Como vimos durante o seminário CCPP, o alinhamento de memória pode ser problemático durante momentos críticos, como migração de plataforma (16 para 32 bits) e de ambiente (compilador novo). A forma como a memória é alinhada influi diretamente em algoritmos de criptografia, por exemplo, fazendo com que o que funcionava antes não funcione mais sem mexer uma única linha de código. Eu já vi isso. E isso não é bom.
A raiz do problema é que, dependendo do alinhamento usado pelo compilador, o sizeof de uma variável pode mudar de valor, mesmo que o tamanho útil não mude. Por exemplo, vamos supor que temos uma dada estrutura que iremos encriptar:
struct EstruturaQueIremosEncriptar /* 4 + 31 = 35 bytes */
{
int size; /* 4 bytes */
char name[31]; /* 31 bytes */
};
Se usarmos a construção "sizeof(EstruturaQueIremosEncriptar)", podemos obter o valor 35 caso o alinhamento seja feito em 1 byte, ou podemos obter o valor 40 se o alinhamento estiver configurado em 8 bytes. E é aí que começa o problema.
Solução simples
Já pensando nesse problema, os projetistas de vários compiladores suportam uma extensão não-padrão que permite definir, para um dado conjunto de estruturas e variáveis, o alinhamento que deve ser seguido. Isso de cara já resolve o problema, SE sua solução usar apenas compiladores que suportem essa idéia. No Visual C++ essa idéia é traduzida por uma diretiva pragma:
#pragma pack( push, 8 )
struct EstruturaQueIremosEncriptar /* 4 + 31 = 35 bytes */
{
int size; /* 4 bytes */
char name[31]; /* 31 bytes */
};
#pragma pack( pop )
A diretiva pragma está definida no padrão C (6.8.6) e C++ (16.6) e seu uso não torna um programa não-padrão. No entanto, o que vai depois da diretiva é dependente da implementação e não é garantido que irá funcionar.
Pronto, nossa estrutura sempre terá 40 bytes ocupados na memória, pois o alinhamento foi forçado em 8 bytes. Resolvido.
Solução portável
Existem aqueles compiladores que não suportam essa idéia da mesma forma, ou não suportam de jeito nenhum. Para esses casos, alguns desvios de comportamento são necessários. A grande pergunta é se isso é possível de ser feito de forma 100% padrão.
Pelo que eu pude constatar, existe, sim.
#include <stdio.h> union TesteAlign { struct Teste { char buf[13]; int x; } t; unsigned char align[ (sizeof(struct Teste) % 8) ? (sizeof(struct Teste) / 8 + 1) * 8 : (sizeof(struct Teste)) ]; }; int main() { union TesteAlign tst; printf("Alinhamento. Union: %d; Teste: %d; Align: %d.\n", sizeof(union TesteAlign), sizeof(struct Teste), sizeof(tst.align) ); printf("t: %p, align: %p\n", &tst.t, tst.align); return 0; }
O código acima usa o conceito de união de estruturas (union) para fazer valer um alinhamento na marra (no caso, 8). Para os que não conhecem unions, é necessário uma breve explicação do conceito.
O que são uniões
Uma estrutura, como todos sabem, amontoa os seus membros um após o outro na memória. Dessa forma podemos tratar um bloco de memória com um leiaute que definimos com outros tipos:

Em uma união, os membros não são amontoados um após o outro. Todos eles começam no mesmo ponto da memória. Eles se sobrescrevem. O tamanho da união sempre é o tamanho do seu maior membro, e não a soma de todos. É um tanto difícil de descrever esse leiaute, mas imagine que você tenha apenas uma posição na memória e queira chamá-la de vários nomes e tamanhos diferentes. Essa é a união.

Como deve ser fácil de imaginar, uma união não tem tanto uso quanto uma estrutura, mas ainda assim faz parte da linguagem. Ela possibilita enxergar a mesma região de memória sob vários ângulos. Podemos descobrir a organização de um inteiro na memória, por exemplo, byte a byte:
int main()
{
union {
int i;
unsigned char uc[ sizeof(int) ];
}
myUnion;
myUnion.i = 0x12345678;
printf("Int: %d.\n", myUnion.i);
printf("Bytes: %02X %02X %02X %02X.\n", uc[0], uc[1], uc[2], uc[3]);
}
Dependendo se a plataforma onde o programa acima é compilado, a exibição do último printf pode mudar. Eis o motivo.
De volta para a solução
Agora que sabemos o que são uniões fica fácil entender o esquema da solução portável. Eu simplesmente uso a segunda estrutura como uma auxiliar de alinhamento. Com ela do tamanho múltiplo do alinhamento desejado forçamos a união inteira a ter esse alinhamento, independente do tamanho da estrutura útil, a que iremos usar para armazenar dados.

Tudo que temos que saber para fazer o alinhamento é o tamanho normal de nosso tipo útil (o Teste). A partir desse valor deduzimos o próximo número que seja múltiplo de 8, através da seguinte construção:
( sizeof(struct Teste) % 8 ) ? (sizeof(struct Teste) / 8 + 1) * 8 : (sizeof(struct Teste))
Ou seja, se já for múltiplo de 8, é o próprio valor. Se não for, então dividimos por 8 e multiplicamos pelo mesmo valor adicionado de um, o que nos retorna o próximo múltiplo.
Tornando as coisas genéricas
É lógico que, como se trata de uma construção onde temos completo domínio dos tipos e valores envolvidos, transformar isso em um template é "pedaço de torta".
#include <stdio.h> template<typename Teste, int Align> union TesteAlignTemplate { Teste t; unsigned char align[ (sizeof(Teste) % Align) ? (sizeof(Teste) / Align + 1) * Align : (sizeof(Teste)) ]; }; struct Teste { char buf[13]; int x; }; int main() { typedef TesteAlignTemplate<Teste, 8> TesteAlign; TesteAlign tst; printf("Alinhamento. Union: %d; Teste: %d; Align: %d.\n", sizeof(TesteAlign), sizeof(Teste), sizeof(tst.align) ); printf("t: %p, align: %p\n", &tst.t, tst.align); return 0; }
E essa é a melhor parte de descobrir um padrão em um tipo: o template nasce quase que naturalmente. A beleza da linguagem floresce.

June 26th, 2008 at 10:00 pm
Caloni,
Bom truque, mas se entendi direito permite somente alterar o tamanho final da estrutura (e para um tamanho maior ou igual ao que o compilador geraria normalmente).
No meu dia-a-dia a coisa costuma ser um pouco diferente. Normalmente uso structs para definir mensagens que precisam ser o mais curtas possíveis (portanto meu alinhamento preferido é 1) e são trocadas por equipamentos com processadores (e portanto compiladores) diferentes. Mais importante que o tamanho total, o posicionamento dos membros precisa ser o mesmo nas duas pontas. Felizmente, todos os compiladores que usei até hoje tem alguma forma de forçar o alinhamento; alguns defines e compilações condicionais resolvem o problema.
PS: "pedaço de torta" ou "pedaço de bolo"? Ou, porque não, "mamão com açucar"?
Cheers!
June 27th, 2008 at 9:43 am
Olá, DQ.
Você está certo. O alinhamento forçado da solução acima serve apenas para o alinhamento maior ou igual ao do compilador. Afinal de contas, quem manda nisso é o compilador, mesmo!
PS-reply: Mmmmm... bolo ou torta, ambos são deliciosos. Mamão eu não curto muito, não.
[]s