Hackers

November 18, 2011 in Home Video

Idem. EUA, 1995. Direção: Ian Softley. Roteiro: Rafael Moreau. Elenco: Jonny Lee Miller (Dade Murphy / ‘Crash Override’ / ‘Zero Cool’), Angelina Jolie (Kate Libby / ‘Acid Burn’), Jesse Bradford (Joey Pardella), Matthew Lillard (Emmanuel Goldstein / ‘Cereal Killer’), Laurence Mason (Paul Cook / ‘Lord Nikon’), Renoly Santiago (Ramon Sanchez / ‘Phantom Phreak’), Fisher Stevens (Eugene Belford / ‘The Plague’ / Mr. Babbage), Alberta Watson (Lauren Murphy), Darren Lee (Razor), Peter Y. Kim (Blade), Ethan Browne (Curtis), Lorraine Bracco (Margo), Wendell Pierce (S.S. Agent Richard Gill), Michael Gaston (S.S. Agent Bob), Marc Anthony (S.S. Agent Ray).

Sobre hackers para hackers

O mundo dos computadores na década de 90 poderia parecer muito intimidador para a pessoa leiga. Com a internet ainda engatinhando, as raras pessoas que sabiam mexer com esses dispositivos modernos eram considerados gênios incompreendidos, pois quase ninguém realmente entendia o que as pessoas faziam digitando naquela máquina de escrever eletrônica. O fato de ser incompreendido também gerava a desconfiança, pois quem controlaria essas pessoas dotadas do raro dom de conversar com as máquinas? Ao mesmo tempo, havia uma sensação de “perigo invisível”, pois a priori qualquer pessoa dessas poderia ter controle nos sistemas que aos poucos estavam sendo entregues à informatização.

O resultado de toda essa insegurança é o que vemos na primeira cena de Hackers, quando um grupo de policiais fortemente armados invade uma residência em busca do invasor do sistema de negociação de Wall Street, que acabou gerando perdas financeiras milionárias. Depois dessa operação especial não deixa de ser irônico constatarmos que a “mente criminosa” capturada, Dade Murphy, no fundo é um garoto de 11 anos, que no mundo virtual se auto-intitula com o nickname “Zero Cool”.

Fora a pesada multa sobre a família pelos atos do garoto, ele é penalizado em não encostar mais em um computador ou telefone até que completasse 18 anos. Flash rápido, o vemos em um voo acompanhado da mãe pronto para sua maioridade. Ele é um garoto comum, mas, logo que tomamos seu ponto de vista, na janela do avião, o vemos observando os prédios e as avenidas de Nova Iorque como se fossem chips e circuitos eletrônicos de um gigantesco computador.

E é essa a metáfora visual empregada pelo diretor Ian Softley (A Chave Mestra) para que nos aproximemos da mente privilegiada de Dave, agora intitulado Crash Override (Jonny Lee Miller).

Apesar dessa nobre tentativa de tornar o universo dos computadores inteligível para a pessoa comum, pode-se dizer que “Hackers” é antes de tudo um filme feito sobre hackers e para hackers. São tantas as referências culturais inseridas na história (a maioria escondida dos leigos) que fica difícil torná-la interessante para o cinéfilo comum, que não entende de tecnologia o suficiente para “pegar o jeito da coisa”, e acaba por enxergar a produção como um filme B bem feito.

E ele é muito bem feito. A direção de arte investe em cenários e figurinos que remetem ao clima exótico e exuberante das mentes dessas pessoas (ajudados pela trilha tecnho-psicodélica de Prodigy), o que acaba por também afastá-los da denominação de pessoas comuns. De dia são jovens comuns, mas à noite possuem rotinas específicas e maneiras diferentes de enxergar a realidade (como um dos novos amigos de Dave, que acredita em uma teoria da conspiração parecida com a do livro 1984). Dessa forma, mantém uma vida secreta, noturna, onde podem fazer o que quiser. No fundo, os cenários surreais apenas tentam recriar um outro mundo da maneira que os hackers o enxergam: o mundo virtual.

Para extravasar mais ainda a realidade, existem sonhos, que se misturam à realidade. Boa parte da poeira levantada pelo roteiro tenta tornar a aventura dentro dos computadores no mínimo divertida e emocionante, onde até o lado erótico é ressaltado (com uma imensa ajuda de Angelina Jolie, que faz uma hacker adolescente de inteligência destacada, mas que não dispensa os prazeres carnais). No mundo virtual, a possibilidade mais excitante é poder controlar objetos reais, como um semáforo, um canal de televisão e até mesmo um navio através do acesso a um computador.

Ao mesmo tempo, para dinamizar uma história quase que puramente mental, a câmera investe em ângulos inusitados e jogos de luz para tornar a vida secreta sempre vibrante. Para ajudar na ação, são inseridos um chefe de polícia, que persegue os hackers e a mídia para se auto-promover, e o chefe de segurança de computadores de uma companhia de petróleo, que vira o “hacker do mal”, ou seja, um hacker que não almeja aprender e compartilhar conhecimento, mas obter benefícios próprios.

Infelizmente aqui não existe um perigo tão real como a possibilidade de um conflito nuclear de “Jogos de Guerra”, mas apenas um plano ambicioso para tirar dinheiro da companhia. Contudo, o universo hacker é tão diferenciado em sua forma de cores e luzes que torna a vida dos personagens interessantes o suficiente para que acompanhemos empolgados o grupo de nerds.

E muito embora a visão idealizada de um hacker esteja bem distante da realidade, isso no fundo não importa. Apenas a versão romantizada e inserida em nossas ruas, prédios e sistemas telefônicos é o suficiente para que tenhamos o gostinho de sermos vigiados por pessoas invisíveis. São as pessoas virtuais da nova era.

E que possuem um nickname.