Qualquer Gato Vira-Lata

May 10, 2012 in Home Video

Idem. Brasil, 2011. Direção: Tomas Portella, Daniela De Carlo. Roteiro: Daniela De Carlo, Juca de Oliveira, Claudia Levay (adaptação), Júlia Spadaccini (adaptação). Elenco: Cléo Pires, Dudu Azevedo, Malvino Salvador, Rita Guedes e Álamo Facó.

Comédia romântica machista e incoerente tem como protagonista uma não-atriz.

A influência norte-americana e suas comédias românticas de caráter duvidoso trouxeram uma produção com elenco brasileiro que não é apenas covarde em sua premissa, mas retrógrada e oportunista. Dirigido por Tomas Portella e Daniela de Carlo, ambos já envolvidos em produções hollywoodianas, o filme gira em torno do roteiro de uma peça de teatro (muito ruim, por sinal) em que a jovem e fisicamente atraente Tati (Cléo Pires) briga com seu namorado Marcelo (Dudu Azevedo) em seu aniversário por conta de suas aventuras fora do relacionamento; ao tentar procurar uma solução para seu relacionamento descobre através das teorias de um professor de biologia, Conrado (Malvino Salvador), que talvez estivesse usando a abordagem errada para seduzir homens.

Tendo como premissa a ideia retrógrada e extremamente machista de que as mulheres não podem ir à caça de seus partidos, mas sim seduzirem seus homens de forma velada aguardando por uma iniciativa destes, Qualquer Gato Vira-Lata já começa, nos seus primeiros 15 minutos, a ser insuportável apenas pelas ideias que defende. Ideias essas colocadas na cabeça do tal professor de biologia, que apesar de ser fã da teoria da Seleção Natural (possui um cachorro com o nome de Darwin) reage de maneira extremamente contraditória ao constatar que não só os humanos, mas o animais devem sempre se comportar da mesma maneira pelos milhões de anos de sua existência como espécie, ignorando, por exemplo, que 15 milhões de anos atrás não existiam quase nenhuma espécie viva hoje em dia, ou, ainda pior, que a consciência e raciocínio humanos, que criaram a moral e a filosofia, por exemplo, não conseguissem nos levar por caminhos diferentes do que reza nosso código genético.

Pior do que isso apenas a futilidade de Tati, que não conseguindo se livrar da paixão que sente por Marcelo, tenta se moldar de acordo com as teorias de Conrado. Ou seja, ainda que ignorássemos as ideias por trás da história e nos focássemos no drama vivido pela protagonista, isso seria impossível, pois ela é inatingível, atrás da inexistente e/ou inexpressiva interpretação de Cléo Pires, que se resume em fazer os mesmos sorrisos e caras de choro (ajudada pelos seus belos lábios) durante o filme inteiro. Vendo Pires como atriz é acabar dando mais méritos de interpretação para sua assemelhada Juliana Paes, por menos talentosa que fosse. Além do mais, nunca sabemos muito sobre Tati, além de que ela é capaz de mudar toda sua forma de ser e agir apenas para ficar do lado de seu macho-alfa, um rapaz deselegante e arrogante cujas únicas virtudes provavelmente foram adquiridas em sessões intermináveis de academia e Jiu-Jitsu.

Não contente com uma fraca trama central, o filme ainda nos brinca com fraquíssimas piadas recicladas de programas de humor televisivos (ou a internet) muito mal sincronizadas nas bocas de personagens secundários que poderiam tranquilamente deixar de existir em um enxugamento do roteiro, já que na maioria das cenas eles se limitam a fazer parte da decoração do cenário e criar contratextos para que os protagonistas não falem sozinhos e sejam tomados por loucos.

Todos esses tropeços fazem com que fique fácil ignorar a amadora fotografia, que perde tantas vezes o foco que parece ter sido mal-feita de propósito para dar um ar mais “artístico” (assim como a “trama”), fazendo rima com a péssima qualidade da mixagem de som, dado que em muitos momentos, principalmente em ambientes barulhentos, as vozes dos atores são quase que totalmente abafados, restando a nós, espectadores, tentarmos adivinhar as falas pelo contexto. Somando-se a isso temos uma equivocada Direção de Arte que planejou a casa de Tati, por exemplo, com um branco e uma largura de quadro que é incompatível com sua mente difusa e minúscula.

O fato é que, mesmo que o ritmo da história seja agradável apesar de todos os poréns, não há nada que nos leve a ser atraídos pelos personas de Tati e Marcelo, que são fúteis e antipáticos (ainda que seus corpos digam o contrário). Nesse sentido, além da trajetória de suas vidas não nos levarem a lugar algum, seus destinos pouco importam, desde que a projeção acabe logo.

O que, felizmente, é um dos poucos acertos do filme.