Melancolia

August 7, 2011 in Cinema

Melancholia. Dinamarca, Suécia, França, Alemanha. 2011. Escrito e dirigido por Lars von Trier. Elenco: Kirsten Dunst (Justine), Charlotte Gainsbourg (Claire), Kiefer Sutherland (John), Charlotte Rampling (Gaby), John Hurt (Dexter), Jesper Christensen (Padrinho), Stellan Skarsgård (Jack), Brady Corbet (Tim), Udo Kier (Organizador do Casamento), Cameron Spurr (Leo).

(Spoilers liberados. Portanto, sugiro ler depois de assistir ao filme.)

Lars von Trier é um realizador corajoso. Especialista em explorar as facetas menos nobres de nossos sentimentos, já ousou colocar Bjork em Dançando no Escuro, um musical sem final feliz, e Nicole Kidman no vilarejo de Dogville, onde mora o que existe de mais desprezível nas relações sociais. De uma maneira geral, a decadência humana sempre foi retratada em seus trabalhos de uma forma emblemática, porém, visual, que é onde reside a força do seu cinema.



Em Anticristo, seu trabalho anterior, o filme lidava com os símbolos cristãos ao mesmo tempo que explorava o nosso lado amoral e perverso. O fato de lidar com símbolos tornava as alegorias construídas obscuras o suficiente para dar margem a diversas interpretações. Dessa vez, em Melancolia, a história é didaticamente dividida em duas partes, sendo que logo no início existe uma espécie de prólogo em forma de sonho, onde podemos ter uma visão holística de tudo o que veremos no decorrer das duas histórias.

Aliás, preciso me reter um pouco sobre essa introdução, que é construída de maneira magistral, onde mostra em câmera ultralenta os movimentos de alguns personagens, ao mesmo tempo que vislumbra a Terra como um pequeno planeta do lado de um muito maior, o Melancolia, criando um paralelo, ainda que acidental, com 2001, só que, em vez de privilegiar a conquista humana da evolução e da consciência, dá ênfase justamente ao nosso caráter depressivo, de desânimo. O resultado, arrebatador, é o encontro inevitável entre os dois planetas, que praticamente dançam ao som da igualmente depressiva trilha sonora, escolhida a dedo, pois orna perfeitamente com o humor da situação. Essa música-tema, assim como as situações vistas na introdução, serão revistas no decorrer da história, e seus significados múltiplos irão se encaixar organicamente no decorrer da história.

Na primeira parte, entitulada Justine, o personagem-título é interpretado por Kirsten Dunst, que faz uma noiva em sua festa de casamento. Em sua interpretação merecidamente ambígua, é possível notar em Justine sua falsa felicidade, e que impacto isso tem na festa de um modo geral. É como se observássemos a festa perfeita implodindo por dentro. E esse “dentro” percebemos nos gestos, nas falas e nas expressões irônicas de Justine, que não permitem nos revelar seu real estado de espírito, como se esse estivesse coberto por uma tristeza inalcançável, e um poder de destruição implícito.

Essa primeira parte é a mais rica nas relações humanas, até por apresentar o maior número de personagens e a relação entre eles, ou até pela própria forma de filmar. A câmera desliza pelos personagens de forma afoita, com um zoom exagerado ao estilo documental, o que remete às sensações de realismo e urgência. Embora isso possa parecer desproporcional à situação, fará mais sentido se entendermos o estado de espírito de Justine, e para isso Von Trier precisa nos remeter à segunda parte do seu projeto, onde veremos, sob o lado prático, o que está, de fato, acontecendo. É só então que conseguimos detectar o desespero contido no subtexto do primeiro ato.

A segunda parte, por sua vez, é a universalização do mesmo sentimento, atribuído a todos os seres humanos, metaforicamente representado pelo fim do planeta ao chocar-se com outro, de nome Melancolia. Da mesma forma com que esse sentimento toma conta de todas as ações de uma pessoa, a colisão do planeta torna impossível viver ou simplesmente respirar, como é, aliás, simbolizado por Claire em um dado momento.

A história da primeira parte começa a fazer mais sentido quando os sentimentos de Justine aparecem à superfície em um diálogo com a irmã, em que revela já saber de muitas coisas, onde dessa vez o símbolo usado é uma tradição nupcial em que se deve adivinhar o número de feijões dentro de uma garrafa, em uma bela rima semântica com nossa capacidade de prever cálculos científicos, como a rota do planeta Melancolia.

O final, não é preciso dizer, é extremamente melancólico, e foge obviamente da cartilha de Hollywood. É óbvio que, se fosse diferente, isso insultaria a inteligência do espectador e do próprio idealizador, pois fugiria da mensagem principal do filme. Pessoalmente, não me senti particularmente depressivo, pois é uma conclusão já esperada e em diversos pontos da história previamente salientada. É bem possível que existam vários elementos “ocultos” que façam valer assistir novamente. Quem sabe dessa vez, pelo menos para mim, o filme pareça mais melancólico do que a proposta original.

Trivia

  • De certa forma, fiquei pensando se o fato do planeta estar se aproximando não teria alterado o humor de várias pessoas, como Justine, e deixadas melancólicas um pouco antes do fim e, nos últimos momentos, fazê-la se acalmar (assim como os cavalos).
  • Imagine acompanhar o mesmo filme trocando apenas a música para a Nona de Beethoven, em uma sugestão usada no próprio filme. Apenas imaginando isso, fica claro que os objetivos da produção estavam longe de ter o tema superação ou dar um tom feliz ao final trágico.
  • O cavalo de Justine se chama Abraão, um personagem bíblioco, em uma suposta referência ao trabalho anterior do diretor.
  • Talvez seja coincidência, mas o fato do personagem de Jack Bauer, tão acostumado a salvar o mundo no seriado 24 Horas, se matar no final, estabelece uma dessas ironias cinematográficas impagáveis.