RED 2 – Aposentados e Ainda Mais Perigosos

August 3, 2013 in Cinema

Red 2. EUA/França/Canadá, 2013. Director: Dean Parisot. Writers: Jon Hoeber, Erich Hoeber. Stars: Bruce Willis, John Malkovich, Helen Mirren.

RED 2 - Aposentados e Ainda Mais Perigosos

Continuação dos velhinhos espiões é mais do mesmo (um pouco menos).

Parte divertido e parte esquecível, engraçadinho pelo fato dos seus personagens serem idosos que ainda estão na ativa em sua vida de espiões e assassinos profissionais, RED faz parte desse revival de filmes com atores dos anos 80/90 que acabou se saindo razoavelmente bem e “garantiu” uma continuação. Assim é que nasce RED 2, que esquece completamente da sua premissa de contar uma história de espiões com velhinhos (o fato da idade avançada dos heróis é irrevelante aqui) e tenta se tornar interessante complicando sua história em torno de uma trama bobinha e sem imaginação.

É dessa forma que as maiores virtudes do filme acabam sendo as caretas de John Malkovich e uma ou outra cena de ação, que pelo menos são orquestradas de maneira infinitamente melhor do que o sofrível Duro de Matar 5 (que, aliás, também abandona a premissa da série). Se a coerência é uma virtude, podemos dizer que RED 2 faz jus ao original, se tornando igualmente esquecível a partir do momento que saímos da sala de projeção.

O Morto Vivo

August 2, 2013 in Home Video

The Revenant. EUA, 2009. Director: D. Kerry Prior. Writer: D. Kerry Prior. Stars: David Anders, Chris Wylde, Louise Griffiths.

O Morto Vivo

Drama realista embutido em comédia absurda.

Especialista em efeitos visuais (Força Aérea Um, O Segredo do Abismo), D. Kerry Prior realiza seu segundo longa com uma mescla de realismo com comédia, um pouco de drama e eventualmente um romance, além de comprovar mais uma vez sua proficiência em criar o impossível. Trata alguns desses temas de maneira admirável (o que aconteceria no mundo real se um morto voltasse à vida?) e outros escapam ao seu controle (a comédia absurda que banaliza a morte). Na média, O Morto Vivo é o entretenimento que chama a atenção pela forma original que aborda a questão dessas criaturas que existem em filmes mais fantasiosos, mas que parece nunca conseguir fugir do estereótipo de “filme de zumbi/vampiro/etc”.

Ninguém é Perfeito

July 13, 2013 in Home Video

Flawless. EUA, 1999. Director: Joel Schumacher. Writer: Joel Schumacher. Stars: Robert De Niro, Philip Seymour Hoffman, Barry Miller.

Ninguém é Perfeito

Dramédia explora o mundo torno dos becos e mistura Desafio no Bron7 e A Gaiola das Loucas.

Robert de Niro é Walt Koontz, um policial aposentado como herói. Philip Seymour Hoffman é Rusty, uma drag queen que canta em uma boate gay em seu próprio show. Ambos vivem em um prédio decadente dos subúrbios, e Walt odeia a ideia de conviver com esses seres bizarros, até que um roubo entre criminosos faz ambos se encontrarem e terem que conviver com suas diferenças.

Não é preciso comentar que ambos os atores são talentosos o suficiente para trazer vida a seus personagens sem os tornarem caricatos. Seymour Hoffman está irreconhecível, mas não particularmente tocante: o tom bizarro do filme impede nossa identificação. O mesmo pode-se dizer de Robert de Niro, que não possui diálogos particularmente inspiradores nem a chance de dizê-los. Porém, esse é um filme mais de momentos, gestos e faces que dizem muito mais sobre o que está ocorrendo em cena.

Exatamente por causa disso, a direção de Joel Schumacher (Batman Eternamente) erra a mão ao não tornar o encontro entre esses dois em algo intimista. A visão geral é que pessoas bizarras existem, e não são exatamente ou apenas drag queens. Talvez seja até o oposto.

Nesse sentido, talvez valha a pena uma revisita a este filme daqui uns anos.

O Mesmo Amor, a Mesma Chuva

July 12, 2013 in Home Video

El mismo amor, la misma lluvia. Argentina/EUA, 1999. Director: Juan José Campanella. Writers: Juan José Campanella, Fernando Castets. Stars: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Ulises Dumont.

Drama político e romance de Campanella.

Juan José Companella dirige pela primeira vez o casal dO Segredo dos Seus Olhos, Ricardo Darín e Soledad Villamil, em um romance leve, episódico e que brinca com as palavras ao vento que digerimos conforme a passagem do tempo faz as pessoas mudarem sua visão de mundo, assim como uma Argentina dos anos 80 em amplas modificações políticas e sociais.

Ricardo Darín como o jornalista Jorge Pellegrini é apenas o olho do furacão que acompanha o processo de redemocratização do país. A morte de um velho colega mexe com todos em volta, e acaba virando um fantasma da redação. A jovem Laura (Villamil) é o combustível que tenta empurrar Jorge para o caminho do sucesso, mesmo este sem o desejo de desengavetar suas ambições literárias. A ironia de Jorge em um momento particularmente hipócrita com Laura reflete a própria ironia da nação. Histórias pessoas se misturam com a história de um povo tentando resgatar sua integridade, e Companella abraça o tema sem dar atenção devida a nenhum dos lados.

O Homem de Aço

July 11, 2013 in Cinema

Man of Steel. EUA/Canadá/Reino Unido, 2013. Director: Zack Snyder. Writers: David S. Goyer, Christopher Nolan, Jerry Siegel, Joe Shuster. Stars: Henry Cavill, Amy Adams, Michael Shannon, Russell Crowe, Diane Lane, Antje Traue, Harry Lennix, Kevin Costner, Laurence Fishburne. Música: Hans Zimmer. Direção de Arte: Chris Farmer, Kim Sinclair.

O Homem de Aço

Reboot empolga pelos efeitos, decepciona em sua força dramática.

“Nós vamos lutar até um de nós morrer.” E obviamente é o que eles fazem. A falta de complexidade aliada à ação desenfreada chega a cansar, e o fato de tanto Zod (Michael Shannon) quanto Superman (Henry Cavill) partirem para a violência gratuita revela mais sobre o último do que sobre o primeiro, programado desde a concepção para guerrear pelo seu povo. Chega a ser um quase insulto que o filho do cientista Jor-El se limite a imitá-lo. Justo ele, que foi um bebê “concebido naturalmente”, o que inteligentemente levanta algumas questões sobre livre-arbítrio que nunca são desenvolvidas. Não é sensato que o filme queira que odiemos Zod por ser uma pessoa que quer reconstruir seu povo — e nesse sentido ele falha como vilão temeroso que Zack Snyder parece acreditar que ele seja — mas podemos sim nos sentir frustrados pela aparente indecisão do Homem de Aço em confrontá-lo.

O Homem de Aço caminha melhor pela sua direção de arte. As naves de Kripton imitam insetos, o que exalta sua evolução tecnológica (algo semelhante a Matrix 3 e suas máquinas). O pai de Kal-El voa em um animal, o que simboliza a falta de crença em uma civilização que renega seu fim próximo. Os efeitos digitais, eficazes no geral, falham onde todos falham: a impossibilidade de reproduzir a dureza do mundo real. Mesmo assim, essa é uma abordagem realista e pretende ser uma (re)introdução de um herói, ou por que não, do proto-herói (o herói primitivo de todos os que se seguiram), que vamos aprendendo a reconhecer por breves flashbacks. (Isso seria o suficiente para entendermos suas reais convicções?) O figurino, ponto polêmico durante todo o projeto, consegue ser fiel à origem de seus personagens (e note como Zod e seus aliados conseguem se diferenciar por um escuro que remete diretamente a Superman 2, e o “design” de Faora-Ul (Antje Traue) é o que mais denuncia essa feliz inspiração). A trilha sonora, outro ponto polêmico, concebida por Hans Zimmer para substituir o insubstituível trabalho de John Williams, possui felizes acordes que prenunciam um tema, mas que busca um significado que não encontra reflexo em sua história. Ele é bonita e atribui peso à narrativa, mas ela reforça o quê? A grandiosidade do quê exatamente está sendo reverenciada? Da destruição? Da batalha?

Por falar em referências, Zack Snider homenageia momentos icônicos dos dois primeiros filmes da série original, dirigidos respectivamente por Richard Donner e Richard Lestes em produção complicada, mas usa para isso uma nova roupagem, visual e metafórica, o que empolga justamente por trazer um pouco de emoção em um filme conduzido quase sempre de forma burocrática (apenas mais uma introdução para próximos capítulos?). Os momentos cômicos quase conseguem resgatar o mesmo contraponto criado por Donner no longa original, mas de forma tão breve que podemos especular se o filme evita o humor para aumentar o drama ou evita distrair o espectador (em certo momento, Superman derruba um contador de acidentes em uma obra, zerando-o, mas mal podemos notar, ou há um erro óbvio de timing entre o momento em que Lois é citada na TV e seu celular toca com o nome de Perry White).

Da mesma forma, personagens são jogados na trama de forma quase aleatória e ficam por lá, como é o caso da própria Lois Lane (Amy Adams), o que me faz especular se ela é a primeira mulher que Clark salva ou a primeira mulher bonita. Mas nem sua beleza parece fazer mover os músculos da face do homem de aço, que é impassível tanto diante do amor quanto da morte. Isso nos faz acreditar que esse mundo de fato não pertence a ele.

E não há de fato como esperar o mesmo charme de Christopher Reeve no papel que imortalizou a figura desse herói. Porém, tudo o que necessitavam seria uma figura menos robótica e mais humana que os efeitos digitais do desastroso Superman Returns. No entanto, mesmo colocando um ator de carne-e-osso essa conexão com seu passado cinematográfico não ocorre (apenas em reproduções de cenas clássicas). Com exceção de Jonathan (Kevin Costner), Martha Kent (Diane Lane) e Lois Lane (essa en partes), o elenco permanece neutro onde as atuações são ponto ativo de uma trama, um drama obviamente Shakesperiano sobre a existência (e talvez a caveira representando o Codex, fonte de toda a “humanidade” de Kripton, não tenha sido colocada ali à toa).

No entanto, é com esse tom quase sempre insípido que Zack Snyder transforma a batalha entre o bem e o mal em algo mais alienígena que os kriptonianos que nela lutam. E a ideia de aos poucos explicar detalhes menores da trama (Lois não pode respirar na atmosfera da nave alienígena…) acaba se tornando um pecado justamente por não prestar a mesma atenção a detalhes muito mais relevantes (se Lois é levada à nave, qual o motivo, e por que diabos ela é colocada naquele compartimento em específico?). Kal-El aparentemente escolhe os humanos quase como um mártir, mas o seu sacrifício esperado nunca vem. A única coisa que parece ser uma constante na história é um roteiro certinho de David S. Goyer e Christopher Nolan que consegue justificar para essa geração boa parte das dúvidas sobre como um herói desse quilate existiria em nosso mundo cético por respostas (como a insistência em explicar sua força descomunal). Se Superman sacrificou algo, foi em prol desse mundo científico em que vivemos, e foi a fantasia dos filmes originais; a possibilidade de voarmos tão alto quanto seu protagonista. Aqui acompanhamos seu voo ao longe, de forma controlada, cientificamente correta. O nosso Superman sacrificou os nossos sonhos de ter um herói onde tudo é possível quando se tem boa vontade.

Indie Game: The Movie

June 16, 2013 in Home Video

Idem. Canada, 2012. Directors: Lisanne Pajot, James Swirsky. Stars: Jonathan Blow, Phil Fish, Edmund McMillen.

Indie Game - The Movie

Documentário explora a nerdisse da criação de jogos de computador como expressão de arte.

Focado principalmente no amor, dedicação, desespero e muitas vezes loucura dos criadores de jogos de computador independentes, Indie é uma grata surpresa ao mostrar os nerds solitários como artistas que lutam pelo reconhecimento, mas, acima de tudo, pela máxima expressão de si mesmos dentro dos bits e bytes que insistem em escrever.

Acompanhando a história de três jogos distintos que levaram anos para serem produzidos com os esforços individuais dos seus criadores, e que agora se preparam para ir a público, o diretor primeiro nos entrega a tensão dessas pessoas para depois reconstruir essa mesma tensão em nós mesmos, conforme conhecemos cada vez mais dos projetos e das pessoas por tudo aquilo.

Porém, não há mistérios o suficiente que consigam carregar essa áurea por tanto tempo, o que torna o filme arrastado em alguns momentos pela repetição exagerada das situações, o que talvez indique a falta de mais alguns exemplos de desenvolvedores que engrossem o caldo da vertente solitária dos programadores. Vendo os quatro rapazes isoladamente gera um ar de bando de malucos como Richard Stallman, ativista do movimento do software livre.

Boa parte da narrativa parece justamente querer isso, mostrando a infância problemática dos autores e suas opiniões egocêntricas e claramente infantis a respeito da indústria dos jogos, como falar que jogos de milhões produzidos por centenas de pessoas não passa de lixo. Ironicamente a mesma indústria é usada como alavanca de vendas (e pode ter sido uma péssima ideia usar a plataforma da Microsoft como exemplo de esperança de publicidade para programadores independentes, fazendo com que toda a narrativa pareça cair em uma dura contradição).

De qualquer forma, Indie é uma compilação inédita de momentos com nerds onde a criação é mais importante que a criatura. Um bom motivo para uma olhada entre fases.

South Park – Primeira Temporada

June 7, 2013 in Séries

Idem. EUA, 1997. Creators: Trey Parker, Matt Stone. Stars: Trey Parker, Matt Stone, Mona Marshall.

Direção: Trey Parker (203 episodes, 1997-2012).

Roteiro: Trey Parker (216 episodes, 1997-2012), Matt Stone (211 episodes, 1997-2012), Brian Graden (123 episodes, 1997-2012), David R. Goodman (89 episodes, 1997-2002), Pam Brady (70 episodes, 1997-2007), Philip Stark (21 episodes, 1997-1999), Dan Sterling (10 episodes, 1997-1998), Andrew Borakove (4 episodes, 1997-1998), Dave Polsky (2 episodes, 1997-1998).

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As crianças nos fazem enxergar o mundo de uma maneira mais limpa.

Comecei assistindo essa animação já “decanária” (10 anos?) recentemente através das temporadas disponíveis na Netflix brasileira. O resultado foi um entusiasmo tão grande e egoísta que praticamente parei o meu ritmo frenético de filmes para reservar boa parte dos meus fins de semana e noites para ir até o último capítulo disponível da versão dublada em português. Posso dizer que aprendi muito sobre a vida, o mundo, a sociedade, e mim mesmo. Cada episódio polêmico me fazia ler os detalhes sórdidos através da Wikipedia, como o clássico Trapped in the Closed, que praticamente me obrigou a rever o “episódio de despedida” de Isaac Hayes em sua versão original, um recorte hilário de dublagens passadas do ator/cantor.

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No entanto, seria injusto ignorar todo o passado desde o programa piloto criado a mão por Trey Parket e Matt Stone, que além da direção e roteiro emprestaram suas vozes para 90% das dublagens dos personagens. É uma obrigação moral acompanhar a evolução de um desenho que me fez pensar mais e rir mais do que os Simpsons, que já são um marco na história das críticas sociais daquele país.

E tudo começa com “Cartman tem uma Sonda Anal”, onde a tosquice completa imperava. Não podia ser diferente. A irreverência ao máximo e as piadas escatológicas/sexuais são o grude primordial usado pela dupla de criadores para alimentar o desenho aparentemente ingênuo, mas que possuía já a semente da auto-crítica, pronta para germinar. Tudo o que tínhamos até o momento era o cômico jogo de “chute o bebê”, mas mesmo isso é algo que nunca faríamos na vida real e que nunca sequer falaríamos que passou pelos nossos pensamentos. Mas, acredite: passou. O ser humano precisa ser sociável e se esquece que é um animal egocêntrico lutando por sua sobrevivência em grupo, e para isso, faz de tudo. Esconde e suprime. Mas está lá. O instinto politicamente incorreto é a porta de abertura para a necessidade de nos definirmos como grupo. South Park estava aí justamente para escancarar algumas verdades sem ressalvas.

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E é por isso que mesmo em sua irregular primeira temporada já podemos observar o crescimento daquele semente relevante e mal-educada. Em Ganhe Peso 4000 já observamos a psique dos perdedores em uma ácida referência a Taxi Driver. Em Vulcão a burrice institucionalizada é vista de perto, seja nas leis de proteção aos animais (“atire, ele vai nos atacar!”) quanto as leis de proteção aos humanos (“vamos desviar a rota de toda essa lava”).

Mesmo as questões ainda inertes em nossa sociedade já começam a tomar forma, como a homossexualidade em A Grande Viagem Gay de Barco (e a própria palavra “gay” será posta em cena 13 anos depois em “The F Word”). De qualquer forma, ainda não é hora de polemizar demais, então ficamos por enquanto nas questões menos controversas, como aquela vez que um elefante fez sexo com uma porca ou quando o avô de Stan pede que ele seja morto.

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E por falar em temas contemporâneos, não é que uma década antes de The Walking Dead já temos um exemplo de futuro pós-apocalíptico com Olhos Cor-de-Rosa? E a questão do convívio entre diferentes religiões em um mundo cada vez mais ateu em um exemplo secular e completamente hilário de figura natalina em Soretinho, o Cocô de Natal? E se pensar em um cocô de natal parece repugnante, o que dizer do episódio em que o Sr. Garrison se vê perseguido por mulheres por ter feito uma plástica que o deixou atraente e a namorada de Stan fazer de tudo para acabar com sua professora substituta simplesmente por ela ser bonita? E claro que não posso deixar de citar no parágrafo sobre religião a visão extremamente cínica da sociedade vista na luta entre o Diabo e Jesus, claramente um dos pontos altos dessa semente de auto-crítica forçando para dominar sobre o escatológico.

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Mesmo que ainda seja extremamente escroto e se divirta com a construção irregular de seus personagens (que muitas vezes oscilam todos para um perfil Cartman para logo depois voltar de um aprendizado de moral), South Park S01 já possui um subtexto superior a qualquer coisa animada (ou mesmo comédias) que saiu do Cinema nos últimos 5 anos. Apenas isso é prova do poder da caixinha luminosa frente ao horrivelmente politicamente correto da indústria cinematográfica americana.

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Somos Tão Jovens

May 14, 2013 in Cinema

Idem. Brasil, 2013. Director: Antonio Carlos da Fontoura. Writers: Victor Atherino (collaborating writer), Marcos Bernstein. Stars: Thiago Mendonça, Laila Zaid, Bruno Torres.

Somos Tão Jovens

Semi-biografia do cantor-poeta ganha vida graças a atuação ímpar de Thiago Mendonça.

Antes de tudo, a interpretação de Thiago Mendonça é primorosa do começo ao fim ao estabelecer o “Renato” do filme não apenas como a sombra de um ídolo, mas a própria persona se construindo através de suas referências culturais. O uso de sua voz é um dos pontos fortes: usando entonações sutis que vão aos poucos revelando o Renato Russo que os fãs conhecem, é uma surpresa agradável poder observar sua própria evolução como cantor, engrossando a voz aqui e ali, tentando encontrar o seu estilo. Isso nos aparece de forma completamente natural e discreta. A música e poesia das letras do vocalista parecem sair prontas do seu intelecto, e parte dessa experiência é devido ao interessante roteiro de Marcos Berstein (Central do Brasil) com a colaboração de Victor Atherino que vai construindo as situações e expressões de suas poesias no dia-a-dia casual.

O mesmo não pode ser dito da direção: Antonio Carlos da Fontoura (No Meio da Rua) insiste em burocratizar a história com cortes definidos milimetricamente entre ação e músicas, e evita polemizar em torno do temperamento explosivo do protagonista. Até sua sexualidade é meio deixada de lado e prejudica a construção do personagem, ainda mais sendo um tabu relevante demais na época para apenas ser citado nas entrelinhas. Mesmo assim, é admirável observar sua trajetória em direção à liderança das duas bandas que formou tamanha a naturalidade com que ela se desenvolve. Uma pena que a apresentação dos outros componentes das bandas soe tão artificial e forçadamente prolixo, chegando a usar nome e sobrenome dos que estavam à margem do cantor (“esse é o Marcelo Bonfá”).

Já a participação de sua amiga sempre presente Ana (Laila Zaid) funciona para contribuir ao entrarmos mais na mente do poeta e conhecer suas angústias (como a depressão, um tema recorrente em sua discografia), e mesmo que Mendonça já carregue isso em sua expressão pesada e um jeito de andar deslocado e caótico (com a ajuda da câmera que sempre treme e procura pontos de luz que dominam vários dos seus momentos sozinhos), é importante o contraponto entre seu sucesso nos palcos e sua solidão em seu quarto. Para pontuar ainda mais o drama em que vive o multifacetado artista, a trilha sonora organizada por Carlos Trilha (que já trabalhou nos dois solos de Renato) acerta em vários momentos ao aplicar acordes icônicos de grandes sucessos da banda como forma de comentar a atmosfera de Brasília como um reflexo de um país à espera de um amanhã melhor, e o reflexo das preocupações de um vocalista punk é a melhor maneira de centralizar esse sentimento.

Parte dessa atmosfera consegue ser atingida também através da fotografia e direção de arte, que trabalham juntas para estabelecer uma Brasília pré-democracia. Se a definição da época é estabelecida com competência em uma inteligente transição entre um carro de sorvetes de uma marca antiga e um camburão da polícia militar (a despeito do letreiro que denuncia o ano despropositadamente), o resto não consegue ser pontuado facilmente, mas sentido em cada cena, uma virtude invisível da construção cuidadosa dos cenários. A fotografia nos convida aqui e ali a entrar em um mundo de tons pastéis e granulados que evocam um tom saudosista, e é compreensível que isso apenas seja feito em certos momentos, dando lugar em sua maioria a uma qualidade de imagem considerável.

Com pequenas pontes entre o Renato do filme e o Renato pessoa, não deixa de ser irônico, tráfico e catártico ouvir Renato planejar sua vida dividida em períodos de 20 anos voltados para a música, cinema e literatura, pois sabemos que isso nunca irá se concretizar, o que gera um forte sentimento de desperdício de talento com a sua morte.

E essa é a única passagem que nos remete depois do início do sucesso do Legião no primeiro show no Rio, que termina sua aventura sem definir em nenhum momento qual seria o objetivo dessa história. Assim como tem sido em biografias no Cinema Nacional, vemos imagens reais de Renato Russo e Legião Urbana junto aos créditos, que não impressionam com exceção da comparação com Thiago Mendonça, apenas comprovando sua competência em se igualar ao ícone.

Uma pena que o filme seja tão metalinguístico a ponto de terminar em um Aborto Elétrico.

 

Homem de Ferro 3

May 2, 2013 in Cinema

Iron Man 3. EUA/China, 2013. Director: Shane Black. Writers: Drew Pearce (screenplay), Shane Black (screenplay). Stars: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Don Cheadle.

IRON MAN 3

Terceira aventura é mais densa, mas possui os velhos problemas do segundo filme.

Críticas ao Superman são comuns pelo fato do super-herói ser virtualmente invencível, sendo sua única fraqueza a sua fé na humanidade. No caso de um herói como Tony Stark, gênio, bilionário, sedutor e munido de uma armadura extremamente resistente, nem o lado humano pode ser considerada uma fraqueza. As inúmeras facetas de Tony se descascam como seus inúmeros protótipos de robôs, e a própria imagem do Homem de Ferro se apresenta como uma figura completamente destacada da pessoa que a veste ou controla à distância. Para ele seu avatar (ou avatares) são um elemento importante de sua personalidade atual, mais do que ele mesmo. E assim como no filme anterior — Homem de Ferro 2, não Os Vingadores — a jornada de Tony Stark é mais interna que externa. O vilão mais uma vez tem algo a dizer sobre o herói, mas não só ele. Se antes a história do pai era o que movia o drama no segundo filme, aqui essa relação é revista entre o gênio bilionário e um garoto (Ty Simpkins) que se revela o reflexo perfeito de sua própria imaturidade. Nesse sentido a interpretação de Robert Downey Jr. vai no automático, o que não é ruim na maioria dos momentos, mas prejudica a história em momentos-chave onde os sentimentos do personagem são postos à prova. Até onde me lembro, seu romance com Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) era o elemento humano que deveria fazer alguma diferença em sua forma de ver a vida. Em sua terceira aventura, todos os elementos já explorados são quase inexistentes, e o que sobre é um Stark robótico até fora da armadura.

Mas divago.

O filme tem início com uma narrativa do próprio Tony Stark lamentando sobre os demônios que criamos no passado (mais um). Dessa forma conhecemos o pesquisador Aldrich Killian (Guy Pearce) que é desprezado pelo bilionário em um passado “sombrio” do futuro herói — mais uma falha grave na interpretação de Downey Jr. ao não ressaltar a mudança de seu personagem. Passa-se uma década e vemos que Aldrich se tornou um empresário que possui um projeto que interfere com o DNA humano em “tempo real”, transformando pessoas com alguma deficiência física em seres com poderes especiais (é até saudável que não existam mais explicações). Se dessa vez os ataques terroristas em Boston não causaram o adiamento da estreia de Homem de Ferro 3 como aconteceu com o último Batman (mesmo que seu vilão explore esse tema) não podemos acusar os americanos de banalizarem a violência ou de se tornarem menos sensíveis com o passar do tempo. Talvez o que deva ser questionado aqui é o quão irreais os terroristas do filme são para evitar qualquer comparação com a vida real.

Dado este pequeno interlúdio, a ação de fato começa quando Mandarim (Ben Kingsley inspirado e divertido), um terrorista que no “melhor” estilo de Bin Laden manda mensagens de ódio através de transmissões televisivas, realiza um ataque que fere gravemente o ex-segurança de Stark (Jon Favreau, diretor dos primeiros dois filmes), fazendo com que ele decida se vingar e “coincidentemente” ajudar o governo norte-americano, que tenta localizá-lo. Os eventos posteriores, ainda que impactantes, não fazem parar de pensar por que isso nunca havia acontecido antes. Enfim…

Aqui e ali no meio da história são colocadas referências intrusivas dos Vingadores, como o homem que desceu do céu com um martelo ou a recorrente história dos aliens e o buraco de minhoca em Nova Iorque, e soam mais como um pedido de desculpas pela história ignorar completamente esses acontecimentos na vida do personagem do que brincadeiras como a tradicional aparição de Stan Lee nos filmes. Aliás, seria desonesto ignorar a crise de ansiedade que acomete o herói — possivelmente um trauma do que ocorreu no filme de Joss Whedon — se não soubéssemos que esse é um artifício barato (e descartável) para tentar fragilizar o invulnerável Homem de Ferro.

Igualmente frágil são os efeitos digitais, mas funcionam moderadamente. Já o confuso 3D, palavras praticamente sinônimas em filmes de ação, se torna mais confuso ainda com os cortes obrigatórios que evitam mostrar sangue ou violência além dos limites, uma controversa, ainda que comum, decisão dos estúdios para evitar barrar a entrada dos jovens aos cinemas, o que possui o perigoso efeito de infantilizar a ação (vide Vingadores) e impedir que nos importemos pela vida das pessoas que correm riscos. Mesmo assim a cena que envolve a queda de várias pessoas do avião é um momento particularmente tenso, mas que se desfaz rapidamente como tantas sequências com efeitos que parecem perigosamente flertar com o exibicionismo e até um certo fetichismo por parte da personalidade de Stark que o diminui como herói.

Com uma equipe respeitosamente grande de compositores a trilha sonora cria uma atmosfera quase sempre cativante ao espírito irreverente do herói e ainda consegue nos momentos-chave ensaiar acordes de uma música-tema que não se torna cansativa, ganhando o direito de figurar entre os pontos altos dos filmes de herói ao lado do Batman de Nolan (mas não ao lado do Superman de John Williams). Esse detalhe combina perfeitamente com os excelentes créditos finais que ao estilizar os personagens mereceria estar logo no início, já que acerta em cheio no tom cartunesco da história.

E por falar em créditos, ele contém uma massa gigantesca de pessoas que é a equipe de efeitos digitais, comprovando que as cenas produzidas em sua maioria dentro de computadores já conquistaram sua parcela lucrativa de fãs ainda que estas tornem a experiência nitidamente artificial (ponto para a Marvel, que com seus heróis fantasiosos não precisa se preocupar com isso). O mesmo não se pode dizer da direção de arte, que aposta em soluções muito menos sutis para revelar “surpresas” ou “segredos” trinta segundos antes de serem revelados (como um camarim no meio de uma sala que salta aos olhos do espectador).

Por fim, Tony Stark continuará sendo o mesmo Tony Stark de sempre. Talvez seja a hora, sem trocadilhos, de reciclar o personagem para algo mais ecologicamente correto (e viável): um personagem orgânico.

Obs.: Após os créditos há uma breve, mas espirituosa cena que explica a narrativa da história, e que, sim, mais uma vez remete aos Vingadores.

G.I. Joe – Retaliação

April 3, 2013 in Cinema

G.I. Joe: Retaliation. EUA, 2013. Director: Jon M. Chu. Writers: Rhett Reese, Paul Wernick. Stars: Dwayne Johnson, D.J. Cotrona, Channing Tatum.

G.I. Joe - Retaliação

Brincadeira de criança é prejudicada por delírio de filme sério mais uma vez.

Na cena inicial de “G.I. Joe: Retaliação” (que nomezinho) o comandante de uma missão (Dwayne Johnson) que precisa adentrar uma zona militar da Coreia do Norte ao lado de uma guarita vigiada em uma quase total escuridão resolve derreter a cerca de arame e formar um círculo de fogo que provavelmente poderia ser avistado a uns dois quilômetros. Essa introdução espetacular do grupo de operações especiais secreta do governo norte-americano — os chamados G.I. Joes — é o bastante para termos certeza que nada do que aparecer diante de nós deve ser levado a sério.

Como um dos representantes do gênero “filmes baseados em brinquedos” — assim como Transformers e Battleship — a saga protagonizada por bonecos de plástico e carrinhos irados da Hasbro consegue ao menos contar uma história simples com começo, (longo) meio e fim enquanto exibe no meio do caminho um conjunto de armas e veículos completamente desvinculados da realidade (meu exemplo favorito e menção honrosa é um tanque que parece querer voar). A graça da coisa reside em pensar nos seus heróis musculosos e com coragem suicida como os próprios bonecos de plástico que os inspiraram, manipulados por um garoto megalomaníaco de comercial de TV.

Nesse sentido o enredo dessa continuação se sai muitíssimo melhor que seu desprezível predecessor. Brincando com mísseis nucleares acionados por botões em maletas pessoais de líderes mundiais que se diferenciam apenas pela bandeira de cada país — isso deve fazer parte de algum padrão mundial para destruição em massa — e satélites que explodem assim que uma operação é cancelada (o que são alguns bilhões pela diversão de ver acontecer) o perfil “brincadeira de criança” do filme parece nunca querer sair da mente. O que não seria algo ruim caso o longa abraçasse de vez a unidimensionalidade dos seus personagens e esquecesse do drama vazio da família de ninjas e pessoas com máscara fumê. É esse delírio de grandiosidade que torna tão massante as cenas de ação envolvendo um bando de ninjas, que se vestem com uniformes amarelo e vermelho parece que apenas para combinar com o fundo branco das montanhas geladas de algum povoado chino-japonês (bons tempos quando os ninjas era guerreiros invisíveis). A baboseira se torna particularmente cansativa por enfatizar que a luta é pelo destino de alguém que não damos a mínima. Enquanto isso, os planos maquiavélicos do nosso garoto estirado no tapete da sala brincando de destruição do planeta se saem muito melhor, já que não precisa de drama nenhum para entreter (acho que “destruição mundial” é um tema que já costuma chamar bastante atenção).

Porém, mesmo se saindo bem em algumas sequências de ação razoavelmente eficientes somos obrigados a participar de uma tonelada de cenas descartáveis que tentam explicar mais uma vez a origem e a personalidade (inexistente) dos seus heróis — um dos maiores defeitos do original — e que acabam mais uma vez não explicando nem revelando nada de especial, por mais expositivos que sejam os diálogos (o meu “preferido” é um discurso de um velho, negro, cego, oriental e com seu cajado batendo no chão explicando toda a trama em torno da prima e de toda a família do ninja musculoso — e por algum motivo obscuro ela precisa ser prima do rapaz, e não é pelo sexo, pois nem sangue é possível ver nas lutas, por mais sangrento que seja o combate; e a explicação da caricatura de Sr. Miyagi é obviamente para nós, espectadores, os únicos que não estão sabendo de nada sobre o pano de fundo dessa família do barulho; e, particularmente, preferiria continuar não sabendo).

Nunca conseguindo se firmar como gênero por tempo o suficiente, “G. I. Joe” ao menos parece tentar enxugar bastante a história dos seus personagens, só que mesmo assim parece ter tempo demais na tela. Talvez para que um terceiro filme exista seja necessário enxugar ainda mais caso ele tenha a (fácil) pretensão de se sair melhor que “Retaliação” segundo o mesmo formato. Talvez quinze minutos e tudo já esteja resolvido (e ainda dá tempo para o garoto ir almoçar).