Estava folheando um livro fenomenal que meu amigo havia pedido emprestado para ler quando me deparei com algumas traduções (o livro estava em português) no mínimo curiosas.
Se trata do primeiro Windows Internals publicado após o lançamento da primeira versão do Windows NT, uma plataforma escrita (quase) inteiramente do zero para suplantar as versões 9x, que herdaram do DOS algumas partes indesejáveis em sistemas operacionais modernos.
Sabe-se lá por que, essa edição foi traduzida. É interessante notar que naquela época foi dado um tratamento especial a alguns termos e conceitos já comuns no dia-a-dia do programador americano, apesar de quase nenhum desses termos ter se mantido em sua versão original. Os exemplos mais gritantes são as threads (fios ou linhas) , os dead locks (bloqueios da morte) e handles (alças).
Apesar de não ter nada contra traduzir termos do inglês para português (e vice-versa), as coisas que mais me incomodam em tradução de livros técnicos é o fato dos tradutores:
- Não se darem o trabalho de colocar ambos os termos: o original em língua estrangeira e a adaptação em português.
- Ex.: "os ponteiros em C (pointers) são um recurso rico e necessário para a escrita de programas de baixo/médio nível".
- Não manterem uma mesma tradução durante todo o livro, esbanjando um festival de sinônimos que complicam bastante a compreensão semântica do conteúdo.
- Ex.:
(em um capítulo) "... é muito importante inicializar seus ponteiros antes de usá-los".
(em outro capítulo) "... sabe-se que a pior desgraça para um programador C são os famigerados apontadores selvagens".
- Ex.:
- Traduzirem o código-fonte, quase sempre mal e porcamente. Um exemplo notável é o famoso livro de algoritmos em C da O'Reilly, que mesmo na nova edição com uma errata de 49 itens foi possível detectar mais erros. O exemplo abaixo consta no item 46 da edição de 2000 (Editora Ciência Moderna):
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if (opos > 0) { if ((temp = (unsigned char *)realloc(orig, opos + 1)) == NULL) { bitree_destroy(tree); free(tree); free(original); return -1; } orig = temp; } // Se vai errar o código, não traduza! // É importante notar que no original não consta esse erro.
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- Não entenderem que um termo usado pelo autor na verdade é um vocábulo com significado especial para as pessoas que trabalham no ramo. Isso é pior do que não colocar a versão em inglês, pois dá a impressão que não existe significado a ser explicado.
- Ex.:
(antes do capítulo sobre threads): "... quando um fio espera o outro e vice-versa, acontece o terrível bug da trava da morte".
- Ex.:
Esses exemplos, salvo o exemplo do livro de algoritmos, foram criados para ilustrar os tipos de erros mais comuns em traduções de livros técnicos, e não estão relacionados com qualquer livro em específico.
Então o que era inicialmente para ajudar as pessoas que estão iniciando alguns conceitos acaba por prejudicar ainda mais o aprendizado, gerando aquele tipo de confusão que só com ajuda extra (internet, professor, colega) pode ser resolvida.
Assim como no vocabulário comum corrente, em que existem palavras dificilmente adaptáveis ou traduzíveis em um termo comum, como shopping e show, no meio técnico desabrocham as mais variadas expressões estrangeirísticas. Algumas são muito difíceis de encontrar seu primo lusófono, como link e login. Outros, no entanto, exageram um pouco as coisas, a ponto de conjugarmos um verbo em inglês usando nosso sistema gramatical ("se você *stopar* o *debugador* vai *crashear* todo o sistema, porque esse software tá *bugado*!").
O fato é que não há escapatória para quem trabalha nessa área, e no fundo isso é uma coisa boa, pois é da leitura técnica em inglês que podemos estender o nosso conhecimento além das barreiras do .br e encontrar conteúdo extremamente interessante (e inédito em nossa língua) para aprender. Se não estivéssemos abarrotados de estrangeirismos talvez fosse um pouco mais difícil fazer o switch entre essas duas linguagens.






October 21st, 2008 at 12:57 am
Aliás, algo que sempre me chamou atenção é que esses livros geralmente tem revisores técnicos! Sinceramente, erros tão grotescos podem passar se gente da área ajuda na tradução?
Também faltou citar o interessantístimo "gabarito" (template) na tradução do não menos clássico livro do Stroustrup. Mas tenho que admitir que o livro "Padrões de Projeto" foi muito bem traduzido. Um viva para o tradutor e para os revisores, que resolveram manter o nome dos padrões em inglês.
October 21st, 2008 at 7:53 am
Infelizmente eu já li livros em que eles se davam o trabalho de traduzir até as siglas.
Mas esse "estrangeirismo" eu até gosto.. talvez eu esteja advogando em causa própria mas como você bem concluiu no final do post, eles ajudam muito a passar do portugues para o ingles gradativamente.
No entando, eu acho o portingles uma boa linguagem para blogs e artigos informais, mas para um livro que pretende manter a seriedade é outra história.
Bem, que atire a primeira pedra aquele que nunca falou "putz, essa droga bugo" ou "ta todo bugado" =P
October 21st, 2008 at 5:21 pm
Olá, Sergio.
De fato, no meu dia-a-dia proclamo e reclamo sobre tudo em inglês, gastando todos os termos possíveis e imagináveis. Nem parece uma afirmação de alguém que tenta zelar pelo excesso de estrangeirismos nos artigos deste humilde blogue =)
[]s
October 22nd, 2008 at 8:03 am
Na minha pequena experiência como autor e menor ainda como tradutor (somente 1 livro), eu diria que achar uma forma de colocar termos técnicos estrangeiros é uma coisa complicada e sem possibilidade de vitória... Me irrita muito o uso desnecessário do inglês quando existem termos equivalentes em português. "Aportuguesar" soa bem na hora de falar, mas fica estranho quando escrito (ressetar é com um s ou dois?). É também um processo contínuo, a cada ano uma expressão em português se consolida. Sobre os exemplos citados: "linha de execução" no lugar de thread até me soa poético, porém alça como tradução de handle me dá calafrios. Gabarito no lugar de template não é totalmente incorreto pois gabarito também pode ser usado para se referir a um modelo usado na produção/reprodução de alguma coisa.
Uma curiosidade: lá por volta de 1980 eu tive aula de eletrônica digital na Poli com o Prof Antonio Zuffo (o filho dele continua atuando na área e aparece na midia de vez em quando). Ele foi autor de um livro onde todas as siglas tradicionais (como RAM, ROM, CPU, etc) eram traduzidas. O nosso apelido para ele era Zovni!
October 23rd, 2008 at 4:34 am
sabe, agora que me lembrei.. a um tempo atrás eu estava conversando com um amigo biólogo.. e ele estava me explicando a briga deles para dizer se um virus é ou não um ser vivo e como essa discussão não tem fim por ser uma discussão mais filosofal do que qualquer outra coisa.(eles discutem o que é a vida por si só para saber se um virus é ou não um ser vivo o0)
Na hora eu ri e pensei como é engraçado a forma como as ciencias que deveriam ser as mais exatas as vezes se baseiam em algo tão relativo quanto a opnião humana e pensei alto: "graças a deus que nos meus if's ou é TRUE ou é FALSE".
Mas aqui está uma discussão completamente voltada a opnião humana, já que traduzir ou não é questão de ponto de vista e ainda não desenvolveram nenhum standard para expressões que devem ou não ser traduzidas.
Ou seja, a programação não é tão exata assim também. =/
October 23rd, 2008 at 8:26 am
É, meu caro, Sergio, quando a coisa cai no campo das línguas humanas, as coisas ficam menos lógicas; porém, mais ricas!
[]s
December 4th, 2008 at 1:13 pm
Só um programador vindo do fefeléche pra fazer um artigo tão legal!
Parabéns, suas opniões são espelhos das minhas!