A Greve

March 31, 2012 in Home Video

Stachka. URSS, 1925. Direção: Sergei M. Eisenstein. Roteiro: Sergei M. Eisenstein, Grigori Aleksandrov, Ilya Kravchunovsky, Valeryan Pletnyov. Elenco: Grigori Aleksandrov, Maksim Shtraukh e Mikhail Gomorov.

A propaganda soviética em grandes moldes pelo montador-mor.

A Greve é um belíssimo ensaio do crítico/montador/diretor/roteirista Sergei M. Eisenstein antes de sua dita obra-prima O Encouraçado Poremkin, do mesmo ano. Digno de nota, porém, é saber que é seu primeiro longa, e já nesse trabalho notam-se as invencionisses e montagem usadas de maneiras tão originais quanto a novidade da sétima arte poderia desejar. Rodado sem diálogos, mas com uma trilha sonora que evoca a urgência e a dramaticidade dos acontecimentos, Eisenstein conta a história de uma greve entre operários usando para isso de 6 diferentes estágios, ou historietas, que didaticamente exploram a mente das massas pró-revolução.

Ainda que fosse mestre no drama, o filme consegue extrair momentos cômicos que conseguem aliviar um pouco da tensão que existe em cada milímetro da tela. As sequências insistem em nos mostrar muito além do óbvio, como quando os grevistas são atacados por mangueiras dos bombeiros. Existem momentos verdadeiramente cruéis durante toda a projeção.

Pontos fortes: montagem, sequências dramáticas, música.
Pontos fracos: propagandista, sensacionalismo da época.

O Lorax – Em Busca da Trúfula Perdida

March 30, 2012 in Cinema

Dr. Seuss’ The Lorax. EUA, 2012. Direção: Chris Renaud, Kyle Balda. Roteiro: Ken Daurio. Elenco: Zac Efron, Taylor Swift e Danny DeVito.

Dos produtores de Meu Malvado Favorito, história não empolga tanto quanto o visual.

O Lorax parte de uma premissa bonitinha e se esquece que em um roteiro, mesmo de animação, há muito mais do que piadinhas isoladas e ótimos efeitos visuais. Tudo começa quando Ted, um jovem de 12 anos que mora em uma cidade feliz por ter conseguido dominar o plástico como solucionador de todos os problemas e evitar assim qualquer forma de vida exceto seus moradores, incluindo gatos e cachorros. Querendo conquistar a garota dos seus sonhos, ele parte em busca de uma jornada fora da cidade para conseguir o que não existe mais na paisagem de sua cidade: uma árvore.

O garoto precisa ouvir a história que um velho que mora isolado em um lugar inóspito a respeito do que aconteceu com ele e com as árvores que outrora encantavam o vale, assim como criaturas fofinhas e ignorantes da presença humana no mundo.

Misturando flashbacks de uma história até cativante a respeito da natureza e como a encaramos hoje em dia e a mais fraca história inicial, Lorax consegue entreter justamente onde não termina, e a maior prova disso foi os idealizadores da história colocarem o título do filme para um personagem que não participa ativamente dos acontecimentos em sua volta, nem é determinante em nenhum ponto crucial. Além disso, as músicas colocadas em torno da história soam muito artificiais e em determinado momento acusam justamente a falta de lógica para as resoluções finais.

De qualquer forma, é sempre bom poder ver ideias novas de uma outra produtora que não seja a Pixar ou a Dreamworks, e nesse ponto podemos dizer que a criadora de Meu Malvado Favorito vem avançando em qualidade gráfica. Esperamos apenas que um dia suas histórias sejam tão fascinantes diante das principais rivais.

Pontos fortes: efeitos visuais.
Pontos fracos: história, sequências musicais, lógica interna.

Thor

March 30, 2012 in Home Video

Idem. EUA, 2011. Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Ashley Miller, Zack Stentz e Don Payne. Elenco: Chris Hemsworth, Anthony Hopkins e Natalie Portman.

Mais um herói insípido da Marvel aguardando Os Vingadores.

Não há nada para se ver em Thor. É bobinho, está na direção automática e possui uma fotografia e uma trilha sonora que combinam com sua falta de personalidade. Ou seja, a Marvel pode levar a sério seus cronogramas e personagens, mas não o Cinema em si.

Inspirado no herói homônimo da revista em quadrinhos, que por sua vez foi inspirado na mitologia nórdica, o Thor do filme vem do espaço, de uma civilização mais avançada que os humanos e que preza pela paz entre os nove planetas por eles conhecidos com vida inteligente. Foram eles que expulsaram os Gigantes de Gelo da Terra quando eles nos atacaram (daí a mitologia). Thor é um dos dois filhos de Odin, rei da civilização e grande guerreiro que, mais do que ninguém, percebeu que a solução dos problemas não está na guerra.

Seu filho mais velho (Chris Hemsworth, colírio de revistas adolescentes), Thor, é jovem demais para entender isso. Loki, o caçula, parece inofensivo, mas assume em seu semblante de quem pensa mais do que fala. Ao desobedecer Odin, Thor é jogado para a Terra sem seus poderes para aprender o valor de seus atos. Na verdade o filme faz um flashback logo no início, entortando desnecessariamente a história, já que logo depois do início na Terra somos apresentados diretamente ao herói da história.

Herói este que possui uma curva de aprendizado tão rala quanto outros projetos mal-sucedidos, como o Lanterna Verde. Fora isso, o enredo secundário desaponta tanto na Terra quanto em Asgard. Nem Natalie Portman consegue convencer através de sua personagem bobinha cuja única função parece ser a de correr atrás do loiro alto que caiu do céu. Da mesma forma, suas contrapartes terrenas fazem rima com os amigos de Thor pois são tão desinteressantes e unidimensionais quanto estes. E Loki, ainda que comece a apresentar algum perigo na história, nunca é tão ameaçador a ponto de se fazer sentir presente na trama.

As tomadas abertas, por fim, acabam comprovando que os efeitos visuais do filme são elementos mais importantes do que a própria história dessas pessoas. O objetivo da história é sairmos ilesos e termos apresentados mais um personagem do futuro filme Os Vingadores, que tem gerado mais e mais filmes medíocres sem qualquer personalidade ou argumentação.

Pontos Fortes: Efeitos visuais.
Pontos Fracos: Atuações, história, design de arte.

Raul – O Início, o Fim e o Meio

March 27, 2012 in Cinema

Idem. Brasil, 2012. Direção: Walter Carvalho. Roteiro: Leonardo Gudel. Montagem: Pablo Ribeiro. Elenco: Paulo Coelho, Daniel de Oliveira e Tárik de Souza.

O meio, o início e o fim do rock verdadeiramente revolucionário.

Raul — o filme — é um tipo de experiência cinematográfica que faz pensar em muitas coisas, mas que ao mesmo tempo consegue extrair a essência do Maluco Beleza em todos os sentidos de sua vida e de sua filosofia. Dessa forma, temos um protagonista forte, ainda que ausente.

O filme te transporta facilmente para o universo de Raulzito pelo simples fato dos depoimentos de pessoas muito próximas do ídolos praticamente se abrirem com respeito a sentimentos, sensações e impressões que nos dão uma noção muito boa do que era conviver com o cantor. Os cortes rápidos, nunca permitindo que um entrevistado monopolize o tempo, e sim oscilando entre imagens de arquivo que ilustram a narrativa naquele momento, ampliam a experiência áudio-visual. Sim, pois a música não está apenas presente por se tratar da biografia de um cantor, mas é parte conjunta e essencial da narrativa.

A própria razão de tela parece representar esse movimento de vai-e-vem, pois quando vemos a tela larga sabemos que algum ente querido de Raul está tentando ampliar nossa visão de quem ele era, enquanto as tomadas mais quadradas, mais estreitas, nos levam diretamente para ele, como que em uma janela mágica a nos transportar entre passado e presente. As palavras do entrevistado ecoam e vão-se para o passado, e a visão de Raul cantando, falando ou simplesmente em uma sequência super-inspirada de fotos que combina perfeitamente com o momento, faz o desfecho de um episódio. Que alimenta o próximo.

Dessa forma torna-se agradável acompanhar a trajetória do cantor, se envolver e querer mais, pois a cada experiência vivida por alguém que o conhecia parece ampliar e enriquecer nossa própria noção que tínhamos sobre ele. Não há nada de extraordinário nisso, mas na maneira com que a história é contada e como o trabalho excepcional de Pablo Ribeiro consegue fazer fluir momentos tão distintos da vida do cantor. E os recortes de shows! Note, por exemplo, como em alguns momentos Ribeiro intercala na mesma música tomadas de uma “turnê” feita pelas grandes cidades, tudo isso sem perder o tom.

E não é só na edição que podemos notar a fluidez e maestria nas composições, mas também em sua fotografia coesa que, sutil, não agride nossos olhos com idas e vindas de imagens sem qualidade (aqui e ali, mas perdoável), pois as próprias tomadas presentes não são tão estilizadas para causar essa estranheza, mas estão de acordo com o resto do material. Nesse sentido, faz sentido, por exemplo, não exagerar na “maquiagem” nos entrevistados.

E esses, parecem fazer um esforço admirável para ilustrar melhor o que era esse maluco beleza para eles, em um convite realmente sincero para experimentarmos o que era Raul em todos os sentidos e em todas as fases de sua vida. Dessa forma, temos montagens absolutamente surreais de sua banda no estado atual tocando atrás de um pano que projeta suas versões de outrora, ou uma referência quase que espontânea ao filme de Elvis Presley, de quem Raul era fã assumido e escancarado pelo seu trabalho.

Ainda com os entrevistados, a montagem sugere uma espécie de diálogo velado entre eles, expondo por exemplo rixas entre seus parceiros de composição Paulo Coelho e Cláudio Roberto. No entanto, há a tentativa de tornar tudo isso um experimento mais visual que acordado entre as partes, gerando pequenas polêmicas como em um momento em que um entrevistado afirma Raul ser muito mais revolucionário que o próprio Caetano, líder do movimento Tropicália (que, diga-se de passagem, também é um dos entrevistados).

A conversa ainda levanta a questão da censura de maneira quase poética ao enfocar uma gravação sem som de rapazes sendo proibidos de se reunirem na praia para ouvir boa música na época da ditadura e cria um contraponto com a declaração de Paulo Coelho de ter apresentado a Raul todas as drogas possíveis, uma frase que sem sombra de dúvida seria motivo de perseguição política naquela época, mas que hoje pode ser dito, gravado e publicado.

Nesse sentido, o próprio filme é uma homenagem e uma resposta para esse contestador que foi Raulzito, como que houvesse um contato extraterreno a dizer para ele:”Está vendo? Hoje podemos fazer o que quisermos, pois há de tudo ser da lei”.

Acredito, sinceramente, que Raul esteja escutando.

Cliente Morto Não Paga

March 26, 2012 in Home Video

Dead Men Don’t Wear Plaid. EUA, 1982. Direção: Carl Reiner. Roteiro: Carl Reiner, George Gipe. Elenco: Steve Martin, Rachel Ward e Alan Ladd.

Filme mistura noir com comédia.

O filme começa com um horizonte de papelão e com uma chuva mais falsa que o próprio horizonte: está pronta a referência dos filmes noir, gênero clássico que mistura um clima opressivo, uma fotografia escura e um detetive desiludido apaixonado por uma estereotipada femme-fatale. Nesse caso, o detetive é Steve Martin, que quando é enfocado pela primeira vez dispensa explicações sobre o teor cômico do filme: enebriado pelo tom solene dos filmes que homenageia, o detetive Rigby Reardon parece não perceber que é uma caricatura de ícones da história do cinema, que reencarnavam o mesmo personagem, mas sem sua desenvoltura cômica.

Na verdade, o aspecto de um filme noir é exatamente o oposto, e é isso que causa a maior parte da estranheza durante o longa. Ao misturar cenas de diversos filmes do gênero e seus atores-ícones, a história consegue se inserir de penetra nessa atmosfera mesmo em momentos hilários, como quando Martin pede repetidamente ao amigo “Humphrey Bogart” para usar gravata.

Engraçado mais pela situação do que pelas tiradas cômicas, ainda que elas existam moderadamente, Cliente Morto é uma mistura de dois gêneros que funciona parcialmente em ambos. Talvez o detetive de Martin não tenha envelhecido bem, como tantos outros noir fora de seu tempo.

Lista de “atores” que “participaram” do filme e em que cenas eles apareceram:

Alan Ladd em “This Gun For Hire”
Barbara Stanwyck em “Sorry – Wrong Number”
Ray Milland em “The Lost Weekend”
Ava Gardner em “The Killers” / “The Bribe”
Burt Lancaster em “The Killers”
Humphrey Bogart em “The Big Sleep” / “In a Lonely Place” / “Dark Passage”
Cary Grant em “Suspicion”
Ingrid Bergman em “Notorious”
Veronica Lake em “The Glass Key”
Bette Davis em “Deception”
Lana Turner em “Johnny Eager” / “The Postman Always Rings Twice”
Edward Arnold em “Johnny Eager”
Kirk Douglas em “I Walk Alone”
Fred MacMurray em “Double Indemnity”
James Cagney em “White Heat”
Joan Crawford em “Humoresque”
Charles Laughton em “The Bribe”
Vincent Price em “The Bribe”
William Conrad em “The Killers”
Charles McGraw in The Killers
Jeff Corey em “The Killers”
John Miljan em “The Killers”
Brian Donlevy em “The Glass Key”
Norma Varden em “The Glass Key”
Edmond O’Brien em “White Heat”

2 Filhos de Francisco

March 24, 2012 in Home Video

Idem. Brasil, 2005. Direção: Breno Silveira. Roteiro: Carolina Kotscho, Patrícia Andrade. Montagem: Vicente Kubrusly. Elenco: Ângelo Antônio, Dira Paes e Márcio Kieling.

Exemplo inusitado e primoroso de cinema em filme com bela mas complexa história.

Há filmes que estão aí para provar que uma ideia não tão “empolgante” ou mesmo original pode dar origem a trabalhos dignos de nota exatamente por conseguirem se sobressair com muito pouco, ou com apenas uma boa história. O enredo complicado da história baseada em personagens reais que deram origem à dupla sertaneja de sucesso Zezé de Camargo & Luciano, que precisa cobrir diversos eventos em um espaço curto de tempo, mas ao mesmo tempo apresentar coesão espacial e, principalmente nesse caso, emocional, deu origem a um pequeno milagre.

A direção empenhada de Breno Silveira cria um Francisco — o protagonista do filme — completamente convincente, mesmo a história se tratando de uma pequena fábula. Dessa forma, é possível entender o peso dramático que a história da família dos cantores passou por décadas de empenho e descrédito. Melhor, consegue separar de forma unívoca o período “feliz” da infância dos garotos do período conturbado e sem esperanças da vida em Goiânia. Isso ainda mantendo nossas memórias vivas do começo ao fim, de forma que cada pequena conquista é celebrada por todo o contexto, e não apenas como meras historietas isoladas.

Porém, é no terceiro ato é que a maestria técnica brilha, devido às dificuldades de uma história fragmentada e bem mais alongada pelo tempo. Uma montagem com energia e ciente dos sacrifícios de ritmo que estaria disposto a aplicar, as sequências em São Paulo orquestradas por Vicente Kubrusly conseguem não só sintetizar os pequenos fatos em torno dos personagens como dar o tom de urgência necessário, como se a história caminhasse para um tudo ou nada.

Dessa forma, é não só com uma belíssima fotografia do interior goiano ou de clássicos da música caipira que 2 Filhos de Francisco se sustenta, mas através de um trabalho primoroso de construção de narrativa como pouco vemos no cinema. Um filme não só para fãs, mas para cinéfilos, também.

Paprika

March 23, 2012 in Home Video

Papurika. Japão, 2006. Direção: Satoshi Kon. Roteiro: Seishi Minakami.

Encubadora de A Origem é viagem sem compromisso ao mundo dos sonhos.

Paprika funciona muito bem como cinema experimental, onde boas ideias costumam nascer. A ideia central da história, a manipulação e compartilhamento dos sonhos de uma pessoa, deu origem, por exemplo à “A Origem”! No entanto, diferente da experiência racional de Christopher Nolan, Paprika não se preocupa em desenvolver muito seus personagens ou mesmo sua história, em que não temos muita certeza das ameaças por trás da invenção dos sonhos ter caído em mãos erradas. De certa forma, o filme é tão poético ou tão caótico quanto os próprios sonhos que estamos acostumados a ter. Sem algo que prenda as atenções, o subconsciente é importante para apreciarmos um filme de sensações e, principalmente, de conexões não sempre lógicas ou mastigadas.

A Troca

March 18, 2012 in Home Video

Changeling. EUA, 2008. Direção: Clint Eastwood. Roteiro: J. Michael Straczynski. Elenco: Angelina Jolie, Colm Feore, Amy Ryan, John Malkovich, Michael Kelly, Jason Butler Harner.

Eastwood em drama épico com conotações políticas.

Impressionante como é possível admirar uma direção competente e experiente mesmo sem conhecê-la. Foi assim com A Troca, um drama de época envolvendo a história de vida de uma mulher que tem seu filho desaparecido e sua luta contra o sistema corrupto da polícia de Los Angeles da década de 20/30. Foi só nos créditos que descobri se tratar mais uma vez do trabalho sempre constante de Clint Eastwood (Menina de Ouro, Sobre Meninos e Lobos), que, diferente do seu passado de ator com uma cara só, vem se preocupando com temáticas mais humanistas sem deixar de lado uma discussão mais profunda sobre a sociedade onde isso ocorre. Nesse sentido é possível comparar este belo trabalho com Menina de Ouro. Em todos os outros sentidos, porém, é uma história completamente diferente.

O fraco roteiro de J. Michael Straczynski (Anjos da Noite: O Despertar) não empolga muito, talvez por estar sempre envolvido em alguma reviravolta que já sabemos de antemão no que vai dar, e quase sempre colocando diálogos bem pouco inspirados — para não dizer monótonos — na boca de seus personagens, que são baseados em uma história real. Nem é possível falar muito de atuação, pois ainda que Angelina Jolie aqui se esforce, continua sendo Jolie, “status quo” que nunca abandonou, exceto em Garota Interrompida. Se há alguém que impressiona pela eficácia, ainda que em um papel secundário, é Jason Butler Harner como o serial killer Gordon Northcott, que tem momentos em que é digno de dó, e outros que simplesmente nos atormenta pela sua instabilidade emocional.

Ainda que o tema inicial da história seja o desaparecimento do filho de Christine Collins (Jolie), o “Changeling” do título original parece remeter muito mais às mudanças que daí ocasionaram em como a polícia local tratava os direitos de seus cidadãos, uma época em que existia um verdadeiro “Bope” nas ruas de Los Angeles, fazendo justiça com as próprias mãos para esconder em seu mecanismo interno uma rede de corrupção e desvios de moral. É com esse pano de fundo que Eastwood parece nunca se esquecer, e são os personagens secundários que de fato conseguem não tornar a experiência apenas subjetiva. Nesse sentido, todo o drama vivido pela Sra. Collins não foi em vão, pois serve de ponte para entendermos como a impunidade muitas vezes consegue prejudicar até o mais inocente dos cidadãos.

Shame

March 16, 2012 in Cinema

Idem. Reino Unido, 2011. Direção: Steve McQueen. Roteiro: Abi Morgan e Steve McQueen. Elenco: Michael Fassbender, Carey Mulligan e James Badge Dale.

O sexo no formato de barreira social.

A princípio Shame não parece um filme que fuja do lugar-comum. Com um ritmo mais lento e, portanto, reflexivo, ele nos leva a conhecer aos poucos a vida de Brandon Sullivan (Michael Fassbender), um rapaz comum que mora sozinho, tem um belo emprego, mas que é um inveterado por sexo, solitário ou com prostitutas. Paradoxalmente, Brandon não consegue ter relacionamentos duradouros, e nem a presença de sua irmã Sissy (Carey Mulligan) faz com que ele consiga se conectar com o mundo. Alheio a tudo que não seja relativo ao ato sexual, Brandon sabe que possui um tipo de doença, e essa consciência é que torna tudo muito mais humano em sua história.

Não há concessões em Shame. O filme não é explícito, mas suas alusões são suficientes para criar um clima opressivo e angustiante. Nem o ritmo é uma concessão. Lento muitas vezes à exaustão, nos abre os olhos para o que está por trás de tudo aquilo, na maioria das vezes sem nenhum diálogo. Basta enxergarmos o contexto enebriante da situação dos dois irmãos, ou as expressões de angústia presa na face de Fassbender para que entendamos o martírio que passaram esses personagens, da infância para a adolescência e por fim a uma maturidade inalcançada no universo dos sentimentos.

Tampouco é um filme com um arco dramático satisfatório. Porém, que me perdoem os amantes de finais fáceis ou dos que nos deixam colocar a cabeça no travesseiro e dormir em paz, mas se há algo que valorizo no cinema é o seu poder de reflexão. E, nesse sentido, Shame ficará por algum tempo perturbando minhas fantasias sexuais.

Poder sem Limites

March 13, 2012 in Cinema

Chronicle. EUA, 2012. Direção: Josh Trank. Roteiro: Max Landis. Elenco: Dane DeHaan, Alex Russell e Michael B. Jordan.

Pseudo-documentário fantástico é nova forma de híbrido do gênero.

Entrando na onda dos filmes gravados como documentários, só que sem os problemas técnicos presentes no gênero, como a qualidade de vídeo, Poder Sem Limites explora a descoberta de três jovens de uma caverna escondida dentro de um buraco e que acaba lhes dando poderes telecinéticos. Os motivos para isso nunca são revelados, pois o objetivo do longa é mostrar os rapazes explorando esse poder gradativamente, e como cada um deles o usa de forma particular.

Um deles, Andrew (Dane DeHaan), caminha com uma câmera para todo lugar onde vai, e é esse o elemento documental que o filme tenta passar. Tenta, mas de uma maneira forçada, pois o roteiro precisa criar enredos que parecem existir apenas para que uma câmera esteja presente. É o caso do interesse romântico de um deles (Ashley Hinshaw) que também costuma gravar tudo o que acontece em sua volta. Essa câmera extra acidental permite que várias sequências possuam cortes, algo até então não admissível em uma narrativa do gênero.

Porém, ironicamente, os melhores momentos do longa acontecem quando apenas uma câmera está em cena filmando a intimidade dos três agora amigos experimentando sua nova força, pois é como se eles estivessem nos convidando a entrar na brincadeira, o que torna tudo divertido e inconsequente. Nesse sentido, tanto a “câmera na mão” quanto o medo do desconhecido ajudam a tornar a experiência mais realista.

No campo das boas ideias, uma delas é quando Andrew começa a controlar sua câmera com seu novo poder, fazendo-a flutuar em torno de si, uma maneira completamente orgânica na narrativa e que apresenta o personagem de uma maneira mais reflexiva e que constrói, a meu ver, uma personalidade forte cuja imprevisibilidade começa a se tornar interessante gradativamente.

Eu diria um pouco mais: a presença da câmera na vida de Andrew é uma ideia tão poderosa que começou a delinear algo que seria próximo de um vilão da vida real com marca registrada. Pena que suas motivações estejam longe do peso dramático necessário.

É triste, portanto, constatar que essa mistura realidade/ficção perde mais nas tentativas de construir narrativas mais fáceis para o espectador comum acompanhar a história. Cria também a sensação que a tendência dos falsos documentários começa a caminhar em direção a um novo patamar: os falsos documentários que também são falsos.