O que se move

May 16, 2013 in Cinema

Idem. Brasil, 2013. Direção: Caetano Gotardo. Roteiro: Caetano Gotardo. Elenco: Cida Moreira, Andrea Marquee, Fernanda Vianna.

O que se move

Estreia do montador de Trabalhar Cansa na direção e roteiro não decepciona.

Montador de Trabalhar Cansa (2011, Marco Dutra e Juliana Rojas), uma das mais agradáveis surpresas daquele ano no Cinema Nacional, Caetano Gotardo estreia na direção desse filme quase experimental e trabalha em conjunto com os diretores do filme que montara (Juliana Rojas faz aqui a montagem e Marcos Dutra divide o trabalho musical com o diretor). Quase, pois as nuâncias inseridas em suas três historietas trágicas e casuais criam uma dimensão emotiva que não pode ser ignorada. O detalhe mais marcante são as canções entoadas pelos seus próprios atores (não se preocupe quem não gosta de musicais, pois existem apenas três momentos). Nesse sentido, talvez o tempo de experiência na montagem tenha feito uma diferença notável em sua percepção da realidade. Ou podemos dizer que o trio de cineastas conseguem um impressionante desempenho qual sejam suas funções na produção.

Portanto, por mais inconsequentes e despretenciosas que sejam os três episódios, há um crescente emotivo envolvente, ainda que sua primeira história inicial pareça não se esforçar para isso. Podemos dizer que o choque inicial ao final do primeiro episódio seja o estopim necessário para que enxerguemos o que está sendo proposto, e mesmo com seus defeitos (como os diálogos pavorosos, propositais ou não) cumpre bem o que se propõe. Dito isso, ouvir a mãe cantar uma música sem rimas, sem ritmo e sem propósito nenhum a não ser estabelecer o óbvio (explicar o que ocorreu com o filho com a carga dramática de uma mãe embutida) se torna um guia necessário para entendermos o que está acontecendo diante de nós.

Ao ligar os episódios de maneira mais metafísica do que orgânica, a segunda história envolvendo outra família consegue aos poucos subir o degrau de significados. Alguns ocultos, outros parecendo mero artifício hermenêutico “para aparecer” e outros ainda revelando a alma do filme de maneira a fisgar cada vez mais nossa atenção. No entanto, algumas coisas ainda teimam em nos atirar para fora: mais uma vez os diálogos chegando ao embaraço, o acúmulo de cenas desconexas ou desproporcionalmente longas (que quando estão querendo dizer algo, soam óbvias, e quando não estão, soam obscuras).

Mesmo assim o diretor/roteirista insiste em sua temática, o que revela em seu terceiro ato os momentos mais tensos e propositadamente desconcertantes de todo o filme. Boa parte desse efeito pode ser atribuído à revelação do longa, Fernanda Vianna, a atriz que faz a terceira mãe. Ela quase rouba a nossa atenção completa se a situação já não nos forçasse a isso: o primeiro encontro com o filho roubado da maternidade.

Enquanto tentamos juntar as peças derrubadas pela catarse gerada pela evolução de personagens e situações, o que mais fica na mente é o tema proposto, o que há de comum naquelas histórias. Nos esquecemos do resto e, assim como o cisne do primeiro episódio, vemos o tempo passar sem muito o que fazer.

Somos Tão Jovens

May 14, 2013 in Cinema

Idem. Brasil, 2013. Director: Antonio Carlos da Fontoura. Writers: Victor Atherino (collaborating writer), Marcos Bernstein. Stars: Thiago Mendonça, Laila Zaid, Bruno Torres.

Somos Tão Jovens

Semi-biografia do cantor-poeta ganha vida graças a atuação ímpar de Thiago Mendonça.

Antes de tudo, a interpretação de Thiago Mendonça é primorosa do começo ao fim ao estabelecer o “Renato” do filme não apenas como a sombra de um ídolo, mas a própria persona se construindo através de suas referências culturais. O uso de sua voz é um dos pontos fortes: usando entonações sutis que vão aos poucos revelando o Renato Russo que os fãs conhecem, é uma surpresa agradável poder observar sua própria evolução como cantor, engrossando a voz aqui e ali, tentando encontrar o seu estilo. Isso nos aparece de forma completamente natural e discreta. A música e poesia das letras do vocalista parecem sair prontas do seu intelecto, e parte dessa experiência é devido ao interessante roteiro de Marcos Berstein (Central do Brasil) com a colaboração de Victor Atherino que vai construindo as situações e expressões de suas poesias no dia-a-dia casual.

O mesmo não pode ser dito da direção: Antonio Carlos da Fontoura (No Meio da Rua) insiste em burocratizar a história com cortes definidos milimetricamente entre ação e músicas, e evita polemizar em torno do temperamento explosivo do protagonista. Até sua sexualidade é meio deixada de lado e prejudica a construção do personagem, ainda mais sendo um tabu relevante demais na época para apenas ser citado nas entrelinhas. Mesmo assim, é admirável observar sua trajetória em direção à liderança das duas bandas que formou tamanha a naturalidade com que ela se desenvolve. Uma pena que a apresentação dos outros componentes das bandas soe tão artificial e forçadamente prolixo, chegando a usar nome e sobrenome dos que estavam à margem do cantor (“esse é o Marcelo Bonfá”).

Já a participação de sua amiga sempre presente Ana (Laila Zaid) funciona para contribuir ao entrarmos mais na mente do poeta e conhecer suas angústias (como a depressão, um tema recorrente em sua discografia), e mesmo que Mendonça já carregue isso em sua expressão pesada e um jeito de andar deslocado e caótico (com a ajuda da câmera que sempre treme e procura pontos de luz que dominam vários dos seus momentos sozinhos), é importante o contraponto entre seu sucesso nos palcos e sua solidão em seu quarto. Para pontuar ainda mais o drama em que vive o multifacetado artista, a trilha sonora organizada por Carlos Trilha (que já trabalhou nos dois solos de Renato) acerta em vários momentos ao aplicar acordes icônicos de grandes sucessos da banda como forma de comentar a atmosfera de Brasília como um reflexo de um país à espera de um amanhã melhor, e o reflexo das preocupações de um vocalista punk é a melhor maneira de centralizar esse sentimento.

Parte dessa atmosfera consegue ser atingida também através da fotografia e direção de arte, que trabalham juntas para estabelecer uma Brasília pré-democracia. Se a definição da época é estabelecida com competência em uma inteligente transição entre um carro de sorvetes de uma marca antiga e um camburão da polícia militar (a despeito do letreiro que denuncia o ano despropositadamente), o resto não consegue ser pontuado facilmente, mas sentido em cada cena, uma virtude invisível da construção cuidadosa dos cenários. A fotografia nos convida aqui e ali a entrar em um mundo de tons pastéis e granulados que evocam um tom saudosista, e é compreensível que isso apenas seja feito em certos momentos, dando lugar em sua maioria a uma qualidade de imagem considerável.

Com pequenas pontes entre o Renato do filme e o Renato pessoa, não deixa de ser irônico, tráfico e catártico ouvir Renato planejar sua vida dividida em períodos de 20 anos voltados para a música, cinema e literatura, pois sabemos que isso nunca irá se concretizar, o que gera um forte sentimento de desperdício de talento com a sua morte.

E essa é a única passagem que nos remete depois do início do sucesso do Legião no primeiro show no Rio, que termina sua aventura sem definir em nenhum momento qual seria o objetivo dessa história. Assim como tem sido em biografias no Cinema Nacional, vemos imagens reais de Renato Russo e Legião Urbana junto aos créditos, que não impressionam com exceção da comparação com Thiago Mendonça, apenas comprovando sua competência em se igualar ao ícone.

Uma pena que o filme seja tão metalinguístico a ponto de terminar em um Aborto Elétrico.

 

A Morte do Demônio

May 8, 2013 in Cinema

Evil Dead. EUA, 2013. Director: Fede Alvarez. Writers: Fede Alvarez (screenplay), Rodo Sayagues (screenplay), Sam Raimi. Stars: Jane Levy, Shiloh Fernandez, Lou Taylor Pucci.

A Morte do Demônio

Uma experiência para ser saboreada mais pelos sentidos do que pelo lógica.

Um remake e uma revisita ao clássico trash da década de 80 (antes dirigido por Sam Raimi, o mesmo da trilogia Homem-Aranha), o longa de estreia de Fede Alvarez deixa a razão em segundo plano, mas por um motivo dos mais louváveis: tudo acontece tão rápido que se preocupar demais com isso tornaria a experiência intelectual demais. No fundo, queremos acreditar que tudo não passa de alucinações coletivas que logo irão se revelar uma fraude. Na verdade, rezamos por isso, pois a imersão ao horror da história é feito com tal profundidade que em determinados momentos fica difícil focalizar na tela o que está acontecendo.

A introdução rápida e eficaz mostra uma garota queimada pelo próprio pai (que logo em seguida atira em sua cabeça) em torno de pessoas que parecem pertencer a uma seita satânica. Através das palavras da que seria a feiticeira do grupo, no entanto, ficamos sabendo que o que de fato está ocorrendo é um exorcismo dos mais radicais. Esse pequeno prólogo já revela a que veio o filme, sem pudores de mostrar graficamente tudo o que acontece na tela, miolo por miolo.

Como é de praxe no gênero, algum tempo se passa e vemos o mesmo local revisitado pelo encontro de dois irmãos e seus amigos em uma cabana no meio de uma floresta de pinheiros (que é enfocada sugestivamente logo no início de cabeça pra baixo). A história principal gira em torno de Mia (Jane Levy), que resolve mais uma vez tentar se afastar das drogas que quase a levaram deste mundo. Com o apoio dos amigos — incluindo uma enfermeira — e seu até então ausente irmão (Shiloh Fernandez), o grupo tentará evitar ao máximo a saída do local antes do processo de desintoxicação que Mia precisa enfrentar.

O que não poderia ser previsto é que um livro encontrado no porão desperta o mal que até então parecia adormecido pelo ato visto no início do filme. Revemos o que parece ser a menina queimada, em uma sequência que já dá calafrios ao repassar na mente. E o que acontece em seguida merece existir simplesmente na imaginação visual dos espectadores. Ninguém deveria narrar o filme para seus amigos, pois eles deveria ver (e ouvir) por si mesmos. Irei poupá-los também de maiores descrições.

Uma pequena virtude que torna a narrativa acima da média dos adolescentes descerebrados que não conseguem fugir de uma cabana é a sacada dos jovens tentarem evitar que a amiga não resista à sua abstinência. A partir disso, e entendendo que o que está em jogo também é a longa amizade entre aquelas pessoas, qualquer ato, por mais insano que seja, tenta ser racionalizado. Nós acompanhamos essa tentativa tão desconsolados quanto eles, pois não vemos muito mais do que todos veem. A trilha sonora brinca com o terror em nossa imaginação. Ela participa dessa tentativa de fantasiar, mas sem drama. É leve em muitos momentos tensos. Sem medo de criar algumas cenas escatológicas e outras sobre mutilação e muito sangue, com o risco de impressionar de maneira episódica, sempre somos levados de volta para a questão central: o que fazer nessa situação?

A câmera, sempre esguia e disposta a empregar enquadramentos tortos e movimentos inusitados desde o início (como a floresta invertida já citada), nos força a olhar sempre para os cantos, o que fazemos de maneira inconsciente até mesmo quando sabemos que não veremos nada. Uma técnica batida, sim, mas que funciona extraordinariamente bem aqui, onde o sobrenatural é tateado aos poucos.

Se tornando levemente mais apelativo nos momentos finais, Evil Dead prova sua força ao conduzir-nos em um pós-clímax de maneira incrivelmente eficiente, ainda que para isso force a ação dentro dos lugares mais inusitados possíveis e sob uma forte e inusitada chuva. No entanto, isso é o que torna a experiência fantasiosa mais incrivelmente sedutora. E, caso ainda sobre um sentimento de trapaça, é bom lembrar que se existisse um demônio, seria ingênuo demais pensar que ele seguiria alguma regra.

O filme diverte e é trágico. Diverte pelas sequências absurdas, mas que prendem a atenção. É trágico se pensarmos que essas pessoas estão fazendo o que podem. Não são estúpidas como na maioria dos filmes, e seu pecado menor do grupo talvez seja o ceticismo generalizado, e nem isso é indesculpável (poderia ser explicado pela razão até determinado momento chave onde as coisas fogem completamente do controle).

Talvez seja uma ilusão essa de controle. Ele pode muito bem não existir nunca. Apenas vamos nos tocamos disso aos poucos, dolorosa e lentamente.

Quanto à lógica. Se a única questão em debate seria o livro (que poderia ter sido destruído) ele se resolve sozinho. O resto não merece maiores pensamentos. É uma força oculta e que pode se materializar de diferentes formas.

As interpretações dos atores não é nada demais, mas não prejudica. No entanto, se quiser ter em mente o que assolava tanto o grupo durante todo o tempo, lembre-se da cara de Mia ao retornar da floresta. Essa é a expressão do terror que felizmente ficou do outro lado da tela (espero).

PS: Após os créditos há uma narração em off e uma aparição inusitada, mas apropriada, de um certo personagem.

Homem de Ferro 3

May 2, 2013 in Cinema

Iron Man 3. EUA/China, 2013. Director: Shane Black. Writers: Drew Pearce (screenplay), Shane Black (screenplay). Stars: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Don Cheadle.

IRON MAN 3

Terceira aventura é mais densa, mas possui os velhos problemas do segundo filme.

Críticas ao Superman são comuns pelo fato do super-herói ser virtualmente invencível, sendo sua única fraqueza a sua fé na humanidade. No caso de um herói como Tony Stark, gênio, bilionário, sedutor e munido de uma armadura extremamente resistente, nem o lado humano pode ser considerada uma fraqueza. As inúmeras facetas de Tony se descascam como seus inúmeros protótipos de robôs, e a própria imagem do Homem de Ferro se apresenta como uma figura completamente destacada da pessoa que a veste ou controla à distância. Para ele seu avatar (ou avatares) são um elemento importante de sua personalidade atual, mais do que ele mesmo. E assim como no filme anterior — Homem de Ferro 2, não Os Vingadores — a jornada de Tony Stark é mais interna que externa. O vilão mais uma vez tem algo a dizer sobre o herói, mas não só ele. Se antes a história do pai era o que movia o drama no segundo filme, aqui essa relação é revista entre o gênio bilionário e um garoto (Ty Simpkins) que se revela o reflexo perfeito de sua própria imaturidade. Nesse sentido a interpretação de Robert Downey Jr. vai no automático, o que não é ruim na maioria dos momentos, mas prejudica a história em momentos-chave onde os sentimentos do personagem são postos à prova. Até onde me lembro, seu romance com Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) era o elemento humano que deveria fazer alguma diferença em sua forma de ver a vida. Em sua terceira aventura, todos os elementos já explorados são quase inexistentes, e o que sobre é um Stark robótico até fora da armadura.

Mas divago.

O filme tem início com uma narrativa do próprio Tony Stark lamentando sobre os demônios que criamos no passado (mais um). Dessa forma conhecemos o pesquisador Aldrich Killian (Guy Pearce) que é desprezado pelo bilionário em um passado “sombrio” do futuro herói — mais uma falha grave na interpretação de Downey Jr. ao não ressaltar a mudança de seu personagem. Passa-se uma década e vemos que Aldrich se tornou um empresário que possui um projeto que interfere com o DNA humano em “tempo real”, transformando pessoas com alguma deficiência física em seres com poderes especiais (é até saudável que não existam mais explicações). Se dessa vez os ataques terroristas em Boston não causaram o adiamento da estreia de Homem de Ferro 3 como aconteceu com o último Batman (mesmo que seu vilão explore esse tema) não podemos acusar os americanos de banalizarem a violência ou de se tornarem menos sensíveis com o passar do tempo. Talvez o que deva ser questionado aqui é o quão irreais os terroristas do filme são para evitar qualquer comparação com a vida real.

Dado este pequeno interlúdio, a ação de fato começa quando Mandarim (Ben Kingsley inspirado e divertido), um terrorista que no “melhor” estilo de Bin Laden manda mensagens de ódio através de transmissões televisivas, realiza um ataque que fere gravemente o ex-segurança de Stark (Jon Favreau, diretor dos primeiros dois filmes), fazendo com que ele decida se vingar e “coincidentemente” ajudar o governo norte-americano, que tenta localizá-lo. Os eventos posteriores, ainda que impactantes, não fazem parar de pensar por que isso nunca havia acontecido antes. Enfim…

Aqui e ali no meio da história são colocadas referências intrusivas dos Vingadores, como o homem que desceu do céu com um martelo ou a recorrente história dos aliens e o buraco de minhoca em Nova Iorque, e soam mais como um pedido de desculpas pela história ignorar completamente esses acontecimentos na vida do personagem do que brincadeiras como a tradicional aparição de Stan Lee nos filmes. Aliás, seria desonesto ignorar a crise de ansiedade que acomete o herói — possivelmente um trauma do que ocorreu no filme de Joss Whedon — se não soubéssemos que esse é um artifício barato (e descartável) para tentar fragilizar o invulnerável Homem de Ferro.

Igualmente frágil são os efeitos digitais, mas funcionam moderadamente. Já o confuso 3D, palavras praticamente sinônimas em filmes de ação, se torna mais confuso ainda com os cortes obrigatórios que evitam mostrar sangue ou violência além dos limites, uma controversa, ainda que comum, decisão dos estúdios para evitar barrar a entrada dos jovens aos cinemas, o que possui o perigoso efeito de infantilizar a ação (vide Vingadores) e impedir que nos importemos pela vida das pessoas que correm riscos. Mesmo assim a cena que envolve a queda de várias pessoas do avião é um momento particularmente tenso, mas que se desfaz rapidamente como tantas sequências com efeitos que parecem perigosamente flertar com o exibicionismo e até um certo fetichismo por parte da personalidade de Stark que o diminui como herói.

Com uma equipe respeitosamente grande de compositores a trilha sonora cria uma atmosfera quase sempre cativante ao espírito irreverente do herói e ainda consegue nos momentos-chave ensaiar acordes de uma música-tema que não se torna cansativa, ganhando o direito de figurar entre os pontos altos dos filmes de herói ao lado do Batman de Nolan (mas não ao lado do Superman de John Williams). Esse detalhe combina perfeitamente com os excelentes créditos finais que ao estilizar os personagens mereceria estar logo no início, já que acerta em cheio no tom cartunesco da história.

E por falar em créditos, ele contém uma massa gigantesca de pessoas que é a equipe de efeitos digitais, comprovando que as cenas produzidas em sua maioria dentro de computadores já conquistaram sua parcela lucrativa de fãs ainda que estas tornem a experiência nitidamente artificial (ponto para a Marvel, que com seus heróis fantasiosos não precisa se preocupar com isso). O mesmo não se pode dizer da direção de arte, que aposta em soluções muito menos sutis para revelar “surpresas” ou “segredos” trinta segundos antes de serem revelados (como um camarim no meio de uma sala que salta aos olhos do espectador).

Por fim, Tony Stark continuará sendo o mesmo Tony Stark de sempre. Talvez seja a hora, sem trocadilhos, de reciclar o personagem para algo mais ecologicamente correto (e viável): um personagem orgânico.

Obs.: Após os créditos há uma breve, mas espirituosa cena que explica a narrativa da história, e que, sim, mais uma vez remete aos Vingadores.

Um Crime de Mestre

April 21, 2013 in Home Video

Fracture. EUA/Alemanha, 2007. Director: Gregory Hoblit. Writers: Daniel Pyne (screenplay), Glenn Gers (screenplay). Stars: Anthony Hopkins, Ryan Gosling, David Strathairn.

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Suposto thriller é análise fria e pessimista do sistema judiciário norte-americano.

Um Crime de Mestre utiliza seus dois atores principais da melhor maneira. Anthony Hopkins, relembrado pelo título original (Fracture) que remete à mesma brincadeira metafórica do jovem clássico Silêncio dos Inocentes (Silence of the “Lambs”), estabelece um personagem frio e calculista que parece estar sempre se divertindo com seus jogos mentais e é alheio à realidade à sua volta, e ainda que cometa um crime passional logo no início o faz de forma hedionda e determinística. Já Ryan Gosling, que hoje possui em seu currículo o controverso motorista de Drive, é um advogado que se relaciona com as pessoas, mas assim como Hopkins, olha o mundo sempre do ponto de vista como ele pode servi-lo.

Quando ambos os egos se encontram em um embate mais intelectual do que emotivo, as regra do sistema judiciário americano são vitais para a compreensão do que está em jogo: o único suspeito de assassinar sua própria esposa pode sair impune caso as peças não estejam devidamente encaixadas. A impressão que é passada a quase todo momento é que o sistema legal daquele país é tão frágil — ou seus “jogadores” tão ambiciosos — que gerenciar a justiça se torna função de empresas frias e calculistas como o próprio assassino. Nesse sentido, o que o diferencia dos seus advogados?

Aliá, emoção é um tema que nunca é deixado fluir. Utilizando tons noturnos quase sempre azuis e tristes, a película como um todo é uma reflexão nada otimista sobre como a justiça pode se relativizar e consequentemente se desumanizar. Mesmo quando Gosling se apresenta como o adversário passional do jogo que se desenrola, sabemos que sua principal motivação é simplesmente sua auto-afirmação como o promotor que teve 97% de suas causas ganhas. O diretor Gregory Hoblit (As Duas Faces de Um Crime) e o roteirista Daniel Pyne (Sob o Domínio do Mal) não permitem em nenhum momento que a história descambe para o melodrama, o que pode repelir os que esperam um thriller ou algo com mais ação. No entanto, o dia-a-dia da lei não poderia estar melhor retratado que na desesperança de uma vítima que sobrevive apenas formalmente com a ajuda de máquinas.

Uma História de Amor e Fúria

April 10, 2013 in Cinema

Idem. Brasil, 2013. Director: Luiz Bolognesi. Writer: Luiz Bolognesi. Stars: Selton Mello, Camila Pitanga.

Uma História de Amor e Fúria

A Viagem brasileira por nossa história de opressão, amor e medo.

Um delírio técnico e estilístico que permite que vejamos nossa história como povo através da lente da dura e cruel realidade dos oprimidos, Uma História de Amor e Fúria estabelece desde o início seu tom fantasioso ao revelar a idade do narrador e protagonista envolvido em uma jornada de cerca de 600 anos através do passado e futuro do Brasil.

Tanto o “amor” quanto a “fúria” do título podem ser sentidos desde a primeira das quatro histórias em que são desenvolvidos os dois personagens principais: um guerreiro imortal da tribo Tupinambá (Selton Mello) e sua amada e sempre belamente reencarnada Janaína (Camila Pitanga). O Rio de Janeiro, palco da história, já nasce de uma luta sanguinária entre franceses e portugueses pelo poder da região. A história apenas se mostra, mas se torna óbvio que aquela sociedade nascida da opressão utiliza a mesma estrutura em qualquer momento de sua evolução tecnológica.

É uma história impactante, intensa e dona de uma triste verdade. Lembra Um Cabra Marcado Para Morrer pelo seu tema, que centraliza na opressão do governo (e da sociedade dominante) sobre um povo desde o começo miserável, escravo e injustiçado. Assim como “Um Cabra…”, delineia sua história por várias gerações. Diferente deste, cria um futuro distópico que nos alerta para o que está ocorrendo nesse exato momento com a nossa sociedade (o que faz eco com outra produção recente, Som ao Redor). Nesse mar de ideias, utiliza maravilhosamente bem a ficção científica ao mostrar um futuro com um povo alienado e sem paixão por nada. A sequência em que uma bola de futebol cai de um arranha-céu gigante para flutuar em uma espécie de bueiro ao céu aberto do lado de um grupo de crianças consegue resumir visualmente todo o sentimento estancado por décadas do nosso processo implacável de injustiça social.

Sem conter pontos específicos de nenhuma das quatro histórias, o filme se revela e se transforma na história do casal apaixonado em uma bela metáfora em busca por essa paixão perdida no tempo, assim como a esperança por dias melhores. Assim como A Viagem (Wachowski/ Tom Tykwer, 2012), a mensagem do filme não poderia ser mais clara e necessária. Por isso o seu clima de urgência.

O que nos leva às suas virtudes técnicas. Cientes da intensidade que precisam passar em uma animação que começa como um estilo quase parado e contemplativo, a edição e mixagem de som mais do que compensam. Compostos pela mesma equipe de Tropa de Elite, os sons todos juntos definem cada atmosfera através das falas e sons que se ouvem ao fundo. Enfatizam o tom emergencial ou apático pelo uso pincelado de sua trilha sonora.

E não é apenas o som que impressiona, apesar deste ser ponto forte e acertadamente levado em conta. O uso inteligente da fotografia consegue claramente estipular uma evolução, iniciando em cores quentes e naturais da selva ainda virgem, passando pelo cinzento e enebriante fumaça do progresso dos anos 70, e atingindo seu ápice em um azul que incomoda justamente pelo seu tom de sofisticação em torno de uma sociedade onde ironicamente falta água, o elemento mais básico da subsistência humana. E esse recurso sagrado é tratado como negócio e defendido pelas classes superiores assim como hoje se defende os maiores privilégios para uma casta previamente selecionada. (Note que até viagens a Marte já são possíveis, e onde a presença de água já foi comprovada, mas são usadas para o carregamento de minério.)

Dessa forma, se no começo a animação soa estranhamente estilizada, o costume dos nossos olhos e a sua sofisticação crescente a cada história faz o artifício se tornar cada vez mais necessário. Um trabalho de produção digno de nota por harmonizar esforços de tão escassos desenhistas em uma história envolvente pela própria natureza do ser humano de torcer pelo lado mais fraco.

“Meus heróis nunca tiveram uma estátua, mas morreram lutando contra os que tinham”, lamenta o nosso protagonista. Não podemos culpá-lo de lutar sempre pelo lado mais fraco, se está claro que ao menos parece o lado certo.

Vai que Dá Certo

April 6, 2013 in Cinema

Idem. Brasil, 2013. Director: Maurício Farias. Writers: Maurício Farias, Alexandre Morcilo, Fábio Porchat. Stars: Felipe Abib, Gregório Duvivier, Natália Lage.

Vai que Dá Certo

Mais um humor afetado pelo nosso mau gosto pelo Cinema.

O filme estrelado (e escrito) em partes pelo elenco do ótimo grupo de humoristas de internet Porta dos Fundos consegue ser engraçado em diversos momentos, apesar de seu tom morno durante quase todo o filme. O sucesso do humor é em boa parte devido ao carismático grupo, que naturalmente exibe um timing cômico de fazer inveja às produções da Globo Filmes. Porém, estamos falando de um filme longa metragem, e o que justamente deixa de ser engraçado é a história criada pelos três roteiristas, que se perde depois que do golpe a um carro forte arquitetado por quatro amigos de infância (e de pobreza) e por um primo de um dos integrantes.

Surgindo como elemento unificador das piadas isoladas dos seres unidimensionais que povoam a tela, o filme perde sua singela força logo após a reviravolta principal, e sofre uma morte lenta e dolorosa ao envolver um bandido nada ameaçador e situações cada vez mais impossibilitadas de nos fazer lembrar o que estamos fazendo assistindo esse filme. A sensação é de tentarmos a todo momento descobrir se há de fato uma mensagem para nos guiarmos ou se tudo não passa de uma sequência de quadros de humor televisivo.

Nunca saberemos. Terminando de maneira esquemática, estamos presos eternamente à cornucópia de clichês. Talvez seja esse o grande motivo de dois personagens discutirem a toda hora a respeito de elementos pop do Cinema (assim como os pôsteres de filmes pendurados casualmente nas paredes mais usadas). Tudo não passa de uma brincadeira desproposital e sem qualquer intenção de se transformar em um filme de verdade.

G.I. Joe – Retaliação

April 3, 2013 in Cinema

G.I. Joe: Retaliation. EUA, 2013. Director: Jon M. Chu. Writers: Rhett Reese, Paul Wernick. Stars: Dwayne Johnson, D.J. Cotrona, Channing Tatum.

G.I. Joe - Retaliação

Brincadeira de criança é prejudicada por delírio de filme sério mais uma vez.

Na cena inicial de “G.I. Joe: Retaliação” (que nomezinho) o comandante de uma missão (Dwayne Johnson) que precisa adentrar uma zona militar da Coreia do Norte ao lado de uma guarita vigiada em uma quase total escuridão resolve derreter a cerca de arame e formar um círculo de fogo que provavelmente poderia ser avistado a uns dois quilômetros. Essa introdução espetacular do grupo de operações especiais secreta do governo norte-americano — os chamados G.I. Joes — é o bastante para termos certeza que nada do que aparecer diante de nós deve ser levado a sério.

Como um dos representantes do gênero “filmes baseados em brinquedos” — assim como Transformers e Battleship — a saga protagonizada por bonecos de plástico e carrinhos irados da Hasbro consegue ao menos contar uma história simples com começo, (longo) meio e fim enquanto exibe no meio do caminho um conjunto de armas e veículos completamente desvinculados da realidade (meu exemplo favorito e menção honrosa é um tanque que parece querer voar). A graça da coisa reside em pensar nos seus heróis musculosos e com coragem suicida como os próprios bonecos de plástico que os inspiraram, manipulados por um garoto megalomaníaco de comercial de TV.

Nesse sentido o enredo dessa continuação se sai muitíssimo melhor que seu desprezível predecessor. Brincando com mísseis nucleares acionados por botões em maletas pessoais de líderes mundiais que se diferenciam apenas pela bandeira de cada país — isso deve fazer parte de algum padrão mundial para destruição em massa — e satélites que explodem assim que uma operação é cancelada (o que são alguns bilhões pela diversão de ver acontecer) o perfil “brincadeira de criança” do filme parece nunca querer sair da mente. O que não seria algo ruim caso o longa abraçasse de vez a unidimensionalidade dos seus personagens e esquecesse do drama vazio da família de ninjas e pessoas com máscara fumê. É esse delírio de grandiosidade que torna tão massante as cenas de ação envolvendo um bando de ninjas, que se vestem com uniformes amarelo e vermelho parece que apenas para combinar com o fundo branco das montanhas geladas de algum povoado chino-japonês (bons tempos quando os ninjas era guerreiros invisíveis). A baboseira se torna particularmente cansativa por enfatizar que a luta é pelo destino de alguém que não damos a mínima. Enquanto isso, os planos maquiavélicos do nosso garoto estirado no tapete da sala brincando de destruição do planeta se saem muito melhor, já que não precisa de drama nenhum para entreter (acho que “destruição mundial” é um tema que já costuma chamar bastante atenção).

Porém, mesmo se saindo bem em algumas sequências de ação razoavelmente eficientes somos obrigados a participar de uma tonelada de cenas descartáveis que tentam explicar mais uma vez a origem e a personalidade (inexistente) dos seus heróis — um dos maiores defeitos do original — e que acabam mais uma vez não explicando nem revelando nada de especial, por mais expositivos que sejam os diálogos (o meu “preferido” é um discurso de um velho, negro, cego, oriental e com seu cajado batendo no chão explicando toda a trama em torno da prima e de toda a família do ninja musculoso — e por algum motivo obscuro ela precisa ser prima do rapaz, e não é pelo sexo, pois nem sangue é possível ver nas lutas, por mais sangrento que seja o combate; e a explicação da caricatura de Sr. Miyagi é obviamente para nós, espectadores, os únicos que não estão sabendo de nada sobre o pano de fundo dessa família do barulho; e, particularmente, preferiria continuar não sabendo).

Nunca conseguindo se firmar como gênero por tempo o suficiente, “G. I. Joe” ao menos parece tentar enxugar bastante a história dos seus personagens, só que mesmo assim parece ter tempo demais na tela. Talvez para que um terceiro filme exista seja necessário enxugar ainda mais caso ele tenha a (fácil) pretensão de se sair melhor que “Retaliação” segundo o mesmo formato. Talvez quinze minutos e tudo já esteja resolvido (e ainda dá tempo para o garoto ir almoçar).

Up!

March 30, 2013 in Home Video

Up. EUA, 2009. Directors: Pete Docter, Bob Peterson. Writers: Pete Docter (story), Bob Peterson (story). Stars: Edward Asner, Jordan Nagai, John Ratzenberger.

UP

Pixar emociona tanto pela sua história quanto pela sua arte.

Uma produção da Pixar possui, como todo o filme, o(s) nome(s) do diretor. Contudo, a dedicação dos seus produtores e toda a equipe é tamanha que transparece o amor pelo Cinema em cada canto da tela e em cada detalhe técnico de suas produções.

É o que podemos conferir em Up!, que pega uma história até que simples — um velho viúvo deseja realizar o grande sonho de sua falecida esposa — e consegue não apenas torná-la acessivel às crianças, mas faz um apelo à criança que ainda vive dentro de nós esquecida pela agruras da vida.

Para isso a direção de arte não poupa esforços em apresentar cada elemento da vida de Carl Fredricksen remetendo à sua infância e sua vida feliz com sua amada Ellie. Não apenas isso, a própria ideia da viagem maluca de Carl já está anunciada desde o início da produção, em detalhes cada vez mais frequentes, como seu balão que simula o dirigível do seu herói, um explorador desenganado, como sua profissão de vendedor de balões. Dispensável dizer algo sobre a própria Ellie, que parece ser o grande símbolo que todos nós almejamos: a vida perfeita ao lado de alguém.

PS: como é de praxe, preciso comentar dos primeiros 15 minutos dessa produção, que de tão sucinto e dotado das maiores qualidades narrativas do audio-visual, possui, assim como Wall-E, o seu lugar no Panteão dos grandes curtas lançados dentro de um longa. Além de emocionar o mais duro dos humanos que já viveu o suficiente para entender a grande mensagem do filme: a vida é uma aventura.

A Parte dos Anjos

March 29, 2013 in Cinema

The Angels’ Share. Reino Unido/França/Bélgica/Itália, 2012. Director: Ken Loach. Writer: Paul Laverty (screenplay). Stars: Paul Brannigan, John Henshaw, Gary Maitland.

A Parte dos Anjos

Dramédia britânica flerta com roteiro tendencioso, mas diverte em experiência etílica.

O diretor Ken Loach consegue extrair tensão nesse suposto drama britânico, como podemos constatar durante um leilão de Wisky e logo antes em uma sequência noturna particularmente inspirada. Essa capacidade, no entanto, parece rivalizar com sua vontade de fazer comédia, que também funciona, mas ao preço de perdermos o gênero inicial. A leveza que ele aplica no resto da história flerta perigosamente com o seu reducionismo. Dessa forma, não é possível desenvolver melhor a relação entre o admirador de uísques e seu protegido, e o aprendizado deste é resumido em 10 segundos de uma cena dele cercado por diversos livros sobre a bebida.

Por outro lado essa mesma capacidade de síntese é bem-vinda na apresentação dos outros personagens. A primeira sequência, onde vemos Albert quase morrer na linha do trem e o corte para o juiz determinando as penas para esses pequenos delitos é eficaz em nos deixar curiosos para saber a história de quem iremos seguir, e parece ser esse um mistério que o diretor se diverte até o final dessa sequência.

Já a dinâmica do grupo que se une para aplicar um golpe baseado nos conhecimentos de Robbie (Paul Brannigan), o protagonista casual, perde justamente por se fixar unicamente no drama deste, empenhando-se para mostrar como a vida do sujeito não pode mudar de rumo caso ele não tome uma medida drástica. O roteiro de Paul Laverty nesse sentido flerta com a desonestidade ao evitar a todo o custo uma solução menos arriscada.

Ainda do ponto de vista narrativo Ken Lock trilha o caminho que dos rapazes pintando-o de dourado, entregando pistas no meio do caminho que permitem que vejamos seus atos muito antes delas acontecerem. E o pior é que não há obstáculos o suficiente para que o desenrolar saia um pouco dos trilhos. Mesmo assim acompanhamos imersos, aguardando que algo dê errado. O imprevisível aqui é que não há obstáculos previsíveis. É o suficiente para nos deixar interessados.