Moloch

April 19, 2012 in Home Video

Idem. Rússia/Alemanha/Japão/Itália/França, 1999. Direção: Aleksandr Sokurov. Roteiro: Yuri Arabov, Marina Koreneva. Elenco: Yelena Rufanova, Leonid Mozgovoy e Leonid Sokol.

Hitler de ceroulas e filmado pela visão peculiar de Sokurov. Precisa mais?

Aleksandr Sokurov tem um estilo próprio para contar histórias. Quase sempre apostando na imersão do espectador pelos longos quadros e movimentos exóticos de seus personagens, muitas vezes a situação é propícia e gera grandes trabalhos (como Mãe e Filho), e em outras, como este Moloch, fica aquém do impressionante, mas mesmo assim é uma imersão que vale a pena ser vivida.

Estamos diante de uma história que contém figuras históricas do nazismo que passam um fim-de-semana isolados em um castelo em cima de um monte onde nada pode-se ver abaixo a não ser uma névoa impenetrável. Nesse cenário podemos notar tanto a liberdade explícita do ambiente (como pode ser visto na primeira tomada, quando uma mulher desfila nua em torno das paredes externas do castelo) quanto a liberdade implícita contida na posição privilegiada daquelas figuras, no auge da Segunda Guerra Mundial. Vistos sempre em torno da névoa da região ou em aposentos quase sempre grandes demais e mal iluminados, representando com maestria tanto a privacidade quanto o aspecto obscuro de suas personalidades em torno da grandiosidade de seus atos (não aqui, historicamente).

Diante disso, é compreensivo e ao mesmo tempo surreal vermos um Adolf Hitler livre das amarras existentes em suas aparições públicas, tão efusivo e eloquente. É preciso dizer que não apenas ele exerce um papel hipnótico na inusitada história como seus aliados Josef Goebbels e Martin Bormann realizam atos impensáveis se imaginarmos o poder de influência dessas pessoas na opinião pública de toda a Alemanha.

Nesse sentido Moloch é uma redescoberta e ao mesmo tempo reinterpretação desses personagens históricos fascinante. Por outro lado, isso nos nega a visão mais realista, e pode soar uma viagem um tanto além das fronteiras entre a ficção e o documentário, visão essa que estamos acostumados a ver em filmes que lidam com a história em geral.

Hitler está, mais do que nunca, fora do seu eixo. O trabalho de Leonid Mozgovoy parte do correto pressuposto que pessoas são pessoas, independente de serem ditadores sanguinários ou camponeses. A partir dessa universalização ele insere elementos únicos da psique do ditador alemão que poderiam existir em uma figura histórica e controversa como ele. Portanto, faz pleno sentido os diálogos do Führer oscilarem entre patéticos e brilhantes.

Porém, muito diferente do que vemos no brilhante “A Queda!”, aqui há uma introspecção que ao mesmo tempo que nos revela muito, ainda abre um leque ainda maior de nuances, principalmente na relação entre Hitler e Goebbels e as respectivas esposas Eva Braun e Magda Goebbels. Talvez isso alerte para o fato que, não importa o quanto estudemos sobre essas figuras históricas, elas são e continuarão sendo imensos poços de mistério, e nunca conseguiremos entendê-los, mesmo que conseguíssemos observá-los na privacidade de seus lares.