Flores Raras

August 24, 2013 in Cinema

Idem. Brasil, 2013. Director: Bruno Barreto. Writers: Matthew Chapman (screenplay), Julie Sayres (screenplay), Carmen L. Oliveira (romance), Carolina Kotscho (primeiro roteiro). Stars: Glória Pires, Miranda Otto, Tracy Middendorf.

Flores Raras

Drama-romance sensível e sutil, tal qual poesia.

O tema “polêmico” de Flores Raras não existe há muito tempo, e apenas as mentes reduzidas de nossa época, que infelizmente não são poucas, irão enxergar qualquer anomalia no fato da história girar em torno de um triângulo amoroso entre três mulheres: Mary (Tracy Middendorf), a arquiteta Lota (Glória Pires) e a poetisa Elizabeth Bishop (Miranda Otto), todas encapsuladas em tramas tridimensionais. Sensível e inteligente, Bruno Barreto demonstra que a principal anomalia desse relacionamento é o ego controlador e descontrolado de Lota, uma arquiteta que através das influências políticas e dinheiro consegue manter em sua isolada casa no campo a ilusão de um mundo tolerante e tranquilo.

Aliás, Glória Pires mais uma vez se firma como uma das grandes atrizes de nossa época ao encarnar uma personagem que oscila entre o amoroso e o cruel. No entanto, a grande surpresa fica por conta de Miranda Otto, que constrói e realiza um arco admirável em sua Elizabeth Bishop, que parte de um início tímido a um final… bem, não tímido. O resultado é tão satisfatória que sua personagem cria um aspecto inesperadamente sombrio à história.

Iniciando nos anos 50, passando pelo golpe militar brasileiro e avançando os anos com uma sutileza admirável, nos provocando a sensação de passagem no tempo mais pelos aspectos externos (figurino e direção de arte) a psique dos personagens parece se manter quase intacta, como se pouca coisa tenha mudado mesmo que as rugas venham surgindo. Os problemas do longa parecem residir apenas na direção muitas vezes intrusiva de Barreto, que apela para o fantasioso sem qualquer motivo senão “sobredramatizar” (para não dizer “novelizar”). É por isso que, se uma chuva repentina causa surpresas, isso é passageiro, mas se o mesmo efeito se repete nas luzes de um parque ou em tantos outros momentos, podemos duvidar de nossa própria capacidade de entender as entrelinhas ou o filme duvida que aqueles acontecimentos não tenham força própria.

Mesmo assim, é admirável constatar que, baseado em fatos, o hábil roteiro derivado de um romance consegue entregar uma história se não verossímil, degustável através da própria visão literária de sua protagonista. Isso por si só o equipara a Swimming Pool, uma ficção que faz rima inversa ao realismo da obra de Barreto.

Ed Wood

August 22, 2013 in Cinema

Idem. EUA, 1994. Director: Tim Burton. Writers: Rudolph Grey (book), Scott Alexander, Larry Karaszewski. Stars: Johnny Depp, Martin Landau, Sarah Jessica Parker, Patricia Arquette, Jeffrey Jones, Vincent D’Onofrio, Bill Murray, Juliet Landau.

Ed WoodMostra “Ed Wood – o melhor dos piores de todos os tempos”

Talvez o fato do filme sobre Edward D. Wood Jr., o pior diretor de todos os tempos (eleito dois anos após sua morte), ser um dos melhores do diretor Tim Burton, acostumado a flertar com o gênero, seja algo inesperado, mas ainda assim propício para um tema tão metalinguístico. Além de ser a homenagem devida ao diretor trash mais cultuado de sua geração (ou talvez de toda a história do Cinema) o longa de Burton mergulha fundo na atmosfera dos filmes B, onde o fato de ser rodado em P&B ajuda, mas não é só: é fácil entrar nessa dimensão criada pelo diretor a partir de suas duas realidades. O diretor precisa brinca com o gênero e ao mesmo tempo é um narrador onisciente de produções típicas. Isso torna muito difícil não adorá-lo como o filme que representa a esperança dos menos afortunados da indústria do Cinema, mas que nem por isso deixam de ser amantes incondicionais da Sétima Arte.

É com essa devoção “artística” incondicional que conseguimos entender a mente de Ed Wood não como alguém uma pessoa de suas limitações — ele se compara a Orson Welles constantemente, citando o fato de assim como ele ser o produtor/diretor/roteirista/ator de seus filmes — e por isso mesmo tão disposto a entregar sua vida a qualquer chance que o permita produzir os seus filmes de acordo com sua visão. Ed representa como ninguém o ponto de vista de diretores quase sempre medíocres como Michael Bay (Transformers) ou Paul W.S. Anderson (Resident Evil): eles acreditam piamente estarem fazendo filmes bons.

O trunfo do filme é nos fazer concentrar na figura do cineasta como um realizador que através de sua criatividade e amizade com Bela Lugosi conseguiu produzir os filmes que queria. (O fato de Martin Landau viver Bela (aliás, de maneira assustadoramente tocante) também é uma jogada metalinguística de gênio, uma vez que Landau já participou de séries televisivas como Hitchcock Presents e Além da Imaginação, além, é claro, da série Missão Impossível original.)

Ao explorar essa amizade entre os dois cineastas consegue ao mesmo tempo apresentar a figura de Wood como um ser ingênuo de maneira orgânica e até natural, uma naturalidade crucial para que sua força impulsione o filme (além de tocante em vários momentos). Se Martin Landau quase rouba o filme, isso não acontece graças a uma entrega igualmente satisfatória de um Johnny Depp pré-Piratas do Caribe, que não apenas convence o espectador da existência de um ser bizarro como Ed como consegue compreender a proposta de Burton como uma história que se torna mais trágica à medida que acumulamos os seus momentos mais cômicos, invertendo exatamente a proposta original dos filmes de Wood, que visavam o terror/drama e acabaram virando comédias incidentais grotescas.

Porém, não é só com os dois atores que existe essa química. Com a ajuda de um elenco afiadíssimo Burton cria quase uma segunda realidade ao propor que a história de vida do diretor de filmes trash e sua equipe se confundem em uma realidade igualmente trash. Dessa forma, até participações duvidosas (como Sarah Jessica Parker, da série Sex and the City) são usadas a favor da narrativa, e é assim que um ser grotesco com um tom de voz idem (George ‘The Animal’ Steele, que de fato pertence ao mundo da luta livre) consegue se caracterizar como um ator de desempenho eficiente para Wood. Quando questionado se o fato dele quase levar a parede do cenário embora ao tentar atravessar uma porta não iria estragar o take, o diretor responde que prefere deixar assim pelo realismo: “na vida real, ele teria que lidar com esse problema constantemente”.

Aliás, a forma como Burton enfoca a óbvia falta de talento do diretor de maneira sutil (Burton é fã assumido de Wood) é tocante em vários sentidos. Conseguimos observar a propensão a erros do diretor/produtor desde as decisões iniciais do projeto (como ao aceitar qualquer ideia para seu filmes) até a escolha da posição da câmera e dos atores em cenas que obviamente falham em seu objetivo original para o que almejava (e Burton reaproveita as mesmas tomadas utilizando um ângulo que facilite entendermos as reais pretensões do diretor, quase uma releitura de seus fracassos). A forma como ele conduz suas cenas, sem nunca repeti-las e mandá-las direto pra impressão é o sintoma final onde é possível sentir toda a extensão do fracasso de Ed como realizador. No entanto, em vez de humilhar e descaracterizar o personagem como uma figura grotesca por si só, Burton prefere fazer comédia periférica igualmente grotesca (uma panela voando aqui, uma fuga muito doida de uma estreia ali).

Tendo dias para rodar filmes inteiros, a culpa pelos seus fracasos parece não residir apenas em Wood, mas na industria cinematográfica como um todo, e quase o coloca como posição vítima de um negócio lucrativo que coloca a arte em último lugar das suas prioridades (e não é difícil de imaginar que se estivesse vivo hoje ele se mataria com as atrocidades criadas pela tecnologia 3D, embora pudesse criar infinitos filmes com o baixo custo das produções digitais).

A Mostra “Ed Wood” vai até semana que vem (30/08) na Caixa Cultural.

Anima Mundi 2013

August 17, 2013 in Blogging, Cinema

Minha primeira participação no Anima Mundi não poderia ter sido melhor. Assisti à sessão do dia 17/08/2013 no Itaú Cinemas (São Paulo) às 17:00, onde tive o privilégio de ver pedaços inspiradores de talento espalhados pelo mundo. Um deleite para o fã de Cinema e da criatividade humana.

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FREE WHEEL (Roda-Livre). Florian Pichon, Héloïse Papillon, Julien Perez, Lucas Morandi, Jean-baptiste Trullu, Maxime Mege-Ythier / França
Com o uso de um ambiente opressivo com cores marcantes (que me lembro até agora), vivenciamos a transformação de uma faxineira em pleno Hall da Fama, através de uma corrida alucinante. Há momentos artificiais (como os golpes durante a corrida), mas o dinamismo da pista, das cores e da música conseguem impressionar visualmente até o final. 3/5

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EISH OSEH ELOHIM (Deus está Brincando). Boaz Balachsan ; Dima Tretyakov / Israel
Utilizando o depoimento de crianças sobre o que é Deus para elas, os desenhistas imprimem as mudanças radicais nas visões infantis conforme elas vão sendo ouvidas pelo público. É quase um experimento abstrato e tocante, que nos remete à própria infância assim como faz refletir o quanto evoluímos de lá pra cá. 4/5

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ZIMA PRISHLA (O Inverno Chegou). Vassiliy Shlychkov / Rússia
A história da chegada do inverno na Rússia contada de maneira totalmente visual através do uso de construções que se assemelhan a lã (se não for). Uma música tocante, o clima perfeito. Um momento dos mais memoráveis. 5/5

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ORIGAMI. Bailly Desmarchelier; De Melo Bueno; Moreno; Smithies; Turon / França
O aprendizado de um jovem sobre a persistência em uma animação que extrapola a imaginação do que é possível construir com apenas um pedaço de papel. O uso de sombras é fascinante, assim como a movimentação dos objetos envolvidos. 3/5

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REIZWÄESCHE (Calçola). Jelena Walf; Viktor Stickel / Alemanha
Um “intermisso” extremamente criativo, cativante e hilário. 4/5

O CANGACEIRO. Marcos Buccini Pio Ribeiro / Brasil
A lenda de lampião contada através do cordel e animada através do uso de cores que lembram a falta de cores do Nordeste brasileiro. 3/5

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BAOBAB (Baobá). Nicolas Loesner; Anaëlle Moreau; Marina Steck; Simon Taroni; Benjamin Tron / França
Mais uma lenda, dessa vez sobre uma árvore das mais linda. A alegoria é óbvia, mas impressiona positivamente. 3/5

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EL VENDEDOR DE HUMO (O Vendedor de Fumaça). Jaime Maestro / Espanha
Uma comédia, inspirada na Banda de um Homem Só (Pixar), mas que segue outra trajetória. Divertido e empolgante. 4/5

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AB OVO. Anita Kwiatkowska-Naqvi / Polônia
Uma visão extraordinária sobre a gravidez humana. Uma obra de arte em forma de contemplação. Dotada de uma das trilhas mais bonitas, impossível ficar apático diante do milagre da vida. 5/5

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THE GATHERING DUSK (Na Hora do Poente). Amy Brutton, Yann Drevon, Audric Escales, WilliamOhanessian, Raphaël Tillie / França
O realismo absurdo e a introdução de um possível longa que dá vontade de ver. Repare no uso das luzes para caracterizar os personagens e a textura e a cor de suas peles, assim como os detalhes que impressionam e ao mesmo tempo possuem coerência narrativa (como a arara). 4/5

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FIRST SHIFT (Primeiro Turno). Han Sung Gwon / Coreia do Sul
Mais do mesmo em um futuro distópico. Uma luta empolgante e com ótimos ângulos, mas que peca pela perda de sentido em determinado momento. Poderia ser mais, muito mais, do que simplesmente lembrar A Viagem. 3/5

Círculo de Fogo

August 9, 2013 in Cinema

Pacific Rim. EUA, 2013. Director: Guillermo del Toro. Writers: Travis Beacham (screenplay), Guillermo del Toro (screenplay), Travis Beacham (story). Stars: Charlie Hunnam, Idris Elba, Rinko Kikuchi.

Círculo de Fogo

Monstros e robôs gigantes homenageiam o poder da imaginação.

Ao contrário de Homem de Aço, que apesar de voar se esforça em manter seus dois pés no chão da realidade, Círculo de Fogo parece navegar por outras águas, sempre disposto a impulsionar sua fantasia em direção daquele mundinho que habita nossa mente de criança (espero que você ainda a tenha) em busca de desafios cada vez maiores para nossos gigantes heróis.

Inspirado diretamente das séries japonesas de Eras atrás (estou olhando para vocês, Jaspion / Changeman / Spectroman) a narração introdutória explica como monstros que surgiram do Oceano Pacífico através de uma espécie de portal para outra dimensão/universo impulsionaram as nações a construir o sonho de consumo de qualquer jovem: um robô gigante para esmagar as criaturas dos mares. Embora condicionado no conhecido formato americano de fazer Cinema (que obriga os heróis a terem dramas e fantasmas pessoais do seu passado para resolver), a boa notícia é que a alma oriental permanece, pelo menos nos momentos mais icônicos, o que faz a película vibrar em momentos pontuais, mas em quantidade suficiente para segurar a tensão.

Eu diria até mais: impulsionado pela música que cria um tema fácil de saborear pelas mentes mais simples, Círculo de Fogo gera momentos de fazer vibrar pela sua reimaginaçao em um CGI estupidamente bem elaborado. Em seu momento mais inspirado (envolvendo uma certa cena aérea e um desfecho inesperado) é capaz de arrancar aplausos que surgem da platéia quase que naturalmente.

O uso do 3D, embora com propensão a dores de cabeça nas cenas movimentadas, é inteligente em sua concepção: como quase todas as cenas de luta ocorrem na água e/ou sob pesada chuva as inúmeras gotículas em suspensão criam a sensação de profundidade todo o tempo. Do lado de dentro dos robôs, painéis suspensos no ar também nos ajudam nessa imersão. Outros dois indícios confirmam as boas intenções do diretor para com a tecnologia: a profundidade quando “observamos a mente” dos pilotos durante sua conexão com a máquina e algumas cenas que colocam pessoas à frente e monstros no fundo, em uma óbvia brincadeira com as séries originais, que constantemente faziam colagens nesse estilo usando a velha técnica de projeção ao fundo; aqui, a projeção é em 3D.

Mas nem tudo são robôs, e os cientistas engraçadinhos se saem bem mais ou menos, ainda que façam parte da tal homenagem. Também não é razoável dizer que a história pessoal dos personagens, assim como os próprios personagens, exercem qualquer tipo de influência positiva ou negativa no resultado final.

No fundo o que importa mesmo são as lutas corpo a corpo (ou lata). As máquinas criadas pelo homem são estupidamente grandes e fortes, mas seus movimentos gigantescos são coreografados de forma lenta, dando a sensação de fragilidade em frente aos monstros, que parecem dotados de uma rapidez natural e orgânica. O resultado na maioria das vezes é que, mesmo com cenas memoráveis de ação, é fácil se confundir (e não é pra menos: na chuva, no escuro, envolto por criaturas mais escuras ainda).

RED 2 – Aposentados e Ainda Mais Perigosos

August 3, 2013 in Cinema

Red 2. EUA/França/Canadá, 2013. Director: Dean Parisot. Writers: Jon Hoeber, Erich Hoeber. Stars: Bruce Willis, John Malkovich, Helen Mirren.

RED 2 - Aposentados e Ainda Mais Perigosos

Continuação dos velhinhos espiões é mais do mesmo (um pouco menos).

Parte divertido e parte esquecível, engraçadinho pelo fato dos seus personagens serem idosos que ainda estão na ativa em sua vida de espiões e assassinos profissionais, RED faz parte desse revival de filmes com atores dos anos 80/90 que acabou se saindo razoavelmente bem e “garantiu” uma continuação. Assim é que nasce RED 2, que esquece completamente da sua premissa de contar uma história de espiões com velhinhos (o fato da idade avançada dos heróis é irrevelante aqui) e tenta se tornar interessante complicando sua história em torno de uma trama bobinha e sem imaginação.

É dessa forma que as maiores virtudes do filme acabam sendo as caretas de John Malkovich e uma ou outra cena de ação, que pelo menos são orquestradas de maneira infinitamente melhor do que o sofrível Duro de Matar 5 (que, aliás, também abandona a premissa da série). Se a coerência é uma virtude, podemos dizer que RED 2 faz jus ao original, se tornando igualmente esquecível a partir do momento que saímos da sala de projeção.

Amor Pleno

July 31, 2013 in Cinema

To the Wonder. EUA, 2012. Director: Terrence Malick. Writer: Terrence Malick. Stars: Ben Affleck, Olga Kurylenko, Rachel McAdams, Javier Bardem.

Amor Pleno

Diretor de Árvore da Vida respira em filme menos pretencioso.

É difícil analisar os filmes de Terrence Malick através da abordagem tradicional de “historinha”. O que é possível observar nesse seu novo trabalho é sua semelhança com Árvore da Vida (semelhança narrativa) com muito menos glamour. Assim como a reflexão de Almodóvar em Amantes Passageiros (depois do tenso A Pele que Habito), Malick parece querer não se aprofundar demais em temas existenciais como fez anteriormente, mas mesmo assim não consegue evitar de ligar as referências, como em determinado momento sua câmera foge para o mundo subaquático, quase como uma tentativa de conectar-se com seu predecessor no melhor estilo continuação dos grande temas.

E o amor é o grande tema dessa vez, e mais uma vez a religião é a lupa usada em sua análise, na figura de um padre questionando repetidamente sua fé e a inexistência do amor do casal principal em sua relação com um ser supremo.

Esse casal, com suas idas e vindas, ainda assim parece ter algo a mais do que o padre, que ao olhar para as misérias da vida não consegue conceber que há algum tipo de amor em nossa Criação. Talvez essa repetição insistente de Malick soe como um martelo na cabeça de um religioso, que assim como o personagem de Javier Bardem, no fundo nunca vivenciou um testemunho que poderia se dizer divino no sentido bom da palavra.

Aqui como em Árvore o uso dos sons, da música e principalmente da luz é vital para compreendermos o que se passa. Os atores são meros objetos em cena, ainda que em algum momento esses objetos exprimam alguma emoção significativa em meio a tanta repetição.

Não é difícil contemplar as obras de Malick. A não ser que você precise racionalizar isso de alguma forma.

Os Amantes Passageiros

July 27, 2013 in Cinema

Los amantes pasajeros. Espanha, 2013. Director: Pedro Almodóvar. Writer: Pedro Almodóvar. Stars: Javier Cámara, Lola Dueñas, Cecilia Roth.

Os Amantes Passageiros

Retorno de Almodóvar para a comédia é sadio, mas nada inovador.

Almodóvar volta às suas origens das divertidas comédias dramáticas voltadas para personagens homossexuais, videntes e todo o tipo de intriga novelesca. Aliás, a diferença vital entre novelas televisivas e Almodóvar é que este conta uma história como ninguém (e geralmente assina o roteiro).

Outros aspectos da cinegrafia que o fez famoso se mantêm, ainda que ausente em penúltimo trabalho (A Pele que Habito) — o que demonstra que o diretor sabe se livrar de suas “marcas” quando o filme precisa — e que aqui volta com tudo: vermelho, amarelo, azul, roxo… tudo no Cinema de Almodóvar é exagerado, nada sutil e, hoje em dia, pouco polêmico.

A única “polêmica” parece estar apenas na “modernisse” de seus temas: fraudes financeiras e como elas são escandalosamente menos escandalosas que o sexo, e o mundo hiper-conectado (onde o melhor exemplo é uma divertida e útil metáfora envolvendo um telefone quebrado que permite que todo o avião ouça o que está sendo dito). Apreciamos pequenos contos que parecem ter saído da própria filmografia do cineasta dentro de um avião que precisa realizar um pouso de emergência, mas enquanto aguarda por um aeroporto que coopere precisa entreter seus passageiros de alguma forma.

Quase nunca deixando de entreter, as mensagens das histórias estão tão interconectadas e tratadas de maneira tão “passageira” que sua força se esvai com a própria conclusão, querendo dizer 1) mais uma vez um eco das nossas efêmeras relações com o mundo moderno ou 2) a falta de foco do próprio idealizador, afetado pelo mundo que tenta criticar. De qualquer forma, ruim ou bom, um filme novo de Pedro Almodóvar sempre será algo bem-vindo.

O Homem de Aço

July 11, 2013 in Cinema

Man of Steel. EUA/Canadá/Reino Unido, 2013. Director: Zack Snyder. Writers: David S. Goyer, Christopher Nolan, Jerry Siegel, Joe Shuster. Stars: Henry Cavill, Amy Adams, Michael Shannon, Russell Crowe, Diane Lane, Antje Traue, Harry Lennix, Kevin Costner, Laurence Fishburne. Música: Hans Zimmer. Direção de Arte: Chris Farmer, Kim Sinclair.

O Homem de Aço

Reboot empolga pelos efeitos, decepciona em sua força dramática.

“Nós vamos lutar até um de nós morrer.” E obviamente é o que eles fazem. A falta de complexidade aliada à ação desenfreada chega a cansar, e o fato de tanto Zod (Michael Shannon) quanto Superman (Henry Cavill) partirem para a violência gratuita revela mais sobre o último do que sobre o primeiro, programado desde a concepção para guerrear pelo seu povo. Chega a ser um quase insulto que o filho do cientista Jor-El se limite a imitá-lo. Justo ele, que foi um bebê “concebido naturalmente”, o que inteligentemente levanta algumas questões sobre livre-arbítrio que nunca são desenvolvidas. Não é sensato que o filme queira que odiemos Zod por ser uma pessoa que quer reconstruir seu povo — e nesse sentido ele falha como vilão temeroso que Zack Snyder parece acreditar que ele seja — mas podemos sim nos sentir frustrados pela aparente indecisão do Homem de Aço em confrontá-lo.

O Homem de Aço caminha melhor pela sua direção de arte. As naves de Kripton imitam insetos, o que exalta sua evolução tecnológica (algo semelhante a Matrix 3 e suas máquinas). O pai de Kal-El voa em um animal, o que simboliza a falta de crença em uma civilização que renega seu fim próximo. Os efeitos digitais, eficazes no geral, falham onde todos falham: a impossibilidade de reproduzir a dureza do mundo real. Mesmo assim, essa é uma abordagem realista e pretende ser uma (re)introdução de um herói, ou por que não, do proto-herói (o herói primitivo de todos os que se seguiram), que vamos aprendendo a reconhecer por breves flashbacks. (Isso seria o suficiente para entendermos suas reais convicções?) O figurino, ponto polêmico durante todo o projeto, consegue ser fiel à origem de seus personagens (e note como Zod e seus aliados conseguem se diferenciar por um escuro que remete diretamente a Superman 2, e o “design” de Faora-Ul (Antje Traue) é o que mais denuncia essa feliz inspiração). A trilha sonora, outro ponto polêmico, concebida por Hans Zimmer para substituir o insubstituível trabalho de John Williams, possui felizes acordes que prenunciam um tema, mas que busca um significado que não encontra reflexo em sua história. Ele é bonita e atribui peso à narrativa, mas ela reforça o quê? A grandiosidade do quê exatamente está sendo reverenciada? Da destruição? Da batalha?

Por falar em referências, Zack Snider homenageia momentos icônicos dos dois primeiros filmes da série original, dirigidos respectivamente por Richard Donner e Richard Lestes em produção complicada, mas usa para isso uma nova roupagem, visual e metafórica, o que empolga justamente por trazer um pouco de emoção em um filme conduzido quase sempre de forma burocrática (apenas mais uma introdução para próximos capítulos?). Os momentos cômicos quase conseguem resgatar o mesmo contraponto criado por Donner no longa original, mas de forma tão breve que podemos especular se o filme evita o humor para aumentar o drama ou evita distrair o espectador (em certo momento, Superman derruba um contador de acidentes em uma obra, zerando-o, mas mal podemos notar, ou há um erro óbvio de timing entre o momento em que Lois é citada na TV e seu celular toca com o nome de Perry White).

Da mesma forma, personagens são jogados na trama de forma quase aleatória e ficam por lá, como é o caso da própria Lois Lane (Amy Adams), o que me faz especular se ela é a primeira mulher que Clark salva ou a primeira mulher bonita. Mas nem sua beleza parece fazer mover os músculos da face do homem de aço, que é impassível tanto diante do amor quanto da morte. Isso nos faz acreditar que esse mundo de fato não pertence a ele.

E não há de fato como esperar o mesmo charme de Christopher Reeve no papel que imortalizou a figura desse herói. Porém, tudo o que necessitavam seria uma figura menos robótica e mais humana que os efeitos digitais do desastroso Superman Returns. No entanto, mesmo colocando um ator de carne-e-osso essa conexão com seu passado cinematográfico não ocorre (apenas em reproduções de cenas clássicas). Com exceção de Jonathan (Kevin Costner), Martha Kent (Diane Lane) e Lois Lane (essa en partes), o elenco permanece neutro onde as atuações são ponto ativo de uma trama, um drama obviamente Shakesperiano sobre a existência (e talvez a caveira representando o Codex, fonte de toda a “humanidade” de Kripton, não tenha sido colocada ali à toa).

No entanto, é com esse tom quase sempre insípido que Zack Snyder transforma a batalha entre o bem e o mal em algo mais alienígena que os kriptonianos que nela lutam. E a ideia de aos poucos explicar detalhes menores da trama (Lois não pode respirar na atmosfera da nave alienígena…) acaba se tornando um pecado justamente por não prestar a mesma atenção a detalhes muito mais relevantes (se Lois é levada à nave, qual o motivo, e por que diabos ela é colocada naquele compartimento em específico?). Kal-El aparentemente escolhe os humanos quase como um mártir, mas o seu sacrifício esperado nunca vem. A única coisa que parece ser uma constante na história é um roteiro certinho de David S. Goyer e Christopher Nolan que consegue justificar para essa geração boa parte das dúvidas sobre como um herói desse quilate existiria em nosso mundo cético por respostas (como a insistência em explicar sua força descomunal). Se Superman sacrificou algo, foi em prol desse mundo científico em que vivemos, e foi a fantasia dos filmes originais; a possibilidade de voarmos tão alto quanto seu protagonista. Aqui acompanhamos seu voo ao longe, de forma controlada, cientificamente correta. O nosso Superman sacrificou os nossos sonhos de ter um herói onde tudo é possível quando se tem boa vontade.

Meu Malvado Favorito 2

July 7, 2013 in Cinema

Despicable Me 2. EUA, 2013. Directors: Pierre Coffin, Chris Renaud. Writers: Ken Daurio (screenplay), Cinco Paul (screenplay). Stars: Steve Carell, Kristen Wiig, Benjamin Bratt.

Meu Malvado Favorito 2

Continuação envolve mais que o original.

Apesar de suas fraquezas expostas por uma trama simplista, Meu Malvado Favorito (2010) possui momentos divertidos demais para ser esquecido (ainda mais se comparado com franquias já bem mais desgastadas, como A Era do Gelo e Madagadascar). Pegando carona no sucesso conquistado, a sua sequência explora melhor a relação entre seus personagens sem deixar de perder a sua identidade: piadas ligeiras e rasteiras que divertem pontualmente e dialogam muito bem com seu público.

Com cortes elegantes entre inesgotáveis cenas de ação e piadas que criam uma surpresa fluidez inexistente no filme original, a história de Gru, antes um vilão e agora o pai adotivo das três órfãs do filme anterior, evolui agora para um “espião consultor” do bem que tenta descobrir o autor de um crime megalomaníaco envolvendo uma substância que altera radicalmente o comportamento de criaturas antes inofensivas.

Há muito para se divertir na segunda aventura para podermos nos preocupar com alguns elementos inseridos em demasia, como a insistência da parceira de Gru em parecer legal e as incontáveis situações em que a adorável Agnes nos faz chorar sem querer.

Universidade Monstros

June 28, 2013 in Cinema

Monsters University. EUA, 2013. Director: Dan Scanlon. Writers: Dan Scanlon, Daniel Gerson, Robert L. Baird. Stars: Billy Crystal, John Goodman, Steve Buscemi.

Universidade Monstros

Expansão do universo empolga mesmo com pouca energia.

Usando o bê-a-bá que aprendemos em Monstros S.A., o diretor Dan Scanlon — auxiliado pelos quatro grandes da Pixar na produção e os dois roteiristas originais — reutiliza tudo que já foi visto no longa anterior e acrescenta detalhes que compõem o estilo de vida daqueles seres em uma evolução natural que usa a faculdade como um outro ponto de partida. O resultado é um filme que carece de um início que avise o espectador que este não é apenas uma continuação, mas um agradável e saudoso estudo de personagens. Na outra ponta, carece também de uma conclusão climática que o separe do trabalho original, ou revela um sintoma importante de todo o projeto: não há muito mais o que explorar no mundo dos monstros.

Tanto é assim que as novas criaturas que vemos não apresentam o mesmo lampejo de criatividade, e a câmera passa rapidamente por eles como que tentando ignorar a crise de inspiração. Da mesma forma se comporta a faculdade inteira e o seu próprio roteiro, que são ótimos, mas mais se baseiam do que homenageiam a saga Harry Potter (com sua escola-castelo sombria), A Vingança dos Nerds e até mesmo Carrie, a Estranha (minha referência favorita).

Mesmo com tantas limitações inexistentes nas criações originais da Pixar, justiça seja feita: a história se sustenta até o fim. O que não se sustenta é a paciência das crianças, que precisam aguardar poucos momentos de humor físico ou mesmo aqueles momentos tocantes que exploram de maneira magnífica a essência humana. Aqui a Pixar parece querer atingir a puberdade, mas com isso se esquece dos pequeninos.

Uma pena, pois essa dualidade era marca registrada dos estúdios de John Lasseter.