Raul – O Início, o Fim e o Meio

March 27, 2012 in Cinema

Idem. Brasil, 2012. Direção: Walter Carvalho. Roteiro: Leonardo Gudel. Montagem: Pablo Ribeiro. Elenco: Paulo Coelho, Daniel de Oliveira e Tárik de Souza.

O meio, o início e o fim do rock verdadeiramente revolucionário.

Raul — o filme — é um tipo de experiência cinematográfica que faz pensar em muitas coisas, mas que ao mesmo tempo consegue extrair a essência do Maluco Beleza em todos os sentidos de sua vida e de sua filosofia. Dessa forma, temos um protagonista forte, ainda que ausente.

O filme te transporta facilmente para o universo de Raulzito pelo simples fato dos depoimentos de pessoas muito próximas do ídolos praticamente se abrirem com respeito a sentimentos, sensações e impressões que nos dão uma noção muito boa do que era conviver com o cantor. Os cortes rápidos, nunca permitindo que um entrevistado monopolize o tempo, e sim oscilando entre imagens de arquivo que ilustram a narrativa naquele momento, ampliam a experiência áudio-visual. Sim, pois a música não está apenas presente por se tratar da biografia de um cantor, mas é parte conjunta e essencial da narrativa.

A própria razão de tela parece representar esse movimento de vai-e-vem, pois quando vemos a tela larga sabemos que algum ente querido de Raul está tentando ampliar nossa visão de quem ele era, enquanto as tomadas mais quadradas, mais estreitas, nos levam diretamente para ele, como que em uma janela mágica a nos transportar entre passado e presente. As palavras do entrevistado ecoam e vão-se para o passado, e a visão de Raul cantando, falando ou simplesmente em uma sequência super-inspirada de fotos que combina perfeitamente com o momento, faz o desfecho de um episódio. Que alimenta o próximo.

Dessa forma torna-se agradável acompanhar a trajetória do cantor, se envolver e querer mais, pois a cada experiência vivida por alguém que o conhecia parece ampliar e enriquecer nossa própria noção que tínhamos sobre ele. Não há nada de extraordinário nisso, mas na maneira com que a história é contada e como o trabalho excepcional de Pablo Ribeiro consegue fazer fluir momentos tão distintos da vida do cantor. E os recortes de shows! Note, por exemplo, como em alguns momentos Ribeiro intercala na mesma música tomadas de uma “turnê” feita pelas grandes cidades, tudo isso sem perder o tom.

E não é só na edição que podemos notar a fluidez e maestria nas composições, mas também em sua fotografia coesa que, sutil, não agride nossos olhos com idas e vindas de imagens sem qualidade (aqui e ali, mas perdoável), pois as próprias tomadas presentes não são tão estilizadas para causar essa estranheza, mas estão de acordo com o resto do material. Nesse sentido, faz sentido, por exemplo, não exagerar na “maquiagem” nos entrevistados.

E esses, parecem fazer um esforço admirável para ilustrar melhor o que era esse maluco beleza para eles, em um convite realmente sincero para experimentarmos o que era Raul em todos os sentidos e em todas as fases de sua vida. Dessa forma, temos montagens absolutamente surreais de sua banda no estado atual tocando atrás de um pano que projeta suas versões de outrora, ou uma referência quase que espontânea ao filme de Elvis Presley, de quem Raul era fã assumido e escancarado pelo seu trabalho.

Ainda com os entrevistados, a montagem sugere uma espécie de diálogo velado entre eles, expondo por exemplo rixas entre seus parceiros de composição Paulo Coelho e Cláudio Roberto. No entanto, há a tentativa de tornar tudo isso um experimento mais visual que acordado entre as partes, gerando pequenas polêmicas como em um momento em que um entrevistado afirma Raul ser muito mais revolucionário que o próprio Caetano, líder do movimento Tropicália (que, diga-se de passagem, também é um dos entrevistados).

A conversa ainda levanta a questão da censura de maneira quase poética ao enfocar uma gravação sem som de rapazes sendo proibidos de se reunirem na praia para ouvir boa música na época da ditadura e cria um contraponto com a declaração de Paulo Coelho de ter apresentado a Raul todas as drogas possíveis, uma frase que sem sombra de dúvida seria motivo de perseguição política naquela época, mas que hoje pode ser dito, gravado e publicado.

Nesse sentido, o próprio filme é uma homenagem e uma resposta para esse contestador que foi Raulzito, como que houvesse um contato extraterreno a dizer para ele:”Está vendo? Hoje podemos fazer o que quisermos, pois há de tudo ser da lei”.

Acredito, sinceramente, que Raul esteja escutando.