O Filme dos Espíritos

October 8, 2011 in Cinema

Idem. Brasil, 2011. Direção: André Marouço e Michel Dubret. Roteiro: André Marouço. Elenco: Reinaldo Rodrigues, Nelson Xavier, Ana Rosa, Briza Menezes, Alethéa Miranda, Ênio Gonçalves.

O Filme dos Espíritos é mais uma tentativa de “catequizar” (com o perdão da palavra) ou talvez educar os fiéis dessa crença religiosa da vida após a morte, dando sequência ao bom “Chico Xavier” e o desastroso “As Mães de Chico Xavier”. Aqui, porém, a alçada propagandista ganha contornos bem maiores que sua qualidade como filme — o que, de certa forma, lembra Olga, uma obra com o mesmo estigma. Dessa forma, o uso do cinema como ferramenta “educativa” se torna um completo desastre quando constatamos que toda essa ambição ideológica anti-aborto não se justifica em uma produção de caráter e gosto duvidosos.

 

Fonte: institutoesp.blogspot.com

A primeira impressão, logo nas primeiras cenas, é estar assistindo a uma obra ou 1) experimental, que irá jogar com técnicas inusitadas de movimento de câmera ou 2) amadorística, fruto de cursos de estudo de vídeos para a televisão. Infelizmente, embora uma vez ou outra o longa pareça se esforçar em se tornar de fato um filme, se dando ao luxo de inserir planos-detalhe que expliquem por si só o andamento da história (como o copo de cerveja na cama, ou as duas alianças juntas no mesmo dedo), o amadorismo começa a dominar cada vez mais a mise en scene, chegando ao ápice de aplicar os conhecidos bordões de mostrar a cidade amanhecendo em câmera acelerada (três vezes!) ou o efeito tremido e difuso para explicar o estado alcoolizado de um personagem. (Nada contra o uso de clichês, que podem ser úteis em muitas obras, mas tudo contra o seu mau uso, o que acaba aumentando mais ainda a sua banalização.)

Fonte: mundomaiorfilmes.blogspot.com

Porém, confesso que o detalhe técnico que mais me angustiou durante toda a projeção foi justamente a fotografia pedestre, que não consegue dar conta da luz natural nas cenas externas, estourando luz muitas vezes, e não consegue manter uma uniformidade nos ambientes fechados, mesmo que esses ambientes nunca mudem. Contudo, seu amadorismo só se torna de fato evidente quando “admiramos” os enquadramentos completamente equivocados usados pelo diretor: vagos, genéricos e totalmente desinteressantes, muitas vezes olhamos para um jardim por massacrantes segundos que em nada contribuem para a já equivocada narrativa, que insiste em marcar o tempo simplesmente tornando as cenas maiores do que deveriam.

Fonte: www.cinepop.com.br

Para ajudar, a trilha sonora segue bombardeando qualquer traço dramático que possa existir na relação entre os personagens, lembrando muitas vezes as conhecidas vinhetas nada originais usadas nos cortes de cena das novelas televisivas. Porém, até essas vinhetas muitas vezes possuem uma composição dramática equilibrada, enquanto em O Filme dos Espíritos ela parece determinada a se identificar melhor com aqueles vídeos de casamento caseiros ou DVDs de auto-ajuda.

 

Fonte: www.historiadocinemabrasileiro.com.br

Como se não bastasse esse festival de equívocos show de horrores, o filme tem a audácia de ir contra o aborto baseado em suas próprias crenças religiosas, retrocedendo décadas de compreensão científica a respeito da origem da vida. “Ora, mas é um filme religioso! Seria óbvio ele pregar seus dogmas, não?” Claro. Porém, em uma atitude desinformativa, um dos personagens, médico, em uma das falas tenta associar a visão científica e aproximá-la (!) com a sua visão religosa e ainda assim, continuar condenando o aborto e utilizando expressões como “justiça divina”, que por si só escancaram o mau-caratismo velado no discurso narrativo revelam o verdadeiro (mau) caráter desse filme.

Não há nada no verdadeiro Cinema contra filmes religiosos que defendam seus dogmas. Diversos filmes nacionais foram lançados que mereceram algum destaque, como o já citado Chico Xavier e o mais recente Aparecida — o Milagre. Porém, infelizmente esse não é o caso. Quando um filme propagandista se posiciona a respeito de um assunto ainda polêmico em nossa sociedade, é natural que os cinéfilos assumam mais fortemente suas convicções. Eu não sou diferente. Apenas o que temos aqui é um vídeo propagandista que insere a questão do aborto em seu núcleo narrativo de forma simplista e covarde, se escondendo atrás de leis religiosas escritas por um obscuro doutor há cerca de 150 anos atrás, cuja produção possui mais defeitos que virtudes. Ou seja, é um raro caso de produção cinematográfica duplamente descartável.