Somos Tão Jovens

May 14, 2013 in Cinema

Idem. Brasil, 2013. Director: Antonio Carlos da Fontoura. Writers: Victor Atherino (collaborating writer), Marcos Bernstein. Stars: Thiago Mendonça, Laila Zaid, Bruno Torres.

Somos Tão Jovens

Semi-biografia do cantor-poeta ganha vida graças a atuação ímpar de Thiago Mendonça.

Antes de tudo, a interpretação de Thiago Mendonça é primorosa do começo ao fim ao estabelecer o “Renato” do filme não apenas como a sombra de um ídolo, mas a própria persona se construindo através de suas referências culturais. O uso de sua voz é um dos pontos fortes: usando entonações sutis que vão aos poucos revelando o Renato Russo que os fãs conhecem, é uma surpresa agradável poder observar sua própria evolução como cantor, engrossando a voz aqui e ali, tentando encontrar o seu estilo. Isso nos aparece de forma completamente natural e discreta. A música e poesia das letras do vocalista parecem sair prontas do seu intelecto, e parte dessa experiência é devido ao interessante roteiro de Marcos Berstein (Central do Brasil) com a colaboração de Victor Atherino que vai construindo as situações e expressões de suas poesias no dia-a-dia casual.

O mesmo não pode ser dito da direção: Antonio Carlos da Fontoura (No Meio da Rua) insiste em burocratizar a história com cortes definidos milimetricamente entre ação e músicas, e evita polemizar em torno do temperamento explosivo do protagonista. Até sua sexualidade é meio deixada de lado e prejudica a construção do personagem, ainda mais sendo um tabu relevante demais na época para apenas ser citado nas entrelinhas. Mesmo assim, é admirável observar sua trajetória em direção à liderança das duas bandas que formou tamanha a naturalidade com que ela se desenvolve. Uma pena que a apresentação dos outros componentes das bandas soe tão artificial e forçadamente prolixo, chegando a usar nome e sobrenome dos que estavam à margem do cantor (“esse é o Marcelo Bonfá”).

Já a participação de sua amiga sempre presente Ana (Laila Zaid) funciona para contribuir ao entrarmos mais na mente do poeta e conhecer suas angústias (como a depressão, um tema recorrente em sua discografia), e mesmo que Mendonça já carregue isso em sua expressão pesada e um jeito de andar deslocado e caótico (com a ajuda da câmera que sempre treme e procura pontos de luz que dominam vários dos seus momentos sozinhos), é importante o contraponto entre seu sucesso nos palcos e sua solidão em seu quarto. Para pontuar ainda mais o drama em que vive o multifacetado artista, a trilha sonora organizada por Carlos Trilha (que já trabalhou nos dois solos de Renato) acerta em vários momentos ao aplicar acordes icônicos de grandes sucessos da banda como forma de comentar a atmosfera de Brasília como um reflexo de um país à espera de um amanhã melhor, e o reflexo das preocupações de um vocalista punk é a melhor maneira de centralizar esse sentimento.

Parte dessa atmosfera consegue ser atingida também através da fotografia e direção de arte, que trabalham juntas para estabelecer uma Brasília pré-democracia. Se a definição da época é estabelecida com competência em uma inteligente transição entre um carro de sorvetes de uma marca antiga e um camburão da polícia militar (a despeito do letreiro que denuncia o ano despropositadamente), o resto não consegue ser pontuado facilmente, mas sentido em cada cena, uma virtude invisível da construção cuidadosa dos cenários. A fotografia nos convida aqui e ali a entrar em um mundo de tons pastéis e granulados que evocam um tom saudosista, e é compreensível que isso apenas seja feito em certos momentos, dando lugar em sua maioria a uma qualidade de imagem considerável.

Com pequenas pontes entre o Renato do filme e o Renato pessoa, não deixa de ser irônico, tráfico e catártico ouvir Renato planejar sua vida dividida em períodos de 20 anos voltados para a música, cinema e literatura, pois sabemos que isso nunca irá se concretizar, o que gera um forte sentimento de desperdício de talento com a sua morte.

E essa é a única passagem que nos remete depois do início do sucesso do Legião no primeiro show no Rio, que termina sua aventura sem definir em nenhum momento qual seria o objetivo dessa história. Assim como tem sido em biografias no Cinema Nacional, vemos imagens reais de Renato Russo e Legião Urbana junto aos créditos, que não impressionam com exceção da comparação com Thiago Mendonça, apenas comprovando sua competência em se igualar ao ícone.

Uma pena que o filme seja tão metalinguístico a ponto de terminar em um Aborto Elétrico.

 

Homem de Ferro 3

May 2, 2013 in Cinema

Iron Man 3. EUA/China, 2013. Director: Shane Black. Writers: Drew Pearce (screenplay), Shane Black (screenplay). Stars: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Don Cheadle.

IRON MAN 3

Terceira aventura é mais densa, mas possui os velhos problemas do segundo filme.

Críticas ao Superman são comuns pelo fato do super-herói ser virtualmente invencível, sendo sua única fraqueza a sua fé na humanidade. No caso de um herói como Tony Stark, gênio, bilionário, sedutor e munido de uma armadura extremamente resistente, nem o lado humano pode ser considerada uma fraqueza. As inúmeras facetas de Tony se descascam como seus inúmeros protótipos de robôs, e a própria imagem do Homem de Ferro se apresenta como uma figura completamente destacada da pessoa que a veste ou controla à distância. Para ele seu avatar (ou avatares) são um elemento importante de sua personalidade atual, mais do que ele mesmo. E assim como no filme anterior — Homem de Ferro 2, não Os Vingadores — a jornada de Tony Stark é mais interna que externa. O vilão mais uma vez tem algo a dizer sobre o herói, mas não só ele. Se antes a história do pai era o que movia o drama no segundo filme, aqui essa relação é revista entre o gênio bilionário e um garoto (Ty Simpkins) que se revela o reflexo perfeito de sua própria imaturidade. Nesse sentido a interpretação de Robert Downey Jr. vai no automático, o que não é ruim na maioria dos momentos, mas prejudica a história em momentos-chave onde os sentimentos do personagem são postos à prova. Até onde me lembro, seu romance com Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) era o elemento humano que deveria fazer alguma diferença em sua forma de ver a vida. Em sua terceira aventura, todos os elementos já explorados são quase inexistentes, e o que sobre é um Stark robótico até fora da armadura.

Mas divago.

O filme tem início com uma narrativa do próprio Tony Stark lamentando sobre os demônios que criamos no passado (mais um). Dessa forma conhecemos o pesquisador Aldrich Killian (Guy Pearce) que é desprezado pelo bilionário em um passado “sombrio” do futuro herói — mais uma falha grave na interpretação de Downey Jr. ao não ressaltar a mudança de seu personagem. Passa-se uma década e vemos que Aldrich se tornou um empresário que possui um projeto que interfere com o DNA humano em “tempo real”, transformando pessoas com alguma deficiência física em seres com poderes especiais (é até saudável que não existam mais explicações). Se dessa vez os ataques terroristas em Boston não causaram o adiamento da estreia de Homem de Ferro 3 como aconteceu com o último Batman (mesmo que seu vilão explore esse tema) não podemos acusar os americanos de banalizarem a violência ou de se tornarem menos sensíveis com o passar do tempo. Talvez o que deva ser questionado aqui é o quão irreais os terroristas do filme são para evitar qualquer comparação com a vida real.

Dado este pequeno interlúdio, a ação de fato começa quando Mandarim (Ben Kingsley inspirado e divertido), um terrorista que no “melhor” estilo de Bin Laden manda mensagens de ódio através de transmissões televisivas, realiza um ataque que fere gravemente o ex-segurança de Stark (Jon Favreau, diretor dos primeiros dois filmes), fazendo com que ele decida se vingar e “coincidentemente” ajudar o governo norte-americano, que tenta localizá-lo. Os eventos posteriores, ainda que impactantes, não fazem parar de pensar por que isso nunca havia acontecido antes. Enfim…

Aqui e ali no meio da história são colocadas referências intrusivas dos Vingadores, como o homem que desceu do céu com um martelo ou a recorrente história dos aliens e o buraco de minhoca em Nova Iorque, e soam mais como um pedido de desculpas pela história ignorar completamente esses acontecimentos na vida do personagem do que brincadeiras como a tradicional aparição de Stan Lee nos filmes. Aliás, seria desonesto ignorar a crise de ansiedade que acomete o herói — possivelmente um trauma do que ocorreu no filme de Joss Whedon — se não soubéssemos que esse é um artifício barato (e descartável) para tentar fragilizar o invulnerável Homem de Ferro.

Igualmente frágil são os efeitos digitais, mas funcionam moderadamente. Já o confuso 3D, palavras praticamente sinônimas em filmes de ação, se torna mais confuso ainda com os cortes obrigatórios que evitam mostrar sangue ou violência além dos limites, uma controversa, ainda que comum, decisão dos estúdios para evitar barrar a entrada dos jovens aos cinemas, o que possui o perigoso efeito de infantilizar a ação (vide Vingadores) e impedir que nos importemos pela vida das pessoas que correm riscos. Mesmo assim a cena que envolve a queda de várias pessoas do avião é um momento particularmente tenso, mas que se desfaz rapidamente como tantas sequências com efeitos que parecem perigosamente flertar com o exibicionismo e até um certo fetichismo por parte da personalidade de Stark que o diminui como herói.

Com uma equipe respeitosamente grande de compositores a trilha sonora cria uma atmosfera quase sempre cativante ao espírito irreverente do herói e ainda consegue nos momentos-chave ensaiar acordes de uma música-tema que não se torna cansativa, ganhando o direito de figurar entre os pontos altos dos filmes de herói ao lado do Batman de Nolan (mas não ao lado do Superman de John Williams). Esse detalhe combina perfeitamente com os excelentes créditos finais que ao estilizar os personagens mereceria estar logo no início, já que acerta em cheio no tom cartunesco da história.

E por falar em créditos, ele contém uma massa gigantesca de pessoas que é a equipe de efeitos digitais, comprovando que as cenas produzidas em sua maioria dentro de computadores já conquistaram sua parcela lucrativa de fãs ainda que estas tornem a experiência nitidamente artificial (ponto para a Marvel, que com seus heróis fantasiosos não precisa se preocupar com isso). O mesmo não se pode dizer da direção de arte, que aposta em soluções muito menos sutis para revelar “surpresas” ou “segredos” trinta segundos antes de serem revelados (como um camarim no meio de uma sala que salta aos olhos do espectador).

Por fim, Tony Stark continuará sendo o mesmo Tony Stark de sempre. Talvez seja a hora, sem trocadilhos, de reciclar o personagem para algo mais ecologicamente correto (e viável): um personagem orgânico.

Obs.: Após os créditos há uma breve, mas espirituosa cena que explica a narrativa da história, e que, sim, mais uma vez remete aos Vingadores.

G.I. Joe – Retaliação

April 3, 2013 in Cinema

G.I. Joe: Retaliation. EUA, 2013. Director: Jon M. Chu. Writers: Rhett Reese, Paul Wernick. Stars: Dwayne Johnson, D.J. Cotrona, Channing Tatum.

G.I. Joe - Retaliação

Brincadeira de criança é prejudicada por delírio de filme sério mais uma vez.

Na cena inicial de “G.I. Joe: Retaliação” (que nomezinho) o comandante de uma missão (Dwayne Johnson) que precisa adentrar uma zona militar da Coreia do Norte ao lado de uma guarita vigiada em uma quase total escuridão resolve derreter a cerca de arame e formar um círculo de fogo que provavelmente poderia ser avistado a uns dois quilômetros. Essa introdução espetacular do grupo de operações especiais secreta do governo norte-americano — os chamados G.I. Joes — é o bastante para termos certeza que nada do que aparecer diante de nós deve ser levado a sério.

Como um dos representantes do gênero “filmes baseados em brinquedos” — assim como Transformers e Battleship — a saga protagonizada por bonecos de plástico e carrinhos irados da Hasbro consegue ao menos contar uma história simples com começo, (longo) meio e fim enquanto exibe no meio do caminho um conjunto de armas e veículos completamente desvinculados da realidade (meu exemplo favorito e menção honrosa é um tanque que parece querer voar). A graça da coisa reside em pensar nos seus heróis musculosos e com coragem suicida como os próprios bonecos de plástico que os inspiraram, manipulados por um garoto megalomaníaco de comercial de TV.

Nesse sentido o enredo dessa continuação se sai muitíssimo melhor que seu desprezível predecessor. Brincando com mísseis nucleares acionados por botões em maletas pessoais de líderes mundiais que se diferenciam apenas pela bandeira de cada país — isso deve fazer parte de algum padrão mundial para destruição em massa — e satélites que explodem assim que uma operação é cancelada (o que são alguns bilhões pela diversão de ver acontecer) o perfil “brincadeira de criança” do filme parece nunca querer sair da mente. O que não seria algo ruim caso o longa abraçasse de vez a unidimensionalidade dos seus personagens e esquecesse do drama vazio da família de ninjas e pessoas com máscara fumê. É esse delírio de grandiosidade que torna tão massante as cenas de ação envolvendo um bando de ninjas, que se vestem com uniformes amarelo e vermelho parece que apenas para combinar com o fundo branco das montanhas geladas de algum povoado chino-japonês (bons tempos quando os ninjas era guerreiros invisíveis). A baboseira se torna particularmente cansativa por enfatizar que a luta é pelo destino de alguém que não damos a mínima. Enquanto isso, os planos maquiavélicos do nosso garoto estirado no tapete da sala brincando de destruição do planeta se saem muito melhor, já que não precisa de drama nenhum para entreter (acho que “destruição mundial” é um tema que já costuma chamar bastante atenção).

Porém, mesmo se saindo bem em algumas sequências de ação razoavelmente eficientes somos obrigados a participar de uma tonelada de cenas descartáveis que tentam explicar mais uma vez a origem e a personalidade (inexistente) dos seus heróis — um dos maiores defeitos do original — e que acabam mais uma vez não explicando nem revelando nada de especial, por mais expositivos que sejam os diálogos (o meu “preferido” é um discurso de um velho, negro, cego, oriental e com seu cajado batendo no chão explicando toda a trama em torno da prima e de toda a família do ninja musculoso — e por algum motivo obscuro ela precisa ser prima do rapaz, e não é pelo sexo, pois nem sangue é possível ver nas lutas, por mais sangrento que seja o combate; e a explicação da caricatura de Sr. Miyagi é obviamente para nós, espectadores, os únicos que não estão sabendo de nada sobre o pano de fundo dessa família do barulho; e, particularmente, preferiria continuar não sabendo).

Nunca conseguindo se firmar como gênero por tempo o suficiente, “G. I. Joe” ao menos parece tentar enxugar bastante a história dos seus personagens, só que mesmo assim parece ter tempo demais na tela. Talvez para que um terceiro filme exista seja necessário enxugar ainda mais caso ele tenha a (fácil) pretensão de se sair melhor que “Retaliação” segundo o mesmo formato. Talvez quinze minutos e tudo já esteja resolvido (e ainda dá tempo para o garoto ir almoçar).

A Parte dos Anjos

March 29, 2013 in Cinema

The Angels’ Share. Reino Unido/França/Bélgica/Itália, 2012. Director: Ken Loach. Writer: Paul Laverty (screenplay). Stars: Paul Brannigan, John Henshaw, Gary Maitland.

A Parte dos Anjos

Dramédia britânica flerta com roteiro tendencioso, mas diverte em experiência etílica.

O diretor Ken Loach consegue extrair tensão nesse suposto drama britânico, como podemos constatar durante um leilão de Wisky e logo antes em uma sequência noturna particularmente inspirada. Essa capacidade, no entanto, parece rivalizar com sua vontade de fazer comédia, que também funciona, mas ao preço de perdermos o gênero inicial. A leveza que ele aplica no resto da história flerta perigosamente com o seu reducionismo. Dessa forma, não é possível desenvolver melhor a relação entre o admirador de uísques e seu protegido, e o aprendizado deste é resumido em 10 segundos de uma cena dele cercado por diversos livros sobre a bebida.

Por outro lado essa mesma capacidade de síntese é bem-vinda na apresentação dos outros personagens. A primeira sequência, onde vemos Albert quase morrer na linha do trem e o corte para o juiz determinando as penas para esses pequenos delitos é eficaz em nos deixar curiosos para saber a história de quem iremos seguir, e parece ser esse um mistério que o diretor se diverte até o final dessa sequência.

Já a dinâmica do grupo que se une para aplicar um golpe baseado nos conhecimentos de Robbie (Paul Brannigan), o protagonista casual, perde justamente por se fixar unicamente no drama deste, empenhando-se para mostrar como a vida do sujeito não pode mudar de rumo caso ele não tome uma medida drástica. O roteiro de Paul Laverty nesse sentido flerta com a desonestidade ao evitar a todo o custo uma solução menos arriscada.

Ainda do ponto de vista narrativo Ken Lock trilha o caminho que dos rapazes pintando-o de dourado, entregando pistas no meio do caminho que permitem que vejamos seus atos muito antes delas acontecerem. E o pior é que não há obstáculos o suficiente para que o desenrolar saia um pouco dos trilhos. Mesmo assim acompanhamos imersos, aguardando que algo dê errado. O imprevisível aqui é que não há obstáculos previsíveis. É o suficiente para nos deixar interessados.

A Fuga

March 21, 2013 in Cinema

Deadfall. EUA, 2012. Director: Stefan Ruzowitzky. Writer: Zach Dean. Stars: Eric Bana, Olivia Wilde, Charlie Hunnam.

A Fuga

Policial sem empolgação, drama sem tridimensionalidade.

Não há muito o que falar de A Fuga (Deadfall), com Eric Bana e Olivia Wilde. As atuações desses dois atores elevam uma experiência banal de uma história mediocremente interessante sobre um casal de irmãos, Addison e Liza, que realiza um roubo e precisam fugir pela fronteira com o Canadá. No caminham encontram situações que vão aos poucos revelando suas características e seu passado juntos do pai alcoólatra. Mas isso é pouco. Nunca ficamos sabendo de fato o suficiente para que faça sentido acompanhá-los ou entender o que está em jogo. Addison não é violento, mas estrategista, se torna quando necessário. Porém, não mais do que qualquer pessoa comum no seu lugar. Liza parece querer dizer algo mais a partir do seu comportamento dissimulado e sua lascívia. A troca de nomes que ocorre em determinado momento é um recurso óbvio demais, o que faz perder toda a sutileza da introdução que sugere um histórico incestuoso.

Como se não bastasse somos obrigados a dividir o tempo em tela com outra família, formada por um xerife aposentado (Kris Kristofferson), sua mulher (Sissy Spacek) e o filho Jay (Charlie Hunnam), um ex-boxeador que acabou de sair da prisão por entregar uma luta. Há uma cena inicial com seu treinador em que é sugerido que o rapaz não tem mesmo sorte, mas o que ocorre em seguida nos leva a crer que algumas pontas soltas continuaram soltas no roteiro. O pai nunca o perdoou, mas ele está indo para casa passar o dia de ação de graças. O que ocorre em seguida é tão óbvio que tudo parece somar-se a uma grande perda de tempo.

A câmera do diretor Stefan Ruzowitzky parece tornar as coisas um pouco mais confusas ao não saber definir o estilo que pretende seguir. Se em determinado momento em um banheiro de motel o zoom oscilante evocando realismo e urgência é usado, nunca saberemos por que, pois o resto da história lembra o gênero policial genérico sem personagens marcantes em um ritmo lento e constante.

Em determinados momentos lembramos de Fargo porque a polícia parece estar sempre um passo atrás dos bandiso. Só que diferente do excelente trabalho dos irmãos Coen, a figura da filha do xerife local (mais uma família na história) não chega nem perto da sagacidade de Marge Gunderson (apesar de ter muito mais sorte e ser levada magicamente onde a ação ocorre). Assim como essa lembrança passageira toda a história é uma série de colagens de personagens ainda não terminados ou fracos demais, o que compromete todo o desenvolvimento das histórias paralelas, pois nunca ficamos de fato interessados em qualquer uma das três narrativas.

Com uma ou outra sequência isolada que poderia adicionar mais sobre aquelas pessoas e o que estão vivendo (como a noite na cabana com Addison e uma menina), a cena final que deveria representar todo o clímax daquela situação nunca chega a ser marcante. Piora a situação quando vemos um certo policial realizar um ato completamente insano e sem motivo algum. Se bem que, à essa altura do campeonato, quem se importa com coerência narrativa?

Oz: Mágico e Poderoso

March 13, 2013 in Cinema

Oz the Great and Powerful. EUA, 2013. Director: Sam Raimi. Writers: Mitchell Kapner (screenplay), David Lindsay-Abaire (screenplay). Stars: James Franco, Michelle Williams, Rachel Weisz, Mila Kunis, Tony Cox.

Oz, Mágico e Poderoso

Iniciando timidamente, Oz resgata parte da inocência do longa original.

A visão em preto e branco em uma tela quadrada de Kansas nos revela um lugar com pouco lugar para imaginação. Isso não impede que Oscar (James Franco), um mágico em um circo itinerante, apresente seus espetáculos como shows inesquecíveis para o público. Isso gera uma crença descomunal do povo, que acha que o homem é capaz de realizar milagres. Por não pertencer a esse mundo, sua fuga o leva literalmente a outro: um fabuloso, colorido e dentro de uma ampla tela. É assim que o diretor Sam Raimi (trilogia Homem Aranha) quer que vejamos Oz, uma terra verdadeiramente mágica.

O espetáculo visual que é Oz não impede que sejam feitas referências no modo de construir o encantamento visual. Embora não precisasse, os cenários ao horizonte revelam o artifício de Matte Painting — pinturas no fundo do estúdio — usado no filme original. De certa forma, os recursos digitais mais aproximam-se do burlesco e de Mary Poppins.

James Franco não é um grande ator, mas sua simpatia combina com o personagem de Oz, que é um ser inventivo e carismático. O mesmo não se pode dizer das mulheres que o rodeiam, que fazem um esforço descomunal para parecerem inocentes (ou não). Mesmo Michelle Williams, inspiradora na primeira parte da história, é forçada pelo roteiro a se tornar uma mera coadjuvante feminina no melhor estilo Disney.

Mesmo que a história já seja conhecida, ou para aqueles que não se lembram, a reinvenção de Oz encanta conforme somos apresentados aos seus elementos narrativos. Reaprendemos a enxergar aquele mundo com mais doçura e inocência do que o início no circo. Essa evolução é importantíssima para o terceiro ato, quando vamos conhecendo os detalhes ainda secretos da história.

Embora parta de um roteiro confuso que parece se esquecer que não estamos mais na década de 40 e o que parece imprevisível muitas vezes se revela banal, é admirável o que os trailers conseguiram, mantendo a discrição de uma história simples e que não poderia terminar diferente.

Assim como Arthur C. Clarke imaginava a evolução da sociedade, que, apresentada a um povo suficientemente primitivo, se torna indistinguível de mágica. Aqui ironicamente um povo onde a mágica é comum não conseguiria distingui-la de tecnologia. Nesse sentido, a mensagem de “Oz” não poderia ser mais eficiente.

Atrás da Porta

March 7, 2013 in Cinema

The Door. Hungria/Alemanha, 2012. Director: István Szabó. Writers: Magda Szabó (novel), István Szabó (screenplay). Stars: Helen Mirren, Martina Gedeck, Károly Eperjes.

Atrás da Porta

Relação entre escritora e faxineira é simpática e só.

Dirigido e escrito por István Szabó a partir de um romance de Magda Szabó (nenhuma relação) da década de 80, Atrás da Porta é parte ficção, parte biográfico. Como filme, se transformou em uma experiência simpática com um elenco harmonioso (e a sempre versátil Helen Mirren), mas que parece não encontrar amparo em seu roteiro e direção. Há qualidades na produção, e o diretor muitas vezes parece ensaiar qualquer coisa fora do convencional (como a tempestade e as passagens em flashback fantasiosas). No entanto, todo momento que achamos encontrar o fio da meada ele nos escapa, deixando-nos em companhia de uma história pra lá de clichê, que infelizmente precisa lidar com o lugar-comum e parece não fazer esforços para se desvencilhar do previsível.

A história é simples: a relação entre uma escritora (e seu marido) que acabam de se mudar e sua faxineira (Helen Mirren), uma moradora tradicional do bairro e ao mesmo tempo excêntrica, o que parece não mais incomodar seus vizinhos. As duas mulheres vieram do mesmo vilarejo, mas tiveram destino completamente opostos. O passado da faxineira aos poucos se revela, conforme sua patroa aos poucos lhe inspira confiança.

Confiança esta que é desafiada por uma visão distópica da faxineira. Não podemos dizer que a patroa compartilhe de suas opiniões, mas o fato de a compreender mesmo não concordando seja o único elemento tocante da história.

Szabó não perde tempo em estabelecer uma dinâmica entre as duas. A passagem do tempo, embora dure anos, é acelerada para o mesmo ritmo frenético das varridas da vassoura da faxineira na calçada, conforme essa muda de cor e textura com o passar das estações. A história ensaia uma relação entre a amizade das duas e seu livro de sucesso, mas deixa em segundo plano junto de muitos outros detalhes que, conforme chegamos no final, começam a deixar de ter importância.

Com uma conclusão trivial e boba, toda a empatia nutrida por aquelas pessoas se esvai pelo vento e pela chuva. Talvez nunca conquistaram nossa confiança durante esse tempo, nem deixaram marcas ao mostrar-nos sua história. Mal dá tempo de lembrá-las ao sair da sala de projeção. Assim como as nuvens do filme, a impressão marcada de leve se esvai com o vento.

Indomável Sonhadora

March 4, 2013 in Cinema

Beasts of the Southern Wild. EUA, 2012. Director: Benh Zeitlin. Writers: Lucy Alibar (screenplay), Benh Zeitlin (screenplay). Stars: Quvenzhané Wallis, Dwight Henry, Levy Easterly.

Indomável Sonhadora

Um triste mundo visto pelos olhos precocemente amadurecidos de uma criança.

Desde o começo Hushpuppy (Quvenzhané Wallis) — a “Indomável Sonhadora” do título nacional — carrega a história nas costas. O que não é pouca coisa se considerarmos que ela mal aparenta dez anos de idade. Acompanhamos sua jornada precoce rumo à maturidade junto de uma inspirada orquestra que toca cada passagem da história como se fosse um momento único e solene rumo a sua emancipação. A fotografia árida, ajudada pelos grãos difusos e o foco oscilante, e a sempre tremendo câmera parecem sugerir um mundo instável prestes a acabar em um deserto. Pudera. Se até para os adultos a vida não é fácil conseguimos imaginar os esforços da pequena. Sua experiência de vida é muito diferente da vida na cidade, e o que parece cruel ou duro demais a uma criança acaba soando apenas como mais um rito de iniciação.

O significado dessas passagens, no entanto, nunca fica claro o suficiente e sequer é aberto a muitas interpretações. Obviamente enxergamos aquele mundo através dos olhos dessa menina, que por sua vez herdou o seu conhecimento do pai (Dwight Henry), um teimoso habitante junto com uns gatos pingados em uma área de risco de enchentes. Sua comunicação com os animais e sua interpretação do mundo adaptada dos ensinamentos da professora do vilarejo criam uma expectativa épica aos acontecimentos. A vinda do perigoso animal poderia representar o perigo que cada um de nós sente no mundo. Mais uma vez, é impossível de saber. Assim como ele, a realidade está envolta em uma impenetrável névoa.

Com o passar da história o sentido vai perdendo importância. O pouco que sabemos parece conseguir guiar de alguma forma a história. Mesmo assim, a conclusão da jornada épica da menininha merecia um pouco mais de polimento. Já a interpretação de Quvenzhané Wallis é enigmática pela sua pouca idade. Pode ter sido a escolha exata para o papel ou em breve a veremos criar outro personagem marcante. Assim como no filme, só o tempo dirá o mundo que existe dentro dela.

The Walking Dead – Primeira Temporada

March 3, 2013 in Séries

Finalmente, por livre e espontânea pressão, decidi começar minha peregrinação por essa série que parece encantar pela dramatização do que antes era visto como piada: um apocalipse zumbi. Tive boas surpresas, principalmente na parte técnica, como a fotografia, que lembra tons de sépia e caracteriza esse ambiente sem qualquer rastro de esperança (além de conseguir se contrapor às cenas com sangue), e o som, que aposta em um em realismo inebriante ao estilizar os ruídos produzidos pelos “errantes”, humanos que morreram e que ressucitaram como criaturas sedentos por carne viva (humana e animal). Já o uso de Matte Paintings — cenários pintados ao fundo —, se em um primeiro momento exalta a solidão daquele mundo com precisão dramática, usado à exaustão revela mais sua artificialidade do que reforça a situação vivida por aquelas pessoas.

The Walking Dead

A parte dramática também começa bem. Acordamos em um hospital junto de Rick Grimes (Andrew Lincoln), um policial que foi baleado e que encontrava-se desacordado em recuperação. Já delineando os rumos da história a partir do seu melhor amigo/colega e a sua família formada por esposa e filho, acompanhamos sua peregrinação em busca de respostas e que culmina em uma Atlanta devastada e um acampamento com pouquíssimos humanos que sobrevivem de saquear os restos de comida da cidade deserta.

Aliás, quando digo “deserta”, me refiro a almas. Constituindo a maior aglomeração de zumbis já vista, os errantes se misturam à paisagem como se sempre fizessem parte do asfalto cinzento e do vento podre. A maior força de The Walking Dead reside justamente nas novas relações e regras que precisam ser criadas para a sobrevivência daquelas pessoas não apenas como animais, mas como seres humanos dotados de consciência.

The Walking Dead3

E embora a série se esforce em ressaltar o lado humano, seus acontecimentos seguem à risca a cartilha televisiva e soam episódicos demais, iniciando e terminando convenientemente na duração de um capítulo (como os acontecimentos em torno das duas irmãs e de um inusitado asilo). Não que esse formato prejudique a história isolada de cada evento. Sabemos o que essas pessoas têm passado durante todo o tempo, e apenas isso consegue unir suas histórias. É por isso que a câmera se fixa por tanto tempo nas duas irmãs e isso não soa invasivo ou repetitivo demais. Há um outro ritmo a seguir na história humana, e a série pontua e reacerta o relógio biológico da sociedade de forma impecável.

Porém, ainda que assuma o drama, a origem cartunesca pode ter gerado alguns percalços ao definir de qual gênero estamos falando, pois ao mostrar um ataque surpresa de zumbis as câmeras são inundadas de sangue de uma forma cômica em um momento intenso e primordialmente dramático. Esse tipo de enfoque pode prejudicar o desenvolvimento da série como narrativa orgânica ou pode nos preparar para futuros acontecimentos que desafiam nossa percepção de absurdo e bizarro.

girl zombie The Walking Dead AMC tv show image

De qualquer forma, do jeito que está, The Walking Dead ainda não disse realmente a que veio, mas promete muito.

Amor

February 11, 2013 in Cinema

Amour. França/Alemanha/Áustria, 2012. Director: Michael Haneke. Writer: Michael Haneke. Stars: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert.

Amour

O amor visto de uma maneira nunca antes explorada.

Michael Haneke explora através de uma doença a degradação de Anne (Emmanuelle Riva), uma professora de música aposentada já nos seus 80, e o acompanhamento pelo seu atencioso — mas humano — marido, Georges (Jean-Louis Trintignant). A diferença aqui é que isso é feito de maneira a não obstruir a dura e cruel realidade (dita de forma crua, me perdoem os leitores): não há nada de bonito na doença e é um saco cuidar de gente doente, especialmente quando estamos diante de uma vida inteira de experiências prazerosas sendo jogada fora da memória, em uma fase da vida onde há ainda tanta coisa por compartilhar.

Mesmo que não o diga verbalmente, a rotina do casal logo após a cirurgia mal sucedida muda completamente para se tornar insuportável para ambos, pois o “casal” paulatinamente deixa de existir. Conforma Anne aos poucos perde seu passado e seu futuro, Haneke não nos poupa qualquer constrangimento da pessoa e dos cuidados do seu marido, transformando todo o processo em um filme longo e arrastado. Quando chegamos na cena mais impactante do longa, ela com certeza só dividirá opiniões entre quem sentiu a rotina dos dois até agora e os que não viram (e, claro, os religiosos não-pensantes, defensores da tortura por um bem extra-terreno inacessível).

Amor, pelo seu título, consegue inverter a expectativa dos ingênuos espectadores, mas se torna prova de um amor imaterial, que transcende a própria forma e as convenções da época. Haneke nos faz pensar nisso o tempo todo, o que em filme já é um ótimo sinal.