidades é o ponto forte do primeiro ato, e a identificação pelas cores e sons é primordial para a nossa identificação do drama que se configura. Desde o primeiro momento em que se encontram, mãe e filho se vestem com as mesmas cores básicas. O verde, representando o dinheiro, deixa uma mensagem constante na rotina do rapaz. O vermelho, por outro lado, adquire o elemento misterioso, e é o que mantém o suspense da história. Já o som comenta as cenas de uma forma quase poética. O som de tapas secos ecoando pela rotina do rapaz não é gratuito, e Ki-duk encontra uma maneira cruel e criativa de mostrar o olhar horrorizado de uma mãe enquanto assiste seu filho ser esbofeteado.

É preciso prestar atenção do começo ao fim para capturar boa parte da mensagem que o diretor/roteirista pretende passar. Ele sabe brincar de pista e recompensa como ninguém, mas o que não quer dizer que seja uma história fácil. O impacto de algumas cenas conseguem desviar nossa atenção e os nossos pensamentos muito rapidamente.

Ao chegarmos no ponto de virada da história, igualmente impactante, a narrativa esmoece um pouco. Problemas na estrutura enfraquecem os acontecimentos logo após a nossa descoberta principal, mas enquanto tentamos captar o significado do que está na tela muita informação parece ser jogada na nossa frente apenas para que não percebamos os próximos movimentos. É uma pena que início e conclusão possuam um encaixe irregular, pois as qualidades da história até então parecem ter encontrado o seu ápice minutos antes do seu desfecho, indicando que estamos assistindo uma obra de quem sabe o que está fazendo.

Kim Ki-duk continua sendo um dos meus diretores favoritos. Por mais que às vezes peque na economia narrativa, um filme irregular dele é dezenas de vezes melhor que a média “do mercado”.

De Coração Aberto

March 14, 2013 in Cinema

À coeur ouvert. França/Argentina, 2012. Director: Marion Laine. Writers: Marion Laine, Mathias Énard (novel). Stars: Juliette Binoche, Édgar Ramírez, Hippolyte Girardot.

De Coração Aberto

Drama visceral sobre maturidade é coeso, simples e direto.

Javier (Édgar Ramírez) é o cirurgião do hospital onde Mila (Juliette Binoche) trabalha. São marido e mulher. Ou melhor dizendo, mulher e marido. A impulsividade de Javier e sua dependência da mulher vão aos poucos se desenvolvendo pela diretora (e atriz) Marion Laine. Seu alcoolismo o afasta das operações, o que é o estopim para que sua impulsividade tome o controle não apenas de sua vida, mas de Mila. As coisas pioram quando descobrimos que ela está grávida. As decisões de Mila são sempre em função de Javier, que é uma bomba-relógio.

O argumento para o aborto de Mila é evitar “algo sem controle” na vida dos dois. A princípio podemos supor que ela fala sobre o bebê, mas logo fica claro sua maturidade frente ao comportamento quase primata do marido. Não precisamos de muitos diálogos expositivos. Marion Laine coloca Javier entre chimpanzés, e esse parece ser o que mais deseja.

Os detalhes técnicos impressionam pela sutileza, como o som, que nos guia a todo o momento sem tornar-se demasiadamente invasivo. No entanto, ele pode estar presente tanto nos momentos mais sutis (como uma batida no capacete de um personagem) quanto nos mais urgentes (o som da água no rio). Já a fotografia é exibicionista, mas não revela seu significado, permanecendo como uma imagem indelével na mente. Brinca com o vermelho, às vezes nas roupas de Mila, outras na de Javier. A tragédia ronda a vida dos dois. Aos poucos percebemos que não importa o que seja feito tende a dar errado, ou está predestinado a dar. Em uma montagem primorosa somos levados de um exercício de ternura a um ato de violência sem controle, quando Javier e Mila exibem seus sentimentos de forma visual a respeito do seu filho.

O terceiro ato termina como deve ser, ou como algo que esperávamos a qualquer momento. Com uma câmera que flutua entre transições viscerais entre um tranquilo sonho no rio e uma sala de cirurgia somos levados a juntar todas as peças elegantemente espalhadas pela história. Não precisamos que nos expliquem qual a grande mensagem por trás de tudo isso. No fundo, é desejável que cada um tire suas próprias conclusões.

Amigos Inseparáveis

March 11, 2013 in Cinema

Stand Up Guys. EUA, 2012. Director: Fisher Stevens. Writer: Noah Haidle. Stars: Al Pacino, Alan Arkin, Christopher Walken.

Amigos Inseparáveis

Cinema old school é usado para exercício fascinante de metalinguagem.

Enquanto brutamontes e velhos heróis caindo aos pedaços resolvem voltar à ativa como objetos aparentemente invulneráveis contra a ação do tempo (Bruce Willis em Duro de Matar, Schwarzenegger em Os Mercenários), Al Pacino, Alan Arkin e Christopher Walken vão no caminho oposto, exaltando as diferenças de um jeito antigo de fazer cinema jogando em nossa cara, mas ao mesmo tempo reinventando-se como metalinguagem, uma maneira nostálgica que ao mesmo tempo discute nossa geração: onde foi que começamos a ficar mais distantes da vida, cada vez mais vidrados em uma tela de celular? Quando foi que deixamos de fazer algo arriscado ou mesmo fora da “tirania da rotina”, como faz o personagem de Al Pacino?

Em Stand Up Guys, de Fisher Stevens (Foi Só um Beijo), vemos um Al Pacino decadente saindo da prisão. Seu personagem, Val, é daqueles que cumpre pena por todos os colegas e se mantém em silêncio. Por 28 anos. Quando sai, é recebido pelo “aposentado” Doc (Christopher Walken), que parece viver uma rotina interminável, aguardando por este fatídico dia.

No início há o choque do tom decadente, de que o mundo mudou muito e todos os lugares antes frequentados pelos dois surgem anacrônicos, com direito a tons de neon e um ar cansado. Esses lugares encaixam perfeitamente nos personagens. No entanto, não é algo feliz, e vai se tornando patético, medonho e trágico. Al Pacino vive o autêntico old school que se esqueceu de envelhecer. Christopher Walken já sabe que já não pertencem mais àquele mundo. Está aposentado, vive repetindo. Aos poucos as falas vão revelando o inevitável já visto por nós: Walken precisa tirar a vida do seu amigo ou também estará perdido. Uma vingança do seu antigo chefe o obriga, o mesmo chefe que o transformou em um dinossauro sem lar.

No decorrer de uma noite de muitos significados a lealdade entre colegas é exaltada e uma dança entre dois completo estranhos monopoliza nossa total atenção. O trabalho de iluminação é primoroso, pois coloca-os quase sempre na contraluz e na ambiguidade, e a câmera não exita em movimentar os personagens por luz e sombra, evocando seus momentos mais tenebrosos e iluminados ao mesmo tempo. A dinâmica das falas soam ultrapassadas, mas Pacino e Walken com suas habilidades tocantes consegue fazê-las funcionar a todo momento. Mais tarde Alan Arkin se junta ao grupo, onde diverte a analogia de liberdade entre uma prisão e um asilo. Seu destino talvez seja a mensagem que faltava, o ponto de virada daquela noite de saudosista para inesquecível. De repente a decadência não mais importa, mas sim a emoção de estar vivo. Honra também faz parte do pacote da noite, e claro, sexo, que contém piadas sobre a velhice, mas que igualmente elegante, também funciona.

No fundo, a maior proeza do filme é a sua história que bate o coração devagar, como se estivesse a parar, para logo depois começar a bater mais forte. Nosso reconhecimento da amizade entre os envolvidos só aumenta. Embora seja repetitivo no terceiro ato em sua solenidade pelo “ato final” — e a câmera cada vez mais distante dos personagens pareça embaraçada (ou com medo do que vai acontecer).

Em um dado momento do longa Arkin pergunta se os atos dos três amigos serão “como nos velhos tempos”, no que Pacino responde que “será melhor”. Por quê? “Dessa vez podemos apreciar nossos atos.” Eis a definição do poder da experiência em nossas vidas, onde a repetição de velhos hábitos nunca é uma simples repetição. Da mesma forma, o simples fato de já termos visto esse filme trinta anos atrás com os mesmos caras não significa nada, mas a comparação entre as eras, sim.

Lady SnowBlood

March 8, 2013 in Cinema

Shurayukihime. Japão, 1973. Director: Toshiya Fujita. Writers: Kazuo Kamimura (story), Kazuo Koike (story), Norio Osada (screenplay). Stars: Meiko Kaji, Toshio Kurosawa, Masaaki Daimon.

LadySnowblood

Mostra Mondo Tarantino.

Originalmente um mangá da década de 70, Lady Snowblood (sem título nacional, provavelmente nunca lançado no Brasil) contém uma verdadeira miscelânea que com certeza foi fonte de inspiração de Quentin Tarantino na confecção de sua Noiva em Kill Bill. Fica até difícil listar todos os tipos de influências, referências e cópia descarada (como a música-tema). Porém, diferente de um plágio barato, ambos são trabalhos impecáveis de composição, e hoje em dia emprestam diversos significados um ao outro, formando uma perfeita sessão dupla (ou tripla, se considerarmos que Kill Bill possui dois “volumes”).

Tendo por tema central a vingança, representada pela figura de Yuki Kashima (Meiko Kaji), uma jovem espadachim que assumiu a vingança de sua família, destroçada por um grupo de assassinos, o vermelho é marca registrada da morte e presente em toda a história. Porém, branco e vemelho trabalham juntos para encontrar os assassinos um a um e completar sua missão.

KillBillVsSnowblood2

Aqui o uso do vermelho e branco é o que une o instinto de vingança da heroína e nos permite enxergarmos a violência de uma forma mais gráfica e ao mesmo tempo cartunesca (além de servir de mensagem temática — sua família é morta por usar branco). O uso exagerado de closes, zooms rápidos e profundidade de campo, traços da época dos filmes de artes marciais, é aplicado de forma sistemática, servindo com o propósito de abrandar as cenas mais fortes, mas ao mesmo tempo exaltar seu significado subliminar na história. (Também é importante ter em mente que os vilões e impuros usam uma cor acizentada.)

Encontrando no caminho com Ryûrei Ashio (Toshio Kurosawa), um jornalista que se interessa por sua história, seu jornal passa a narrar suas aventuras e chamar a atenção do povo local. Os desenhos mostram de forma monocromática o que já vimos em vermelho, uma maneira — diga-se de passagem — muito mais orgânica de inserir a arte gráfica oriental do que a utilizada pelo próprio Kill Bill (assim como os capítulos que dividem o filme, que aqui possuem a desculpa do estilo narrativo da história já escrita). E por falar em comparações é preciso que se ressalte a bomba de fumaça vermelha utilizada em uma cena particularmente tensa, um artifício muito mais elegante que o apagar súbito das luzes no filme de Tarantino, sem explicação plausível a não ser tornar a cena na contraluz mais bonita esteticamente. De certa maneira a metalinguagem em Snowblood também se beneficia por já estarmos inseridos na cultura japonesa. O quatro, por exemplo, número de inimigos de Yuki, também representa a morte.

KillBillVsSnowblood

A montagem, minimalista nas cenas de luta, consegue expressar a violência sem mostrá-la com todos os detalhes sádicos. Basta a sugestão do movimento (ajudada pela câmera e seu enquadramento eficiente) aliada a uma edição de som igualmente competente para ilustrar a agonia dos combatentes, o que também acaba por ilustrar os resultados da vingança. A mixagem de som também sabe atribuir o valor do silêncio, e é por isso que ele se torna vital em dois momentos finais decisivos. Fora a competência técnica e narrativa de uma história que do contrário seria mais uma, o pano de fundo de Snowblood se passa em uma época de ascenção da nação japonesa frente à guerra com os chineses, e a evolução do uso das armas de fogo, onde ganham cada vez mais importância (e é por isso que os dois últimos inimigos a usam, por analogia os mais perigosos).

Da mesma forma, o destino final do inimigo maior de Yuki pode sugerir muitas coisas, como o sacrifício dos mais novos como uma consequência da ganância (é uma morte forçada, mas o filme a faz parecer necessária, e Snowblood não vacila porque sua própria família já havia sido sacrificada pela mesma ganância). O vermelho sempre tão presente nas cenas ao final dá lugar ao branco, sereno, mas que ao mesmo tempo possui o destino de desaparecer com a chegada do sol. Tantos símbolos é que tornam Lady SnowBlood tão fascinante, e que com certeza devem ter aberto os olhos do mestre Tarantino assim que o viu.

Fotos comparativas deste artigo da Rope of Silicon.

A Hora Mais Escura

February 20, 2013 in Cinema

Zero Dark Thirty. EUA, 2012. Director: Kathryn Bigelow. Writer: Mark Boal. Stars: Jessica Chastain, Joel Edgerton, Chris Pratt.

A Hora Mais Escura

Ficção atinge clímax pela proximidade dos eventos na vida real.

Por tratar de eventos que ocorreram na vida real durante a caçada a Bin Laden, A Hora Mais Escura apresenta seus fatos de uma forma semi-documental e corre o risco de ser mal visto ao tratar a tortura um meio justificável e o assassinato de seres humanos um evento impessoal. No primeiro caso (tortura) podemos dizer que as pessoas deste século tendem a encarar o evento com mais compaixão (até pelo histórico de parentes e conhecidos que vivenciaram isso de perto). Já no segundo caso (assassinato), por envolver a morte do terrorista mais odiado de todo o mundo civilizado os sentimentos não caminham tão bem pelo estômago das pessoas que viram o horror de perto e ao vivo.

Esses sentimentos são trabalhados por Kathryn Bigelow no decorrer de um processo que inicia com os ataques dos aviões ao World Trade Center, um acontecimento que apenas ouvimos na tela escura pelas vozes das pessoas envolvidas, o que gera um misto de claustofobia, medo, lembrança e respeito pelas mais de 3000 mortes. Logo depois somos levados a uma sala escura onde um dos membros da al-Qaeda é torturado para revelar o nome das pessoas com que mantinha contato. É quando vemos pela primeira vez os olhos lindos de Maya (Jessica Chastain), uma agente da CIA transferida para esse caso.

Acompanhamos a transição da agente, ainda assustada pelos métodos usados pelo colega para fazer seu preso falar, e quando passa a liderar os interrogatórios, entregue 100% ao trabalho de encontrar uma pessoa que tenha ligação direta com o terrorista. Os acontecimentos pulam rapidamente a quase uma década de esforços de uma equipe que vai aos poucos perdendo o apoio da Casa Branca conforme outros ataques acabam atraindo a atenção da mídia. A insistência de Maya em localizar seu alvo não possui a insanidade dos heróis de ação, mas a ponderação e o sangue frio de uma pessoa determinada e que infelizmente não sabemos o passado, apenas que começou muito cedo na carreira.

Por fim, quando Kathryn Bigelow mostra a que veio e relata de maneira exemplar a missão que dá nome ao título original, se aproveita da trilha de Alexandre Desplat para ressaltar tanto a grandiosidade do evento quando esse misto de sentimentos que rodeia o desejo agora já frio e distante da vingança. Aliás, a música do filme é o unico elemento que diz algo sobre o humor do filme que gira em torno de diálogos longos e burocráticos e que ilustram bem o ritmo de trabalho no decorrer de tantos anos.

Encontrando a cadência exata entre os breves momentos que vemos Maya, os soldados e sua visão noturna piorada por movimentos bruscos constantes, a montagem transforma a contemporaneidade dos eventos em uma experiência única, servindo de metalinguagem da vida real para o que está acontecendo nesse momento. As feridas abertas do povo americano ainda permeiam a cena final com o potencial mais dramático de todos: a frágil humanidade de nossas escolhas.

O Mestre

February 19, 2013 in Cinema

The Master. EUA, 2012. Director: Paul Thomas Anderson. Writer: Paul Thomas Anderson. Stars: Philip Seymour Hoffman, Joaquin Phoenix, Amy Adams.

O Mestre

Cientologia posta no ridículo com um exagero visceral.

Desde o início Freddie Quell (Joaquin Phoenix) é um animal não domesticado, obediente aos seus instintos mais primitivos e dotado de traços animalescos e infantis (como se divertir com peidos). Constatamos isso ainda pelo seu ritual de beber um quase veneno preparado por ele e brigar como um animal raivoso e enxergar sexo em qualquer lugar.

Acreditarmos em seu estado animalesco é vital para que entendamos desde o início que a suposta aura de superioridade que Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), o tal Mestre do título, parece atribuir à figura do homem não passe de um delírio da sociedade moderna. Para isso a colaboração incondicional dos dois atores em viverem essas caricaturas é o que determina o sucesso na comparação entre esses seres que parecem tão díspares. No entanto, note como Lancaster se enfurece ao menor sinal de crítica aos seus métodos, por mais ponderados e racionais que estes sejam, demonstrando que talvez seja uma versão podada do seu recém-amigo.

O diretor Paul T. Anderson não poupa esforços para demonstrar que o aparente cientificismo nos ensinamentos de Lancaster não passam nunca de sua visão subjetiva do mundo, no qual faz o papel de um profeta em uma seita. Se nos escapa o momento onde seja possível identificar qualquer indício de pensamento científico é porque a resposta mais simples é que simplesmente ele não existe.

Ainda que seja justificável a presença de Freddie como alguém disposto a “aprender” com o Mestre e consequentemente nos fazer entrar em seu universo, e mesmo que seja visível a necessidade de Lancaster em conseguir com que Freddie internize seu lado animal (talvez até como um desafio ao seu método) o fato é que nunca é possível deslumbrar o porquê perder tanto tempo com alguém irrecuperável da “falha” de ser um humano visceral (e livre) quando é fácil perceber os objetivos de Lancaster giram melhor próximo dos bolsos das desenganadas (e ricas) velhinhas que consola através da viagem no tempo.

Surgindo como um reflexo obscuro do carisma que esbanja Philip Seymour Hoffman ao encarnar uma pessoa dotada do dom do discurso e desprovido de qualquer lógica — apelando, portanto, para a comédia barata para atrair a atenção de todos — Amy Addams é sua versão meticulosa e mais sincera. Ela parece saber que o império crescente do seu companheiro poderá ser seu quando este partir, o que explica sua assustadora determinação com que parece cuidar do seu pai (ajudando-o inclusive nos momentos mais íntimos).

Quase todas as cenas carecem de trilha sonora, o que torna a introspecção dos atores muito mais realista. No entanto, quando surge, a trilha sonora revela o aspecto obscuro de Lancaster Dodd ao delinear uma série de sons incidentais, que conseguem ilustrar o lado místico e caótico de uma crença que tenta desviar o nosso olhar para o real.

Em detrimento de todos os esforços, e mMesmo sendo nobre a tentativa de ridicularizar a obviamente parodiada Cientologia é preciso assumir que o diretor exagerou por demais em seu ódio. Ou talvez não. Quando uma nova religião forma à sua volta as contas bancárias mais pomposas de Hollywood talvez uma crítica ácida e cinematográfica seja a única coisa honrosa a se fazer para salvarmo-nos da insanidade de um mundo gerido pela ilusão do conhecimento.

Meu Namorado é um Zumbi

February 13, 2013 in Cinema

Warm Bodies. EUA, 2013. Director: Jonathan Levine. Writers: Jonathan Levine (screenplay), Isaac Marion (novel). Stars: Nicholas Hoult, Teresa Palmer, John Malkovich.

Meu Namorado é Um Zumbi

Braaaaaaaainnnsss…

R (Nicholas Hoult) é um zumbi, mas isso não evita que ele pense e avalie suas ações. Comer cérebros, por exemplo, é quase uma necessidade, pois R não pode dormir e sonhar, mas através dos cérebros dos humanos ele consegue visualizar as memórias da vida que acabou de matar e, assim, se sentir vivo novamente por alguns momentos.

É essa com esse tipo de descrição metade cômica e metade poética que o filme de Jonathan Levine estabelece uma relação quase doentia entre comédia e romance. Os zumbis aqui não são levados muito a sério, o que pode prejudicar um pouco a dramaticidade da história. Em compensação, a velha fórmula do diretor de zumbis George Romero aqui é usada, e a comparação com os humanos de hoje em dia é mais que apropriada, principalmente quando R tenta imaginar como as pessoas antes de se tornarem zumbis poderiam confraternizar entre si e imagina um aeroporto onde só vemos humanos desperdiçando a dádiva da vida enfurnados em seus smartphones.

Há outro fator que torna o filme único: R se apaixona por uma garota humana. E a leva para sua casa. Tudo que aprendemos nas comédias românticas adolescentes pode ser aproveitado aqui para extrairmos da experiência de R e Julie um humor acidental e quase natural, como a constante tentativa de R de não soar anormal diante de sua amada e até nos costumes atípicos do rapaz, como preferir discos de vinil ao iPod por estes parecerem mais vivos.

A relação entre R e Julie com certeza é o ponto alto do longa, pois assim que somos apresentados ao humanos militarizados o filme volta para o lugar-comum. Se bem que o fato de terem construído um gigantesco muro que lembra madeira – o velho truque de arrastar os móveis para as portas e janelas elevado à loucura – e serem comandados por um lunático-sádico interpretado por ninguém menos que John Malkovich coloca certa dúvida se Jonathan Levine na verdade não está brincando com nossa concepção idealizada de como deveriam ser os sobreviventes de um apocalipse zumbi.

De qualquer forma, os humanos e os zumbis já possuem uma “rivalidade natural”, e o que soa mais acessório de luxo na história é a existência de uma terceira raça resultante da putrefação final de um zumbi: os esqueléticos. A sua função não é de grande valia: servir de alvos não-antropomorfizados (como as tropas de Darth Vader) e servir como foco de efeitos digitais igualmente supérfluos. Supostamente seriam assustadores, mas não com esses efeitos.

Compreendendo até o fim que o romance entre seres tão diferentes – faz uma brincadeira com Romeu e Julieta – não pode dar certo em uma atmosfera de medo, Meu Namorado é Um Zumbi poderia ser acusado de meloso. Eu diria que a sua “melosidade” brinca com a nossa percepção de como é difícil para algumas pessoas aceitarem as diferenças, e a maior prova disso é que um beijo entre um humano e um zumbi possa parecer tão romântico quanto… errado.