Adaptação

June 15, 2012 in Home Video

Adaptation. EUA, 2002. Direção: Spike Jonze. Roteiro: Susan Orlean (livro “The Orchid Thief”), Charlie Kaufman, Donald Kaufman. Elenco: Nicolas Cage, Meryl Streep, Chris Cooper.

Quando a discussão sobre adaptação de uma arte se eleva a todos os seres vivos.

Apenas três anos após Charlie Kaufman surpreender o mundo do Cinema com Quero ser John Malkovich, um dos roteiros mais originais de todos os tempos, temos o lançamento de seu próximo trabalho que coloca como protagonista ninguém nada menos do que… Charlie Kaufman! Apesar de isso aparentar uma auto-indulgência sem limites, é preciso lembrarmos de estarmos falando de uma versão insegura, tímida e menos talentosa de Charlie Kaufman (talvez o motivo dele ser interpretado por ninguém nada menos do que Nicholas Cage, em uma surpreendente atuação dupla).

Algumas pessoas lidam mal com seus sucessos. Sem saber, ou até por saber, que nunca conseguiriam igualar a genialidade do trabalho anterior (James Cameron e Titanic, Orson Wells e Cidadão Kane), ficam paralisados diante do seu próximo trabalho. No caso de Kaulfman a coisa seja até pior, pois por ser roteirista, um cargo geralmente ignorado pelo público, o fato de pessoas fora da indústria do Cinema conseguirem se lembrar de seu nome é mais impressionante ainda.

Tudo isso deve ter contribuído com a auto-criação de um roteirista pós-sucesso inseguro e orgulhoso ao mesmo tempo diante de sua falta de regras ao criar suas histórias. Enquanto isso, seu irmão-gêmeo, Donald (Cage novamente), decide ir morar com ele e decide também criar roteiros, com uma pequena ajuda de um curso milagroso de Robert McKee (Brian Cox), um professor de roteiros da vida real (ora, mas se o próprio Charlie também o é).

A história acontece durante as filmagens de Quero ser John Malkovich e simultaneamente 3 anos antes, quando acompanhamos o trabalho de Susan Orlean (Meryl Streep), uma jornalista do New Yorker, em escrever um livro sobre a vida de John Laroche (Chris Cooper), um orquidófilo fascinado por sua profissão. Sua obra acaba tendo os direitos comprados para transformá-la em filme, cuja adaptação para o Cinema fica por conta de Charlie. Dando os merecidos créditos para aqueles escritores que precisam capturar a essência de uma mídia qualquer (livro, gibi, jogo) e transformá-la em um filme, Kaulfman (o real) recria toda a angústia de ter um material literário de primeira, mas que consegue ser denso, complexo e até poético quase sem nenhuma ação, o que é péssimo para o Cinema.

Porém, incluindo seus próprios pensamentos para que entendamos isso, Kaulfman, quase sem querer, nos inclui no seu maravilhoso processo criativo. Ao mesmo tempo, somos levados constantemente à história e pensamentos de Susan durante a criação de sua própria história, dando à ela os devidos créditos pela visão original que permite Kaulfman fazer suas elucubrações.

Sem saber o que falar durante a entrevista com a agente que detém os direitos do livro, Kaulfman se permite criar diálogos com frases brilhantes com a ajuda da metalinguagem. Seu sucesso como escritor e fracasso como ser humano são o combustível para a maioria das situações, mas sem soar auto-indulgente. Ele está ciente de sua própria mediocridade (do Kaulfman fictício) e consegue convencer o espectador disso.

Porém, talvez o maior exemplo de sua capacidade artística esteja em fazer com que sintamos pelo destino de um personagem que sabemos ser fictício. Não Kaulfman, mas seu irmão-gêmeo. Usando mais uma vez metalinguagem, Kaulfman está nos convidando a experimentar o sentimento de perda que ele próprio poderia sentir pelos seus personagens.

Se antes o conceito genial de entrar na mente de um sujeito como John Malkovich era espetacular, é com grande satisfação que podemos afirmar que a ideia e concepção de entrarmos na cabeça de seu roteirista é ainda mais brilhante. Charlie Kaulfman ainda é um nome que devemos sempre procurar no meio dos créditos de uma produção hollywoodiana.