O passado torto de um programador por acaso

Data: 2007-09-06
Categorias: Devaneando
Bom, acho que depois de algumas dúzias de artigos, chegou a hora de apresentar o autor deste blogue. Muito prazer, meu nome é Wanderley Caloni Junior e eu sou um programador C/C++. Segue uma pequena história sobre meu passado. Obs.: este é um artigo não-técnico, o que quer dizer que você pode se deparar com termos desconhecidos. Procure ter à mão um dicionário de pessoas comuns.

Sabe aquele senso comum de que adolescente não sabe o que quer da vida? Pois é, naquela época eu não sabia mesmo. Quando iniciei minha vida, queria ser desenhista. Então descobri que não conseguia desenhar sem uma régua, o que me levava a crer que seria engenheiro. Mas engenheiro de quê? Bom, como esse tipo de pergunta tem um nível de complexidade além dos limites de uma criança de 12 anos, decidi que decidiria isso na minha oitava série.

Então a oitava série chegou. Fascinado com o conceito de átomos e camadas de elétrons, decidi que iria ser químico. Procurei e logo achei um curso técnico de química industrial para o segundo grau. Comecei a estudar para o chamado "vestibulinho", empolgado com a idéia de vir a trabalhar em uma fábrica usando jaleco.

Até aquele breve momento, tudo ia bem na mente daquele promissor químico de sucesso.

Até que num belo dia minha mãe aparece com um folheto onde, escrito em letras garrafais, conseguia-se ler com um pouco de esforço: "curso de computação". Computação é mexer com computadores. Até então só tinha visto computadores em filmes de ficção científica e nas bibliotecas da cidade (os velhos sistemas Unisyx, ainda de pé na minha velha e boa São Bernardo).

Mexer com computadores (naquele folheto) até que parecia ser uma coisa legal.

E lá fui eu ficar algumas horas por semana sentado à frente daquela tela verde digitando comandos em inglês. Wordstar, Lotus 1-2-3 e o tal do MS-DOS. Havia um segundo laboratório na escola, este mais novo, onde repousava intocado um outro sistema operacional. Diziam ser revolucionário, e que vinha com um novo dispositivo futurístico conhecido como mouse (rato, em Portugal): uma pequena caixa com dois botões conectados à CPU por um fio, tecnicamente seu rabo. Mexemos uma única vez no final de nosso curso com o tal de Windows 3.1, o sistema operacional que vinha nesses micros novos. Foi apenas um rápido e impagável momento de test drive.

Mas, por um motivo que até hoje desconheço, gostei do tal do MS-DOS. Eu dava comandos para o computador e ele obedecia! Achei fascinante! Me diverti muito durante os três meses do curso.

E voltei a estudar para o vestibulinho de químico.

Porém, eis que chega o final de ano e pergunto para o meu amigo o que ele vai fazer.

- "Processamento de Dados!"
- "Hummm... computadores."
- "Isso!"

Mas que coisa, hein. Balance, balancei, e acabei mudando minha decisão do início do ano: iria tentar o curso de PD.

E foi assim. Fizemos o vestibulinho. Meu amigo não passou, mas a família dele tinha recursos, colocou ele em uma escola técnica particular. Eu também não passei. A nota de corte era 38. Tirei 37. Por um ponto fiquei sem opções de estudo. Então procurei por vagas em escolas técnicas. Minha mãe encontrou uma, onde existiam dois cursos: magistério e contabilidade.

- "Magistério é legal. E se não for legal, pelo menos tem um monte de mulher."

Mas dessa vez meu lado numérico falou mais alto, e acabei ficando na sala mais chata. Prestei para contabilidade. Passei fácil.

E agora, após esse breve relapso, tudo estava em paz na mente daquele contador de futuro.

Dois anos se passaram. Balanços, balancetes, ativos e passivos. Mas nem tudo eram números. Tive uma professora de literatura que era ótima (no sentido bondoso da palavra). Ela me ensinou a ler estes livros não-técnicos que tanto encantam o pessoal de humanas. Também me ensinou a escrever de maneira não-vexatória, já prevendo naquela época que teria que me esforçar para ser um blogueiro de sucesso.

Naquela época comecei a escrever bastante. Gastei uns dez livros de 100 páginas rabiscando palavras. Desejava ser escritor, ficar rico e famoso e reponder às cartas dos fãs. Então lia e escrevia literatura. Quer dizer, eu acreditava que escrevia literatura. Um contador brincando de escritor.

O tempo passou, o ano final chegou e começava a despontar a grande dúvida: o que prestar no vestibular?

Naquele momento, meu lado letrado foi mais forte.

- "Quero ser escritor, logo, vou fazer letras. Deve ser bem legal! Mas se não for bem legal, pelo menos tem um monte de mulher."

E comecei a estudar para o vestibular. Apenas um vestibular. Fuvest. Se não passasse, ficaria a Deus dará. O que já me importunava bastante àquela época da vida: depois de 13 anos de escola eu havia ficado um tanto condicionado a comparecer em sala de aula todos os dias de semana da minha vida.

Foi um período interessante. Matemática, Português, História, Geografia, Inglês, Química, Física, Biologia. Livros e mais livros viviam em minha mochila. Para minha sorte, meu emprego era de office-boy, o que me garantia por lei poder ler o dia inteiro, todos os dias, na fila do banco. Algumas noites também. E algumas madrugadas também. Foi um sufoco. Quase não termino meu curso.

Mas terminei. E passei. E de repente lá estava eu no antro da perdição, o início de tudo: FFLCH (lê-se "fefeléche"). E o subsolo era de fato um antro: xadrez, MPB, sebos, discussões filosóficas e muita fumaça. No meio das revoluções estratégicas do pessoal do CAELL eu me sentia extremamente "humanizado", seja lá o que isso for. E, sim, pela primeira vez na vida, milhares de mulheres interessantes passarelavam pelos corredores dos pensadores da palavra.

Viva a linguística!

Tudo estaria bem na cabeça daquele promissor "professor de português das escolas da rede pública de ensino" se não fosse o meu lado numérico. Comprei um computador, e isso mudou minha vida. Cada vez mais a quantidade de livros de informática que eu carregava comigo ultrapassava o número de sonetos de Camões ou as prosas modernísticas de Guimarães Rosa que estudava no momento.

Então veio o fatídico dia em que eu comecei a programar

Desde aquele dia, o vício tem me acompanhado cronicamente, religiosamente, todo dia.

Larguei a faculdade. Comecei a me dedicar inteiramente aos livros sobre computadores, programação e "como as coisas funcionam". E desde então o ser em que me transformei vos fala através deste humilde blogue. E assim foi. Como é que o pessoal de humanas fala mesmo? Ah, sim: o resto é história.

10 respostas para “O passado torto de um programador por acaso”

  1. Caloni.com.br » Blog Archive » Programadores de verdade não usam Java Diz:

    [...] era um newbie (e um wanna-be) gostava de ler o "Real Programmers Don't Use Pascal", um texto humorístico que [...]

  2. Werner Moecke Diz:

    Ha...

    Caiu-me o queixo!

    Eu imaginava-o completamente diferente... pensava em outra linha, meu Deus do Céu, como a gente se engana!

    É pensamento esse, fruto do que vem a ser a "realidade" de hoje: programadores de canudo embaixo do braço - graduação/pós/mestrado (e mais umas outras dezenas de "MCPs" no bolso do paletó)...

    Não que eu esteja condenando um ou outro lado, mas como me impressiono com as exceções às regras...

    Falta você contar o "resto" da "história"...

    Parabéns, conseguiu um admirador.

  3. Werner Moecke Diz:

    Queria complementar o comment anterior: Isso só serve para comprovar, mais uma vez, que vocação é um negócio que está no sangue; e não vem escrito em um pedaço de papel nem entregue em forma de um monte de certificados "XPTO-Certified-da-vida"...

    Cansei de ver gente que se enche de orgulho ao dizer que é "MC-qq-coisa" (porque passou em uma prova "decoreba" - a propósito, note o "slogan" embaixo do nome do site!!), mas não sabe resolver o problema.

  4. Wanderley Caloni Diz:

    Olá, Werner.

    De fato, os MMs da vida são grudentos. Mas nada melhor que um problema da vida real para vermos um MM fugindo e um programador de verdade resolvendo a parada ;)

    Brincadeiras à parte, minha opinião diverge um pouco sobre esse negócio de "tá no sangue". Está mesmo? Talvez até esteja; assim, por acaso, no meio das infinidades de combinações que o DNA permite a nós, seres humanos, existir.

    Só que eu acredito muito mais na tal "força de vontade". Meio contraditório, eu admito, achar que muitas pessoas graduandas estejam num curso desses se não possuem força de vontade para tal. Mas, veja bem: elas possuem força de vontade, sim! Mas NÃO é de programar. É só reparar na cachoeira de dinheiro que jorra todos os anos para os profissionais do ramo da informática que já dá pra imaginar quais as outras motivações dessas pessoas.

    E é tudo muito justo. É claro que todas as pessoas procuram e esperam o melhor, inclusive financeiramente. Nesse caso a faculdade vira um investimento de um negócio que pode gerar uma boa grana todo mês, mesmo que você tenha que, de vez em quando, bem, er, arght! Programar!

    E assim vai girando a roda da vida =)

    []s

  5. Werner Moecke Diz:

    Oi Wanderley,

    Eu li o seu artigo recente. Também postei um comment por lá... ;-)

    Eu concordo, em parte, com suas opiniões aí. A parte que eu concordo é quanto à mensagem "intrínseca" que você deixou bem claro nas "entrelinhas": Força de vontade é o motivo que move um indivíduo a perseguir um objetivo. Estou errado?

    O que eu questiono (assim como você), é justamente o "fator motor" de tal "força", que existe em cada um de nós: Como você bem colocou, a maioria dos "cursandos" e "graduandos" (e outros "andos") é movida pelo fator "o meu primo falou que programação dá din-din". E vão em frente e fazem o tal do "investimento" (o ramo de faculdades e cursos de certificação virou um comércio, não sei se já notou), gastando muito em grana e pouco em tempo e esforço - Basta sair com o "canudo" que está tudo certo... e as empresas contratam (fazer o quê??).

    Para estas pessoas, só existe solução para um problema se ela já tiver sido postada em algum lugar na internet ou no "MSDN-XPTO-Kit" (para que possam assim, seguir programando de acordo com o paradigma CPP - Copy and Paste Programming). Quando não conseguem, vão atrás de quem sabe para ver se conseguem que tal pessoa resolva o problema por eles (chamam a isso de "trabalhar colaborativamente", e outros nomes bonitos que inventam diariamente, para "enfeitar" a sua (a deles, não sua) incompetência.

    É por isso também, que a cada dia surgem cada vez mais "cursos caça-níquel" em tais "universidades". Cursos que têm por objetivo apenas atrair os tais "aspirantes" para um "nicho" que mal conhecem (cito como exemplo: "Produção de Games", e "afins"). Na verdade, estão "fabricando" pessoas que não terão capacitação alguma.

    Quando digo que "está no sangue", falo de pessoas que não possuem este "fator motor", mas outro, que é a paixão, o que lhes dá prazer em FAZER, buscar o conhecimento, safarem-se das situações-beco-sem-saída sozinhos (ou perguntando a quem sabe e - APRENDENDO). É a tal da "vocação". Quando se divertem resolvendo problemas, e sentindo o prazer de encontrar uma solução elegante para um problema que, até ontem, era difícil.

    É sempre um prazer poder conversar contigo.
    (e a minha matemática continua ruim... eta...)

  6. Wanderley Caloni Diz:

    Lembre-me de quando responder comentários nunca levar as colocações ao pé-da-letra. Só que continuo pensando no tal "tá no sangue" pelo aspecto biológico da coisa. =)

    Talvez você não concorde, mas eu vejo ambas como motivações. Só que diferentes. Não entro na questão de uma ser mais "nobre" que a outra. São tão somente motivações. Minha motivação é/era isso aí que você falou: curiosidade, vontade de aprender, satisfação de ver funcionando, etc. Outra motivação, que eu também tenho, é trabalhar pelo dinheiro. E, pelo menos para mim, não há nada de errado nisso. Não é lindo fazer algo que se gosta e ainda ser pago por isso? ;)

    Minha visão é: se em qualquer profissão uma pessoa visa apenas o lucro financeiro, então ela já começa com problemas. Só que não necessariamente quem faz as coisas "por paixão" faria de graça. Eu não faria.

    Acredito que você concorde comigo nesse ponto. Se não concordar, terei prazer em "ouvir" mais uma réplica =)

    []s

  7. Werner Moecke Diz:

    Concordo sim, Wanderlei. Só gostaria de colocar um detalhe - que penso que você concordará, que é a respeito de se trabalhar "por paixão" de graça: eu não faria isso pelos outros (esses, que paguem se me quiserem), mas certamente o faria - e faço - por mim... claro, me refiro às "brincadeiras" que faço em meu próprio tempo e espaço. Você entendeu... ;-)

    Concordo que são motivações, e que não se entra no mérito da "nobilidade" de cada uma; apenas quando o "fator motor" se reflete diretamente no desempenho do profissional, limitando-o (ou não, caso o fator seja o "passional": é aí que se distingue entre "profissionais" e "PROFISSIONAIS" do mercado - em tempo: MCP não se encaixa em nenhum dos casos, IMHO).

    Mas é isso aí: Você tá certo, e eu (em toda a minha pretensão) também. :-)
    (8+3: Será que dessa vez eu acerto a conta?? :-D)

  8. Wanderley Caloni Diz:

    Bem lembrado! Aliás, aí está uma bela prova para saber pelo quê o programador trabalha: pergunte em uma entrevista o que ele costuma fazer em casa.

    É um tema muito interessante esse, pois, seguindo seu raciocínio, nos levaria a indagar qual dos dois profissionais acaba sendo mais produtivo: o que adora cada detalhezinho do software que trabalha ou o que faz o mínimo necessário para poder chegar logo em casa (e lá não programar). Isso vai acabar virando um artigo =P

    []s

    PS: Algum problema com o sistema anti-spam? Existia um bug que dizia que dois mais dois não eram quatro (eu chamo de "bug 1984").

  9. Werner Moecke Diz:

    Wanderley,

    De fato, este é um assunto que desperta várias outras questões. Por exemplo, posso afirmar - por experiência própria - que em nosso mundo real, o profissional que faz o mínimo geralmente o faz tão mal e porcamente que acaba "sobrando" para o detalhista, que mesmo após terminar a sua parte e testado todos os detalhes que sua mente pode produzir, ainda sobre tempo para consertar/refatorizar ("refactor" - será que cunhei o termo corretamente?) o código-ninho-de-rato/incompleto de quem fez com pressa sem antes procurar compreender a tarefa e muito menos ainda, testar cada nova implementação.

    Geralmente ao apresentar a solução "refatorada" escuta-se a famosa "Pô, mas eu tinha testado e não deu erro - que estranho né??"

    O anti-spam está bom, eu é que não sei fazer contas. Como essa agora, por exemplo - 7+9: que absurdo!! Eu não sei fazer conta de mais com números ímpares!! ;-)

  10. Bruno Cordeiro » Programadores de verdade não usam Java Diz:

    [...] Quando era um newbie (e um wanna-be) gostava de ler o “Real Programmers Don’t Use Pascal“, um texto [...]

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