Hugo. EUA, 2011. Direção: Martin Scorsese. Roteiro: John Logan. Elenco: Asa Butterfield, Chloë Grace Moretz, Ben Kingsley, Sasha Baron Cohen.

O novo filme de Scorsese brinca com outro gênero em outra linguagem.
Hugo é o primeiro filme em 3D do mestre Scorsese e, é preciso dizer, nesse caso o uso da tecnologia é totalmente justificado. Abordando uma história que gira em torno do cinema e seus primórdios, a ideia de “separar” a criação de filmes antigos do próprio filme cria um exercício metalinguístico admirável e uma aventura extremamente emocionante.
Ainda mais um pouco sobre a linguagem aplicada, esse 3D é muito bem feito, e difere de filmes anteriores principalmente pela velha questão do foco. Em Avatar, por exemplo, último exemplo que me lembro de 3D “de verdade”, James Cameron ainda aplica o foco de maneira binária nos personagens, se esquecendo que estamos em um cenário com profundidade de campo variável. Já em Hugo o que ocorre é uma perda gradual de foco, com o fundo ficando aos poucos “embaçado”, ou seja, uma simulação de mais ou menos como nossos olhos funcionam em um ambiente como no mundo real.
Além disso, o uso de engrenagens e tomadas internas com longos corredores consegue ajudar a nos ambientar nessa profundidade de campo facilmente, e embora esse recurso seja repetido meio à exaustão, ele é importante para nos situarmos no universo do protagonista. Mesmo as tomadas externas, ainda sofrendo a limitação de em 3D assemelharem-se a maquetes, dentro do espírito fabuloso da narrativa encaixa-se perfeitamente.
Porém, mais do que um filme que homenageia o Cinema, Hugo pretende contar uma história, e essa não funciona tão bem, apesar de ideias e momentos icônicos existirem salpicados durante todo o trajeto. Pra começar, Hugo não é o garoto carismático que o roteiro talvez precisasse de fato, e as provações pelos quais ele passa não o tornam um personagem mais dramático. Aliás, nem as passagens mais leves o tornam mais cômico. Tudo parece surgir como um ensaio para a história real, porque nada adquire peso até que se comece a falar de cinema.
Além do mais, os conflitos principais da história não se sustentam, virando em vez disso meras distrações. O próprio inspetor que persegue Hugo pela estação ferroviária, o sempre eficiente Sasha Baron Cohen, vem em uma versão reduzida, limitada, e não consegue fazer rir como em seus personagens habituais. E se a interpretação de Asa Butterfield como Hugo soa apática e sem quaisquer atrativos, sua companheira Isabelle (Chloë Grace Moretz, de Kick-Ass) se sai infinitamente melhor, mas ainda assim o conceito de filme infantil parece perturbar a cabeça do diretor.
Por fim, mesmo com esses óbvios problemas de caráter burocrático para que o filme conte sua grande história, o fato é que, chegando lá, ele funciona impecavelmente bem, levando facilmente o espectador a esquecer que está em uma sala de projeção e a viajar pela história de um dos criadores da arte de contar histórias. Essas sim, deliciosamente fantasiosas.